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Visita do Orfeão Portuense e Leonardo Coimbra à Corunha

Isaac Alonso Estraviz – O 4 de setembro de 1921 inicia-se a visita de Leonardo Coimbra à frente do Orfeão Portuense, de comboio, à cidade da Corunha. O percurso pola Galiza começou por Ourense onde foram recebidos por Antom Lousada Diegues e os galeguistas locais. Risco saiu-lhes a Monforte de Lemos.

Em Betanços esperavam-nos sócios das Irmandades deste lugar e de Ferrol. Em Guísamo cumprimentou-os João Vicente Biqueira. Na estação da Corunha esperavam-nos o presidente do “Circo de Artesãos” e da “Asociação da Imprensa” corunhesa, o presidente e o secretário da Câmara Municipal, Sres. Gonçales Rodrigues e Martim Martins, o Conselho diretivo da “Irmandade da Fala”, delegados da Academia Galega, entre eles o dramaturgo Lugris Freire e o poeta Eládio Rodrigues Gonçales, os diretores das revistas “A Nossa Terra” e “Nós”, o diretor chefe do “Correo Gallego”, de Ferrol, Sres. Vilar Ponte e Quintanilha, a diretiva do coral “Cantigas da Terra”, um representante do Instituto Geral e Técnico da Corunha, outro da Escola Superior de Comércio, além de outras muitas entidades de recreio e cultura.

A chegada do comboio com os excursionistas foi saudada com aplausos e vivas a Portugal, Galiza, Corunha e Porto. Leonardo Coimbra veu acompanhado da sua esposa e do seu filho, do diretor do Orfeão, o compositor Leça, o poeta Alexandre de Córdova e os artistas João Peralta e Octávio Sérgio. Foram depois recibidos no Salão de Festas do “Circo de Artesãos”. Pola tarde, na praça de touros, L. Coimbra apresentou o Orfeão. Os cantos populares, algum composto polo maestro Leça foram muito aplaudidos, o mesmo que o diretor Sr. Casimiro e o maestro Leça.

Ao dia seguinte, pola noite, no teatro “Rosalia Castro”, segundo concerto do Orfeão. Conferência de Leonardo Coimbra no “Circo de Artesãos” sobre o pensamento filosófico e poético de Portugal, ideias tiradas do seu livro “O pensamento filosófico de Antero de Quental”, palestra que o público seguiu muito atentamente tendo em conta a brilhante qualidade de oratória e didática do expositor, sintetizando a sua teoria do criacionismo numa experiência racional e numa razão experimental, resolução do dilema do espírito e da matéria, do determinismo e da liberdade. O criacionismo é uma maneira de ver o mundo na infinita pluralidade, em contra da unidade estática do idealismo, na suprema unidade do Amor.

Nesta viagem iam também os pintores João Peralta e Octávio Sérgio que levaram consigo trabalhos para uma exposição no Circo de Artesãos.

Leonardo Coimbra, decano da Faculdade de Filosofia e Letras do Porto e deputado da Câmara Portuguesa, visitou a Irmandade Galega da Corunha para tratar dos primeiros passos conducentes a um intercâmbio espiritual intenso entre Portugal e a Galiza. Na reunião por ele presidida estavam os irmãos corunheses mais significados. Lavrou-se ata dos assuntos tratados nos que se chegou a um acordo e dos nomes dos concorrentes ao ato. Leonardo Coimbra e outros ilustres intelectuais noticiarão nas revistas galegas informações periódicas das artes e ciências do seu país. Vicente Risco, Biqueira e alguns outros galegos informarão do nosso mundo cultural nas mais importantes revistas de Portugal. Estabeleceu-se também a venda de livros portugueses na Galiza e de galegos em Portugal. Também se pensou em organizar semanas culturais portuguesas na Galiza e galegas no Porto e Lisboa.

As Irmandades da Fala da cidade herculina e as representações das outras da Pátria que se deslocaram à Corunha, ofereceram um jantar (almoço) íntimo ao doutor Leonardo Coimbra, ao poeta Alexandre de Córdova, ao Sr. Casimiro e aos artistas Peralta e Octávio Sérgio. Assistiram ao jantar algumas donas da Irmandade Feminina para acompanhar à esposa de Leonardo Coimbra. Ofereceu o ato o Dr. Jaime Quintanilha. Interviram depois Alexandre de Córdova, Lugris Freire encerrando o ato Leonardo Coimbra com uma brilhante intervenção terminando com a frase: “Só por viver este hora merecia a pena ter nascido”.

Depois de terminar a festa do Orfeão Portuense no “Teatro Rosalia”, “Cantigas da Terra” deu uma serenata ao doutor Leonardo Coimbra e os Sres. Leça e Casimiro, frente ao “Palace Hotel” onde estavam hospitalizados. Era a uma e pico da noite. Presentes milhares de pessoas. Terminado o repertório de Cantigas da Terra entoaram todos o hino galego:

“!… Não dês a esquecimento

da injúria o rude encono,

desperta do teu sono

nação de Breogám.

A nobre Lusitânia

os braços tende amigos

aos eidos bem antigos

com um pungente afám:

e cumpre as vaguidades

dos teus soantes pinhos,

duns mágicos destinos

nação de Breogám..!”

Leonardo Coimbra dirigiu-se ao público desde uma janela do Hotel com uma voz cristalina, ampla, forte, limpíssima, enchendo o espaço até muito longe. Leonardo Coimbra, todo a vibrar como um leão de melena alporiçada, com uma elegância de jeito pasmosa, com mil cousas poéticas deitando dos seus lábios, conquistou para sempre o coração de todos. Milhares de mãos batento e milhares de gargantas a gritar ¡Viva o genial Leonardo Coimbra! ¡Viva Portugal irmão! coroaram o momento tão inesquecível que fechou ainda com esta frase síntese: ¡Vivam Portugal e Galiza unidos!…

A despedido foi como a chegada mudando a alegria pola saudade de uma separação. As donas da Irmandade Femina deram um ramo de flores brancas à mulher de Leonardo Coimbra com as cores da bandeira portuguesa. A Irmandade da Fala dedicou-lhe um lenço com as cores das bandeiras galega e lusitana ao pendão do Orfeão Portuense. A Irmandade deu conta do acontecido ao presidente da República portuguesa, ministro de Instrução pública, ao presidente da Câmara municipal do Porto, ao reitor da Universidade e ao ministro de Negócios Estrangeiros e aos meios de comunicação, Primeiro de Janeiro e Jornal de Notícias.

O poeta Afonso Lopes Vieira escreveu:

A GALIZA

_______

A modo de velho cantar

Que Castela e castellanos

todos n-un monton, a eito,

no valen o que unha herbiña

destes nosos campos frescos.

(Trova galega)

 

Ó Galiza dos verdes prados,

tam irmão dos nossos, por Deus abençoados,

– deixa Castela e vem a nós!

Ó Galiza, Galiza dos campos floridos,

por Deus abençoados, por vós tam queridos,

– deixa Castela e vem a nós!

Ó velha Galiza dos cantares amados,

tam irmãos dos nossos, tam bem suspirados,

– deixa Castela e vem a nós!

Galiza soidosa, dos cantares sentidos,

se és tam longe dêles,vem aos teus amigos,

– deixa Castela e vem a nós!

 

AFFONSO LOPES VIEIRA

  • Os dados estão tirados da revista A NOSSA TERRA, nº 147, 15 de Setembro de 1921.

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