José Paz Rodrigues (*) – No dia 10 de dezembro celebra-se em todo o mundo o Dia internacional dos Direitos Humanos. Com tal motivo escolhi para o artigo de hoje, da série sobre escolas e mestres na tela do cinema, um filme do grande cineasta francês Jean Renoir.
Considerado como uma obra-mestra, como quase todos os filmes deste diretor, com o título de Esta terra é minha, foi realizado durante a sua etapa americana no ano de 1943. Quando na Europa tinha lugar a terrível guerra, em que as tropas de Hitler entravam sem piedade em numerosos povos e países. E nos EUA havia uma corrente generalizada de apoio a todo o tipo de temas a favor da democracia e os direitos civis das pessoas. Melhor inclusive do que acontece nos tempos atuais com a sociedade americana. Naquela altura quase todos os cidadãos estavam contra as ditaduras, nomeadamente as hitlerianas.
No filme, cuja ação se desenvolve num lugar da França em tempos da ocupação nazi, aparecem uma mestra de primária, contrária à ocupação, da qual está apaixonado, sem se atrever a manifestá-lo, um mestre colega da sua escola. Este mestre, muito dependente da sua mãe, aparenta insegurança, timidez e cobardia. O que não é realmente certo, pois num formoso final do filme, manifesta-se como um grande defensor dos direitos humanos e a sua famosa declaração. Perante, primeiro, o júri que o está a julgar, e mais tarde, na sala de aula com os seus alunos, antes de partir para ser fuzilado. Isto provoca a admiração dos vizinhos e dos seus alunos, que tinham um preconceito equivocado sobre a sua pessoa.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: This Land is Mine (Esta terra é minha)
Diretor: Jean Renoir (USA, 1943, 103 min., Branco e Preto)
Intérpretes: Charles Laughton, Maureen O´Hara, George Sanders, Walter Slezak, Kent Smith, Una O’Connor, Philip Merivale e George Coulouris.
Argumento: Retrato de como a ocupação nazi afeta diferentes pessoas na sociedade. Arthur, interpretado magistralmente por Laughton, é um mestre galo um pouco tímido e que aparenta certa cobardia. No entanto recupera a dignidade com um discurso que pronuncia sobre a liberdade e os direitos das pessoas, perante o júri que o julga por um assassinato que não cometeu. A sua colega mestra, Louise Martin, dá-se conta de que a liberdade viverá através da educação dos jovens. O seu irmão faz parte da resistência contra os nazis. George Lambert, condutor de comboio, polo contrário, é um colaboracionista dos invasores, pensando equivocadamente que assim conquistará a segurança e a paz.
Análise do Filme:
Além de ser um filme muito interessante do ponto de vista pedagógico, e para trabalhar com os alunos o tema ou unidade didática dos direitos humanos e da paz, existe no mesmo uma clara denúncia da participação de cidadãos (neste caso galos, mas podiam ser de outras nacionalidades), como colaboracionistas dos ocupantes nazis. Por egoísmo, por interesse económico, por procura de segurança, por cobardia e, o que é mais grave, por insolidariedade com os seus. Embora tenha um ritmo pausado ao começo, mantém um passo firme e consegue agarrar o espetador. A personagem do Sr. Lory, o mestre protagonista do filme, muito bem interpretado, é a autêntica joia deste filme, que faz que não tenha passado despercebido como um mais sobre a ocupação germana.
Para o que realmente nos interessa, o melhor é alegação final que faz no julgamento o mestre, onde critica a cobardia dos convizinhos e o ocupante nazi. Todo um canto à liberdade numa interpretação inolvidável. Von Keller, militar nazi, conversando com o chefe da estação, pronuncia uma frase lapidar: “Com a excessiva liberdade vem o caos e a desordem”, justificando a sua ideologia e atuação. O membro da resistência explica: “A sabotagem é a única arma que resta a um país derrotado”. Porém o mestre, com sensibilidade, fala: “O exemplo dos heróis é contagioso”, “Quanto maior for a dor, mais se encurtará a nossa escravidão” e “A ocupação só se alimenta de grandes mentiras”. De todas as maneiras, o mais formoso é o final. O mestre protagonista está na sala de aula com os seus alunos respeitosos, mas assombrados, e estes escutam o seu discurso de defesa dos Direitos Humanos. “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e, dotados como estão de razão e consciência, devem comportar-se fraternalmente os uns com os outros”. Continua recitando os seguintes artigos e parte solenemente da aula, com certeza para ser fuzilado. Os alunos guardam um silêncio de admiração.
Temas para refletir:
Compreender as atitudes das pessoas em situações limite, não tendo preconceitos sobre as mesmas. Dando-se conta de que cada pessoa é um mundo e que o seu comportamento é o resultado da sua personalidade e das circunstâncias ambientais em que vivem.
Valorizar como por meio da educação dos rapazes, se o fizermos com jeito e alegria, podemos conseguir que adquiram valores de respeito, tolerância, amor pola paz, o meio natural e os seus semelhantes.
Trabalhar nas aulas, de forma lúdica e artística, o tema da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Comentar o comportamento do mestre protagonista deste filme na defesa que faz dos Direitos Humanos.
Organizar nas escolas e estabelecimentos de ensino atividades artísticas e lúdicas variadas para comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e para que todos os alunos conheçam a famosa Declaração Universal, debatam e reflitam sobre a mesma. Analisando os países em que mais se respeita e aqueles em que no dia-a-dia mais se incumpre.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.
