José Paz Rodrigues (*) – Seria bonito que, por uns dias, profissionais dum ofício qualquer desempenhassem as funções doutros profissionais. Para conhecer ao vivo e em direto os dilemas que se apresentam no “novo” labor e poder refletir melhor sobre os papéis dos diferentes trabalhos, espaços e lugares.
Isto é o que lhe acontece ao protagonista do filme objeto do nosso comentário de hoje. Que, sendo polícia, para poder investigar e apresar a um delinquente, tem que fazer-se passar por um mestre de jardim de infância ou escola infantil. Terminando por ser um docente inovador, com estratégias didáticas muito criativas e originais, que acabam por surpreender agradavelmente todos: a diretora da escola, os colegas docentes acidentais, os pais e mães, as crianças e os que visionamos este filme, que, sem ser uma obra-mestra cinematográfica, resulta muito atrativo e divertido, e mantém um certo suspense até o final.
A deformação caricaturesca pode ser tenra e exageradamente perfeita como a que amostra este filme, que no nosso país foi titulado como “Poli de guarderia”. Nada mais antitético que Schwarzenegger cuidando das crianças de uma classe de infantil ou pré-escolar, em que, curiosamente, os valores que configuram a mensagem permanecem tão inalteráveis como noutros tipos de veículos expressivos mais sérios ou tradicionais: as crianças de escolas infantis necessitam de amor e atenção e esta demanda pega na personagem e “desperta a sua vocação docente”.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Kindergarten Cop (Um polícia no jardim-escola / Poli de guarderia)
Diretor: Ivan Reitman (USA, 1990, 112 min., A cores)
Intérpretes: Arnold Schwarzenegger, Penelope Ann Miller, Pamela Reed, Linda Hunt, Richard Tyson, Carrol Baker, Cathy Moriarty, Joseph Cousins e várias crianças.
Argumento: John Kimble é um rude e veterano detetive que leva anos atrás da pista dum narcotraficante. A única pessoa que pode testemunhar contra ele é a sua ex-esposa. O problema é que esta desapareceu e o único que conhece é o nome da escola de Oregon em que estuda o seu filho. Para poder levar a cabo uma vigilância e seguimento efetivos terá que fazer-se passar por um mestre de escola infantil ou jardim de infância.
Análise do Filme:
O famoso ator num papel que não é o seu habitual. Está perseguindo um perigoso traficante e este está atrás de seu filho. O único jeito de encontrá-lo será dar primeiro com o filho e esperar que ele apareça. O caso é que não sabe quem é o rapaz e desenham um plano de atuação. A sua companheira detetive irá lecionar para crianças do infantário e ao mesmo tempo tentará descobrir quem é o rapaz, mas infelizmente a sua parceira está com problemas de saúde e ele precisa substituí-la como mestra.
Mas, como é que um homem com quase dous metros de altura, com imensos músculos irá dar aula a crianças de 5 e 6 anos? Ele é duro e já está acostumado a lutar e prender os piores bandidos, porém elas são crianças desobedientes e ele não pode bater nelas para fazerem o que ele quer. Despois de muito sofrer, ideia umas estratégias didáticas acertadíssimas. Para começar, elas são crianças, e toda criança gosta de brincar, então o “mestre” arranja um assobio e com a ajuda do seu furão como mascota consegue atrair a criançada.
Ele próprio fica surpreso de como funcionam perfeitamente estas estratégias, controlando muito bem a aula do infantário, mas não pode esquecer o objetivo principal que até ali o levou. Que não é mais que proteger a ex-mulher do bandido, da qual acaba por apaixonar-se, e o filho de ambos, pois o delinquente, junto com a sua mãe e avoa do menino, estão desenhando um plano para recuperar o rapaz para eles e fugir para longe. Só Kimble, disfarçado agora de mestre, poderá impedir que isso aconteça.
Na ação do filme aparecem essencialmente três planos ou temas: as relações humanas que se estabelecem entre as diferentes personagens, grandes e jovens, algumas acidentais; a trama detetivesca com algo de suspense, e o bem que desempenha, de forma ocasional, o labor de mestre de pequenas crianças o ator principal do filme. E este é o plano que nos interessa. Dentro da aula são momentos didáticos destacados quando o mestre improvisado brinca com os rapazes, faz de conta-contos, utiliza a música e o canto, organiza sessões de jogos dramáticos, desenvolve a expressão oral das crianças (com frases muito engenhosas por parte das mesmas), faz uso adequado de mascotes, organiza o reforço de prevenção de incêndios e participa no festival de fim de ano com as crianças da sua aula. É também muito interessante a relação que estabelece com o rapaz protagonista, com afeto e alegria. Os rapazes da turma são divertidos, naturais e espontâneos, que nos levantam um sorriso quando menos o esperas.
Temas para refletir:
Comentar como sem formação inicial, por intuição e vontade, um mestre improvisado e ocasional pode desenvolver um labor didático inovador e exemplar como o que se vê neste filme.
Analisar as diferentes estratégias didáticas que utiliza, tomando como base o jogo e o aspeto lúdico, e incide nas expressões verbal, musical, teatral, plástica e dinâmica dos rapazes. E sabe como organizá-los para que tenham sucesso. Cuidando de temas como a alegria e o carinho tão queridos polas crianças.
Dar-se conta de que a educação infantil é o nível mais importante de todos. Mas que é preciso saber agir didaticamente de forma adequada na escola infantil. Para que seja viva, alegre e atrativa.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

