Um conto chinês triste

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Por Adela Figueroa Panisse

Ele veio das terras de Xim- Xim onde dormem

Num sonho eterno

Os oito mil trezentos guerreiros de barro

Que defendem, todavia,

um imperador cruel e imaginário.

Teve de caminhar quilômetros de lama

e de estradas,

antes de chegar ao mar da China

onde as ondas do oceano o aguardavam.

E parou na ilha Formosa, hoje Taiwan, (中华民国, )

comparentes que ele antes não conhecera.

Que são muitos os chineses que têm parentes

Por todo o lado.

Num barco ateigado de contentores

Veio a trabalhar de camareiro

Correndo o Mundo inteiro,

até chegar a um porto da Hispânia.

Lá estavam á sua espera familiares,

que são muitos os chineses

que têm parentes

por todo o lado:

o mundo inteiro em redondeza

lhes forneça,

amigos, primos, tios e achegados.

Trabalhou em casa de jantares

e emdiferentes e abastados bazares

por pouco dinheiro e cama quente,

que são muitos os chineses

que têm parentes

por todo o lado.

Passeava por estradas e mesmo podia

viajar de carro cada dia,

a escutar de ouvidos bem abertos

falares diversos.

Era livre, naquele reino, d’ir e vir onde ele quiser.

Embora estiver sozinho não tinha qualquer saudade

do seu longínquo País, onde ele cria

que o sol nascia

para o mundo inteiro, cada dia.

Sempre a caminhar

Seguia o devalar

do astro ardente, até vê-lo deitar

num vermelho espelho, leito d’água.

Descobriu então o fim da Terra,

Com a bola de fogo no mar

A mergulhar

Entre as ondas das águas em profundeza.

No lindo cantinho verde onde o sol banho tomava

no seu vermelho leito d’água,

entendeu um falar no som que ouvira

aos  marinheiros da longínqua  ilha

Formosa, hoje Taiwan (中华民国), deitada no mar da China.

Circulo mágico do Sol, dos humanos e das línguas

A envolver a Terra inteira

Com palavras, luzes e canseiras!

Sentiu que ele, como o sol,

Precisava estabelecer seu corpo em alhures

E o seu espírito

Pousá-lo também num necessário referente afetivo.

Soube então que queria companheira.

Escreveu à sua família da remota aldeia

das terras de Xim- Xim

com a sua requisitória

e os pais arranjaram-lhe uma moça,

Saudável, de família conhecida e trabalhadora,

chamada Méi

que em chinês quer dizer flor de ameixeira.

Gostava das ameixas que apreendera a catar na terra

deste país tão pequeno que é a Galiza.

Gostou do nome

E gostou da mulher quando a viu,

dentre um rio de inúmeras pessoas,

a saírem da porta

“Arrivals”/Chegadas”

do aeroporto internacional de Lavacolha.

Tímida e correta, de olhos para o chão e passinhos curtos

como tinha sido ensinada

pela sua mãe e pelas suas tias que moravam

lá tão longe! Em sua pequena aldeia perto de Xim-Xim.

Ele já tinha preparado um lar onde viver

com a Méi  nos arrabaldes da cidade.

Recuperou assim os velhos costumes

que tivera noutrora em sua aldeia de Xim-Xim:

Voltou a ser o homem duma casa:Num lar chinês.

e Méi cozinhava e lavava

e trabalhava com ele na loja do Senhor Tai-Pé.

Que são muitos os chineses que têm parentes

por todo o lado.

Uma noite era tarde e a Méi nunca chegava

e ele tinha fome e sentiu-se irrequieto.

Acabrunhou-se e o seu mau humor aumentava,

e o infeliz imaginava

o que não queria imaginar:

e viu-a em braços de outro homem

embora isso fosse

apenas com os olhos da sua imaginação.

Esperou-a impaciente, ausente:

a vista na porta,

o Wok de cozer as verduras agarrado com as duas mãos.

Pelas dez horas, da noite

Méi fez girar a chave no fecho.

Empurrou a porta,

lançou no quarto o pé direito

e entrou.

Um seco golpe do Wok de ferro

deixou os seus cabelos pretos

sujos de óleo queimado

e a sua cabeça aberta

a projetar

um jacto de sangue morna e espessa.

O líquido vital estendeu-se

Lentamente

Pelo chão limpo da sala

– pois o sangue das chinesas é igual

que o sangue doutra qualquer mulher –

e o vermelho escorregoupela branca pele da sua garganta

até remansar no bordo

da gola de seu fato gasto do trabalho.

Méi não soube que é o que for

aquilo que aterrou

com força sobre dela

quebrando-lhe oosso occipital da sua cabeça:

Os seus sentidos não estavam alerta:

Vinha demasiado cansada de colocar fileiras

de figuras de Buda nas prateleiras

da loja do chinês Tai-Pé.

Que são muitos os chineses que têm parentes

por todo o lado:

o mundo inteiro em redondeza lhes forneça,

primos, amigos, tios e parceiras.