(Sempre é 8 de Março, Dia da Mulher trabalhadora)
O carro andava devagar para facilitar a contemplação do monte. O grupo de cientistas já tinha passado polo Aloia (Parque Florestal que domina a Vila de Tui) e agora estava visitando Cotorredondo (O Morraço, Pontevedra). O lago artificial de Castinheiras ficara também no seu percorrido. Os viageiros aproveitaram a beleza da paisagem para dar um curto passeio a pé pola contorna do lago que mostrava uma imagem bem naturalizada. Cervos corriam polas beiras da água, as rãs croavam entusiasmadas com a chegadas da primavera e alguém emocionado já ouviu cantar o cuco, sinal da proximidade do verão. Parrulos nadavam sobre as águas límpidas do lago e tudo contribuía a dar uma imagem quase idílica do ambiente. A riqueza florestal fornecia uma grande variedade de cores, nomeadamente em todas as variantes de verdes. Dominava o verde escuro das acículas das coníferas: pinheiros, abetos e mesmo cedros atlânticos. No Aloia, que também tinha sido objeto de repovoamento florestal, as coníferas eram maioria: Pinheiro do país, pinheira (Pinus pinaster) pinheiro silvestre, pinus radiata eram os dominantes.
Na época, era considerado um sinal de progresso as reflorestações programadas desde o Colégio de Engenheiros florestais formados em Madrid como já se tinha feito no monte Aloia. Cá, em Coto-redondo, a diversidade de árvores era maior incluindo bastantes exemplares autóctones e caducifólios como salgueiros, amieiros, bidueiros que rodeavam o Lago. Nas árvores luzia a cor verde tenra das folhas novas da primavera. Tudo brilhava sob a luz fresca da estação.
A visita tinha por objetivo comprovar as riquezas naturais e paisagísticas da zona e informar os requerimentos necessários para que este lugar fosse considerado também Parque florestal. O de Aloia foi o primeiro de Galiza e este de Coto Redondo seria o segundo. O grupo estava entusiasmado com o roteiro de trabalho. Do mar subia uma fresca brisa que vinha desde os Prazeres de Louriçam, que ainda não fora profanado pola fábrica de Celulose e de Cloro de Elnosa. Ainda, lá em baixo as pessoas gozavam da doçura do clima das Rias Baixas, dos passeios em barcas de recreio e dos relacionamentos sociais da mais alta nobreza europeia tecidos em volta do Paço de Montero Rios, Desde o alto do monte podia-se contemplar as duas rias , de Vigo e de Pontevedra que abraçam à península do Morraço. Era um grupo misto: Pessoal do Centro de Investigações Pesqueiras e de engenheiros florestais, preocupados polo relacionamento entre o mar e a montanha. Todos homens, salvo uma mulher. Novinha, licenciada em Químicas pola Universidade de Santiago de Compostela que trabalhava como bolseira em Investigações Pesqueiras. Sobre a cria das ostras, na ria de Noia. Miudinha de corpo jeitoso e de cara muito linda. Os olhos negros e brilhantes não queriam perder-se nada do que ali estava a acontecer. A paisagem impactante, a riqueza florestal, florística e zoológica, os comentários sisudos de aqueles “SENHORES” importantes, em fim, ela queria aproveitar bem aquela experiência única e fascinante que iria influir na sua vida profissional e social. Tinha uma cara linda e bem proporcionada e, em conjunto era uma mulher de um grande atrativo feminino.
Pensando como seria a paisagem nos anos 50 do século passado uma pode sonhar e recrear-se na imagem descrita pola canção popular “Vejo Vigo, vejo Cangas, tamém vejo Redondela, Vejo a Ponte de Sam Paio, Caminho de Pontevedra” que ainda podemos contemplar hoje desde o curuto do Cotoredondo, mas bem modificada polas obras de infra estruturas e polo urbanismo que se tem feito desde aqueles tempos.
Antes de chegarem ao cume passaram polo campo de Mámoas do Chão Da Arquinha o que ainda acrescentou mais interesse a aquela visita tão especial. Tudo eram falares, projetos, planos para acrescentar ao valor dos montes, quer o Aloia, quer o de Cotoredondo, o valor das águas, que recolhidas no Lago Castinheiras, modificavam o regime estacionai dos regatos regulando os caudais hídricos. Pensava-se também nos campos marisqueiros dos Prazeres, riquíssimos e que mantinham uma grande densidade de povoação, quer na ria de Pontevedra quer na de Vigo, ou a de Noia. Assim quanto industrias transformadoras de peixe e mariscos. Alguém mencionou também o turismo que facilitara a presença estacionar do Ministro Montero Rios e o contorno paisagístico do cabo e da praia dos Prazeres de Louriçam a onde vinham passar o verão o mais seleto da sociedade espanhola e europeia. Maricarmen (que assim se chamava a jovem daquele grupo) escutava atenta a uns e a outros para não perder nada dos conhecimentos sobre natureza que ali se tratavam assim quanto da sua implicação social. Eles falavam entre sim, dando pouca ou nenhuma participação à moça nas suas conversas.
(Como, aliás, ainda acontece agora, em que uma mulher num grupo de homens que estejam falando de “cousas serias” tem que fazer um esforço para se fazer ouvir e participar da conversa).
E foi precisamente ao iniciar a baixada desde o monte, depois de contemplar a grandiosidade da Ria de Vigo, enquanto as voltas da estrada permitiam ir abrindo as vistas para a ria de Pontevedra: Marim ao fundo, mais aló Mogor, Aguete, Lapamam, praias que faziam os pés de inúmeros povinhos assentados nos bustelos das abas da montanha, que o diretor, com ternura paternal dirigiu-se para Maricarmem, se calhar galantemente para dar-lhe sua pequena participação no grupo de aqueles SENHORES tão sisudos.
Ela arregalou os olhos e soriu-lhe, agradecida pola delicadeza que implicava ser objeto da atenção de tão importantes pessoeiros para que ela também manifestasse sua opinião científica objeto daquela visita. Seus olhos escuros e brilhantes, sua boca sorrinte, deixando ver aqueles dentes particulares que lhe acrescentavam ainda mais graça a sua linda cara de beleza natural. Olhou tranquilamente para o senhor e, com aceno de seriedade, comentou que lhe parecia que no Cotorredondo havia uma maior diversidade florestal com abundância de especies autóctones, mas que em Monte Aloia tinha observado muitas coníferas, que não eram próprias do País. E que isso lhe tinha surpreendido.
O Diretor olhou fixamente para ela, com certo aceno de assombro, colheu suas mãos e docemente, paternalmente, disse-lhe:
—Coníferas?. Diga pinitos, senhorita, diga pinitos. Com sorriso condescendente agregou: Já me estava estranhando a mim, que uma jovencita tão linda, simpática, elegante, estivesse solteira ainda. Você que está em idade casadeira. Diga pinitos senhorita, não diga coníferas. Isso fica para homens
que andam no monte, que calculam benefícios, que medem parcelas. Faça-me caso senhorita: Diga PINITOS…
Maricarmem Panisse, era a minha tia. Licenciada em Quimicas e Farmacia. Foi catedrática de Instituto e teve Farmácia em Lugo. Inspectora de Farmacia por oposição. Não se dedicou a investigaçãomapós seu trabalho sobre as ostras, mas a docência, ao empresariado e a sua casa. Cuidou da sua família e do seu rico património que soube fazer acompanhada de seu homem o doce, tranquilo e carinhoso tio Ramom.
E dizia coníferas quando assim o requeria a situação, e pinos, pinheiros ou cedros se esses eram as árvores.
Ouvi contar esta anedota na minha família entre risos, e sempre me surpreendeu como a subtileza machista dirige seu alvo a travar a afirmação das mulheres como seres inteligentes, intelectuais, irrequietas e curiosas do mundo, igual que os homens. As atitudes machistas tentam castrar essas inquedanças desde meninhas para conformar espíritos submetidos a autoridade patriarcal. Na constituição espanhola de 1978 reconhece-se as mulheres os mesmos direitos que aos homens. Desde aqueles tempos muitos são as atividades que se tentam fazer para garantir essa igualdade de direitos. Mas agora sopram ventos de ameaça em Galiza e Espanha. Muitos países retêm as mulheres como reféns dos homens. Nunca deixemos de lutar pola igualdade de direitos para todos os seres humanos. Quer com as leis, quer com os nossos comportamentos.
Adela Figueroa Panisse, Biologa, Catedrática Biologia e Geologia. Colaboradora na Misión Biológica de Galicia, para o estudo do cariotipo do Helianthus Annus (Tesina) Bolseira da Universidade do Minho para o estudo das Origens da Vida. Mestrado pola UNED e Fundación Universidad Empresa, em Educação Ambiental. Colaboradora científica na Nosa Terra, Revista do ensino, etc. Escritora.
Ref. Maria del Carmen Panisse Ferrer: Pioneras de ciencias de Lugo
Autora: María Isabel Fernández García
Editorial: Colectivo Egeria.
