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Um bom mestre novel rural na China, no filme “O rei das crianças”

José Paz Rodrigues – Continuando com o importante tema do ofício de mestres, dentro da nossa série sobre as aulas no cinema, toca hoje falar dum mestre rural na longínqua China, agora que estamos no mês de outubro, mês especialmente dedicado às crianças.

Quando o filme do chinês Chen Kaige, “O rei das crianças”, se apresentou em 1988 no 41º Festival de Cinema de Cannes, foi toda uma agradável surpresa. Por muitos motivos: por apresentar em belas imagens algumas das lindas paisagens do sudoeste chinês da província de Yunnan; por denunciar, com grande sensibilidade e sem ferir, os grandes erros cometidos pola chamada revolução maoísta ou revolução cultural, que não era tal, por apoiar-se mais na dor e na morte, que no respeito polos seres humanos; finalmente, por amostrar um modelo de mestre novel, que, com limitada formação, por vontade e intuição, utilizando o método cooperativo ou lancasteriano, chega a ser um mestre exemplar. Um verdadeiro “rei das crianças”, antigo nome que na cultura chinesa se dava aos mestres de escola.

De forma poética este mestre promove entre os rapazes da sua escola quase ao ar livre, a criatividade, a aprendizagem da leitura e escrita do seu sempre difícil idioma e ensina-os a refletir. O filme torna-se num poema pedagógico aparentemente suave, mas com verdadeiras cargas de profundidade. O seu tom lírico não impede que seja um filme político muito radical contra uma revolução devastadora por falsa e que nada de progressista tinha, embora muitos em ocidente pensassem o contrário.

É muito interessante ver como, com muitos poucos recursos (só um dicionário e um quadro preto), intuitivamente, este jovem mestre resolve os dilemas escolares que diariamente se lhe apresentam na aula da aldeia, a que é enviado pola revolução. Como um voluntário cooperante, mas após um tempo ao ver como abre os olhos aos rapazes, os comissários políticos começam a desconfiar dele, e tem que deixar a escola. Ele espera que parte dos seus alunos, levem para a frente o trabalho iniciado, reflexivo e consciente, criativo e com pensamento autónomo. Que continuem a pensar por si mesmos.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: Hai zi wang (O Rei das crianças).

Diretor: Chen Kaige (1987, China, 106 min., A cores).

Roteiro: He Jianjun (seguindo o romance de Ah Cheng).

Fotografia: Gu Changwei. Música: Qu Xiao-Song.

Intérpretes: Chen Shaohua, Xie Yuan, Yang Xuewen, Zhang Caimei, Xu Guoging, Gang Le, Tou Tan e Gu Changwei.

Argumento: Este filme emotivo transcorre em plena revolução cultural chinesa. Segue os passos dum jovem chamado Luogan, que é obrigado polas autoridades comunistas a reciclar-se como mestre rural, depois de assistir por um tempo a aulas universitárias. Embora não tenha formação pedagógica adequada para dedicar-se ao ensino e, em especial a ensinar os ideogramas e as palavras do idioma chinês, conseguirá ser bem aceite polos rapazes que lhe confiam.

No entanto, logo os mesmos que lhe encomendaram este trabalho de mestre começam a recear e suspeitar dele. O diretor do filme permite-se questionar de maneira suave, o rumo que tomou o regime comunista chinês com a cultura da suspeita para tudo o que cheirasse a intelectual. Com ritmo lírico e parcimonioso, tipicamente oriental, Kaige consegue construir uma história que não deixa ninguém indiferente.

 

Análise do Filme:

“O céu é alto, a terra é larga”. O céu ocupa quase todo o ecrã nos formosos e abundantes planos da paisagem chinesa. Os seres humanos aparecem recortados, minúsculos, sobre o horizonte, absorvidos quase por completo polo infinito. Logo percebemos que são os tempos da natureza que marcam o ritmo das fascinantes personagens deste filme, pausado e belo, enquadrado no contexto cambiante da China da revolução cultural.

Um carismático protagonista, apesar das dúvidas que tem pola sua pouca formação, aceita um posto de mestre numa escola rural, sobrevive enfrentado à precariedade mais absoluta, isolado numa remota aldeia montanhosa. Um dicionário e um quadro preto serão o seu único material escolar. O mestre novel quer que os rapazes aprendam a pensar por si mesmos. Diz-lhes que é proibido copiar dos jornais e vai ganhar a simpatia dos seus discípulos, saltando os métodos tradicionais e aborrecidos do ensino tradicional chinês.

Com uma linguagem que pretende que os espetadores reflitam, com longos planos fixos e silenciosos de eloquência visual, a profundidade poética do filme concentra-se pouco a pouco na relação que mantém o mestre novel com o aluno mais brilhante da turma, que decidido a encontrar o melhor caminho para perpetuar o conhecimento, propõe-se copiar o dicionário ideograma a ideograma. Desta maneira o dicionário converte-se na metáfora mais significativa e no objeto unificador do relato. Nele está tudo incluído, a partir deste livro pode formular-se tudo e qualquer futuro é possível. A inteligência e a sensibilidade do mestre e a vontade e o orgulho do aluno são o rebento de esperança e o caminho para o futuro dum país tão grande como a China. Faz frente à sua limitada formação e escassos recursos didáticos com uma extraordinária atitude moral.

Só a imprevisível despedida final anuncia o tipo de terror para onde caminham em silêncio os inocentes amigos da revolução. Quando o jovem mestre Luogan, por ordem do partido único, tem que deixar esta escola e os rapazes a que chegou a afeiçoar-se, oferece o dicionário ao seu aluno mais preparado. Um estudante que simboliza o rebento de esperança duma futura nova sociedade e o caminho para o amanhã. Ao dar-lhe o livro acompanha-o duma nota clarividente: “A partir de agora não copies nada”. É paradoxal que a pessoa que lhe ensina a ensinar a Luogan não seja o Partido, nem os seus métodos arcaicos, mas um aluno motivado e com desejos de olhar para um futuro melhor.

O diretor do filme mostra-nos um país ancorado na tradição feudal e no analfabetismo rural, onde o aluno, possivelmente percorrerá um caminho, mas em que o mestre já o está a percorrer. A sua motivação e entusiasmo, a de uma só pessoa, pode fazer sombra a todo o labor dum partido político totalitário.

 

Temas para refletir:

Comprovar o importante que é num mestre novel a motivação, o entusiasmo, a força de vontade e a alegria para desenvolver um bom labor docente. E como, quase sem recursos didáticos, consegue nos alunos avanços, que criem, pensem e reflitam, com estratégias didáticas positivas.

Analisar o difícil que é ensinar em contextos políticos totalitários (de extrema direita ou esquerda, como neste caso), especialmente quando o mestre quer que os seus estudantes sejam autónomos, com pensamento próprio, e criativos.

Comentar como este jovem mestre resolve por intuição os dilemas que cada dia se lhe apresentam na aula.

 

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