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Texto de apresentação de “Adelaida”, de Artur A. Novelhe

António Gil Hernández (*) – Dado abandono que me envolve na atividade da leitura, de obras narrativas sobretudo, devo escusar-me por ter correspondido ao convite do Artur para apresentar este romance, tecido de complexos fios, tomados da lírica, do relato, da descrição, do comentário e mesmo da propedêutica.

O autor, bem novo ainda (México D.F. 1964), é antes de mais poeta, também ensaísta e membro de número da Academia Galega da Língua Portuguesa. Com Adelaida começa a ser romancista.

O seu currículo, segundo consta na lapela do romance, abrange prémios, como o Feliciano Rolán (da Guarda) e o Mundial de Poesia Nósside, da região Régio-Calábria, até a publicação de livros individuais, Entre os teus olhos, Uma meixela depois a outra, Filhos da brêtema, e coletivo, Dez x Dez. Para além de comunicações a congressos, participa em recitais poéticos, como os dados pelo Clube dos Poetas Vivos, a que pertence desde a sua conformação em Vilar de Santos (2006), integrado por Anabel Fernández, José Manuel Barbosa, Concha Roussia, Artur Alonso Novelhe, José Alberte Corral e Servando Barreiro.

Pode ser esta boa ocasião para informar da Academia Galega da Língua Portuguesa. Eis os principais momentos da sua constituição e atividades1:

a.- A ideia de criação de uma Academia de carácter lusófono na Galiza, sugerida pelo Prof. Carvalho Calero, fora sustida pelo Prof. Montero Santalha no artigo “A Lusofonia e a Língua Portuguesa da Galiza: Dificuldades do presente e tarefas para o futuro”, publicado em 1994 na revista Temas de O Ensino. Reiterou-a, em outubro de 2006, durante o V Colóquio Anual da Lusofonia, na comunicação intitulada “Um novo projecto: a Academia Galega da Língua Portuguesa”.

b.- A 1 de dezembro de 2007 foi criada em Santiago de Compostela a Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa. O projeto contava com o apoio das principais associações lusófonas da Galiza.

c.- A marca Academia Galega da Língua Portuguesa fora registada nos territórios da República Portuguesa e o Reino da Espanha.

d.- Junto da AGAL e doutras entidades lusófonas galegas, a A.C. Pró AGLP defendeu a vigoração do Acordo Ortográfico de 1990 na Conferência Internacional / Audição Parlamentar, em 7 de abril de 2008, na Assembleia da República Portuguesa. Na terça-feira, 8 de abril, foram recebidos na sede da Academia das Ciências de Lisboa pelo então presidente, Doutor Adriano Moreira.

e.- Em 20 de setembro de 2008, a AGLP foi constituída provisoriamente, no seio da A.C. Pró AGLP.

f.- Realizou a sessão inaugural em 6 de outubro de 2008. Contou com a participação de representantes da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras, da Universidade Aberta de Lisboa, da Universidade de Santiago de Compostela e Associação Internacional de Lusitanistas e da Junta da Galiza.

g.- Ulteriormente foi constituída a Fundação AGLP, inscrita no Registro de Fundaciones por Orden do Ministério da Cultura do Reino da Espanha (CUL/1075/2011, de 1 de marzo, BOE, Viernes 29 de abril de 2011), de que a Academia Galega da Língua Portuguesa é órgão estatutário.

h.- Em 17 de maio de 2010 a AGLP fora galardoada com o Prémio Meendinho, “[p]or existir um antes e um depois, desde a sua constituição, a respeito da projeção e da realidade da língua galega na Lusofonia toda, e como um elemento mais dela”.

i.- São abundantes as participações da AGLP em reuniões de diferente tipo em Lisboa, em Brasília, no Rio de Janeiro, em Praia, em Maputo.

j.- Tem preparado e publicado o Léxico da Galiza para ser integrado nos Vocabulários portugueses (já no Priberam e no Porto-Infopédia, e outros no futuro), bem como o Boletim anual da entidade (2008, 2009, 2010, 2011, 2012) e 8 volumes da Coleção Clássicos da Galiza, em colaboração com as Eds. Da Galiza.

Exposto o qual, passemos ao romance do académico Artur A. Novelhe. A Profª. Maria Jesus Méndez Álvarez, no IES 12 de Outubro, de Ourense, tem colocado no PGL o seu texto de apresentação de Adelaida em Ourense, no já longínquo 1 de dezembro de 2011.

Explica a Professora2:

Em Adelaida as personagens amostram, de maneira crítica, uma realidade social dos tempos atuais: a incomunicação das pessoas numa sociedade materialista e egoísta, mas muitas delas lutam pela afetividade, os sentimentos, o amor e a liberdade das relações humanas.

Mas Adelaida põe em relevo outras faces que a situam em destaque nas letras lusófonas:

1.º En primeiro lugar a língua. No decurso das suas páginas Artur resgata palavras hoje adormecidas na fala galega, salvadas e salvaguardadas no âmbito lusófono […].

2.º Em segundo lugar o universo literário, pessoal e humano em que nos mergulha Adelaida:

Através da consciência das personagens vemos o mundo interior de cada uma delas, personagens emotivas, comovedoras, por vezes frustradas e malogradas, por vezes contentes, e amadas e detestadas a um tempo. De entre todas elas sobressaem com energia a voz das mulheres em alternância narrativa: ora Emília, ora Adelaida, ora Emília, ora Adelaida…, mas também Alberto, Sonia, Ana e Roberto.

Emília (mãe e esposa), Adelaida (esposa e amante), almas silenciosamente confidentes, maltratadas pelo tempo e pelos homens, faltas de ar e de liberdade, tenras e infelizes que procuram conforto na contemplação plácida da água do lago ou no êxtase recendente das glicínias, sem mais.

Pela minha parte e procurando não descortinar a trama da história narrada aponto os seguintes traços, salientáveis, que merecem melhor atenção:

a.- O relato vem a ser um entrelaço de fios convergentes, mas também divergentes, que o narrador-autor (em primeira pessoa) oferece à maneira de monólogo interior (não expressão de corrente de consciência), atribuídos aos diferentes personagens.

b.- Da rede monologante, destaca, a meu ver, a suportada pelo dueto Emília e Adelaida ou, antes, Emília sobre Adelaida.

c.- Os monólogos evidenciam o cruzamento ou a encruzilhada de um duplo trio amoroso, que protagonizam de jeito desigual os irmãos, filhos de Emília, aos quais antagonizam as sucessivas mulheres (esposas ou amantes). Contudo, o personagem Adelaida condena os antagonismos que à virilidade do Roberto, quer à varonia do Alberto.

d.- Pela sua parte, Emília, a mãe, preside, mas não domina de todo, o enguedelho, em aparência amoroso, dos irmãos, Roberto, o forte, e Alberto, o suave, com as personagens femininas.

Essas são as minhas apreciações sobre a história e o discurso do romance. Este se acha dividido em doze (12) secções ou capítulos, que dariam para comentários esotéricos sobre tal número, produto de 3 e de 4.

Para além uma longa secção não numerada (pp. 9-19) introduz o relato e conclui-o outra, breve (p. 131), tomada do Sermão de Benares ou Vanarasi.

A secção conclusiva pode tomar-se (a meu ver) na lição moral que o leitor deveria tirar do relato. Será essa a intenção do escritor Artur A. Novelhe? Tanto tem: o leitor (a meu ver) pode optar nesse sentido ou talvez noutro, se tiver em conta o contexto da citação do primeiro sermão de Buda. Consideremo-lo3:

Buddha Shakyamuni, depois da iluminação, resolveu ensinar a Dharma (ou “lei”), a começar pelos cinco ascetas que estavam no Parque das Gazelas em Sarnath, Benares ou Vanarasi. Budha aproximou-se deles, os quais, fingindo indiferença, os cinco comprovaram que o antigo companheiro se mostrava calmo e solene; levantaram-se e saudaram-no. Budha então perguntou-lhes:

−Porque vos levantais para me cumprimentar? Não tínheis combinado ficar indiferentes?

−Os cinco começaram a se sentir pouco à vontade.

−Estais cansado, Gautama?, perguntou um deles.

−De agora em diante, não me chameis mais pelo nome. Eu agora sou Bhuda, o Desperto, o Pai de todos os seres.

Kyojinnyo, muito admirado disse:

−Quando vos transformastes em Budha? Se abandonaste o ascetismo por não consegui-lo, como tereis alcançado a Iluminação?

−Kyojinnyo, não podeis julgar minha iluminação com espírito acanhado. O sofrimento físico traz perturbação à mente. O conforto físico traz apego às paixões. Nem ascetismo nem prazer permitem realizar o Caminho. É preciso abandonar esses dois extremos e seguir o Caminho do Meio. Este é o Óctuplo Caminho, composto de: Visão Correta, Pensamento Correto, Palavra Correta, Ação Correta, Esforço Correto, Intenção Correta e Meditação Correta. Aquele que praticar isso alcançará a paz espiritual e se livrará dos tormentos dos nascimento, da velhice e da morte. Eu pratiquei o Caminho do Meio e obtive a Iluminação.

As palavras de Budha encheram os cinco de grande alegria. Vendo que eles já estavam preparados para ouvir a Verdade, o Perfeito prosseguiu:

−Como sabeis, a vida é plena de sofrimento: sofrimento de nascer, de envelhecer, de adoecer e sofrimento de morrer. Há ainda o sofrimento da separação dos entes queridos, o sofrimento de ser obrigado a permanecer ligado a algo que se detesta, o sofrimento de não se obter o que se deseja e o sofrimento de perder glórias e prazeres. Muitos outros há ainda. Os seres que têm forma e os que não têm forma, os de uma, duas, quatro ou mais pernas, todos os seres vivos, enfim, estão sujeitos ao sofrimento. Esta é a Nobre Verdade da Origem do Sofrimento.

Os cinco concordaram com as palavras de Budha, que prosseguiu:

−A fonte desse sofrimento é a ideia de existência de um “eu” substancial. Todos os seres que se deixam prender à ideia de um “eu” tornam-se sujeitos a tais sofrimentos. O desejo, a cólera e a ignorância são também causados pelo “eu”. Estes três venenos são a origem de todos os sofrimentos. Todos os seres vivos que são presas desses três venenos estão entregues ao sofrimento. Tal é a Nobre verdade da Origem do Sofrimento. O sofrimento deve ser extraído. Se eliminares a ideia de “eu”, o desejo, a cólera e a ignorância e os sofrimentos cessarão. Esta é a Nobre verdade da Cessação do Sofrimento. Para se obter a cessação, é necessária a prática do Óctuplo Caminho. Esta é a Nobre Verdade do Caminho da Cessação do Sofrimento.

Os cinco não puderam deixar de concordar com o ensinamento do Perfeito, que continuou:

−Amigos, prestai bastante atenção: primeiramente, é preciso conhecer a existência do sofrimento. Deve-se depois destruir a sua origem. Para isso, deve-se compreender que a cessação do sofrimento é possível. Para consegui-la, deve-se então praticar o Caminho. Eu conheci a existência do sofrimento, destruí a sua origem, compreendi sua cessação e pratiquei o Caminho. Assim obtive a Suprema Iluminação.

A Existência, a Origem, a Cessação e o caminho da Cessação do Sofrimento são as Quatro Nobres verdades. Sem conhecê-las, ninguém pode conseguir a Iluminação. Quem as compreender perfeitamente, pode-se libertar de todos os sofrimentos.

Após ouvir estas palavras, os cinco decidiram tornar-se discípulos de Budha. Para certificar-se de que eles realmente compreenderam as verdades que lhes haviam sido explicadas, o Perfeito perguntou-lhes:

−Ó monges! Os fenómenos materiais, a percepção, as ideias, a vontade e a consciência são estáveis ou impermanentes? São ou não são sofrimentos? São ou não são vazios Têm ou não têm um “eu”?

Os cinco responderam:

−Ó Venerável! Os fenómenos materiais, a percepção, as ideias, a vontade e a consciência são impermanentes, são sofrimento, são vazios e não têm um “eu”.

Budha então disse:

−Já vos libertaste, já destruístes aquilo que dá origem ao sofrimento. Jamais voltareis a sofrer. Agora, em verdade, temos reunidos os Três Tesouros: O Budha, o Dharma, ou a lei ensinada pelo Budha, e o Sangha, ou a Comunidade dos discípulos que praticam a Lei (Dharma). Graças a esses Três Tesouros, meu ensinamento espalhar-se-á por todo o mundo e as pessoas lograrão obter a Libertação.

Os cinco discípulos, satisfeitos por ouvir tais palavras do Mestre, agradeceram e saudaram-no.

O moral certo e objetivo vital, que propõe o romance, o narrador do romance (o próprio Artur?) é justamente alcançar “a extinção do sofrimento”. Opino.

A secção conclusiva contrapõe-se à introdutória não apenas na extensão, mas mormente na forma (narração vs. exposição) e na atmosfera textual (efusão lírica vs. retórica moralizante).

 

Foto: Livraria Suevia

 

A secção introdutória está dividida em três partes: a primeira, intensamente lírica, dominada por um quase estribilho (“torno aos pássaros”: evocação do milagre de Ero, o abade do mosteiro da Armenteira?); a segunda, a gravitar sobre Adelaida “distinta e cálida”; a terceira, a refugar a conduta do filho que destruiu “o vínculo afiançado entre as duas”.

Gosto em particular da secção 6, porquanto, monólogo (ou acaso hino da feminidade, em prosa poética), pode atribuir-se a qualquer personagem feminina e não em exclusivo a Emília ou a Adelaida. O início da secção, evoca o enunciado de tese, “Dentro do meu corpo uma extensa geografia” (p. 79), cuja provação levada adiante no corpo da secção (pp. 79-83), se encerra solenemente: “Por que eu nasci Mulher, e cada molécula de minha alma, cada átomo atado nela, conhece o princípio e prediz o seu fim, ao tempo que esgotará no meu centro sua energia, para que a destinada noite possa vir encaminhar-me a clara luz, pois, ela na última travessia trazer-me-á novos segredos revelados desde o início.” (pp. 83-84)

Para acabar, vou render devoto tributo à interposição (que diz o Aracil) dominante neste reino bourbónico. Navegando pela rede, enredando, portanto, achei o volume 32 (março-junho de 2006) da revista Espéculo e nele três artigos que me fornecem os tópicos para as três perguntas que dirijo ao Artur. Atingem a três temas ou, antes, séries de motivos a constituírem a história e discurso do romance, do seu em particular:

1.º José A. Sánchez Martínez, em “Escritura y pensamiento: los espacios de la fuga”4 reflete sobre relação entre o escritor e a obra. Traduzo: Ninguém que tiver escrito morre satisfeito porque escrever representa a fronteira, tende sempre a isto que deve ser exprimido desde outra beira”. A seguir, precisa: “Toda a escrita ocorre num estado de prisioneiro, encerraram-me fora do mundo, diz Konstantinos Kavafis. A escrita, porém, paradoxalmente, é motor, desejo vívido que impulsa a continuar; permite aberturas que esgaçam a universal angústia, distensa os nervos por instantes. A isso convém chamar fuga”.

E pergunto ao Artur: se esta reflexão for certa, de que fugiste?, aonde tentas fugir por meio da escrita de Adelaida?

2.º Carolina A. Navarrete, em “Eros y Retórica: desde la Locura Divina al Conocimiento Humano en el Fedro de Platón”5, procura evidenciar “a importância da loucura divina, distinguindo-a das formas antidivinas e nocivas da insensatez humana”. A tal fim, tenta “estabelecer as possíveis relações implicadas no amor, enquanto forma mais excelsa da loucura e a consequente necessidade de descortinamento da alma, relativamente à retórica e à sua imbricação no entendimento tendencialmente perfeito das cousas. Nessa hipótese, tanto o Eros quanto a Retórica fundamentar-se-iam no conhecimento da verdade”.

E pergunto: Procuraste em Adelaida desenhar uma espécie de périplo arredor do Amor e, por ele, uma quase investigação dos comportamentos humanos sexuados, de mulher e varão?

3.º Analia Gerbaudo, em “La literatura en el proyecto teórico y político de Derrida: una lectura”6, parte de três experiências na cultura ocidental, assinaladas por Eduardo Grüner7: “ a do trágico, a do poético e a do político[,] que associa a alguma forma de amor, mas essencialmente a alguma forma de violência. Amor e violência […] tornam-se visíveis especialmente naquilo que essas experiências comovem ou esbanjam ou deterioram […]: a experiência do trágico provoca um esgaçamento no Saber sobre o que significa o ser-humano; a do poético produz um esgaçamento no Saber sobre a identidade entre as palavras e as cousas, patenteando a desarmonia entre o mundo e o signo; a experiência do político gera um esgaçamento no Saber sobre a identidade entre o homem e a história, a sociedade, as instituições, a liberdade, a sua autonomia.”

Questiono: Que há, procurado, em Adelaida, de esgaçamentos, de fendas trágicas entre as personagens?, de fragmentação poética?, de denúncia política?

Concluo com o soneto “Nirvana”, que Antero de Quental dedicou a Guerra Junqueiro:

Para além do Universo luminoso,

Cheio de formas, de rumor, de lida,

De forças, de desejos e de vida,

Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso

Vem ali expirar, esmaecida…

Numa imobilidade indefinida

Termina ali o ser, inerte, ocioso…

E quando o pensamento, assim absorto,

Emerge a custo desse mundo morto

E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,

Só vê com tédio, em tudo quanto fita,

A ilusão e o vazio universais.

 

 

Notas:

3 Resumo a seleção de textos que karma tenpa darghye tem feito em Textos budistas e zen-budistas; on line : http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=453

7 Eduardo Gruber (1999), “La Cosa Política: El retorno de lo trágico en las filosofías ‘malditas’ del siglo XX: apuntes provisorios para un nuevo fundacionalismo. (Borrador)”.

On line: http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/gruner.rtf.

 

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