Beatriz Peres Bieites – ‘O galego tem de vida mais umha geraçom’. Isto foi dito há pouco mais de três semanas numha palestra em Compostela. Quem fornecia o dado, um colega reintegracionista de Vigo, baseava a catastrófica (que nom catastrofista) afirmaçom em elementos facilmente verificáveis por cada um e cada umha de nós.
Umha, duas ou três geraçons, é indiferente. Estamos no tempo da prorrogaçom, nom há dúvidas. Ainda que o galego continue a ser maioritário na Galiza, o processo de substituiçom lingüística está extremamente avançado por grupos de idade. O jogo acabou. Já se sabe, às vezes ganha-se, às vezes perde-se. E nós perdemos… por enquanto.
Com esta visom tam dramática do nosso futuro como comunidade lingüística, e portanto também como povo, nom se pretende transmitir desánimo nem dar argumentos para deixar de trabalhar. Muito polo contrário. O cenário é propício para a mudança.
A situaçom é extrema, e é por isso que nom devemos permitir mais perdas de tempo, mais burlas nem mais enganos. Nestes 25 anos nada temos ganhado e pouco ou nada temos avançado: um canalzinho de televisom, algumha estaçom de rádio e vários decretos polo galego no meio de dúzias de televisons, rádios, leis e decretos pensados para preservar e fortalecer o espanhol. Dinheiro e mais dinheiro investido em política lingüística, em subsídios às actividades em galego quase sempre sem importar-se com o conteúdo das mesmas, em planos de fomento do uso da língua tam inúteis como a ridícula campanha do “e logo?”, na equipas de normalizaçom lingüística das escolas que maioritariamente gastam em castanhas e gaiteiros… O resultado: muitos amigos feitos. E mais nada. O galego continua sem ser imprescindível para viver.
E este é o cerne da questom: queremos que o galego seja imprescindível para viver na Galiza? Nom para acedermos à funçom pública ou para sermos professoras de biologia, nom. Imprescindível para viver: para explicar na consulta médica os sintomas, para perguntar como se chega à estaçom de autocarros, para compreender as instruçons de uso da aspiradora e para incorporar-se ao mercado laboral.
Nesta altura do campionato – a prorrogaçom – já nom há tempo para partilhar o barco com quem nom tiver isto bem claro; é imprescindível conhecer o destino antes de partir, porque nom vale a pena discutir qual é o melhor caminho para chegar a diferentes lugares…
O que se fai na Galiza em nome do ‘galego’ e da ‘normalizaçom lingüística’ deve deixar de ser inquestionável. A recente apariçom no cenário de elementos como ‘Galicia Bilingue’ ou da ‘Mesa por la Libertad Lingüística’ pode fazer-nos pensar que o galeguismo tem que permanecer agora mais unido que nunca para enfrentar o inimigo comum, sem questionamentos nem partidarismos. E talvez tenha que ser assim nalgum caso, sem dúvida. Mas o que nos está a exterminar como povo nom é esse grupo de aspirantes a colunistas do El Mundo. Questionar e mesmo opor-se às estratégias “normalizadoras” vigentes nom nos coloca necessariamente ao serviço do espanholismo.
Para ‘normalizar’ temos duas vias principais; umha é a da paciência, bem conhecida por todas e todos nós: ‘ir aos poucos, sem imposiçons, convencendo, ir ganhando ámbitos de uso. Conseguir hoje umha revista em galego, amanhá um programa de rádio… até encher a maior parte de espaços possível…’ Poderíamos pensar que é um caminho válido se nom tivesse demonstrado já a sua total ineficácia; e é que aumentárom os espaços para o galego, sim, mas também aumentou o número de falantes de espanhol. Os números som infalíveis e nessa batalha vamos perder sempre, porque sabemos que ambos podem conviver e que som perfeitamente compatíveis.
A outra via é a da inversom total do processo, a da ruptura; a que se apresenta com o objectivo anteriormente enunciado: criar umha sociedade onde a língua galega seja o instrumento de comunicaçom entre as pessoas, dotar o galego de todo o que hoje tem o espanhol. E que fai falta para isso? Fai falta um contexto político que permita legislar e planificar lingüisticamente sem interferências alheias; fai falta vontade, honestidade e valentia política para suprimir a obrigatoriedade do conhecimento do espanhol; fai falta impor o galego como qualquer língua se impom no território próprio quando constituído em estado, porque só quando for imposto será realmente necessário para viver.
Estamos na hora de sair à rua e visibilizarmos o conflito, de denunciarmos abertamente os incumprimentos e as manobras dissuasivas, de exigir umha mudança radical de rumo. Os movimentos sociais reintegracionistas estám, de facto, no caminho certo, mas é preciso mostrar mais intransigência e beligeráncia que nunca.
Temos muita pressa, isto acaba-se. Rompamos a trégua.
(*) Opiniom publicada originalmente no n.º 73 do Novas da Galiza.
