José Paz Rodrigues (*) – Hoje mais que nunca os especialistas em educação questionamos os programas oficiais do ensino. Os conteúdos do currículo oficial de primária e secundária não contemplam aqueles mais necessários para a sociedade atual. Existe como uma inércia desde há séculos para continuar com o estudo de temas caducos, que não respondem às necessidades dos cidadãos no mundo onde vivemos.
Por isso urge uma reforma em profundidade do currículo escolar e da metodologia a desenvolver nas aulas. A introdução de novos conteúdos e novas estratégias didáticas nos espaços educativos. Eliminando outros muitos que não são básicos e podem ser estudados pelos rapazes noutros lugares e contextos, nomeadamente com a Internet. Países como a Alemanha, França e o Reino Unido estão a questionar-se nos seus sistemas educativos a mudança do currículo na linha que antes mencionamos.
No nosso sistema educativo, mantendo como muito importantes a leitura, a escrita e o cálculo, conteúdos com os que já nascera na Idade Média a escola pública, temos que conseguir que sejam áreas fundamentais aquelas denominadas como transversais. Educar para o consumo, educação vial, educação para os direitos humanos, educação cívica, ética e democrática, educação pela igualdade, educação para a saúde, para a paz e a não-violência, ecológica e ambiental, educação sexual, educação icónica, aprender a cozinhar por todas as crianças e jovens, etc. Todas elas devem passar a ser nas aulas áreas básicas, ensinadas com estratégias dinâmicas, criativas e adequadas. Temos que incorporar também outros conteúdos novos como a filatelia, o xadrez, o teatro, os primeiros socorros e a agricultura, especialmente ecológica. E manter com melhores métodos todas as áreas artísticas, como a música e a plástica. Dando igualmente muita importância à educação física e aos jogos. Áreas que tanto influem na personalidade, por serem aprendizagens apreciativas relacionadas com os sentimentos, a motricidade e a afetividade. Porque temos que ir a um currículo muito mais aberto, sem perder de vista as aprendizagens instrumentais e o domínio das novas tecnologias.
Modelos temos de abondo para adaptá-los aos estabelecimentos de ensino atuais. Freinet na sua escola desenvolvia estratégias didáticas tão interessantes como o cálculo vivo extraído da realidade diária, os textos e desenhos livres, o jornal escolar, os ficheiros cooperativos, os trabalhos em grupo, a imprensa na aula, a biblioteca do trabalho elaborada pelos próprios estudantes, ao pesquisar sobre temas variados da sua escolha do meio social e natural próprios. Porque o pedagogo galo, com acerto, assinalava que o melhor livro é o livro da vida. Da vida do meio que rodeia a escola. Nas suas aulas tinha também muita importância a correspondência interescolar, tão motivadora e interessante para aprender, entre outras muitas cousas, idiomas. Os passeios e excursões escolares, os trabalhos manuais em obradoiros e oficinas pedagógicas, as hortas escolares, com cuidado de jardins, hortos e animais. E sem ir mais longe, temos a ILE de Giner e Cossío. Onde se dava uma grande importância à biblioteca escolar, à técnica do livro-fórum, às audições musicais, às excursões para conhecer e estudar o meio, às colónias escolares de verão, às dramatizações e recitais, às exposições e ao teatro e os jogos populares. Modelo que também praticava Tagore na sua Santiniketon.
Hoje temos que ir a um novo currículo que contemple as novas tecnologias, para que os estudantes aprendam a usá-las bem, aprendam a elaborar blogues e páginas web, aprendam a escolher informação adequada na Internet, aprendam a ver o cinema e a linguagem icónica ou da imagem. E, sobretudo, aprendam a aprender. Muitas cousas de forma autónoma e independente. Outras a conviver com os demais no respeito e solidariedade. E que tenham curiosidade para querer fazê-lo. Quando lhe dediquemos um artigo próximo ao pedagogo Edgar Morin falaremos do seu plano sobre os sete saberes fundamentais que devem trabalhar já os nossos estabelecimentos de ensino. E sobre as habilidades ou competências que devem adquirir os estudantes, no termo da sua escolaridade obrigatória. Que é o que hoje demanda a sociedade atual ao nosso ensino. Para tão importante tema, escolhi desta vez um muito interessante filme documentário argentino intitulado A Educação Proibida. Visto por infinidade de pessoas em todo o mundo, tem gerado numerosas opiniões, tanto a favor como contra, com uma viva polémica à volta dos temas que propõe. Os detratores acusam-no de fazer uma crítica muito dura e injusta à escola pública, apoiando de forma implícita o ensino privado. Eu acho que o importante do filme é que faz refletir a toda a comunidade educativa em que é necessário mudar muitas das cousas do nosso ensino atual. Cousa que, é claro, deve e pode fazer-se dentro da escola pública, a única que pode garantir a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.
Ficha técnica do filme:
Título original: La educación prohibida (A educação proibida)
Diretor: Germán Doin (Argentina, 2012, 145 min., a cores, documentário).
Roteiro: Verónica Guzzo, Julieta Canicoba, Juan Vautista e G. Doin.
Produtora: Eulam Producciones. Distribuição: Independente.
Música: Juan Mac Lean e Javier Ruiz. Fotografia: Sandra Grossi.
Vestiário: La Polilla Vestuario. Narrador: Germán Doin.
Atores: Santiago Magariños, Amira Adre, Nicolás Valenzuela, Gastón Paula e numerosos educadores e pais que são entrevistados.
Festivais e Amostras: O filme foi exibido nos seguintes festivais: 27º Festival Internacional de Cine de Mar del Plata. Argentina. 2012. Festival Audiovisual CC de Medellín. Colômbia. 2012. DOCTACINE – Muestra de cine documental de Córdoba. Argentina. 2012. 3er Festival de Cine Infantil y Juvenil de Bogotá. Colômbia. 2013. Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. Brasil. 2013. Festival de Cine Social de Concordia. Argentina. 2013. Festival de Cinema Latino-americano de Trieste. Itália. 2013. Festival de Cinema Documental de Educação de Taipei CNEX. China. 2013.
Argumento: O documentário divide-se em 10 episódios temáticos que abordam diversos aspetos das práticas educativas no contexto escolar e fora dele. Ademais, o conteúdo da obra complementa-se com animações que ilustram cada episódio e por um relato que percorre todo o filme. O filme é um documentário que se propõe questionar as lógicas da escolarização moderna e a forma de entender a educação, mostrando diferentes experiências educativas, não convencionais, que propõem a necessidade de um novo modelo educativo. Trata-se de um projeto realizado por jovens que partiram da visão de quem aprende e que embarcaram numa pesquisa que cobre 8 países realizando entrevistas com mais de 90 educadores de propostas educativas alternativas. O filme foi financiado coletivamente graças a centenas de coprodutores e tem licenças livres que permitem e incentivam a sua cópia e reprodução. Este filme propõe-se alimentar e lançar um debate de reflexão social sobre as bases que sustentam a escola, promovendo o desenvolvimento de uma educação integral centrada no amor, no respeito, na liberdade e na aprendizagem. A fita destaca um dos assuntos mais importantes para a vida em sociedade, a educação é discutida e remontada desde os seus primórdios até os dias de hoje, remontando e informando como, porque e para quê é que ela surgiu e foi moldada. Busca mostrar como as ações diárias educacionais estão condicionadas ao fracasso, pois não são pensadas a cada situação.
Crise da educação atual:
“Não seria maravilhoso se os alunos pudessem decidir quando vão à escola?”, indaga um fictício discurso de alunos no filme de Germán Doin Campos. Este é um pensamento comum entre jovens que acreditam que as escolas não os deixam ser livres para tomar as suas decisões e as tomam por eles. E aquilo que realmente querem aprender, torna-se neste sistema de normas algo proibido.
O documentário argentino “A educação proibida” pretende ser uma luz para os educadores no processo de reformulação do método tradicional de ensino das escolas. O filme propõe um tipo de educação que se fundamente em dous fatores principais: o amor e o respeito pelas crianças. Através de depoimentos de educadores de diversos países da América Latina e Estado Espanhol, o filme mostra que não existe um modelo educacional perfeito, mas existem outras formas de ensino que podem levar a criança a estimular as suas capacidades criativas e habilidades. Consequentemente, estas novas formas possibilitam que no futuro esta criança possa ser capaz de fazer escolhas importantes sozinha. A ideia do filme é, portanto, rediscutir o papel da escola durante o processo de educação da criança, e também o papel dos pais e até mesmo dos professores, que devem encontrar uma maneira de auxiliar os seus alunos sem pressioná-los e deixar que eles próprios encontrem respostas.Com poucos meses em exibição, este filme já alcançou mais de 4 milhões de visualizações no Youtube. O longa-metragem acabou fazendo parte das atividades do Encontro Internacional de Educação 2012-2013, que abordou o tema: “Como deveria ser a educação do século XXI?’’. Além de realizar a produção executiva de atividades do encontro, o Instituto Paramitas brasileiro tem contribuído também com a sua divulgação em todo o Brasil, além de propor atividades e convidar educadores renomados para os debates, oficinas e fóruns.
“A Educação Proibida “ é um projeto documental, sem fins lucrativos, realizado por um grupo de jovens estudantes de cinema e preocupados com o futuro da educação. Os objetivos do projeto são: colocar na agenda pública os problemas educacionais como um assunto que exige uma dedicação profunda; o desenvolvimento de uma educação integral da humanidade incluindo aspetos intelectuais, emocionais, experimentais e físicos; dar a conhecer os projetos educacionais holísticos encontrados em desenvolvimento atualmente na América do Sul e Espanha; educar os pais e professores sobre as consequências da educação que dão a seus filhos e oferecer uma alternativa de mudança; e finalmente lançar o filme na Internet para que dele se possa fazer download da rede e exibição em casas/escolas/Institutos sem impedimentos jurídicos. Algumas das propostas e princípios pedagógicos que sustentam “A Educação Proibida” são: o Método Montessori, a pedagogia Waldorf de Rudolf Steiner; a pedagogia Crítica, a pedagogia Liberadora de Paulo Freire, o método Pestalozzi, as técnicas Freinet, a Escola Livre, a Escola Ativa, a pedagogia Sistémica, a Educação Personalizada, a pedagogia Logosófica e outros modelos educativos.
Interessantes propostas educativas para a escola:
Estes são alguns dos fundamentos gerais pedagógicos do projeto:
– Conteúdo-conhecimento não é a cousa mais importante, a informação não é correta para sempre, ela pode variar. O ideal é aprender a aprender, aprender a distinguir, interpretar por si só, tudo é relativo, de acordo com o contexto.
– O desempenho não é o mais importante, deve haver um objetivo a atingir. O importante são os objetivos pessoais e apreciar o processo em harmonia, o crescimento e a aventura de progredir. Em sala de aula não deve haver nenhuma hierarquia, senão transforma-se numa gaiola. O professor não é superior ou tem o direito de dar ordens, é um companheiro, um guia que promove a democracia, a autonomia, a diversidade.
– O professor deve adaptar-se às capacidades e habilidades do aluno e não vice-versa. Programas educativos devem ser flexíveis e adaptáveis para o crescimento e o interesse da criança.
– O progresso não deve ter passos fixos, a segregação das crianças deve ser substituída por um agrupamento consciente de acordo com interesses, habilidades, experiências, simpatias. Não há nenhum nível maior ou menor do que outros.
– Conhecimento não deve ser somente teórico. Deve basear-se em experiências e experimentação dentro e fora da sala de aula. A teoria deveria ser mínima, a criança pode alcançá-la por suas próprias conclusões.
– Nem sempre é bom o que é conveniente, eficaz e produtivo. É importante criar um ambiente de autonomia, interação e alegria.
– A escola deve estar aberta para a Comunidade, permitir eventos de bairro, com a família, vizinhos e organizações parceiras. A criança pode trazer temáticas da comunidade para a escola. A escola funciona como um centro comunitário.
– O objetivo da escola já não é domesticar as crianças, nem transmitir valores e costumes sociais, mas criar o ambiente em que as crianças podem construir os seus próprios valores e costumes. Educação não é um processo temporário, é um processo de vida que procura desenvolver capacidades e habilidades, sem um determinado curso marcado.
– O professor não tem todo o conhecimento, também vem para aprender com os alunos. É um guia que está em um processo de aprendizagem.
– O comportamento é um elemento visível que não indica demasiado. O ideal é que o professor possa conhecer internamente a cada criança, os seus sonhos, sentimentos, imaginação, desejos. Esta é a melhor maneira de encontrar a melhor educação para ela.
– Seguir um padrão regular, estruturado de pensamento não é benéfico. O melhor é promover o pensamento divergente ou lateral. Há tantas soluções como alunos. Incentivar a criatividade e conjetura.
– Aprender a utilizar ambos os hemisférios cerebrais. Como na vida, as estratégias devem recorrer também à intuição e não ser tão sequenciais e analíticas. Tudo é relativo.
– O sistema de qualificações não funciona. O esquema é de autoprofecias cumpridas. A pedagogia é uma ciência social que não pode ser medida numericamente. Avaliação é um processo.
– As luitas de poder e a competitividade causam danos para a criança. Há que democratizar a sala de aula. Torná-la um lugar participativo, cheio de paz.
– O interesse do professor deve satisfazer o seu aluno para promover o crescimento do mesmo, não para controlá-lo. O mestre deve confiar que a criança vai crescer e concorda em não ter de adaptá-lo ao seu conceito de normal.
– O professor também colabora no crescimento espiritual e emocional da criança. Sem gerar crenças, deve dar-lhe técnicas para administrar os seus estados de ânimo, os seus pensamentos, ações, ideias e projetos. Incentivá-los à introspeção.
– Os valores não são para ser ensinados, mas para ser vividos. A cognição de valores e conhecimento é baseada em emoções, a melhor maneira de educar é pelo exemplo.
Temas para debater, refletir e elaborar:
Utilizando a técnica do Cinema-fórum, as dinâmicas de grupos oportunas, os debates-papo e tertúlias, comentar entre todos os muitos temas que aparecem no documentário, a respeito da crise atual da educação e as propostas de mudança que se fazem para desenvolver uma outra educação.
Debater entre todos o significado do seguinte texto: “Se estimula muito as crianças a competirem entre elas. Os melhores alunos têm reconhecimento, tem prémios. Aquelas crianças que não se saem bem nos exames são chamadas à atenção. Em muitos casos nem sequer são levadas em conta. Todo o mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam para a competição e a competição é o princípio de qualquer guerra.” “O que faz com que o estudante fracasse na escola? Não é o estudante quem fracassa, é o sistema que está mal planejado. É que as reformas educacionais atuais, em voga em muitas partes, estão mal enfocadas.” “As escolas e os colégios da América Latina não são mais do que espaços de tédio e aborrecimento. Eu sempre os convido a passar pelos colégios para que vejamos uma caricatura que tem que acabar. É um professor em frente a um quadro negro ditando aulas, em pleno século XXI, isso não tem sentido.” (Relato de um educador entrevistado no filme).
Elaborar um trabalho monográfico por grupos, seguindo o modelo de Freinet, sobre o tema “Prós e contras sobre os exames”. No mesmo haveria que incluir obrigatoriamente aqueles pedagogos e educadores contrários aos exames, que houve na história mundial da educação. Uma secção especial da monografia teria que ser para a ILE de Giner e Cossío, instituição educativa em que os exames estavam explicitamente proibidos, sendo no entanto a única que teve seis prémios Nobel (dous de medicina e quatro de literatura), ademais de grandes vultos da cultura mundial. A Santiniketon de Tagore teve dous, um de literatura e outro de economia.
Depois de ser lida, tomada da Internet, comentar a entrevista que se fez ao diretor do filme Germán Doin, sobre as intenções e objetivos do seu filme, uma vez ter recebido muitas críticas (algumas muito duras), especialmente por considerar os que o criticaram que no mesmo se defende implicitamente a escola privada em contra da pública.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



