Por Concha Rousia
Quintal d’Amaia 31 do 10 de 2012
Quando eu era viva, quando eu respirava, quando as pedras falavam… e a cultura era um continuar de meu sangue, quando as veias regavam a Terra e meu ser se enchia da seiva que nutria nossas casas…. Quando havia harmonia no tato, harmonia no olhar, meu ser se sonetava com os milhões de anos que me precederam, eu o próprio moinho do tempo, indígena que não se sabe indígena porque não precisava, precisava ser, é ser existia, era, sem análise… Hoje percebo que a palavra indígena é a ponta da faca… e em nós foi primeiro espetada, agora é que eu achei tatuada em minha pele a palavra…
Quando a nossa cultura e nós éramos um só corpo…. Ahhhh mas deixou de ser, houve que criar distância, despossuir, chamar de alheio, de feio, odiar, Deus ODIAR…!!! Como poderei perdoar isso?? Como posso esquecer que me levaram ao ódio, a auto lesão, a automutilação… Chamo deus para ser meu analista, quem mais me ia entender? meu inconsciente ancestral, eterno, não é para Freuds deste tempo… Mas eu me debato, eu me debato, quero sentir a beleza, deixar fluir ela e lavar a destruição operada em mim…
A nossa cultura tradicional era esse contínuo do que meu mestre, o professor Evandro Vieira Ouriques, fala em suas teses: ‘ A cultura como um contínuo da Natureza’. Mostras simbólicas da natureza penetravam prestando vida a todos os nossos elementos culturais… Os jugos que o pai fazia, para jungir as vacas e o boi, eram decorados com desenhos que pareciam serpes entrelaçadas, que agora a minha mente instruída (destruída?) em simbologia descobre que eram celtas… Arde na minha cabeça a imagem do lume que eu não vi quando foram queimados nossos jugos, que nos vinculavam à Terra… É, o erudito diria: foi pena que o fogo comesse aquela arte… Mas o lume comeu tudo, comeu também os cadernos de banda desenhada que meu pai fazia no Monte… em galego, ‘Sempre em galego’, era a sua marca…
O que não ardia foi levado ao monte por meus irmãos, o couro, as molidas*, as sogas, os temoeiros… Às escondidas foi depois a mãe recuperar, para que desgostar os filhos?!… Meus irmãos, os mesmos que abafaram a lareira para pisar moderno em casa… Eu não estava, e paguei à Telefónica por aquele meu pranto, minha irmã sempre me escuta e chorou comigo enquanto eu jurei arrincar aquele cimento que abafava a nossa lareira, abafava os caldos, abafava o pai fazendo as chancas de pau para calçar os tantos pés que havia em casa, enquanto armava histórias que parece só eu retive dentro da cabeça…
Tanto esquecimento. E o monte vai comento tudo, de quando em vez um Inocêncio ajuda apurar essa desfeita… Também muito é vendido agora aos japoneses, já nem o Maragato tem interesse… O Monte come o que é natural, não come tijolo, nem máquinas de lavar roupa, nem carros velhos, mas isso a gente não sabe… Todo o nosso saber foi sepultado sob o mesmo cimento que cobriu nossas lareiras; tudo foi sendo arrancado aos pouquinhos…
Mas minhas palavras de hoje, mesmo que a introdução fosse longa, são para essa parede, aí na fotografia que acompanha, é a casa dos meus padrinhos, restaurada em 1962 quando eu nasci, não sei se esse será o motivo desse trevo ou desse coração… Marcar meu nascimento, talvez queriam que eu fosse a escolhida para decifrar o enigma… Noutro lugar está desenhada a lua crescente (a da Rainha-Loba) e noutro, um belo adorno simétrico, mas escolhi estes para a minha fotografia… De sempre me chocara o jeito como estão colocados, cabeça abaixo. Talvez como reconhecimento de que a casa, pedra, carvalho, e castinheiro, é uma outra forma de natureza. Talvez para que obrem para dentro de casa, os símbolos se colocam descolocando ao que olha de fora, seu efeito, seu poder é para dentro. Ou talvez para comunicar com o Além, como vistos desde o céu, ou sei lá… sei é beleza simbólica, e já não resta a quem perguntar…
Ninguém sabe, ninguém lembra, nosso livro falado com nossos códigos, foi queimado pelo esquecimento… Pouco a pouco o feísmo foi penetrando nas nossas mentes, ninguém repara já nos adornos das nossas casas de dantes… Nosso ser foi dominado, o dragão das nossas entranhas foi apagado… Reconheçamo-lo, mesmo que a dor seja insuportável, a nossa mente foi tatuada com outras palavras, a língua feliz da minha infância, mesmo sendo proibida na escola, pela que meu pai se batia como para defender sua mãe, com qualquer outro homem… essa língua deixou de ser amada, o auto-ódio instalou-se definitivamente em nosso jeito de olharmo-nos no espelho… E agora? O que fazer com tanta cinza ? Com tanto incêndio? Que faço eu com este vulcão que me consome? Falo, tatuo o ar, limpo a minha mente colonizada… Mas já não posso esperar que alguém vivo possa entender esta minha linguagem…
Molida* (Dic. Estraviz):
(2) Recheado e pele que o cobre, para jungir os bois pola frente.

