Por Concha Rousia
To know that we know what we know, and that we do not know what we do not know, that is true knowledge.
Henry David Thoreau (1817-1862)
São poucas as pessoas que se param a pensar sobre o que sabem e o que não. Poucas as que duvidam e ainda menos as que tentam contrastar. Poucas, infelizmente, as que diferenciam a mentira da verdade. Decidi me questionar aqui, em público, ante quem quiser ser testemunha deste meu processo; um pouco poeticamente e outro pouco filosoficamente, e não só, me pergunto sobre o que acontece com nós, gente, que não parecemos interessados em distinguir a verdade da mentira. Vivemos acreditando, apenas acreditando, e vamos atuando como se tudo que nós acreditamos certo, fosse verdade, e tudo que nós acreditamos falso, fosse mentira. Somos uns atores fantásticos, nem sequer duvidamos e dizemos aquela frase da nossa mãe quando não podia dar fé de que o que nos ia dizer fosse certo: ¨se por mentira veio, que por mentira vá” Sempre achei isso um grande saber, libertador, que faz com que consigamos não comprometermo-nos com a mentira. E depois desta longa introdução vem a pequena reflexão minha de hoje:
Inspirada numa conversa no contexto dos acontecimentos das últimas semanas no Brasil, que tomara como ponto de partida as palavras de Eric Hobsbawn ao descrever o papel político de Lula no Brasil: “Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por ele”. (Eric Hobsbawn)
Meu amigo Mario, concordando com Hobsbawn disse: ‘É isso, mas o astuto mau tenta esconder’ As palavras do meu amigo foram a chispa, foram o vento que moveu as nuvens para clarejar a luz no meu pensamento. O primeiro que percebi foi que não é justo que verdade e mentira partilhem dança. É injusto que tantas vozes verdadeiras nas ruas do Brasil se misturem até não se diferenciarem de vozes escuras, de vozes falsas, de mentiras que se sabem falsas… Detesto isso porque enloura as águas do rio no que flui o pensamento, a formação do pensamento na mente humana. Em rio louro o peixe nem distingue bicho de folha inerte…
Mas voltando aos dilemas da verdade e a mentira convivendo, dançando, elas que são tão desiguais, como é que se dão no baile? É, elas são desiguais, já nem vou dizer diferentes, porque é claro que são; para começar a mentira tem corpo apenas aparente, mas mesmo assim os efeitos que produz são igualmente reais… Algo parecido com essas comidas falsas que em aparência tem muito sabor mas não tem calorias (se existissem) só o corpo saberia depois de as ter consumido e ver que não alimentaram.
Vamos ver: a mentira atua com vantagem, pois ela pode ser tão elaborada e fantasiosa como se quiser, a mentira não conhece limites; só conhece o cálculo para não ser desvendada e descoberta a sua falsidade. A verdade, em contraste, é mais simples, menos sedutora, ela não se pinta, é se faz menos ‘atractiva’, aparentemente tem menos paixão. A superioridade da Verdade vem apenas do falto de ela ser real; mas para quando as pessoas querem descobrir isso já a mentira os devorou e vão lá numa lenta digestão que não permite mais pensar, por vezes é uma ida sem retorno.
Sabemos que as pessoas temos aquela necessidade psíquica de defender aquilo no que acreditamos, por absurdo que pareça, experimentos psicológicos mostram isso com pessoas que eram expostas a luzes que se desligavam e ligavam aleatoriamente. Embora os sujeitos tinham uns botões que manipulavam e achavam que influíam a sequência das luzes, nada do que faziam influía no processo de acender ou desligar as luzes. Todos os sujeitos experimentais, sem excepção, elaboravam uma teoria de como eles tinham que tocar os botões para que as luzes se acendessem e para que se desligassem.
Quando, finalizado o experimento, foram informados, de que o seu comportamento, seu tocar nos botõezinhos, não influía na sequência das luzes, ficaram desolados, alguns inclusive sofreram reações depressivas fortes. Assim de poderosas são as crenças na nossa mente. É claro que com ilusionismos, com manipulação altamente emotiva, as crenças se enredam nas mentes manipuláveis das pessoas de uma forma (quase) irremediável.
Definitivamente, esta dança, da verdade com a mentira, é desigual, é injusta; é como mandar correr a uma pessoa com as pernas partidas para competir com outra que tem as pernas sãs. Por cima sabendo de antemão que pelo caminho o tramposo vai ir dando couces nas canelas do competidor veraz. É duro ser defensores da verdade nua no meio de tanto mentiroso que joga sujo. Mas quem valoriza a verdade não tem outra alternativa, pois se renunciasse a esse princípio seria vencido antes de começar mesmo. E portanto a alternativa única é continuar nesta dança macabra, com um parceiro que vai intencionadamente pisar uma e outra vez… uma e outra vez… E vai dar a volta a tudo, vai distorcer tudo, de tal forma que se perceba que o inocente é o culpado. Como o que está acontecendo agora no Brasil; vão dirigindo dirigindo, desde os mídia, para que as cabeças de meio Brasil chegue mesmo a pensar que a culpa da pobreza no Brasil acabe sendo do Lula… Acabe sendo da pessoa que mas fez por combatê-la; patético, não é mesmo?

