Por Concha Rousia
Ontem reparei tanto em tudo que até vi a morte, encontrei-me com ela, pensei que fosse acaso, agora sei que não… Falou-me, perguntou-me de quê eu queria morrer… Eu fiquei tão chocada que nem conseguia articular palavra, então ela, sorrindo, abriu seu catálogo, como se fosse um vendedor de enciclopédias, e disse-me, olha! aqui tens mil formas diferentes, ora a que mais se leva, a mais escolhida no que vai de 2013 é: SAUDADE.
– Saudade… -repeti eu como se fosse o ecoar da morte- já sabia eu que era muita demais esta que sinto…
– Também podes escolher morrer de vergonha… ou qualquer outro destes métodos modernos… agora por esta parte do mundo quase todos morrem disso… Viveis dum jeito tão estranho, e eu tenho que me combinar com a vida que levais, quase nem posso usar venenos, nem navalhas, ninguém morre no parto, e os acidentes de transito a cada dia são menos também…
– Métodos modernos?! (eu não dava crédito) Eu acho que preferia não morrer…
– Já já, isso dizem todos, mas isso não to perguntei, olha! (disse mostrando-me de novo o catálogo) Nem vem aqui… Anda diz logo…
– Pois não sei: (duvidava eu..) Nem sabia que teria que escolher… Mas tanto tem, não? Se é para morrer…
– Gostas de te fazer de rogar, hein?… Se já te conheço eu a ti, mas não me enroles. Escolhe de uma vez !!
– Mas… eu…
– Tá bom tá bom, é certo, para ti tanto faz… (disse-me) A diferença é para os demais. Se morres de saudade não incomodas ninguém… Ninguém tem que saber, nem padecer, por causa tua..
– E tu importas-te com isso…? (perguntei eu)
-Eu? Eu não me importo, mas importas-te tu, e eu tenho que tomar todos os dados em consideração…
– …Os dados?! (aquilo já me parecia surreal…)
– Então: o que vai ser? – (repetiu…) Que não tenho o dia só para ti, o tempo para mim também corre, eu não morro (hahahaha riu) mas depois tenho que criar desastres para dar feito meu trabalho…
– Pois que seja logo saudade -disse eu timidamente.
– Que pouco me convences (disse-me rindo enquanto escrevia algo no seu livrinho) Mas tá bom: Até logo! (despedia-se)
– Como até logo?! Não me levas contigo??
– Não, ainda não, falta muito para isso, só ando apanhando os dados para digitalizar e fazer os novos programas….
– E para que me perguntaste? Eu não queria pensar nisso… nem sabia que se podia escolher, não estava pronta para escolher.. (eu queria conversar, não queria que a morte me deixasse sozinha…)
A morte olhou-me com uma ternura fria, parecia que não me ia responder, depois colocou um sorriso que nem chegava a ser irónico e disse: Escolhe-se tudo…! E eu não sou nenhum monstro… Ademais, quando tenha o programa pronto, terei mais tempo para andar pelas redes sociais, ou pensáveis que vos íeis escapar por aí? É claro, eu também me quero divertir…
Foi-se embora assobiando, e deixou-me a sós com a SAUDADE…
