Todas as Galizas das quais nos orgulhamos e aquelas que anelamos estám na voz de Tareixa Navaza. A Galiza forte, luitadora, digna, livre, coerente, mas também a Galiza sabia, doce, tenra; a Galiza dos avós que nos transmitírom a sua língua, mas também as das crianças, resoltas e sem complexos que falam em galego com toda a fachenda possível.
Aprendim a amar ao meu país e a minha língua através da voz de Tareixa, porque em cada uma das suas verbas transmite um imenso amor polo que nos é próprio a todas as galegas e galegos. Escutar de novo a sua voz, desta vez via telefônica, foi emocionante. Voltei ser a nena que sentava frente à televisom, sentindo o arrolo daquela voz cálida e entranhável que me falava da Galiza em galego.
No 25 de julho de 1974 retransmitiu-se, por primeira vez, o Programa “Panorama de Galicia”. Foi no Centro Territorial de RTVE, localizado no nosso país. Desde o início destacou a formosa voz de Tareixa, mais tarde, incorporárom-se ao programa Xoán Barro e Cecilia Pérez. O magazine começou a emitir-se diariamente no 16 de agosto desse mesmo ano.
Mália ser uma magnífica jornalista, com uma grande personalidade e uma maravilhosa voz, a Tareixa Navaza passarom-lhe fatura o seu compromisso com o país, e as causas sociais. Dous feitos mudárom a sua vida profissional para sempre: a retransmissom da volta das cinzas de Castelao a Santiago de Compostela e a leitura dos comunicados em favor do sector naval. Em represália chegárom os castigos, a marginaçom, a censura e as horas baleiras nos corredores, sem poder trabalhar, porque nom a deixavam. Mas, Tareixa nom é das que se rendem. Soubo viver uma vida plena e enriquecedora, participando em palestras e faladoiros, envolvida em luitas da sociedade civil e rodeada sempre, como ela bem di, de gente maravilhosa.

Tareixa, foste o primeiro rosto da televisom em galego na década de 70, mas como foi a tua experiência com a língua galega durante os anos de criança?
Nacim em Compostela, em Maçarelos, em casa dos meus avós maternos. Meu pai era de Cereijo, uma vila da Estrada. Os meus pais falavam em galego, mas ao meu irmão e a mim educárom-nos em castelhano. Meu pai era militar e, quando eu tinha apenas um ano, destinárom-no a Pontevedra. Ali estudei em colégios públicos e, logo, no instituto que dirigia Filgueira Valverde. Lembro que quando estava neste instituto, que hoje em dia é o IES Valle Inclán, levavam-nos nas sextas-feiras à missa e a comungar e logo davam-nos chocolate com churros e pastéis. Toda a minha educaçom foi em castelhano, porque nos centros de ensino, o galego estava proibido.
Mália a tua educaçom em castelhano, o teu compromisso com a língua e o país som inquebrantáveis. O 28 de junho de 1984 retransmitiste, pola canle da TVE na Galiza, o traslado dos restos de Castelao ao Panteom de Galegos Ilustres. Aquele, tivo que ser um dos momentos mais emocionantes da tua vida. Ainda hoje nos emocionamos ao ver parte da retransmissom que, publicada na rede, é testemunha fiel da carga policial contra os que ali protestavam pela utilizaçom política de Castelao, pretendendo justificar um regime autonómico, que ainda a dia de hoje padecemos.
Sim, a retransmissom da volta dos restos de Castelao foi algo mui emotivo para mim. Tínhamos a unidade móvel colocada no que agora é o CGAC (Centro Galego de Arte Contemporânea). A gente que estava ali protestava e berrava dizendo que nom era o momento, porque os que traziam de volta os seus restos, eram os mesmos que o mandaram ao exílio. Para mim foi mui emotivo, de facto cortou-se-me a voz em bastantes ocasions durante essa hora e pico de retransmissom.
Xosé Cribeiro, que era o diretor, deu-me permisso para que relatara os feitos como eu quigesse. Como pensei que quem o trazia queria enterrá-lo definitivamente e que só pensáramos em Castelao como um debuxante e como o autor de Os vellos non deben namorarse, quigem fazer semblança do Castelao político. Assim mesmo, selecionei uns textos de Sempre en Galiza e também da biografia escrita por Valentín Paz Andrade; Castelao Na Luz e na Sombra. Quando estava em plena retransmissom abriu-se a porta da unidade móvel e apareceu Uxío Novoneyra com duas folhas, nas que tinha um artigo escrito a mao, intitulado “Castelao, nacionalista galego”. Novoneyra levara esse artigo aos jornais de Compostela, mas nom lho publicaram. Nom obstante, eu sim lim aquele artigo. Com certa dificuldade, porque a letra era formosa, ainda que complicada de entender. Foi mui emotivo, nesse momento era a única canle de televisom. Via-se nos bares, nas casas. Havia varandas com bandeiras galegas. Foi um feito mui importante na minha vida profissional e pessoal.
Continuamos falando do teu compromisso com o país e também com as causas sociais. No ano 1989, numa ateigada praça do Obradoiro ao termo de uma manifestaçom, leste um manifesto em apoio ao sector naval, que estava a sofrer um desmantelamento brutal por parte do governo do Estado em conivência com o governo da Junta da Galiza. Porém, aquela açom valente e comprometida tivo umas repercussons imediatas para ti.
Certo, entre a retransmissom da volta dos restos de Castelao e o meu apoio em contra da reconversom naval, obrigárom-me a passar a maior parte da minha vida profissional nos corredores. A mesa convocante e escohera-me para ler aquele manifesto. Foi impactante, porque a praça do Obradoiro estava cheia de trabalhadores e famílias do sector naval de Ferrol e de Vigo. Havia representantes sindicais, políticos e gente da cultura e ali nom cabia uma agulha.
Entre a retransmissom da volta dos restos de Castelao e o meu apoio em contra da reconversom naval, obrigárom-me a passar a maior parte da minha vida profissional nos corredores.
Antes de começar o comunicado dixem: “Aqui está o melhor do nosso país e amanhã dirám nos médios de comunicaçom que éramos quatro gatos”. Isto foi um domingo, quando cheguei na segunda-feira ao trabalho dixérom-me: “Aqui nom se pode criticar o PP nem o PSOE, já nom volves fazer o programa”.
Revolverom-se os dos sindicatos e dixerom que como nom me pugessem de novo no meu posto, “iam ao Obradoiro e queimavam o chiginguito”. O diretor geral da TVE, José María Calviño chamou a Santiago e dixo “ponhede outra vez a Navaza que nos estamos cobrindo de merda”, e pugérom-me de novo no meu posto de trabalho, ainda que ao pouco tempo mandárom-me outra vez para o corredor. Lembro a um diretor dizer: “é vostede uma magnífica profissional, mas quero retirá-la e pôr uma rapaza mui nova e com mini-saia”.
Mesmo com todo o avançado, continua havendo censura, e esses tópicos machistas ainda estám presentes na nossa sociedade. Se bem a presença das mulheres jornalistas é hoje mui superior, a cousificaçom continua a ser uma realidade entre as trabalhadoras do sector audiovisual. Como transcorria o teu dia a dia se nom te deixavam trabalhar?
Pugérom-me num lugar escuro, numa espécie de faiado sem mesa. Lembro que os trabalhadores de carpintaria da Estrada, que todos os anos fam uma exposiçom de móveis, me chamárom e me dixérom que nom me preocupasse, que me faziam o que eu quigesse: uma mesa, uma cadeira ou uma biblioteca. Estavam dispostos a mandar-me os móveis que necessitasse, já que me tinham ali isolada, mas eu nom lhes pedim nada.
Foi uma época mui dura, até que me dei conta de que se eu nom trabalhava era por que nom me deixavam. Figem por ler a imprensa e livros que levava de casa e tomava café com grupos de amigos, pois havia gente mui boa entre os profissionais da RTVE, e assim discorreu a minha vida no entorno laboral.
O contraponto era que eu fora do trabalho tinha muita vida social, estava no movimento feminista, no movimento dos objetores de consciência, em defensa do meio ambiente e lembro fazer marchas de Marim a Ponte Vedra em contra da celulose, com pessoas como Xosé Fortes Bouzán ou Manuel Lueiro Rey. Sempre estivem rodeada de gente maravilhosa.
No ano 2016 renunciaste a um prémio da Junta da Galiza em solidariedade com os trabalhadores da TVE.
Assim foi, renunciei a um prémio da Junta de Galiza que davam polo 8 de março, como mulher destacada. Mas com o que estava passando nesse momento na TVE e na TVG, era um desprezo aceitar esse prémio. Ainda mais, tendo em conta que estava em vigência-e ainda está- a lei mordaça. Parecia-me uma ofensa aceitar um galardom que fala de liberdade quando essa liberdade está coartada.
Falando de liberdade no jornalismo. Que nos podes dizer da Plataforma Defende a Galega que no ano 2019 recebeu o XV Premio José Couso de libertad de Prensa?
Aqui estou sempre que me perguntam, para falar na defensa das trabalhadoras e trabalhadores da CRTVG, que já levam quase 300 semanas de “Venres Negros”, pedindo liberdade e dignidade para exercer a sua profissom. Um profissional deste sector deve decatar-se de que ser jornalista implica às vezes criticar o poder, ainda que sejam dos nossos, do contrário está corrompendo a profissom.
Aqui estou sempre que me perguntam, para falar na defensa das trabalhadoras e trabalhadores da CRTVG, que já levam quase 300 semanas de “Venres Negros”, pedindo liberdade e dignidade para exercer a sua profissom.
Entrevistaste em várias ocasions o professor Carvalho Calero. Conta-nos, como foi trabalhar com ele?
Carvalho era uma das pessoas mais tenras e brilhantes que tenho conhecido. Tenho-o entrevistado muitíssimas vezes para “Televisión española”, quando a sede estava na rua do Vilar, no edifício do Café Casino. Sempre me dizia: “Tareixa, é mui importante que faledes em galego, ainda que seja com erros. Entrades nas casas da gente, sem pedir permisso, sodes um símbolo. Que empreguedes o galego dá-lhe muito valor ao idioma, mais que qualquer livro. Que venha um engenheiro, um médico, um advogado ou um arquiteto e que falem da sua profissom em galego, isso ajuda muitíssimo ao idioma”.
Depois das entrevistas, tem aguardado por mim e dizer-me “vostede vive na Rua da Rosa e eu em Carreira do Conde, aguardo-a porque me encanta ir compartilhando conversa com vostede”. Sempre me dava muitos ânimos para que empregássemos o galego, mas também para que contássemos a realidade deste país. É uma pessoa que sempre lembro com muitíssimo afeito e com muito carinho. Numa ocasiom escutei-no falar de Rosalia num hotel da rua do Horreo, aquele fora um ato improvisado, mas é a charla mais maravilhosa e emotiva que escutei sobre Rosalia de Castro.
Tareixa Navaza, nada em Compostela no 2 de janeiro de 1947. Começou a trabalhar na “Rádio Ser” a finais de 1965. Na década de 70 apresentou e dirigiu o programa “Horas Jóvenes” e converteu-se na voz da Galiza em programas estatais como “Hora 25”, “Matinal Cadena Ser” e “Los 40 Principales”. Para além disto, naqueles anos recebeu o Prémio Nacional de Rádio. Em 1973 iniciou o seu trabalho na delegaçom da TVE, da qual era diretor Luís Mariñas. Compaginou as suas apariçons na rádio e na televisom até no ano 1980. Em 1984 relatou na TVE o regresso dos restos de Castelao a Compostela, aquela retransmissom deu conta da afouteza do seu compromisso com a cultura e com país.
Nesses anos colaborou com uma entrevista semanal em “La Voz de Galicia” e assinou numerosas publicaçons em El Correo Gallego, em A Nosa Terra e na revista feminista Andaina.
Em 1994 entra no Conselho de Administraçom da CRTVG, no qual formou parte durante duas legislaturas. Em 2002 incorporou-se de novo á TVE na Galiza, com Carmen Cafarell como diretora. Nessa nova etapa encargou-se dum programa dedicado à Real Academia Galega, com motivo do seu centenário. E realizou Arredor de nós, uma serie de doce programas dedicados a diversas personagens galegas. No 2005 foi uma das 5000 pessoas afetadas polo ERE da RTVE. Recebeu uma homenagem do Consello da Cultura Galega no ano 2012 e no ano 2015 recebeu o “Premio Os Bos e Xenerosos” da Asociación de Escritores en Lingua Galega. Mas no ano seguinte renunciou a um prémio da Junta de Galiza, em solidariedade com os companheiros e companheiras da TVE. A Asociación Galega de Produtoras Independentes outorgou-lhe recentemente o II Premio de Honra Dolores Bem. O ato celebrou-se no estudo Cinemar Films, no 14 de novembro de 2023.
