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Susanna Florissi: «Não se pode esquecer que nenhum idioma existe sozinho; ele precisa estar inserido na cultura, no dia a dia, nos costumes e hábitos locais»

José Carlos da Silva – Nas últimas décadas, a Língua Portuguesa vem ganhando destaque mundial e despertando interesse em pessoas de diferentes nacionalidades em aprendê-la.

Conversámos com a professora e editora Susanna Florissi, uma das principais incentivadoras e batalhadoras pelo ensino da língua portuguesa para estrangeiros e pela formação e especialização de professores nesta área.

Atualmente, é diretora internacional da SBS–Special Book Services e da HUB Editorial, empresa do mesmo grupo, proprietária da Torre de Babel Idiomas e sócia da Editora Galpão. Também edita a rede social na internet Fale Português.

Sussana Florissi nasceu na Itália, mas seu coração adotou o Brasil. Diante das dificuldades que encontrou para dominar a língua portuguesa, passou a editar  materiais didáticos impressos e digitais e é coautora dos títulos campeões de vendas para o ensino de português como língua estrangeira, Bem-Vindo! A Língua Portuguesa no Mundo da Comunicação, Tudo Bem? Português para a Nova Geração e Panorama Brasil – Ensino do Português do Mundo dos Negócios. Estas obras são consideradas referências mundiais no ensino da Língua Portuguesa para estrangeiros.

Portal Galego da Língua: A comunidade Fale Português completou um ano em fevereiro 2011. Comente sobre a comunidade: o porquê de sua criação, quantos membros participam, de quais países são os membros, etc.

Susanna Florissi: O Fale Português é uma comunidade virtual com mais de 2.100 membros localizados em países do mundo todo. É possível ver um mapa, onde os membros marcam sua localização, na aba “onde estamos”. O conteúdo da comunidade é postado pelos participantes, voltado ao ensino e aprendizado da língua portuguesa. Os participantes aproveitam esse espaço para promover um aprimoramento profissional e acadêmico. A comunidade apresenta fórum de discussão, enquetes, mensagens de blog, mapa de localização, chats, espaço para publicação de estudos e artigos científicos, fotos e vídeos.

O relacionamento entre os participantes está cada vez mais intenso e, ultimamente, os membros estão se organizando em eventos presenciais; assim, já ocorreram encontros em Nova Iorque, Princeton, Buenos Aires, Salzburg, Tóquio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Rio de Janeiro, Foz de Iguaçu e em Curitiba.  Alguns dos tópicos discutidos na comunidade são filmes em aulas de português como língua estrangeira (PLE), atividades de professores de PLE em lugares específicos (como Alemanha, Argentina, Itália…), variação linguística, teses e dissertações, e troca de atividades para professores de PLE.

PGL: Quais são as dificuldades e desafios enfrentados por professores e professoras de língua portuguesa para estrangeiros?

SF: Nos últimos anos, o interesse pelo Brasil, tanto por sua cultura no geral como o interesse econômico, alastrou-se muito, aumentando, também, o número de pessoas que querem e precisam aprender português. Se falamos do ensino no Brasil ou nos países onde se fala português, temos o privilégio de ter o aluno imerso na cultura e idioma o tempo todo, e a ausência disso é uma grande dificuldade enfrentada por professores que ensinam português fora dos países da CPLP. Essa é uma dificuldade encontrada no ensino de idiomas em geral.

Lidar com os diferentes hábitos, culturas e idiomas de origem também podem ser uma dificuldade encontrada pelos professores. Os alunos de origem asiática, por exemplo, apresentam necessidades e dificuldades totalmente diferentes dos estudantes latinos. O professor muitas vezes tem que lidar com uma grande diversidade de hábitos e costumes que fazem parte da cultura do país de origem do aluno, e isso é bem trabalhoso, mas uma missão para os professores. São inúmeros os desafios nesse aspecto.

Além disso, é missão dos professores, também, apresentar aos alunos todas as questões culturais que não se resumem a festas, lendas, etc., mas ao dia a dia, aos relacionamentos e situações cotidianas que farão parte da convivência do aluno no idioma.

PGL: E quais são as principais dificuldades para o estrangeiro aprender o português?

SF: Como foi dito na pergunta anterior, as diferentes culturas e idiomas de origem acarretam dificuldades específicas. Alguns pontos, como o ritmo, entonação e uma musicalidade específicas da língua portuguesa, podem ser trabalhosos e de difícil assimilação a alguns alunos. Cada idioma ‘funciona’ de maneira diferente nesse sentido.

Além das dificuldades que até mesmo os falantes nativos encontram em língua portuguesa, há as dificuldades estruturais, de gramática etc, onde alguns alunos encontram mais facilidade do que outros. E há também as características bem pessoais de cada aluno. Alguns, têm uma imensa facilidade na entonação, outros têm grande dificuldade no mesmo ponto, mas apresentam dificuldade em utilizar algumas estruturas gramaticais específicas, etc.

PGL: Existem obras satisfatórias disponíveis ou em cada realidade o professor precisa desenvolver seu material?

SF: Existem, no mercado, vários materiais satisfatórios desenvolvidos para o ensino de português. A SBS Editora, selo da HUB Editorial, publica materiais específicos para esse fim, sendo que o carro chefe, o Bem-Vindo! A Língua Portuguesa no Mundo da Comunicação, tem como principal diferencial cadernos de exercícios específicos, um para alunos de origem latina, outro para origem anglo-saxônica, e outro para alunos de origem oriental.

No entanto, é importante destacar que nenhum método é definitivo. Cada professor precisa avaliar a necessidade de seus alunos e preparar, também, material próprio. As revistas, jornais, noticiários atuais, panfletos, são uma rica fonte do idioma vivo utilizado no dia a dia. Existem várias maneiras de complementar as aulas e é importante que o professor perceba e desenvolva o melhor para as necessidades de seus alunos.

PGL: O que os países lusófonos (em especial o Brasil) precisam fazer para a internacionalização do ensino da língua portuguesa?

SF: Temos acompanhado uma crescente valorização de nosso País, da economia, e tudo isso se reflete, também, no ‘prestígio’ da língua. No entanto, muitas vezes os próprios falantes nativos não percebem, ou não valorizam essa riqueza. A língua portuguesa precisa, cada vez mais, de falantes e professores especializados para o ensino. A preparação e seriedade necessária para ensinar o idioma também podem ser lembradas aqui.

Talvez tenhamos a necessidade de desenvolver uma conscientização sobre todos estes pontos para o mundo e para os falantes nativos. Imagine o tamanho do Brasil e o número de falantes que temos aqui, isso não pode ser ignorado!

Em primeiro plano, Susanna Florissi

PGL: Como atuam HUB Editorial e da SBS? Quais são os principais autores e/ou lançamentos?

SF: A SBS é, agora, um selo da HUB Editorial. A HUB está focada na produção e distribuição de materiais na área de Educação, Tradução e Ensino de Idiomas.

Como disse anteriormente, a Editora SBS publica a série Bem-Vindo! A Língua Portuguesa no Mundo da Comunicação, composta por um Livro do Aluno, três cadernos de exercícios (Caderno de Exercícios para Alunos de Origem Asiática; Caderno de Exercícios para Alunos de Origem Anglo-Saxônica; Caderno de Exercícios para Alunos de Origem Latina); Livro do Professor, Encarte de Respostas e pack com quatro CDs de áudio. No site da SBS é possível encontrar mais informações sobre esses produtos. Recentemente, lançamos a versão digital do Livro do Aluno de Bem-Vindo!, no endereço http://www.bem-vindodigital.com.br, é possível ver um vídeo explicativo sobre o produto.

A Editora SBS também trabalha com a série Tudo Bem? Português para Nova Geração, material para o ensino de PLE publicado pelas mesmas autoras de Bem-Vindo!, focado no público adolescente. Na Internet é possível visualizar alguns trechos do livro.

Virando a Página, outro sucesso de vendas, acaba de ganhar uma nova edição ampliada e acompanhada de um DVD-ROM com dezenas de atividades interativas em seis idiomas.

Já as séries destacam-se pelo foco em necessidades específicas. Mil & Um Termos (glossários), Front Line (gramática da língua inglesa), Expansão (aperfeiçoamento profissional de professores) e os Dicionários Visuais (editados em diversos idiomas) se caracterizam por oferecer soluções práticas e eficientes, produtos da busca constante pela qualidade máxima no resultado final.
Seria interessante mencionar também nossa revista eletrônica Siriguela, voltada justamente a professores de PLE.

PGL: Existem as máximas de que “brasileiro não lê o suficiente” e que temos “poucas livrarias no Brasil”, apesar da enorme quantidade de títulos lançados pelas editoras. Estas máximas são verdadeiras? Como se explica tantos lançamentos no país?

SF: Muitas dessas afirmações são feitas comparando o Brasil com outros países que têm uma história e realidade totalmente diferentes.

Embora por diversas questões muitas pessoas ainda não tenham o hábito da leitura, não há como negar que, nos últimos anos, o número de pessoas que lê e que vai às livrarias aumenta cada vez mais. Minha experiência como diretora de uma Editora e meu atual cargo na CBL (Câmara Brasileira do Livro) me permitem acompanhar certas mudanças de perto, e o número de livrarias, de títulos lançados, de livros vendidos é crescente nos últimos anos.

Acredito que o desenvolvimento nacional em muitos sentidos, inclusive o econômico, tem contribuído para esse aumento. Até a produção acadêmica tem aumentado, além de haver um incentivo maior para criação artística nos mais diversos meios, o que explica também o maior número de lançamentos. O acesso pelo meio digital torna a leitura muito mais atrativa para uma geração que já nasce imersa nessa realidade.

A leitura pelo prazer, e não apenas pela obrigatoriedade nas escolas, por exemplo, também é perceptível nos últimos anos. Há títulos para os mais variados gostos e interesses, dos mais diversos preços.

PGL: Na Galiza, diversas ações estão em curso para o ensino da Língua Portuguesa. O que a senhora pode indicar ou orientar para estes novos alunos e professores para alcançarem bom domínio da língua?

SF: Fico muito feliz em saber desse interesse e ações para o ensino de língua portuguesa na Galiza, inclusive adoraria receber mais informações a respeito.

Acredito que é importante trabalhar com bons profissionais e bons materiais. Não se pode esquecer que nenhum idioma existe sozinho; ele precisa estar inserido na cultura, no dia a dia, nos costumes e hábitos locais.

Capa do número de abril da revista Siriguela
[prima aqui para alargar a imagem]

 

Conheça Susanna Florissi

Diretora Internacional da SBS – Special Book Services e da HUB Editorial, empresa do mesmo Grupo, proprietária da Torre de Babel Idiomas e sócia da Editora Galpão. Formada pela Universidade Católica de Pernambuco, é pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC Campinas com curso de Aperfeiçoamento para Executivos do Mercado Editorial, MBA FIA. É Diretora Livreira da CBL – Câmara Brasileira do Livro e faz parte da Comissão Organizadora do Prêmio Jabuti e da Comissão do Livro Digital da mesma CBL.

É autora de materiais didáticos impressos e digitais e coautora dos títulos campeões de vendas para o ensino de português como língua estrangeira (PLE) Bem-Vindo! A Língua Portuguesa no Mundo da Comunicação, Tudo Bem? Português para a Nova Geração e Panorama Brasil – Ensino do Português do Mundo dos Negócios. Convidada a palestrar sobre conteúdo digital, redes sociais e sobre o universo PLE por entidades como a Universidade Anhembi-Morumbi, Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Maranhão, CBL, SBS, Universidade de Salzburg (Áustria), AOTP – American Organization of Teachers of Portuguese (Miami – EUA) e em encontros presenciais de professores de PLE na Universidade de Columbia (NY – EUA), no Consulado de Portugal em Sevilha (Espanha), no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, em Fortaleza e em Recife.

 

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