José Paz Rodrigues (*) – O dia 21 de junho é o Dia Mundial e Europeu da Música, que, no nosso país se celebra desde 1986. Segundo Werber, a música é a verdadeira linguagem universal, e não lhe falta razão. O meu admirado Tagore dizia “A música sente o infinito no ar; a pintura na terra; e o poema, que é música e palavra, o sente na terra e no ar, porque tem o sentido que caminha e a melodia que voa”.
O ser humano foi fazendo-se homem desde a escura e silenciosa noite… Desde o início dos tempos, foi embalado por ruídos, gritos, ritmos, sons e silêncios… Depois aprendeu a palpitar ouvindo os batimentos dum coração próximo. E aprendeu a viver em meio de sons e silêncios da natureza. E aprendeu a mexer-se arrolado pelo suave movimento de uns braços, e começou a ver o mundo acariciado pelo som da voz próxima e cadenciosa. E dançou ao ritmo dos batimentos da Terra. E bailou ao ritmo das estações. E mudou ao ritmo das noites e dos dias, das estações e os anos… e transformou alguns dias em festa, sempre mediante a música que brota do coração. E dançou e bailou ao som da música. E cantou a dor e a alegria. E concretizou a oração na música. Ao criarem-se as catedrais nasceu o universo onde a música ressoou formosa (gregoriana, polifónica, instrumental, dodecafónica até chegar à pop). Foi-se enchendo o mundo de minuetos, rondós, motetes, óperas, valsas, mazurcas, sinfonias e canções de todo o tipo até hoje, que a música é património da humanidade.
O grande amigo de Tagore, Keyserling, chegou a dizer: “Desde os alvores da humanidade outorgou-se à música um posto privilegiado entre as artes. Consciente ou inconscientemente, foi considerada sempre como a expressão e transmissão do cósmico, de algo que estava para além do mundo dos homens, enquanto as outras artes tinham a sua origem no homem. Por isso a música recebeu diversas explicações metafísicas. Todas as doutrinas esotéricas proclamam que o fenómeno de determinados planos de elevada realidade consiste em tons. O canto e o som das harpas consideravam-se como a linguagem dos anjos. Os pitagóricos falavam da harmonia das esferas celestiais; para eles o sistema planetário não era apenas simbólico, como também um problema de harmonia e melodia”.
Com motivo da próxima comemoração do Dia da Música escolhi, para a minha série das aulas no cinema, um filme prodigioso: “Todas as manhãs do mundo”, no qual existe uma longa reflexão sobre a natureza da música, de forma muito elevada. Filmes sobre grandes músicos existem muitos, mas filmes sobre a música e o seu adequado ensino muito poucos, e este é o mais profundo de todos. E poucas obras, mesmo as filosóficas, conseguiram falar sobre música de uma forma tão bela. Por este motivo, por ser uma longa reflexão sobre a natureza da música, que este filme tem um valor tão elevado. E eu também quero que sirva, agora que infelizmente se volta a marginar pelos atuais poderes públicos as áreas artísticas no ensino, e, entre elas a música, para reivindicar que esta é, possivelmente, aquela disciplina que tem mais a ver com a criação de sensibilidade, afetividade e inteligência emocional nos nossos estudantes. Por ser também produto das aprendizagens mais importantes para os seres humanos e a sua vida e felicidade, que são as aprendizagens apreciativas. Tão equivocadamente marginadas e subvalorizadas nos últimos tempos, pelo que no mundo atual ocidental tanta ausência de valores há, e temos a crise que temos, com infinidade de pessoas sem qualquer atitude ética e solidária. Basta com ler grandes autores e ver que a música está muito em relacionamento com o coração dos seres humanos. E não só há que educar a mente, também, e ainda mais, há que educar o coração. Um dos melhores meios, sem dúvida, é a educação musical, com estratégias didáticas adequadas e motivadoras, dos nossos estudantes.
Ficha técnica do filme:
Título original: Tous les matins du monde (Todas as manhãs do mundo / Todas las mañanas del mundo)
Diretor: Alain Corneau (França, 1991, 114 min., a cores. 8 prémios dos César 91)
Roteiro: Baseado no romance do mesmo título de Pascal Quignard.
Música: Jordi Savall. Fotografia : Yves Angelo.
Atores: Jean-Pierre Marielle (Sainte Colombe), Guillaume Depardieu (Marais jovem), Gérard Depardieu (Marais adulto), Anne Brochet, Caroline Sihol e Carole Richert.
Argumento: No século XVII, o músico da corte de Luís XIV, Marin Marais, relembra a sua introdução no mundo musical supervisionado pelo seu rigoroso mestre de viola de gamba, Sainte Colombe. O filme conta com as composições originais da época, de que são autores os músicos Jean-Baptiste Lully e François Couperin. O filme começa numa situação que qualquer pessoa que faz música já experimentou: as notas estão certas, a partitura está sendo fidedignamente reproduzida, mas ainda assim, o resultado não é agradável, o resultado não é musical. Toda a pessoa que já tocou algum instrumento já foi criticada por tocar errado, mesmo estando aparentemente certa. Desta forma, a cena tem uma insuspeita familiaridade com todos. Num primeiro momento o professor explica: “Toda a nota deve terminar descendo” e os músicos começam tocando, de maneira praticamente idêntica e Marais, irritado, resolve dar uma aula para os seus músicos, sobre como tocar, “Marin Marais faz a sua lição!”. Mas, antes de falar tecnicamente sobre música, Marais resolve contar a história da sua aprendizagem.
A história básica é de como o gambista Marin Marais, após ter tido aulas com todos os grandes gambistas da corte francesa, se aproxima do compositor e gambista misantropo St. Colombe. Considerado por todos o melhor gambista do seu tempo, ele tinha, desde a morte da sua esposa, abandonado toda a vida da corte e passado a viver austeramente com as suas duas filhas, a quem ele ensina toda a sua arte, numa propriedade rural do interior da França. Depois de uma breve exibição de Marais, St. Colombe resiste, mas acaba aceitando-o como aluno. Marais envolve-se amorosamente com uma das suas filhas, mas não consegue cativar o professor, que sempre o trata de maneira rude. Marais acaba por se afastar do mestre e indo viver na corte, onde ele consegue a posição de chefe da orquestra de Lully, assumindo a sua posição de compositor da corte depois da morte do grande italiano. Ele rejeita a filha de St. Colombe, grávida dele, por alguma beldade da corte. Algum tempo depois, com a gravidez tendo resultado numa criança natimorta, a filha está gravemente doente e pede para que Marais toque para ela uma peça que ele havia composto para ela anos antes, ele toca e, logo depois de sair, ela suicida-se.
Tempos depois, Marais, algo desiludido com a sua vida na corte, sente vontade de ouvir a música de St. Colombe e volta, escondido, para ouvi-lo, agora sozinho, já que a sua outra filha se tinha casado. Numa dessas noites, Marais surpreende St. Colombe conversando com a sua esposa (que sempre lhe aparecia em visões) e decide ir falar com ele. Ao contrário das outras vezes em que acolhera Marais rudemente, agora St. Colombe decide dar-lhe não uma última lição, como tinha sido pedido, mas a sua primeira lição sobre música. E é essa lição que ele repete aos seus músicos. O Marais jovem que tocava para St. Colombe estava tão errado quanto os músicos da sua orquestra que tentavam tocar para ele. St. Colombe dizia repetidamente: “Vós fazeis música, mas vós não sois músico”. O talento ele tinha, o conhecimento técnico estava lá, mas faltava algo. E o filme fala desse algo.
Só se pode ensinar bem aquilo que se ama:
Temos que coincidir com Tagore, que também foi um músico excelente, além de pintor, filósofo, educador e escritor, ao dizer que só se pode ensinar bem o que realmente se ama. O mestre do filme Jean de Sainte-Colombe, que toca de forma primorosa a viola de gamba, ensina música às suas duas e formosas filhas, e ao famoso compositor do barroco francês Marin Marais. O filme é contado por este, sobre a sua experiência de aluno e a sua história de aprendizagem musical, que vai adquirindo pelo ensino daquele grande mestre, que ama a música como ninguém. A música é uma linguagem que só consegue exprimir-se quando as palavras não podem, nesse sentido, comenta o mestre, ela não é humana e fala com tudo aquilo que não tem palavra. A música é também a linguagem do indizível, só consegue exprimir aquilo que não tem palavras para se exprimir, por isso que é tão difícil falar sobre música, porque ela, quando está sendo música em seu mais alto grau, recusa as próprias palavras. E este filme deixa isso muito claro.
Tanto no romance como no filme, existe uma narrativa esplêndida sobre a música, sobre uma família de três pessoas, um aluno, um conjunto de quatro violas: um pai e as suas filhas, um trio afinado que faz música, sob a mestria do mestre-músico e a sua dor, e um aluno jovem a aprender a tocar música. O mestre num princípio não acredita que Marais possa ser um músico, pois para ele uma cousa é ser um músico, outra é tocar música. E ser um músico tem a ver com a radicalidade da soidade, da não submissão ao outro, seja ele o rei ou toda a sua corte. Uma das questões que livro e filme oferecem é sem dúvida esta: o que é a música afinal? O mestre reconhece a destreza do seu discípulo com os instrumentos musicais, mas, diz ele: “O senhor nunca será um músico”, pois ser músico e tocar música são cousas diferentes, e a música não é feita para agradar ao rei ou ao mundo. Na última cena produz-se o reencontro do mestre e o seu discípulo já famoso, que o procura para confessar que busca a dor e as lágrimas, implorando-lhe: “Senhor, posso pedir-lhe uma última lição?”, ao qual lhe responde Sainte-Colombe com uma voz surda: “Senhor, posso tentar uma primeira lição?”, continuando: “A música apenas faz falar o que a palavra não pode falar. Assim ela não é totalmente humana. O senhor enfim descobriu que ela não é para o rei?”. Respondendo-lhe, Marais afirma que a música teria o seu sentido em Deus, ao qual o mestre retruca: “Vós enganais-vos, pois Deus fala”.
Segue-se todo um jogo de perguntas e tentativas de respostas relativas ao sentido da música, para finalmente Sainte-Colombe concluir que a música se faz pela sombra das crianças, pelos estados que precedem a infância, quando não havia nem o sopro nem a luz. Desta maneira o grande mestre de música passa ao seu discípulo a sua obra inédita, as árias “Túmulo das lamentações” e mais ainda a viola da sua filha amada, enganada e abandoada pelo aluno, nesse momento em que o antigo discípulo já teria feito, na sua soidade e dor, a aprendizagem das lágrimas, pois a música fala justamente aí onde as palavras fracassam. Entretanto, mais do que passar pela corda tensa da dor, Marais tenha podido ultrapassar o círculo estreito da melancolia. Finalmente, depois de muito refletir, o aluno que teve um mestre estupendo que amou sempre a música, termina por ser um grande músico e não só tocador instrumental da sua viola. Mesmo termina por ser um grande diretor orquestral e, supõe-se, também excelente mestre, ao ter antes um verdadeiro modelo docente de música.
O filme não trata da vida anterior de St. Colombe, ela é subtilmente deixada de lado, mas parece que o evento central da sua vida foi a morte de sua esposa. Desde então, ele passou a concentrar-se cada vez mais na música e a dar cada vez menos valor às cousas de fora da música. Porque a música é a única cousa capaz não de superar, mas de sublimar a dor da perda da sua mulher. Marais, ainda mais do que St. Colombe, viveu uma vida de ostentação, ele chegou a abandonar o seu mestre e o seu primeiro amor para a suntuosidade de Versalhes. Depois de algum tempo, o filme não é claro, mas é claramente depois da morte de Madeleine, essa vida deixou de ser suficiente para ele. Nessa desilusão ele retorna todas as noite em segredo à propriedade de St. Colombe para ouvir a sua música. Ela tinha-lhe bem mais a dizer do que os rococós de Versalhes.
Durante muitas décadas nas nossas escolas a música não teve um espaço no currículo escolar, como realmente merecia. E agora, com as tristes novas leis, volta a ser marginalizada. Mesmo nas culturas antigas e orientais era uma matéria muito importante. Na China as disciplinas fundamentais eram a música, a poesia e a cerimónia. Na Grécia as leis ditavam-se cantando e a educação estética era fundamental. Na Índia, ainda hoje, não se faz nada sem música… e sem flores. Quando falo de música no ensino não só estou a pensar na denominada clássica dos Bach, Vivaldi e Haendel, também da música étnica, da instrumental, da folclórica e, como é natural, também das canções de todo o tipo, e, claro está, das populares do nosso próprio folclore tão rico. Com acertadas estratégias didáticas temos que ensinar nos estabelecimentos escolares de todos os níveis, música e cantares aos nossos alunos, e, muito especialmente, que amem a música e que desfrutem com ela.
Temas para refletir, debater e realizar:
Por meio do Cinema-fórum, depois de ver este belo filme, analisamos a linguagem fílmica utilizada pelo diretor, reparando na fotografia, na iluminação, nos planos e nas panorâmicas. Também, dentro dos aspetos relacionados com os conteúdos, debatemos sobre a psicologia das personagens, a riqueza e profundidade dos diálogos, a interpretação dos atores e as atitudes frente à vida que se manifestam nas personagens que encarnam. O debate central deve girar ao redor da natureza da música e da sua importância vital para os seres humanos. Podemos assim mesmo comentar algo sobre a história da música, em relação com os grandes músicos que no filme aparecem, e os movimentos musicais a que pertenciam.
Fazemos um plano de audições musicais que podemos organizar nas nossas aulas e estabelecimentos de ensino. Por exemplo: música barroca, música de algum grande músico, monográfica instrumental (violino, flauta, harpa, clarinete, violoncelo, piano, etc.), música étnica (harpa dos Andes, do Senegal e da Birmânia, flautas da América Latina, mundo árabe e Índia), cantores (Suso Vaamonde, Cesária Évora, Martinho da Vila, Chico Buarque, Fuxan os Ventos, A Roda, Bonga de Angola, canções brasileiras de Júlio Iglésias, Joan Baez, Violeta Parra, etc.), música folclórica (grupos galegos de gaitas, Carlos Nunhez, pandeireteiras, acordeões dos irmãos Moreira de Ponte Cesso, etc.). Pode incluir-se alguma audição organizada pelos nossos alunos de música de que gostem eles.
Organizamos um Obradoiro musical, em que os alunos podem construir singelos instrumentos musicais, com trabalhos manuais e materiais que oferece a natureza, ou bem de resíduos e reciclagem. Também um Clube musical, em que os estudantes podem elaborar monografias sobre músicos, cantores, géneros musicais, instrumentos musicais, etc. Em ambos há ser muito importante que aprendam cantigas populares e ademais, segundo os seus gostos, que aprendam a tocar algum instrumento musical: gaita-de-foles, pandeireta, guitarra, bateria, flauta, violino, harmónio, clarinete, etc. O Clube pode organizar alguma atividade com músicos da localidade e área onde fica o estabelecimento de ensino, entrevistas com eles, palestras e mesmo atuações ao vivo. Os estudantes podem elaborar listas de CD de diferentes tipos de música que existem no mercado, listas de filmes sobre músicos importantes, sobre festivais musicais e sobre grupos musicais. E montar alguma exposição ou mostra relacionada com a música, com fotografias, desenhos, textos, cartazes, murais, instrumentos musicais, livros, CD e DVD.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.




