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Ricardo Cabanelas, designer em Ourense

PGL – Ricardo Cabalenas é designer em Ourense. Nos anos 90 navegou com o MDL e a Gente da Barreira. Não gosta dos dogmas de fé. Chegou ao reintegracionismo via Timor. Aposta por criar estruturas cívicas de criação cultural e funcionar em rede.

Ricardo Cabanelas, apesar da sua juventude, é um veterano no ativismo sócio-linguístico. Nos anos 90 fijo parte de Gente da Barreira e foi membro fundador do MDL. Que lembras daquela época?

Já passara a barafunda da constituição da autonomia, o Bloque em ascenso eleitoral e o independentismo com uma certa presença na rua. A AGAL naqueles tempos estava um bocado ausente. Eu não conhecia na altura a luta por ser a norma oficial e todos os movimentos se deram em volta. O triunfo do isolacionismo duro tinha sido um golpe enorme.

Aparecera um ativismo de base, muito dinâmico, que dava a batalha na rua. Assim por todo o pais havia grupos organizados que trabalhavam com estratégia reintegracionista, entre outros: Artábria em Ferrol; Aquem Douro em Tui; Bonaval em Compostela e Gente da Barreira e Meendinho em Ourense.

A experiência do MDL foi o seguinte passo. Foi a tentativa de coordenar todos esses esforços numa frente comum. A fórmula deve soar conhecida ;). Como muitos dos que entramos naquela altura nestas lérias, éramos filhos do Bloco, ainda que não militáramos nele. E como bons filhinhos que éramos, repetimos o bom e o mau do nosso paizinho. Muita vontade e pouca experiência. Pagamos a falta de conexão com a geração anterior e a pouca experiência organizativa. Também esse chauvinismo galego defensivo que a tanta gente escorrentou, comum para todos os pertencentes à raça nacionalista e polo que se vê, em pleno processo de revisão.

A isso somou-se que o MDL foi o primeiro grupo reintegracionista de carácter nacional criado depois do assentamento da norma ILG. Muitas ideias e propostas foram debatidas por primeira vez no MDL. Isto implicou um desgaste enorme e não poucos desencontros. A parte positiva é que muitas delas hoje são aceites por todo o mundo e formam parte do comum. A outra grande parte positiva foi a grande quantidade de pessoas magníficas que passaram por lá e que continuam a dar o seu melhor polo país.

Com a perspetiva que dá o tempo, e após esse teu trabalho nos denominados grupos reintegracionistas de base, que estratégia achas ser a mais adequada para a sociabilização do reintegracionismo? Por onde devemos transitar? Que devemos deixar atrás?

Essa é a grande pergunta que se está a fazer médio país! Polo que se vê não é fácil responder. A língua é o resultado do esforço adaptativo dos galegos e galegas ao longo do tempo para comunicar-se entre si dentro do seu habitat. Como dizia Castelao, o galego é a melhor ferramenta de comunicação entre os galegos.

O problema vem quando aparece o capitalismo em estado desenvolvido por todos os recantos da nossa terrinha, mudando o habitat de maneira brutal. Se a isso somamos a mitificação do rural como essência do sumum galego por parte do nacionalismo recente e a migração de gentes do rural à cidade com o seu desclassamento e auto-ódio do que significa o rural, temos um panorama bastante revolvido. E sem esquecer o aparelho de estado totalmente castelhano e a crescente fagotização por parte da extrema direita espanhola do verniz galeguista da direita autónoma.

Eu penso que neste panorama, um dos erros é considerar a língua como um fim e não como um meio. Algo de muito valor, imprescindível e irrenunciável mas um meio. No fim de contas, o pessoal utiliza a língua para falar, para comunicar-se. No momento que se mitifica e gira sobre ela todo o peso dum país, saímos das coordenadas da gente.

Mesmo no processo de mitificação, fai-se com partes isoladas, muitas vezes inconexas e descartando outras por desconhecimento ou por não encaixar no mito. Assim muitas vezes, os falantes galegos “do país” não se sentem identificados com teses nacionalistas ou diretamente vem essas posições com desconfiança.

O país que levo descobrindo durante estes anos de militância e observação é um país menos romântico e ideal; bastante mais besta e canalha mas também muito mais rico, aliciante e vivo do que tinha na minha mente inicialmente.

Portanto, temos que deixar atrás os dogmas de fé?

Com certeza. Gosto muito do nome que se lhe esta a dar à nossa postura por parte da AGAL: estratégia reintegracionista. Mesmo é isso. O reintegracionismo é estratégico para o projeto de país.

Coletivamente, as gentes da Galiza têm que tomar a decisão de caminhar por aí. Não é uma verdade absoluta nem uma revelação divina. É uma decisão. Com muitas mais vantagens que inconvenientes, isso sim. Mas com custes que a cidadania galega tem de assumir se quer manter a sua cultura, não há outra.

Essa decisão há que induzi-la e colocar os elementos necessários para tomá-la. Como acontece com todas as decisões coletivas. Nisso consiste o trabalho cultural do reintegracionismo. Um trabalho também político. Não na versão institucional/eleitoral, mas sim na toma de decisões coletivas para irmos por um ou outro caminho. Vejo a igreja ou elementos da banca que fazem política todos os dias. Nós também temos de fazê-la.

Mais que considerar as gentes da Galiza como ovelhas perdidas e o nosso objetivo a sua conversão à reta moral, haverá que demonstrar que o nosso caminho dá melhor resultado. O reintegracionismo é uma estratégia para fazer melhor a vida para todos os galegos e galegas. Não só para os nacionalistas, independentistas, intelectuais ou demais família. É para todos e todas. Mesmo para os que estão na nossa contra.

Como se deveria implementar?

Há que elaborar conteúdos, materiais e produtos que sejam bons e que ajudem, entretenham, façam sonhar e sejam ferramentas para todos os habitantes do planeta lusófono. Também cá, sejam ou não sejam da nossa tribo. Teremos que nos esforçar para esses materiais sejam úteis e/ou necessários para toda a sociedade. Galiza, célula de universalidade, diziam os nossos antergos da geração Nós.

A iniciativa de Uxia Senlle “Maria Fumaça” de realizar um trabalho conjunto com gentes galegas e brasileiras e mesmo utilizar como leif-motiv um elemento brasileiro na Galiza pode ser um bom exemplo.

Isso é um desafio para nós. Para realizar isso é necessário muito trabalho, contactos cá e lá, recursos e talento. Assumir isso só a partir da sociedade civil é bem fodido mas parece que não podemos confiar muito na vontade dos estamentos públicos.

Também este é um tempo de acordos. Polo que se vê no cenário político haverá que chegar a acordos de mínimos e fazermos plataformas amplas. De todas as partes haverá que ceder porque o inimigo cada vez é mais grande e não só para nós. Tal como está o panorama não vejo que a gente que tomara a via isolacionista esteja para botar muitos foguetes.

Na minha opinião, e tal como vão correndo os últimos tempos, haverá que habilitar caminhos alternativos para continuarmos a trabalhar na nossa estratégia mas não girarmos em torna da ortografia exclusivamente. Estou a falar nomeadamente de espaços onde o espanhol é a língua total e o mesmo o galego “oficial” tem uma presença testemunhal: o âmbito jurídico, o sanitário, o técnico-industrial ou a linguagem da administração, entre outros. Âmbitos onde há que penetrar e onde a estratégia reintegracionista poderia oferecer amplas vantagens.

Por exemplo, que opinião teria o pessoal reintegracionista se uma organização sectorial de âmbito científico que trabalhasse pela difusão de conteúdos em galego, tivesse uma parceria com a AGAL ou outro coletivo reintegracionista qualquer para harmonizar o léxico e a morfologia para padrões lusófonos empregando a ortografia oficial? Seria positivo ou uma traição para os nossos objetivos?

No país há gente organizada sem preconceitos que emprega a ortografia oficial e que poderia chegar a esta parceria. Haveria que atar os detalhes e termos todos boa vontade e atitude ampla. Na minha opinião, este tipo de parcerias seriam positivas para todas as partes. O nosso esforço deve estar encaminhado para alcançar maiorias sociais que apoiem a estratégia reintegracionista. A gente organizada no reintegracionismo na atualidade, passou à outra beira nadando. Para termos uma maioria social que nos apoie há que construir pontes. Cá deixo esta opinião para o seu debate.

Também há que reclamar altura às elites da cultura galega atual. Deviam afrouxar um bocado a corda. Não sei que problema teria o sistema cultural galego se se deixasse circular livremente, e por veículos oficiais, os conteúdos escritos em norma lusófona. Penso que nenhum. Também não sei que problema teria para a nossa identidade que o português fosse adotado como a principal língua diplomática. Acho mais produtivo isso que andar gastando fôlegos em batalhar por uma oficialidade de segunda classe. E isso onde haja hipótese de dar o debate. Na maioria dos lugares, nem isso.

O caminho que se está a levar na AGAL penso que é muito bom. Os workshops OPS ou os APORTO são iniciativas magníficas de entrar em contacto e conhecer de primeira as vantagens da nossa “estratégia”. Também tem feito um grande trabalho na edição de materiais com recursos bastante escassos.

 

“O nosso esforço deve estar encaminhado para alcançar maiorias sociais que apoiem a estratégia reintegracionista”

 

O teu âmbito de trabalho é o desenho gráfico. Qual é a tua opinião dos materiais que se estão a fazer dentro do reintegracionismo?

Tem melhorado muito mas ainda há que melhorar mais. No design há que estar sempre em movimento e hoje o bom design está por toda parte. Qualquer app de telemóvel, jogos ou tablets estão magnificamente desenhados. O nosso objetivo tem de ser chegar a esse nível e fornecer à gente os nossos materiais nos novos suportes.

Esse também é outro desafio e também para todos. O panorama para Galaxia ou Xerais com todo isto dos leitores eletrónicos, as tablets e as plataformas de compra de Apple e Amazon não dá para muita festa. Aparecia nos jornais que Random House e Penguin se fusionaram. Se eles, sendo uns gigantes da produção cultural e da edição, juntam-se para antepor-se a Apple e Amazon, não sei que andamos aguardando os galegos para nos pôr de acordo e trabalharmos todos juntos.

Ricardo Cabanelas mora e trabalha em Ourense, uma das cidades galegas onde o galego tem uma maior presença social. Em tua opinião, esta presença, está a aumentar ou a recuar? Como se vive sendo galego-falante na cidade das Burgas?

Ourense tem um vínculo com o entorno rural muito intensa. Isso dá-lhe uma presença grande ao galego. Também o rasto da galeguidade pesa muito. Pessoas como Blanco Amor ou Otero Pedraio continuar a pesar e gente do centro e de classe alta continuam a respeitar estas figuras. Há como uma espécie de acordo entre todas as partes de respeitar os vultos galeguistas. Baltar, como presidente da deputação, assiste aos homenagens de Alexandre Bóveda. Cada um pode analisá-lo como queira mas Louzan não o tenho visto.

Por outro lado penso que está a recuar o número de falantes ainda que há espaços onde o galego ainda é maioritário. Com tudo estou a perceber um fenómeno que já vivim na costa há anos e que aqui ainda não se dera com tanta magnitude. Mães galego-falantes ensinando castelhano aos filhos. Digo mães porque tenho constatado que é um fenómeno maioritariamente feminino (é a minha impressão, não é evidência científica nem dogma de fé).

No momento de educar os teus filhos, que atendam na câmara municipal ou no hospital em galego, aí como em todas partes: vontade de ferro pola nossa parte e questão de sorte na parte oficial. O rácio de gente do país por cá ainda é bastante aceitável mas também há bastantes repugnantes.

Ricardo, quando descobres que o galego era mais e melhor do que aparecia nos manuais escolares?

Entrei em contacto com o reintegracionismo quando comecei a colaborar na Gente da Barreira. Assisti a um curso de galego mas isso do lusismo, reintegracionismo soava bastante estranho. Li cousas dum lado e doutro, informei-me mas sempre um bocado desconfiado. Até que um dia o Alonso de Aquem-Douro trouxe o Luís Cardoso a apresentar o seu último livro na altura, Crónica duma travesia. Luís Cardoso é de Timor Leste e quando escutei esse homem do outro lado do mundo falar como os meus parentes da ria de Pontevedra, pois teve que me foder e fazer-me lusopata 🙂

Que te induziu a te tornares sócio da AGAL? Que esperas da associação?

É um passo que deveria ter dado há bem tempo. Aí o camará Valentim foi quem deu o empurrão final. Da associação espero que continue com este caminho de trabalho em equipa, objetivos claros e atitude contemporânea.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

O nosso senhor presidente, Alberto Núñez Feijoo, governará a Galiza até 2016. Se estamos vivos daquela, o que gostaria de ver é uma sociedade organizada, ampla e proativa. Defendendo-nos e mas também avançando. Criando estruturas cívicas de criação cultural (em sentido amplo) e funcionando em rede. E no momento que venha uma nova moda da caverna de Madrid ou os seus sicários não sermos tão vulneráveis.

 

Conhecendo Ricardo Cabanelas


Um sítio web: www.ideafixa.org. Tem uns quadrinhos que se chamam “Malditos Designers” que é escaralhar-se.

Um invento: O Photoshop.

Uma música: Do mundo lusófono gosto muito de Arnaldo Antunes. Anda na linha limite entre a criação artística e o pop comercial mas sempre resolve bem. Sempre tem um cheiro da sua face de poeta concreto. Também estão os Autoramas, Tom Zê, Os Mutantes, os Mão Morta ou Domenico.

Da Galiza do que tenho mais gostado ultimamente é o Emilio José. É um fenómeno.Do resto do mundo, Sonic Youth é um dous meus grupos de referencia. Ultimamente também malho muito nos Stereolab.

Um livro: Do mundo lusófono, o que tenho lido de Lobo Antunes. Os Cus de Judas parece-me um livro fodidamente magnético. Do resto do mundo destaco a Italo Calvino.

Um facto histórico: A revolução soviética e os seus primeiros anos.

Um prato na mesa: Polvo à feira

Um desporto: Roteirismo ainda que está bastante abandonado.

Um filme: Dogville de Lars von Trier.

Uma maravilha: A minha filha.

Além de galego/a: Uma cousa vai com a outra. A minha condição de galego está teimudamente colada a mim. Assim como o cacau no leite 😉

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