Por Alexandre Anhel Cuquejo
Para o maltratador, a palavra divórcio e o de se libertarem do seu domínio e submetimento, enerva-os.
O retrato que coloco a seguir reflete muito bem o maltratador. É uma personagem desprezível, a quem nenhuma pessoa no seu são juízo, vai defender hoje em dia. Socialmente é uma personagem execrável.
Criou-se num ambiente de maus tratos, onde a dominação do outro é o resultado da violência.
Geralmente é amável e encantador no relacionamento, porém se a sua vítima discutir a sua relação, torna-se muito violento.
A violência com a sua vítima está presente sempre, mas a sua institucionalização parece ocultar a sua sistematicidade, porém quer sempre o controle absoluto do outro.
Tem todos os direitos sobre o outro; direitos que muitas vezes percebe que nascem e se reforçam na violência.
Amor e carinho significa para ele, que o outro é a sua posse, quer dizer, mais uma propriedade. É ciumento em extremo. Ao controle e submetimento do outro chama amor e carinho.
Os seus atos ameaçantes, a sua violência, é um jeito de melhorar a sua autoestima.
Sustenta com força uma ideia muito rígida dos diferentes papéis dos submetidos. Ele nunca dá erros, nunca estraga.
Pretende uma educação rígida e wertiana, incluindo penas e correções. Impondo um poder autoritário.
Tem uma longa história em que o seu sucesso é associado ao resultado da sua violência, e isso faz parte do seu acervo cultural e histórico, nada de direito tem nesse âmbito o outro.
A culpa sempre é do outro, é incapaz de se perceber de jeito objetivo.
Prefere o outro morto, antes do que vivendo e libertado do seu controle e submetimento. Isso é-lhe insuportável, pois confunde amor com posse, e seu “amor” é para ele a fonte da sua violência.
O maltrato, e o matar o outro, no estado espanhol tem longa história. Eis um ilustrativo exemplo: Nas normas militares de aplicação também aos corpos de segurança do estado, conhecidas como ordenanças militares, e que estiveram em vigor até a atual Constituição espanhola que suprimiu os tribunais de honra, figurava expressamente: O militar espanhol que sendo desonrado pela sua mulher não lavar a sua honra com o seu sangue (matar), perderá a condição de membro das forças armadas e corpos de segurança.
Foram milhares as mulheres que nesse especial estado de necessidade foram assassinadas pelos seus companheiros militares…. é mais uma história que está sem se fazer1.
A doutrina do Supremo Tribunal do Estado, nesta matéria para o âmbito civil, aceitava sistematicamente a existência do estado de necessidade. Pois o possuidor – esposo – está sempre legitimado para exercer violência sobre o seu par, (o outro), incluído o de lhe dar morte, e com isso lavar a sua honra.
Essa violência não era publicamente divulgada, era uma violência silenciada.
Esta violência também se dá igual nas instituições humanas
Mas o que você acaba de ler é uma realidade que não só se dá com seres humanos. Dá-se também com instituições criação dos seres humanos. O que vimos antes é também um retrato muito exato,dessa realidade política chamada Castela-Espanha, e o seu centro, esse black hole conhecido como Madrid, em expressão muito precisa do professor Xavier Vence.
Espanha (Castela-Espanha) é com certeza um dos estados que viveu todos os processos de autodeterminação de partes da sua integralidade jurídica em cada altura histórica, com o jeito do maltratador, o que contrasta com esses mesmos comportamentos noutros estados europeus, sendo em muitos deles, modelares.
Contra o maltrato há uma série de normas corretoras, a primeira delas é trazer à tona essa violência, fazê-la pública e conhecida. Isso converte-se no primeiro passo para combatê-la, o conhecimento público, e a consequente condena e perseguição do maltratador.
Fazer luz sobre as situações em que se produz o maltrato é fulcral para combatê-lo, ninguém se preocupa do que não sabe, a solidariedade e ação sempre é ativa e parte do conhecimento. Conhecer com precisão quem se acha nessa situação de risco, e chave para elaborarmos medidas de proteção.
Até agora Castela-Espanha sempre usou a violência livre e liberalmente contra dos outros. Quero-os e encho-os de bombas – cada 50 anos que diziam os Espartero de turno. Modifica a sua história, nega-lhes a sua individualidade e ama-os tanto que quer anulá-los e se não chegar, matá-los.
Hoje estamos na União Europeia, isso tem muitos incómodos, mas também muitas importantes vantagens, a primeira é que os processos de libertação na Espanha, (esse cárcere de povos brutal e no seio da qual não vão poder sobreviver), os processos de autodeterminação, o que se chama o direito a decidir, já não é cousa que se possa agachar, já não é cousa de tirar mão de uma constituição mais ou menos acaída ou de levantar uma guerra e uma nova ditadura. Agora manda o quadro europeu, e a sua supremacia, por isso os catalães ainda não foram bombardeados e dizimados, pois Europa não quer tolerar outro modelo jugoslavo no seu seio, e os maltratadores hoje em dia não têm nem ordenanças, nem imprensa do seu lado.
Nota:
1 Também deu lugar a belezas literárias como o “esperpento” de Valle Inclán Los Cuernos de D. Friolera.
