Repressão vicária



Alex Rozados

No processo de recuperação da memória das mulheres, dissemos que a repressão que a ditadura exerceu contra elas tivo três peculiaridades: agressões sexuais, roubo de crianças e rapado da cabeça, junto com a ingestão forçada de óleo de rícino, a somar-se às restantes formas de repressão, comuns com os homens.

Porém, devemos considerar uma quarta forma de repressão específica: os maus-tratos às crianças, que cumpre visibilizar separadamente, devido às suas conotações e efeitos.
Nos anos do terror, muitas forom brutalmente torturadas quando estavam grávidas, como foi o caso de Mari Blázquez, cujo estado constava num relatório do hospital. Algumas crianças forom assassinadas na presença das suas mães, como no caso de Justa Mir. Quando forom para a deter, segurarom seu filho pequeno polas pernas e esmagarom a cabeça dele contra a parede… porque se chamava Lenine.

Algumas crianças forom assassinadas na presença das suas mães, como no caso de Justa Mir. Quando forom para a deter, segurarom seu filho pequeno polas pernas e esmagarom a cabeça dele contra a parede… porque se chamava Lenine.


Em muitas ocasiões, quando iam às suas casas para as prender, deixavam as crianças (às vezes bem novinhas) sozinhas, mas eles não se importavam com a idade. Foi o que aconteceu com algumas das libertárias galegas, como Consuelo Meitín, Sebastiana Vitales ou Josefa Barreiro. Noutras ocasiões as crianças sofriam maus-tratos diante das mães nas esquadras, nos quartéis da Falange ou em Governação, como por exemplo o filho da Fernanda Casado, de só dous meses de idade.
Outras tiverom que testemunhar a morte das suas crianças -menores de três anos e que estavam com elas nas prisões- de frio, de fame e de infecções não tratadas, como por exemplo em Ventas ou em Saturrarán, onde falecerom às dúzias. Todas tiverom que ver a cotio como privavam as meninhas e meninhos do contacto com elas, exceto durante uma hora por dia. No resto do tempo viam da janela como choravam de solidão e de frio no pátio da prisão, sem poderem sequer achegar-se a elas.
Esta repressão prolongou-se durante toda a ditadura. Mesmo no final dos anos 60 e já entrada a década de 70, meninhas e meninhos sofrerom tortura direta nas esquadras, como foi o caso do filho de Manolita del Arco, detido e torturado em várias ocasiões, a primeira quando tinha nove anos, ou do filho de Encarna Puentes, no ano 1972 em Ferrol, quando tinha oito meses de idade. As filhas de Divina García e a de Manola López, também pequeninhas, forom abaneadas violentamente e amedrontadas durante as constantes buscas nas suas casas.

Mesmo no final dos anos 60 e já entrada a década de 70, meninhas e meninhos sofrerom tortura direta nas esquadras, como foi o caso do filho de Manolita del Arco, detido e torturado em várias ocasiões, a primeira quando tinha nove anos, ou do filho de Encarna Puentes, no ano 1972 em Ferrol, quando tinha oito meses de idade.


Finalmente, devemos mencionar as ameaças de as filhas serem detidas e torturadas diante das mães. Também as simulações, normalmente reproduzindo no volume máximo uma gravação de crianças a chorar, fazendo que as detidas acreditassem que eram as suas.


Porquê repressão vicária?

A repressão política na ditadura franquista, desenhada polo Estado e executada polas polícias, o exército e a Falange, visava aniquilar a dissidência (e as dissidentes) e sementar o terror, dobrando assim a vontade da cidadania. Uma das dimensões dessa repressão foi a tortura -um exercício sistemático de violência institucional-, aplicada para arrancar uma confissão ou, o mais das vezes, para infligir sofrimento, nas asas do ódio e da sede de vingança. A pergunta é: para uma mulher há sofrimento maior do que ver como maltratam as suas filhas e filhos? O regime sabia que não, e por isso praticava esta modalidade repressiva. Portanto, cuido que o termo repressão vicária é perfeitamente apropriado para qualificar aquele horror.

A culpa como fonte de sofrimento
Muitas das sobreviventes da repressão franquista testemunharom que a dor que lhes causava ver sofrer dessa maneira as suas filhas e filhos era infinda, muito maior que a que lhes causava a tortura direta contra elas. Porém, a dor é uma construção complexa e abstrata que pode envolver diferentes traços emocionais. Provavelmente o traço mais marcante neste caso seja a culpa.
Numa perspetiva de género, a culpa acompanha as mulheres ao longo de toda a vida, porque é o método mais efetivo para perpetuar a posição de inferioridade que nos atribui o patriarcado. Podemo-nos sentir culpadas por cousas mui diferentes: o que fazemos, o que dizemos, pensamos ou omitimos, mas a maior culpa que podemos sentir prende-se com o facto de as nossas crianças sofrerem por “nossa causa”. O regime lembrou isto seguido a aquelas mulheres.

Podemo-nos sentir culpadas por cousas mui diferentes: o que fazemos, o que dizemos, pensamos ou omitimos, mas a maior culpa que podemos sentir prende-se com o facto de as nossas crianças sofrerem por “nossa causa”. O regime lembrou isto seguido a aquelas mulheres.


É verdade que a ideologia as protegeu em certa medida contra a culpa, aliviando o remorso e o arrependimento. Sabiam que o que fizeram fora luitar por uma causa justa e que os torturadores é que eram os culpados, mas isto não eliminava a angústia, que é o elemento mais punitivo da culpa. A angústia de vê-las morrer por causas evitáveis, de vê-las sofrer e não as poder acudir nem consolar, a incerteza de não saber o que irá acontecer com elas quando as deixarem abandonadas à sua sorte. A amargura por não lhes poder proporcionar alívio. A dor incomensurável que isto tem causado deve ser visibilizada como uma das formas mais cruéis de repressão contra as mulheres: a repressão vicária que sofrerom milhares delas, muito para além daquelas citadas como exemplo.

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]

Lola Ferreiro Díaz
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