Brincadeira ou agressão?



Alex Rozados

Levo pensado muito nas agressões que se pretendem disfarçar de brincadeiras… ou nessas brincadeiras que na realidade são agressões. Também, quando a pessoa prejudicada se queixa ou protesta, quem a agrediu visa apresentar esta como uma intolerante, sem sentido do humor nem capacidade para se relacionar com as demais. Não é raro que o agressor seja apoiado por pessoas próximas a ele, que perfilam a teoria da brincadeira e da intolerância da pessoa prejudicada. Em fim, o que começou sendo uma agressão são agora três: a “brincadeira” propriamente dita, a desqualificação da pessoa prejudicada e a etiqueta que pende das pessoas que apoiam o agressor. Nem mais, nem menos.

O que começou sendo uma agressão são agora três: a “brincadeira” propriamente dita, a desqualificação da pessoa prejudicada e a etiqueta que pende das pessoas que apoiam o agressor.

As “brincadeiras” são às vezes verbais: um exemplo disto são as piadas, porque, que melhor brincadeira do que uma piada, não é? O que acontece é que muitas vezes são machistas, ou misóginas, ou racistas, ou homofóbicas, ou supremacistas em qualquer outro senso, que as converte em agressões e expressões de violência simbólica. De facto, o movimento feminista leva anos a insistir em que se devem rejeitar socialmente. Outras vezes são expressões que difamam, humilham ou ferem de qualquer outra forma uma pessoa, transmitindo-lhe (sempre com um sorriso ou risada) que não compreende as coisas, que é torpe, que não vale para isto ou para aquilo, sabendo que ferem… ou mesmo sem o saber.
Outras vezes as “brincadeiras” são ações violentas (ou muito violentas) às que se lhes tenta dar um senso ambíguo. Assustar alguém, meter medo, retirar-lhe a cadeira quando vai sentar, ou as famosas novatadas, que adoitam ser muito lesivas, até o ponto de existirem casos de morte como consequência. Também as há muito sofisticadas, como dar a alguém uma “surpresa” que implica decidir por ela, ou manter a incerteza sobre algum assunto, transmitindo que temos o dato que a resolve…
Se a ação não produzir dano (físico), escutamos: “Que exagerada!”. “Foi uma brincadeira”. “Não é para tanto”. “Nada aconteceu”. Evidentemente sem considerar o dano emocional. Mas quando há dano, então quem causou o mal entra num estado de pesar tão grande, tão grande, que algumas pessoas próximas podem mesmo não acudir a pessoa lesionada para consolar o “lesionador”.

Se a ação não produzir dano (físico), escutamos: “Que exagerada!”. “Foi uma brincadeira”. “Não é para tanto”. “Nada aconteceu”. Evidentemente sem considerar o dano emocional.

Seja como for, a tendência é “culpar” a pessoa prejudicada, por ser suscetível de mais, por não ter sentido do humor, por responder de maneira (disque) desproporcionada. É perverso, mas é assim.
Seja qual for o grau da “brincadeira”, esta sempre vem de uma posição de poder (já que logo, sempre é patriarcal) e não julga o efeito que pode causar na/s pessoa/s a quem vai dirigida. É um comportamento violento, fomentado por uma atitude egocêntrica.
Agora a cousa também leva o nome de “tradição”, como sucedeu no caso de residentes do C.M. Elías Ahúja, que se dirigiram às residentes do C. M. Santa Mónica assim: “¡Zorras! Salid de vuestras madrigueras como conejas. Sois unas putas ninfómanas. Os prometo que vais a follar todas en la capea. ¡Vamos, Ahúja!“. Todo isto é, disque, uma tradição, mas pedem desculpas polos berros machistas e comprometem-se a “mudar” as suas condutas… A sério? Por que se desculpam se é uma tradição? Se a consideram machista, por que (e, nomeadamente, para que) o fazem? E, além disto, uma conduta não muda se não mudam o resto dos elementos da atitude que a sustêm. Como muito, o que se pode é evitar comportamentos iguais em circunstâncias idênticas, ou praticar um condicionamento estilo pavloviano.

Afortunadamente, a pressão do Movimento Feminista fixo medrar a intolerância social contra este tipo de expressões de violência e, o que há trinta anos igual quedaria em nada, hoje é rejeitado pola maioria e as autoridades tenhem que sancionar os responsáveis (expulsão, expediente, investigação do Ministério Público). Acho que de aí vêm o pesar dos agressores… e os ânimos de algumas das agredidas a estes! “[Fizeram-no] sem intenção de realizar um discurso misógino nem muito menos denegrir-nos como mulheres”. Que bem traída a máxima da Simone de Beauvoir sobre que o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos.
Para rematar, do meu ponto de vista, uma brincadeira têm de fazer-lhe a mesma graça a quem a recebe que a quem a faz; o resto é violência, porque um sorriso ou uma risada não converte em brincadeira uma agressão.

 


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