Por Adela Figueroa Panisse
Contam na minha casa uma pequena história engraçada acerca das modas e da moral que o Regime Franquista impôs após o seu triunfo pelas armas desde o ano 1939. Vou-a tratar de recriar ao meu jeito baseando-me no que ouvi.
Lolinha agachou-se detrás do Arco da Porta de Carlos V que dava passagem à Praia do Parrote, na Corunha. Lá, em baixo, estavam as quatro moças que ela espiava. O grupo feminino semelhava estar à vontade sentadas no areal. Falavam e riam. Uma delas olhou em redor com ar vigiante e voltou-se para as outras. Todas olharam como ela, e, rindo, deixaram cair a parte de cima dos albornozes liberando o torso ao sol.
Debaixo da peça caída percebiam-se os fatos de banho. Eram do modelo antigo, dos de antes da guerra. Lolinha bem viu que não guardavam a norma que era agora recomendada. Não eram do modelo do Padre Laburu. Deixavam ver os ombros e as costas e o decote ficavam ao ar. Uma delas levantou-se para ir tomar banho. Do grupo das sentadas saiu uma bola que veio dar nas coxas da banhista. As outras riram às gargalhadas e correndo seguiram-na para a água. Lolinha desceu do seu miradouro para se juntar às moças .
– Já vos vi, o vosso fato de banho não é dos permitidos. O meu é-o. Modelo do Padre Laburu. E tirastes o albornoz. Como vos veja um guarda vai-vos prender a todas.
– Olha lá Lolinha, não sejas fastidiosa. Os fatos de banho temo-los já de antes e não vamos comprar um novo. Esse que tu dizes, é incómodo, tapa tudo e não deixa que te dê o sol.
– Eu não digo nada, mas como vos vejam, sem albornoz na areia, e sem o fato regulamentar, eu hei de me rir.
O grupo não deu por isso e continuaram com os seus jogos mergulhando todas quatro na água. A Lolinha ficou sozinha na areia a luzir o seu fato de banho que lhe cobria as pernas até o joelho e os braços até quase os pulsos. Uma ridícula saia ondeava-lhe sobre as coxas estando ela em pé a olhar para as banhistas que jogavam e riam no mar. Defronte delas o castelo de São Antão, na sua ilha, ainda sem unir-se à terra.
Sentou-se meio acabrunhada. Sentia-se só e invejosa do rir e dos jogos das outras. Mas estava a aguardar…
– Que, Lolinha, anda cá, vem-te banhar connosco.
A rapariga não se pôde negar a foi também para a água. Quando entrou no mar o seu fato de banho inchou como um balão molhado impedindo-lhe de nadar à vontade. As outras jogavam com a bola. A Lolinha tinha dificuldades para chegar onda elas porque não se movia bem, com aquele “instrumental”.
Uma das raparigas olhou para terra e alarmada deu aviso a todas: Uma parelha de guardas vinha andando pela esquina do passeio que sobe da Marinha ao Parrote, desde a Porta do Sol. (Ainda o prédio do Hotel Finisterre não estava construído e não ocultava a vista do passeio).
Rapidamente todas quatro saíram da água, vestiram-se como puderam, mesmo molhadas, de maneira que, quando os guardas chegaram à praia estavam prontas. Cabelos molhados e roupas apegadas ao corpo, mas nada reprovável contra a moral pública.
Ainda assim o guarda mais velho gritou-lhes desde a rua:
– Hei moças, vinde cá. Disseram que havia um grupo a tomar sol sem albornoz, e que umas raparigas andavam quase desnudas a exibirem-se pela praia, a tomar banho com os fatos de antes.
Não sabeis que isso está proibido.
– Mas nós, Sr. Guarda, estamos vestidas. Íamos para casa que são horas de comer.
– Bom, isso de comer já veremos. Por enquanto ides vir connosco para a esquadra. Já vos perguntarão e já contestareis o que tenhais que contestar. Lá é que vai ser.
Enquanto isso acontecia na beira da praia, a Lolinha não se dava amanhado com a água e com o seu fato de banho “regulamentar” que lhe dificultava os movimentos.
– E logo, aquela moça lá em baixo que faz?
– Se imos para a Esquadra tem de vir também. Nós sem ela não vamos!
– Anda cá rapariga. Tu também vens connosco. Acompanha-nos!!
Pelos baixos, o guarda mais velho rosnava:
– Ora essa! Agora temos de andar a carregar moças e banhistas. Vê-se que não há mais que fazer!…
Pobre Lolinha! Teve que cruzar pelo meio da Corunha trajada em modelo do Padre Laburu, molhada e mal calçada escoltada pelos guardas. Na carrinha as mulheres protestavam: Nora gritava: Vais ver o meu pai! Levar -nos assim sem a sua permissão! Ou então a Maria: o meu vai-vos culpar se apanho um resfriado. Somos gente decente e nenhum mal fizemos!
Na esquadra tomaram-lhes declarações, em meio da piada geral. Até alguma das raparigas fez alguma brincadeira para além de se queixar do frio. Nomeadamente quando olhavam para a parva da Lolinha que continuava trajada em fato de banho pois “a parelha” não lhe dera tempo de se vestir. Pedia, muito enfadada, que lhe deixassem chamar o seu pai pelo telefone. A sua família, da “cordoaria”, era conhecida por terem participado em passeios de republicanos perdedores da guerra.
As outras quatro olhavam-se umas para as outras e, mesmo naquela situação comprometida, riam com esse riso inconsciente e fácil das adolescentes, impossível de dominar naquela etapa etária e difícil de explicar em posteriores trechos da vida.
A Lolinha continuava a reclamar ao seu pai.
Finalmente este apareceu. Era um militar. Dos que acabavam de ganhar a guerra. Contra a imoralidade e contra o livre pensamento. Na defesa dos valores Pátrios e Religiosos.
Ao vê-la assim trajada em fato de banho na Esquadra, berrou com ela, agarrou-a por um braço e alastrou-a para fora.
Pelos vistos, uma moça tinha dado aviso acerca dumas banhistas na Praia do Parrote!
O pai gritava-lhe:
– E tu! Ainda és pior que elas! Olha-te agora molhada e sem roupa. Meio despida a dares escândalo diante de todos estes homens!
Não sei bem como acabou a Lolinha. Suponho que sem amigas. As outras foram para casa. Na inconsciência da juventude riam e faziam burla dela. Todas aprenderam a terem cuidado e levarem o albornoz no saco da praia.
Apostila
O fato de banho do Padre Laburu logo ficou em desuso ao deixar de ser obrigatório. Como norma de obrigado cumprimento foi decretado após a guerra de Franco que ninguém poderia estar na praia, exibindo-se publicamente em fato de banho. O “albornoz” veio a ser uma peça imprescindível.
Para controlar a moral pública instituiu-se uma polícia moral que vigiava as praias e outras zonas que pudessem devir em “pecaminosas”. O modelo para fatos de banho de mulher era, oficialmente o do Padre Laburu. Fora concebido por este jesuíta para guardar a moralidade dos espanhóis que podiam ficar presos da luxúria e procacidade perante a visão duma mulher indecorosamente trajada. Cobriam o corpo até os joelhos e até os braços. Levavam uma pequena saia e todo o fato inchava ao se mergulhar na água, de jeito que dissimulava as curvas femininas.
Felizmente, na actualidade não temos temor dos nossos corpos. É uma felicidade deixar que o sol (quando sair) banhe a pele. É uma formosura a contemplação da gente bonita que ocupa as praias. Hoje tudo isso, albornozes e fatos de banho com saias, parece tão longínquo!
Mas pertence à nossa história mais recente. Aquela que condiz com corpos inermes nas “valetas” e fugidos nos montes. Exilados por terem cometido o só erro de quererem um mundo mais livre e igualitário.
Não esqueçamos na consciência, a difícil luta da mulher pela sua dignidade e a da igualdade de classes.
A praia do Parrote já não existe. Foi roubada ao povo e entregue, sob o governo de Francisco Vazquez como Presidente da Câmara Municipal da Corunha, a uma sociedade privada que construiu em seu lugar piscinas e espaços de lazer só permitidos aos sócios.
Adela Figueroa. Verão 2009. 70 anos depois da derrota da República.
