Partilhar

Reflexões após mais um 25N

“Si me matan, sacaré los brazos de la tumba y seré más fuerte”

Minerva Mirabal, rebelde dominicana

hermanamirabalÉ esta a frase duma mulher maltratada, duma mulher violada, duma mulher assassinada? A pessoa que a proferiu demonstra ter medo ao seu verdugo? Dá a sensação de precisar da ajuda do 016? Se a tua resposta a essas perguntas é diferente dum ‘Não’ bem alto e claro, então é melhor abandonares a leitura deste artigo.

Por que é que se convocam Dias D? Não é uma pergunta estranha. Fazemo-la quase todos os dias, pois quase todos os dias é um Dia D dalguma cousa. Há pouco foi o Dia D da eliminação da violência contra a mulher, segundo a ONU. E diz que a ONU tomou a data por ser o dia em que foram assassinadas as rebeldes dominicanas conhecidas como as Mariposas. Como se a violência machista tivesse sido a causante do assassinato das irmãs Mirabal. Como se a sua tortura tivesse sido uma questão de homens contra mulheres. Como se a sua morte fosse uma consequência da dominação do homem sobre a mulher.

Ainda que a violência sofrida pelas Mirabal tenha tido uma componente machista e de género, como acontece sempre que um homem tortura uma mulher, o motivo da tortura e da morte não era esse. Se acreditássemos nisso essas mulheres indómitas, chefas de guerrilha contra o ditador Trujillo, ativistas furibundas, dessas que nem calam nem param de organizar emboscadas aos poderosos, essas autênticas guerreiras ficariam lembradas como sujeitos pasivos de violência contra a mulher, onde a parte ativa é do homem e elas são simplesmente vítimas.

Mas sabemos que as irmãs Mirabal eram algo mais do que mulheres vítimas de violência machista. A sua perseguição e morte foi uma ação política motivada pelo seu incontornável compromisso de luta contra a ditadura que levou à miséria ao povo dominicano. Ver El Chivo como o macho vitimário que procura assegurar a ordem patriarcal assassinando mulheres é simplificar a trajetória vital dessas três temíveis opositoras. Ignorar a sua luta aprofunda o silenciamento sobre as mulheres políticas, alimenta a imagem de nós como vítimas cousificadas em permanente situação de indefensão. A falta de reconhecimento das lutas sociais das mulheres é também um sintoma de machismo.

Alguém imagina que as torturas sofridas pelo recentemente finado Marcos Ana, poeta e comunista espanhol, fossem atribuídas simplesmente a uma violação dos direitos humanos, ignorando a motivação política que levou Franco a infligir-lhe esses abusos? Se reconhecemos o comunismo de Marcos Ana, se entendemos que o seu sofrimento foi por causas ideológicas, se ademais sabemos que esse compromisso e tanta dignidade inflamava o medo de Franco, tampouco devemos ignorar o compromisso político das Mirabal, as causas ideológicas pelas que morreram e a sua enorme dignidade. E, por isso, devemos reconhecer que o sofrimento delas teve uma motivação política diferente à dum assassinato por violência machista. É um reconhecimento que merecem elas, a sua luta e todo o povo dominicano.

O dia 25 de novembro não devia ser o dia contra a eliminação da violência machista mas o dia das mulheres guerreiras, o dia da rebeldia e da defesa da democracia, o dia contra as ditaduras, que sempre são machistas. A ONU parece apoiar a causa feminista com este Dia D e todos os meios correm a oferecer minutos de discursos contra o machismo, todos os grupos políticos assumem o dia contra a violência, todos os jornais rezumam conselhos para a deteção e prevenção de novos casos. Inçamos o dia com reflexões a respeito da educação, do sistema patriarcal, da sua realidade dolorosa para a metade da humanidade. E, sim, ao fazermos isso que é tão necessário, ainda que seja só por um Dia D, também esquecemos a denúncia democrática e o compromisso vital e político das irmãs Mirabal. Não lembramos que elas eram mais fortes que a morte. Que, se as mataram, elas seriam capazes de tirar os braços da tumba para vencer a violência que segou as suas vidas.

Também neste 25N morre o presidente cubano Fidel Castro, revolucionario vitorioso. Alguém dirá que foi vitimado por uma doença estomacal e esquecerá o significado político da sua vida? Porventura este dia virá a se considerar o Dia D contra as doenças estomacais? Perguntas mais do que retóricas. É claro que não, ninguém vai esquecer a dimensão política de Fidel Castro. Nem o 9 de outubro vai ser nomeado Dia D da paz mundial por ter sido o dia do assassinato do Che Guevara.

Por isso e para outorgar o reconhecimento devido ao labor social e político das dominicanas Mariposas, dignas representantes do compromisso com a humanidade e a justiça, após as manifestações do Dia D eu quero tomar a mão e o braço que da tumba ergue Minerva Mirabal, para com a sua força restaurar a sua luta que é a de todas as mulheres e homens livres.

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra