PGL – Continuando com esta minissérie (veja-se 1ª entrega) que avança o conjunto que será pubicado no próximo número da revista Agália, oferecemos hoje umha das várias cartas que Ramom Pinheiro remeteu a José-Martinho Montero Santalha, acompanhada do facsímile e precedida de apresentaçom da autoria do próprio Montero Santalha.
Carta de Ramom Pinheiro a Montero Santalha
À maneira de apresentação
José-Martinho Montero Santalha
Das várias cartas que me enviou Ramom Pinheiro durante a nossa longa relação pessoal (iniciada no ano 1967 e concluída somente com o seu falecimento em 1990), reproduzo aqui, em saudosa homenagem de lembrança, uma do ano 1974.
Lembrarei, antes de mais, alguns dados da minha relação com ele.
Conheci pessoalmente Ramom Pinheiro em Santiago de Compostela em setembro de 1967 o mesmo dia que conheci Ricardo Carvalho Calero, e foi na casa de Pinheiro, no número 15 da Rua Gelmírez (edifício propriedade de Domingos Garcia-Sabell, no qual ambos, Pinheiro e Carvalho, moravam, em diferentes pisos). Lembro que Carvalho comentou que acabava de sair tanto a gramática galega de Leandro Carré como a reedição da de Saco Arce, publicadas as duas nesse mesmo ano 1967; e recordo bem que, a propósito da de Carré (que, como se sabe, é um trabalho muito deficiente), Carvalho, com a sua habitual cortesia, não fez nem o mais leve comentário crítico, o que nesse momento em que eu ainda não conhecia a obra não me chamou a atenção, mas sim mais tarde, quando a conheci: só então me dei conta da fina atitude de respeito que, andando o tempo, tanto cheguei a admirar em Carvalho. Também lembro que Pinheiro comentou que já entregara aos directivos da Real Academia Galega o seu discurso de ingresso e que agora estava pendente de que eles lhe assinalassem o dia para a cerimónia pública (que seria no seguinte 25 de novembro).
Foi casualidade que no meu derradeiro encontro com Pinheiro andou também implicada a figura de Carvalho: falei por última vez com Pinheiro no enterro de Carvalho Calero, no cemitério compostelano de Boisaca, em Santiago, nos fins de março de 1990. Pinheiro, que estava já gravemente doente (faleceria só cinco meses depois, em agosto desse mesmo ano) e, ademais, ficara viúvo havia pouco mais de um ano, teve então a coragem de acudir ao funeral e ao enterro do seu sempre admirado Carvalho: uma presença que merece salientar-se tanto pelo seu estado de saúde como pelo contraste com chamativas ausências de outras personalidades da vida cultural e política galega do momento, pois é bem sabido que desde alguns sectores da cultura oficial e da política Carvalho era hostilizado e marginado por causa da sua defesa da unidade linguística galego-portuguesa.
Uma vez, ainda durante a época do imediato após-franquismo (lembro, por algum pormenor da conversa de Pinheiro que me ficou gravado na memória, que era então presidente do governo espanhol Arias Navarro), levei-o a dar uma conferência sobre a cultura galega, para o clero da diocese de Mondonhedo (de cuja Formação Permanente estava eu responsabilizado na altura), que se celebrou em Vilalva.
Quando na Real Academia Galega decidiram nomear membro numerário o bispo de Mondonhedo-Ferrol Dom Miguel Ângelo Araújo, Pinheiro telefonou-me pedindo-me explorar a atitude do bispo ao respeito e, em caso de que se mostrasse bem disposto a fazer parte da Academia, conseguir citação para um encontro. E assim foi como uma delegação da Academia acudiu à Domus Ecclesiae, de Ferrol, entrevistar-se com Dom Miguel para conseguir que aceitasse o nomeamento, como assim foi.
Outra vez, anos depois, residindo eu ainda em Ferrol, fui convidado para fazer a sua apresentação numa conferência que ele pronunciou numa sala pública, organizada por uma entidade da cidade; e as minhas palavras de admiração e carinho nesse acto não deixaram de produzir-lhe uma emoção que mal pôde reprimir, pois eram já os tempos em que, por causa do seu novo compromisso político com o PSOE, Pinheiro passara a ser objecto de crítica por uma boa parte da cultura galega.
A nossa relação foi sempre cordial, de respeitosa e mesmo afectuosa veneração pela minha parte, e de carinho e aprezo pela dele; e essa atitude não mudou sequer nos últimos anos da sua vida, quando o debate da identidade linguística se manifestou com dureza, e apesar de que as nossas posições ao respeito eram algo diferentes –e apesar de que nalguma ocasião não fiquei plenamente satisfeito com a sua atitude pessoal.
Na realidade, creio que Pinheiro, ainda que pareça ter incorrido em alguma contradição prática, não deixou nunca de defender a unidade linguística galego-portuguesa como chave para o futuro idiomático da Galiza, e em conversas particulares com ele tenho ex-perimentado repetidamente que se sentia incómodo com os defensores da desmembração linguística do galego. Penso ter sido eu quem o convenceu (como também a Carvalho Calero) para que acudisse às reuniões que no ano 1977 se celebraram em Santiago convocadas pelo Instituto da Lingua Galega (ILG), que supuseram um momento de esperança –finalmente esvaecida– de encaminhar adequadamente a normativa linguística galega, e das quais saíram as normas linguísticas conhecidas como Bases pra unificación das normas lingüísticas do galego; Pinheiro, e em geral toda a Real Academia Galega de então, era hostil ao ILG (tanto aos seus postulados linguísticos como às atitudes dos seus promotores, nomeadamente pela rebeldia que mostravam perante as normas académicas), e acudiu alguma vez a essas reuniões, mas sem grande convicção.
Das cartas que me enviou, várias tratam sobre a problemática linguística: alguma faz referência ao mestre Rodrigues Lapa, alguma outra critica severamente a gente do ILG. Noutra, respondendo a uma proposta minha, encomendava-me elaborar uma tradução galega do diário de viagem de Egéria e dos escritos de Prisciliano, para ser publicados pela Editorial Galaxia, trabalhos a que pus mão imediatamente mas que depois, por causa do problema da normativa, nunca chegariam a porto…
A carta que aqui reproduzo refere-se ao «Manifesto para a supervivência da cultura galega», que elaboráramos um grupo de galegos residentes em Roma nos começos do ano 1974, com a ideia de que fosse publicado na revista Grial. Ao meu envio do trabalho, Piñheiro respondeu, como se vê, que não era possível publicá-lo em Grial, por motivos de índole política, e sugeria que seguramente poderia ser editado em um folheto pela colectividade galega de Buenos Aires. Parece-me que não chegamos a intentar essa edição em Buenos Aires, pois com vistas a que fosse mais facilmente divulgado na Galiza foi finalmente publicado nesse mesmo ano 1974 nas revistas Seara Nova, de Lisboa, dirigida na altura por Rodrigues Lapa, e, em versão castelhana, na revista madrilena Cuadernos para el diálogo.
Compostela, 5-IV-74
Sr. D. José Martinho Montero Santalla
Collegio Spagnolo
Via di Torre Rossa, 2
00165 ROMABenquerido amigo:
Recibín as duas copias do “Manifesto para a supervivencia da cultura galega”, que está moi ben pensado e moi ben escrito. E, sobre todo, presentado con tensa sinceridade xuvenil. Nós estudamos as posibilidades da sua publicación no GRIAL, mas, tal como está redactado, resúltanos imposible. Os criterios da vosa libertade expresiva –ahí en Roma– non coinciden cos criterios da censura que aquí decide. O exemplo da homilía de Añoveros pode servir de proba obxetiva, pois na tal homilía non se facía mais que defender uns direitos que veñen ser os mesmos que vós reclamades no voso “manifesto”.
Persoalmente coido que o “manifesto” merece publicarse. Resulta moi interesante que se manifesten os puntos de vista dos xóvenes, e mais aínda cando están meditados responsablemente e expostos con gran claridade. Eu penso que se podería enviar a Buenos Aires para que o publiquen alí nun folleto. Si a idea vos parece ben, podedes enviarlle unha copia a Rodolfo Prada, Avenida de San Juan, 2767 – 5º B – Buenos Aires, a quen eu lle escribirei falándolle do asunto. El é un home moi maior –foi o mais íntimo amigo e colaborador de Castelao en Buenos Aires–, mas de espíritu xuvenil e afervoado. Como é intelixente e culto, ten papel activo nas actividades culturais da colectividade galega e pode promover a publicación do manifesto.
Supoño que xa sabedes que os escrituristas galegos están traballando en equipo na traducción da Biblia á nosa língua.
Unha forte aperta de
Ramón Piñeiro
