UM QUEIPO NO LAR

Quanta dor! Europa fecha-se e morre de velha!



Não sei se é dor, vergonha ou nojo o que sinto perante as imagens da massa de seres humanos reclamando nas fronteiras de Europa uma oportunidade de vida. Agora já não petam apenas às portas da Europa do Sul. Toda Europa é atingida polas vozes de milhares de pessoas que reclamam um asilo, um acocho, um pobre arrimo.

Escuto o presidente da Junta da Galiza oferecendo lugar para quinhentas dessas pessoas na Galiza. Quer colaborar com o seu presidente, o senhor Rajoi, que anda a regatear com a senhora Merkel sobre o numero de asilados que Espanha pode acolher.

Reconheço que isso é mais que nada. «Menos é uma pedra!». Está bem ter dado este passo. Mas, deveriam ser mais generosos. Ou mais justos, quiçá?

Apoio que a Galiza seja lugar de acolhida. E, ainda, reclamo pola minha vez:

«Venham para cá!». Temos terra sem trabalhar. Temos escolas fechadas por falta de crianças que as ocupem. Temos aldeias com casas a cair por estarem valeiras.
Venham para cá! Temos um País que esmorece de velho e vocês são jovens, fortes e com vontade de viver. Eis o meu chamado.

Possivelmente esta não seja uma solução ao problema, porque toda essa gente quereria melhor viver no seu país. Mas não podem, porque na sua casa as armas estão em plena atuação. Cantam seguido um cantar terrível: o cantar da morte. É que as armas só valem para uma cousa se são usadas: matar. Mulheres, homens, meninos…

Para isso foram compradas. As armas que a Europa fabricou e vendeu a esses países que agora abandonam os seus habitantes. Porque estão a ser utilizadas contra eles.

Para que as haviam de comprar se não? Já se sabe, as máquinas que não se utilizam estragam-se. Caducam. Enferrujam-se.

As fábricas europeias (entre outras) enriqueceram-se com a venda dessas armas.

Todas essas pessoas que fogem da morte não são massa. São seres humanos. Como eu, como meus filhos e meus netos. Como as minhas vizinhas e os meus colegas. Só que aqueles tiveram que fugir. Com o posto, como se foge quando as bombas estouram no teito da tua casa. Como se foge quando as esquadras da morte andam à tua procura de noite. Quando os canhões falam a sua linguagem mortal.

Agora são uma grei de sem papéis. Não o eram quando tinham casa, profissão, amigas, vizinhas, colegas da escola, companheirinhos de jogo, namoradas e namorados.

Mas agora sim. Não têm os papéis necessários para serem considerados/as cidadãs, sujeitos de direito. E por isso podem ser encarcerados/as ou metidos/as em campos de confinamento. Como acontecera com os/as republicanos/as espanhóis fugidos na França, ou presos/as em campos de concentração nazistas.

E, entre tanto, nós, das nossas casas, olhamos assustadas as imagens dos naufrágios de barcas feitas para o lazer. Brinquedos de praia transformados agora em esquifes de morte. Em cadaleitos incháveis. Nós, da segurança dos nossos lares, emitimos um profundo e ruidoso silêncio sem sabermos bem que outra cousa podemos fazer.

Olhamos este país velho, abandonado, ardente e progressivamente mais improdutivo.

E ainda choramos. Por eles e por nós. Porque o mundo está mal repartido. Porque a compaixão e a fraternidade não são a norma. Porque os nossos governantes andam a regatear qual o numero de seres humanos é que vamos acolher. E isso tudo não é mais que uma miséria que recende a podre e vergonha.

 

 

SILÊNCIO!

Silêncio, Silêncio, Silêncio!
Um barulho de silêncio
Traspassa a consciência e o ar.
E a minha alma grita:
Silêncio! Silêncio!.
Um laiar fundo e surdo
Sai-me do dorido peito:
Silêncio, silêncio, silênciooo!
Meu irmão está preso.
Nenhum delito tem feito
Apenas, não ser deste País
Do culpável silêncio.
Silêncio, Silêncio!!
Da sua garganta seca
Como poço piago preto
Quer sair um berro.
Triste lamento!
Ficou deitado na areia seca,
Até esvair-se no vento.
Já vai voando no ar órfão e ausente
Dos ouvidos surdos,
Dos braços inermes,
Da ausência silente.
Silêncio! Silêncio!
Silêncio.

 

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Belo poema e quanta razão tens, cara. Estivemos a alimentar uns desgovernantes que desgovernaram tanto, que apoiaram tantas guerras e fizeram tanto mal que agora nos retorna em pagamento do mal semeado. Temos que nos fazer cargo e ajudar a quem precisa de ajuda. Como nós quando saímos por esses mundos e também temos precisado dessa ajuda. Já o dizia o moço sírio: Stop the war in Syria. Just that. Parem a guerra na Síria, o que é que foram fazer lá os EUA e a UE? A passividade do governo estatal, regentado por esse paisano que nos envergonha, é o cúmulo da cara de pau. Primeiro alimentam as guerras e depois olham para outro lado. Afortunadamente desde o mês de maio estamos em disposição de lhe fazer frente. E espero com toda a minha esperança que em dezembro caiam do poleiro de ouro de que tanto gostam.

    • andacatalan 2

      Un mon que empitjora amb una crisis global, inseguretat provocada per el yyhadisme i el seu pare putatiu EE.UU. que son al cap i a la fí els que estén povocan aquesta marea de gent de futur ben incert.
      Abraçada.

    • Adela Figueroa

      Querida Isabel. Eu também espero que caiam do seu poleiro. Mas para isso, e para que em Galiza mudem as coisas é preciso termos conta do nosso potencial como nação. É preciso sabermos que somos capazes não só de implementar todas as vantagens que a natureza nos deu, e , ainda, que seremos um lar acolhedor para galegas e quem queira vir viver a nossa Terra..
      ë imprescindível formar uma candidatura galega nas próximas eleições e continuar com a mudança de valores para as galegas. É a idade da maturidade. Nosso problema como povo, é sabermos ser adultas e atender ao reto que a historia nos põe.
      De outra maneira teremos que continuar a fazer duplo esforço para que os valores de humanidade, solidariedade soberania e justiça social encontrem lugar em ações de governo. Algo faz-se, desde a sociedade civil,mas com muito trabalho e pouco rendimento. obrigada pelos teus comentários..

      • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

        Caríssima, para as próximas eleições o imprescindível é fazer a melhor escolha para mandar o PPSOE ao lixo da história. Seja qual for a cor da seleção, temos de saber dar o melhor passo, não o passo que achamos melhor “para nós”.

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    O laio e cramor pela Bretanha, do Manuel Maria, devemos já estendê-lo não só à Galiza, como ele fazia, mas a toda a UE, inexistente ou pior porque já des-União anti-Europeia: basta ver, sem fitar, o Camarão da Ilha e o Percebe das Camarinhas em foto… a ameaçarem os catalães porque podem ser expulsos, se se independizarem, e a negarem-se a receber expulsos dos países que a OTAN, eles, destruíram.
    Que razão tem o rapaz sírio (kurdo?) quando sensatamente reclama que detenham a guerra, porque eles, os sírios, querem permanecer na sua Terra…
    Mas não vale nos laiarmos: cumpre botar fora os “cobrões” que nos empobrecem os nossos dinheiros e sobretudo a nossa dignidade…

  • Heitor Rodal

    Não avançamos nada, ainda hoje gente obrigada a marchar das suas casas e da sua Terra, atirada aos caminhos e ao mar numa viagem perigosa de final incerto quando não diretamente trágico. Certamente doem os olhos e a alma ao ver isso e queima a lentidão com que se aborda o desastre para vergonha nossa e para a daqueles que pusemos ao cargo de gerir os assuntos de todas e todos nós.