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“Milagrário Pessoal”, resenha de Carlos Alhegue

Carlos Alhegue – Na última página de Milagrário Pessoal, logo a seguir ao fim do romance, o leitor descobre que José Eduardo Agualusa terminou de escrevê-lo no voo entre Lisboa e Natal (RN, BR) de 28 de abril de 2010 e, para quem leu, o facto não é aleatório. Se calhar uma abordagem astrológica desvendava na data informações que nos passam despercebidas, mas é o lado geográfico e simbólico desse facto que nos parece mais interessante.

Em poucos romances que lêssemos (talvez As Sereias do Mindelo, de Manuel Jorge Marmelo) o trânsito de personagens e episódios pelos territórios da lusofonia é tão natural e descontraído como neste de que agora falamos. E é que a língua portuguesa é mesmo o mistério que os protagonistas de Milagrário Pessoal tentam resolver.

Um repentino surto de palavras não dicionarizadas faz com que uma estudante de doutoramento portuguesa virada para a área dos neologismos recorra à ajuda de um velho professor universitário angolano. Ela incarna uma conceção científica e racional do estudo da língua, ele é anarquista e ateu, mas acredita em milagres e tem uma explicação mais romântica para os processos linguísticos. À procura da resolução do caso, partem para uma viagem geográfica, cronológica e literária com paragens em Pernambuco, Angola, Timor, Paris e também Portugal, na parte física, e Basílio da Gama, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso (era inevitável o recurso à letra de Língua numa obra com estas intenções), Mário Pinto de Andrade e a relação entre Camilo Castelo Branco e Zé do Telhado, o Robin Hood português, na textual. Tantos quilómetros e páginas num livro que não chega às duzentas dão uma ideia do risco de vertigem que a leitura desta obra pode produzir.

De resto, da importância que Camilo Castelo Branco tem neste romance são prova os dois capítulos que ocupa quase inteiramente a sua obra no mistério de que se ocupa. Aliás, o protagonista confessa-se “voraz camiliano” e a dada altura (p. 141) faz a seguinte asserção: “Um camiliano, em comparação, por exemplo com um queirosiano, goza de um proveito insuperável: pode desfrutar do seu escritor preferido durante meses consecutivos, eventualmente anos, sem jamais repetir um título”. Embora a fasquia esteja alta, com pouco mais de cinquenta anos e vinte e quatro obras publicadas Agualusa não está longe de poder garantir um privilégio semelhante aos seus leitores.

Quanto ao estilo de escrita ou à estrutura, Milagrário Pessoal não se singulariza do conjunto de obras anteriores do seu autor: fragmentarismo, intertextualidade ou eruditismo, a importância atribuída à beleza nas personagens femininas (a protagonista é ex-manequim), revisitação de momentos críticos da história de Angola são algumas das caraterísticas recorrentes na narrativa do escritor do Huambo.

Há já alguns anos que Agualusa é um dos três sócios da editora Língua Geral no Brasil. O lema deste projeto editorial é “Nossa vocação é a palavra. Nosso território, a língua portuguesa”, e poderia adaptar-se perfeitamente ao projeto literário que é Milagrário Pessoal.

Para além de fragmentos literais como os das páginas 132-3, o romance contém uma visão otimista da realidade e do futuro da língua portuguesa. É uma proposta integradora em que os espaços nacionais onde o português é falado estão colocados no mesmo nível e os seus contributos para a riqueza da língua são igualmente valorizados. José Eduardo Agualusa desfruta, e lembra-nos que nós também podemos desfrutar, desse património em que o único passaporte preciso para ir de um lugar ao outro é a língua.

Carlos Alhegue (Corunha 1977)

Carlos Alhegue cresceu entre a Corunha e Centronha, Ponte d’Eume. Formou-se em Filologia Portuguesa na Univesidade de Santiago e há dez anos que tenta, com sucesso variável, ensinar português na EOI de Vila Garcia.

 

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