Presença da Galiza no Brasil

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Por José Paz Rodrigues (*)

O grande músico e gaiteiro galego Carlos Núñez, através de amplas reportagens e entrevistas para promocionar o seu último disco Alvorada do Brasil, vem de trazer à actualidade, junto com o recente colóquio realizado polo Conselho da Cultura Galega em Compostela, o grande interesse que tem a presença da Galiza no Brasil. Este gaiteiro, neto do grande mestre e pedagogo ourensano Albino Núñez, criador nos anos republicanos, junto com outros mestres, da associaçom de mestres ATEO, viajou nos últimos anos a esse grande e formoso país de América Latina. Na procura de dados sobre o seu bisavô, que um dia desapareceu como emigrante, sem deixar rasto, e que morou em terras de Salvador de Bahia.

Polas veias dos Núñez – deveria ser Nunes – correu sempre sangue musical. Os genes permanecem desde o bisavô, também músico, nos seus bisnetos: o excelente gaiteiro de que falamos, e o professor do Conservatório ourensano, o seu primo, virtuoso da flauta clássica. Carlos vem de descobrir, nom sem asombro, a importante presença da Galiza e os galegos na vida e na cultura, especialmente literária e musical, brasileira. O que no seu dia já descobriu Valentim Paz Andrade e escreveu o seu interessante livro A Galeguidade de Gimarães Rosa.

E nós, desde o Cine Clube “Padre Feijóo” e as Jornadas do Cinema de Ourense, na década dos anos setenta. Ao projectarmos os filmes de Glauber Rocha, como Barravento e Deus e o diabo na terra do sol. E mais ainda ao visionarmos nas Jornadas de 1974 o filme de Nelson Pereira dos Santos Vidas Secas, baseado no famoso romance de Graciliano Ramos. No seu primeiro visionado parecia que estávamos vendo um filme galego. Mais tarde, já nos oitenta, descobrim eu a música brasileira e a extraordinária literatura dos Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Chico Buarque, Drummond de Andrade (um de cujos poemas inspirou Celso Emílio para escrever o seu Longa noite de pedra) e a grande poeta tagoreana Cecília Meireles, com antepassados nos Açores.

O outro dia estivem em Viana do Castelo num acto literário realizado na excelente biblioteca municipal da cidade. Alí pudem descobrir, com surpresa, que foi um galego de Vieira do Minho, chamado Diego Álvarez Correia, que os índios tupinambás da Bahia alcunharam como Caramuru, o que, por acaso, descobriu o Brasil. E que foi tam importante para o relacionamento posterior a mestizagem, o comêrcio e a colonizaçom galego-portuguesa, que em todas as escolas brasileiras as crianças estudam a sua figura como o verdadeiro fundador da pátria brasileira, o pai primigénio, que no Brasil leva o adjectivo de Galego.

A Câmara Municipal de Viana do Castelo acaba de publicar recentemente um formoso livro, escrito polo frade Santa Rita Durao em 1781, que é um poema épico ao estilo de Os Lusíadas de Camões, com o título de Caramuru. Também, a mesma Câmara vianense, faz pouco tempo, foi inaugurada na praça da República da cidade uma estátua na qual aparece o galego Caramuru e a sua esposa índia, filha do chefe da tribu tupinambá, Paraguaçu. Com a que teve três filhos legítimos, Gaspar, Gabriel e Jorge. Mas a lenda conta que, com outras índias, chegou a ter mais de douscentos filhos, que inçaram de genes galego-portugueses aquelas terras. Às quais o primeiro instrumento musical que chegou da Europa foi a gaita de foles galega.

Mais tarde foram muitos emigrantes do Norte de Portugal e da Galiza os que alá chegaram em séculos posteriores. O distrito português do Minho e as comarcas galegas de Negreira e Santa Comba, som as zonas que mais imigrantes enviaram para o Brasil. Os melhores negócios galegos foram sempre as padarias e as funerárias. Com humor, brasileiros e brasileiras comentam que os galegos alimentaram bem antes os nativos do país de acolhida, para os soterrar depois. Desde a literatura medieval galaico-portuguesa das cantigas e os poemas rosalianos, até o movimento modernista, deixaram pegada na música, na literatura e cultura brasileira actuais. O disco de Núñez é um bom exemplo.

Sem embargo, o mais importante é que temos galegos e brasileiros o mesmo e comum idioma, com pequenas diferenças de sotaque, que nom impedem o perfeito entendimento. Com o que nom concordam muitos “férridos e imbecis” galegos que ainda existem na Nossa Terra. Enquanto perviver o Brasil, o galego nom há morrer.

 


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.