PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

Português para ‘dummies’ em aulas de Língua Galega



Aproveitando que estamos no Natal, permiti-me fazer um exercício de linguística-ficção. Estou a visualizar uma aula de Língua Galega em sexto de Primário, que inclui uma nova unidade didática chamada “Do galego ao portugués en 3 horas”, produto do novo Decreto de “Achegamento ao portugués en Primaria”, desenvolvido a partir da Lei Valentim Paz-Andrade para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a Lusofonia.

Estou a imaginar uma turma de pré-adolescentes de 11 e 12 anos. Fala um professor de Língua Galega com aspeto de levar anos, talvez décadas, sem dormir bem:

– Quando escreveis um texto em galego, sem faltas e respeitando as normas que já conheceis, sabeis qual é a percentagem de palavras escritas em galego que também estão num dicionário de português?

Após uns segundos de silêncio, uma aluna ousa levantar a mão.

– Profe, que é uma percentagem?

O nosso mestre esboça uma carantonha contrariada, mas consegue responder com a paciência infinita de quem está afeito a todo tipo de perguntas:

– Xiana, de cada 100 palavras galegas dum texto, estou a perguntar quantas são bom português. Como nem vós nem quase nenhum galego o sabe, vou dar-vos a resposta: 68. Os 68 por cento de um texto em galego é também português.

– Profe, retrunca a mesma aluna, quer dizer que sempre que escrevo 100 palavras, 68 são portuguesas?

– Bom, é uma tendência, nem sempre é assim. É só uma tendência…, um trending, percebeis?

O nosso docente, cheio de energia, diz para si próprio “bem, bem, bem, começamos logo!”; apanha o giz e começa a escrever no quadro-preto enquanto explica com voz resoluta:

– Os 68% é um bom começo. Já sabemos bastante português, nomeadamente se considerarmos que a sintaxe galega é praticamente idêntica à portuguesa. A seguir, vou-vos dar algumas regras de escrita mui simples para assim atingirmos os 80%. Este é mesmo o objetivo das três horas que temos por diante: chegarmos aos 80% de escrita em português. A primeira regra com mais cobertura que quero que aprendais é a seguinte: trocamos o “-n” final por um “m” quando a palavra galega termina em “-an”, “-en”, “-in”, “-on” “-un”, como em “saben”, “con”, “en”, etc. Só com isso subimos a percentagem 4,6%. Segunda regra: trocamos as terminações “-ción/cións” e “-ón/-óns” por “-ção/-ções” e “ão/-ões”, respetivamente. Com isso, ganhamos mais 2,4%. Já estamos nos 6% de ganho e levamos 5 minutos de aula! Terceira regra: agora trocamos “ñ” e “ll” por “nh” e “lh”, respetivamente. Com isso, ganhamos mais 1%.

O nosso prezado professor continua durante mais uma hora ensinando outras regras: troca de “á” por “à”, “-ía” por “-ia”, “-ble” por “-vel”, “-aba” por “-ava” e remata com duas regras que, segundo ele, têm bastantes exceções mas que, mesmo assim, continuam a fazer crescer a percentagem: regra “z” por “ç” e regra “x” por “j” se a vogal que segue é “a/o/u” e por “g” se a vogal a seguir é “e/i”.

– Com estas 10 regras, qualquer pessoa que saiba galego consegue atingir 80% de bom português, partindo de 68% inicial.

– Profe! Volta a interpelar Xiana, e logo, o meu nome como se escreve? com “j”? e como se pronuncia? com gheada?

O mestre acarinha o queixo, olha durante um anaco em silêncio para a aluna e, finalmente, responde:

– O teu nome escreve-se como o escreveram os teus pais no Registo ou como queiras ti escrevê-lo quando tiveres 18 anos. Mas sempre se pronunciará “Shiana”, mesmo em Lisboa ou no Rio de Janeiro. Os nomes próprios não mudam, exceto se a pessoa referida quer que mude.

Já finalmente, na última hora da unidade didática, o mestre dedica-se a listar as palavras mais frequentes que não se adequam às últimas regras e que são portanto excepções às mesmas: “baijo”, “mágimo”, “prógimo”, “progeto”, “égito”, “caija”, “çona”, “realiçar”, “praço”, …, deixando fora da lista os nomes próprios.

– Profe!! Berra Xiana com faciana contrariada. Temos que aprender de cor essas listas de palavras? é mui aborrecido!!

– Bom, podemos deixá-las para a seguinte unidade didática que tereis no próximo curso, em primeiro do ESO, quando fordes ao Instituto. De facto, o objetivo dos 80% já o conseguimos sem necessidade de decorar essas listas de palavras. Mas, se vos sou sincero, em vez de chapar listas, o melhor método para atingir 99% é começar a ler em português.

– E como se consegue 100%? pergunta Xiana.

– Falo apenas dos 99%, retruca o mestre, porque nem os textos de Saramago, o Nobel português, conseguem chegar aos 100%.

– E se eu chego aos 100% poderei ganhar o Nobel? Volta a perguntar Xiana.

Como já estão perto do fim da aula e a conversa semelha escapar-se do rego académico, o mestre procura uma frase lapidária para terminar a aula:

– Uma boa escritora sempre usa palavras que não estão no dicionário.

O mestre começa a recolher as suas cousas enquanto se despede:

– Aqui terminamos a primeira unidade didática de Português de 3 horas dentro da matéria de Língua Galega. Se aprenderdes as regras que vos ensinei, tereis provavelmente o equivalente a um diploma B2 de português. Espero que com as 6 horas a maiores que vais ter no ESO, podereis chegar a um nível Avançado e, talvez, algum dia, conseguireis ganhar o Nobel. Abur!

P. S. 1: Os números oferecidos polo nosso professor são o resultado de um trabalho de análise computacional sobre um corpus textual galego de 61.324 palavras extraídas de artigos do já desaparecido xornal.com, e com ajuda dum léxico computacional português de 908.824 formas (dicionário de FreeLing). Os experimentos consistiram em definir e programar 10 regras de transcrição de galego para português e aplicá-las incrementalmente ao corpus galego. Finalmente, validaram-se os resultados contra o léxico computacional português, prévia filtragem automática de entidades, quantidades e datas.

P. S. 2: As estatísticas do texto foram apresentadas em forma de relato de ficção, pois é preciso fazer ainda mais experimentos em diferentes corpus e com melhores estratégias de análise para atingirmos resultados com menor margem de erro.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
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  • Venâncio

    Este texto deixa-me um tanto perplexo. O ‘curso’ chama-se “Do galego ao português em 3 horas”. Como devem entender-se, aqui, “galego” e “português”? Tudo o que segue leva a crer que o ‘curso’ deveria antes intitular-se “Da ortografia galega à ortografia portuguesa em 3 horas”.

    Claro que o Paulo Gamalho não acreditará, ele mesmo, que “português” e “ortografia portuguesa” recobrem a mesma realidade. Mas é isso o que, parece-me, ele aqui sugere.

    • madeiradeuz

      Venâncio, acho que o título do curso está colocado de uma maneira muito realista na situação atual, isto é, considerando o português uma língua diferente do galego; polo tanto, nem só a ortografia (embora seja só isso que trata). Quero dizer, para um linguista sim existem matizes e diferenças, mas não para o político comum, que afinal é quem redige e aprova a norma.

      • Venâncio

        Compreendo, Gerardo. Trata-se de mostrar, por uma parábola, por um exercício de “relações públicas”, quanta proximidade têm, já de si, galego e português. Nunca é de mais vincá-lo. Nunca é de mais tudo fazermos para que isso seja, pública e explicitamente, reconhecido por todos.

        Só que o autor é um linguista (a quem sinceramente admiro), e eu esperaria, no texto, alguma piscadela de olho do cientista, que superasse a parábola. 😉

        • Ernesto V. Souza

          não… trata-se de que os professores de galego isolatas espabilem…

    • ranhadoiro

      Venâncio, há uma coisa que você não chega a enxergar sobre à Galiza, que de primeiras, pareceria que desde Portugal seria fácil de perceber…. mas a final resulta muito complicado.
      Vou tentar explicar: Os galegos e galegas, bem a pesar deles, são espanhois, troquelados e balizados como espanhois. Os portugueses para infelicidade deles e problemas para Portugal -alguns não pequenos (que com habilidade lusa em Portugal sempre tratam de apagar e andar sobre eles nos bicos dos pés -porém a Europa isso já não o faz fácil)- não chegam a entender bem que cousa é, isso dos espanhois, pois pensam que é algo assim como se forem uns outros portugueses,,,, desconhecem que na espanha não há nem a subtileza nem o aprimoramento das cousas que se dá em Portugal,,, aqui marca-se o objetivo e tende-se a ir a ele direto…. se um andasse com piscadelas… meu Deus, o público alvo do artigo não entenderia nada… pois o publico alvo mora no mundo espanhol bem a pesar do autor do artigo, acho.

      Bom ano pra todos a começar pelo Fernando e o Ramalho

      • Venâncio

        Complexo retrato, Ranhadoiro, esse dos portugueses. Por um lado, finuras, subtilezas. Por outro, a «habilidade lusa» para safar-se, aquilo que chamamos o «desenrascanço», que nem dicionários brasileiros definem (e só «desenrascar»). Não é o mais lisonjeiro dos retratos, mas é, de facto, o que há.

        Depois, os espanhóis, esses tipos pouco dados à subtileza, directos, primários. Sim, um tanto abrutalhados são-no decerto. Nas opiniões, no trato.

        Ficam de fora os galegos, que nem ouso retratar…

      • Venâncio

        Retratos à parte, tenho alguma desconfiança no método proposto aqui pelo Paulo Gamalho. Confio nos seus cálculos, e nem sonho competir com o computador, mas preciso de mais informação para ficar convencido. De momento (e aproveitando um estudo meu anterior), proponho um teste com o seguinte trecho:

        «Ben certo é que a miña avoa le os xornais dende que eu acordo. Vai ao caixón da cociña e saca os lentes. Pasa os cristais con coidado polo mandil e envórcase enriba da mesa da cociña a ler as portadas, aproveitando que a raiola do mediodía entra pola fiestra do vertedoiro».

        Suponho que este texto é 100% transparente para um galego como os que aqui lêem. Podemos escrevê-lo agora em ortografia portuguesa. O produto é este:

        «Bem certo é que a minha avoa lê os jornais dende que eu acordo. Vai ao caixão da cozinha e saca os lentes. Passa os cristais com coidado polo mandil e emborca-se enriba da mesa da cozinha a ler as portadas, aproveitando que a raiola do médio-dia entra pola fiestra do vertedoiro».

        O texto continua, suponho, 100% transparente, mesmo para um galego que desconheça inteiramente a ortografia portuguesa. Interessante. Mas isso tornou o texto mais acessível a um leitor português? Duvido. Ele tem uma ideia geral da cena, mas os pormenores escapam-lhe. Pior, o texto condu-lo a alguns equívocos.

        Uma sua versão portuguesa aceitável seria esta:

        «Bem certo é que a minha avó lê os jornais desde que eu me recordo. Vai à gaveta da cozinha e retira os óculos. Passa as lentes com cuidado pelo avental e reclina-se sobre a mesa da cozinha a ler as capas, aproveitando que o feixe de luz do meio-dia entre pelo janelo da pia».

        Claro: trata-se dum texto de nível ‘familiar’ da linguagem (concretamente, o início duma crónica publicada em “Vieiros” em 2006). Um texto ‘culto’ apresentará, decerto, percentagens próximas das indicadas por Gamalho. Mas basta como demonstração, assim espero, de que a questão em apreço é bem mais complexa do que pudera parecer à primeira vista. Sobretudo porque não é com textos ‘cultos’ que poderíamos convencer a Xiana.

        • Ernesto V. Souza

          Nao entende nada… fernando… Absolutamente nada… Lembra-me o conto do Culto sabio que escreve uma obra sobre etimologia do trigo e que se poe a falar dos nomes do trigo entre os estibadores enquanto eles carregam os sacos no lombo e resmugam de impostos direitos e cabroes…

          • Venâncio

            Ernesto: eu executei a exacta operação proposta pelo Gamalho, e fi-lo com um tipo de texto que a Xiana, que tem 12 anos, poderia ler, ou escrever. Eu tomo o Gamalho inteiramente a sério.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Numa pia havia um piá com piã que sem piar piava: tarde piache. Pia ou vertedoiro, recordo ou acordo (vade retro), emborcar, reclinar, debruçar-se sobre a avó que cozinha capas, camadas de cremes doces como portadas de açúcar, janelas e janelos, quem no-lo ia dizer, cadelas e cadelos, lagartos curimpampãs, e raiolas, muitas raiolas de luz, aos feixes, às moreias, aos montes e às montanhas de raiolas luminosas que entram pelas frestas das fiestras todas do miolo, do génio, do caletre, das têmporas e ó, mores! e moras e amoras e amorim…

          • Venâncio

            Eis o laxismo dos irresponsáveis. Tudo é belo, tudo é maravilhoso, tudo vale portanto o mesmo: tudo, ou nada.

            Há uns dez anos, a sra. hoje académica ria-se no PGL, em audíveis folguedos, porque eu confessara ignorar o significado de várias palavras galegas. Anos depois, elas apareceram (mas porquê, céus, porquê?) no «Léxico da Galiza» da sua academia.

            A sra. hoje académica não é séria.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Eu rir-me de você? Não pode ser certo, meu caro. Que curioso, levamos dez anos partilhando PGL… e você ainda não percebeu que o dinossauro galego é lambarão, molungo e curimpãpã…
            http://aviagemdosargonautas.net/2013/04/25/vindicacao-do-lagarto-curimpapa-por-isabel-rei/

          • Venâncio

            Eu lembro-me perfeitamente da cena (guardada, decerto, algures nos ricos cafundós do Velho PGL). Falava-se dum conto que descrevia um enterro em ambiente rural galego, um belíssimo conto, aliás, e por isso apontei as palavras que desconhecia. Acontece que você fez, a esse propósito, uma audível chinfrineira: «Como é possível…, um professor…?», ou coisa que o valha. É um caso sabido na psicologia: os enxovalhos públicos nunca esquecem.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… o Gamalho, para além de muitas outras cousas em que destaca é um dos mais finos ironistas e habilidosos da retranca que escreve nestes espaços…

          • Venâncio

            Eu sei, Ernesto, e isso o mostra ele noutras ocasiões. Mas aqui… Admito o diagnóstico do Ranhadoiro como mais adequado. Isto é: Gamalho, tendo em vista um auditório “espanhol”, decidiu ser primário, simplificando a questão até ao limite do tolerável. Óptimo. Mas eu achei dever sublinhar o risco de tal opção.

          • Ernesto V. Souza

            Daquela entendeu, finalmente que os isolatas são uns burros espanholeiros? XD

            Porque são o alvo, como nos textos de Penas, Fagim, Pichel…

            p.s. Não nos meus… eu passo deles…

          • Venâncio

            Certo. Só que o subestimar do inimigo nunca foi bom conselheiro. Isso torna as hostes contentinhas, auto-suficientes, e distraídas.

          • Ernesto V. Souza

            Isso é boa verdade… não me canso eu de repeti-la… mas uns or cá outros por lá, e a cousa vai indo…

          • madeiradeuz

            Fernando, decerto não me expliquei totalmente bem no meu comentário inicial. Acredito que neste artigo o Gamalho quis ser muito realista, colocando por essa razão um exemplo com factos que verdadeiramente poderiam acontecer. Intuo que é por essa razão que a unidade didática leva por nome “Do galego ao portugués en 3 horas”, aliás, nome redigido na norma ILG-RAG. Da mesma maneira, esta unidade seria produto do Decreto de “Achegamento ao portugués en Primaria”, também redigido em ILG-RAG. Isso é que é realismo! E tão real é, que nem só ficciona um nome em ILG-RAG, uma forma, mas também ficciona um fundo, e por isso tanto o Decreto como a norma se chamam como se chamam e desprendem os matizes que desprendem. Novamente, realista, muito realista, porque sabemos que a situação atual é a que é… e a partir dela devemos começar o trabalho.

          • Venâncio

            Eu compreendo, Gerardo. O Gamalho procura pôr em evidência, por recurso a uma simplificação, a peculiaríssima proximidade de galego e português. Fá-lo focando a atenção na materialidade da escrita, tentando mostrar a crianças (através dos professores…) como é fácil começar a escrever português. A tal opção chamas tu “realismo”.

            A meu ver, essa abordagem implica sérios riscos, não só (como tentei mostrar) porque cedo embate em demasiados limites, mas também porque começa por privilegiar a imagem estritamente visual do idioma.

            Ora (e para nós esta palavra não tem, como em galego, valor adversativo, ela só ‘relança’ o pensamento!), ora, o galego e o português estão tão próximos que o contacto directo (legível ou auditivo) com o português há-de ser para uma criança galega imensamente revelador. O contacto directo dispensa (pelo menos, de início) essa operação transmutativa de ‘letras’, para mais com as “excepções” a que o Gamalho já alude, e que, no caso concreto de s vs. ss, são um autêntico quebra-cabeças.

            Em suma: importa apresentar o português aos mais novos, não como um problema gráfico, mas como uma mensagem directamente perceptível.

          • Ernesto V. Souza

            Não Fernando… a sério…. Não entendeu… ainda não há muito tratava de explicar a um leitor tão capaz como Celso Cáccamo algo semelhante a respeito de um texto do Miguel Penas.

            No PGL, no reintegracionismo há dous grandes níveis comunicativos, (por entender-nos simplifico, em realidade há muitos mais alguns tão subtis e complexos como a mesma territorialidade e sórdido bandismo galego XD ); isto é, há mensagens que se estruturam, radicam e dirigem a comunicação, formação e debate dentro do campo reintegracionista e outros que se dirigem a conectar, comunicar, debater e formar o galeguismo não reintegracionista… (alguma gente tem mesmo esperança e vontade de tender pontes…)

            É importante não confundir uns e outros… por vezes é complicado porque (nessa mesma alta complexidade contextual galega) podem mesmo se dirigir às duas partes… e alguns mesmo são poliêdricos, multifacetados e com capas retranqueiras dentro dos nossos códigos… esses são os que celebramos mais…

            Acolá o texto é destes de dous gumes… o Gamalho pretende principiar o ano tendendo pontes didáticas para fora e fazer-nos rir a cachão aos de dentro… 😉

        • madeiradeuz

          Com certeza, Fernando. Ora, lembrando os apontamentos do Gamalho, as palavras que diferem num e noutro texto são verdadeiramente poucas, não é? Quanta percentagem representam sobre o total? As percentagens que o Gamalho usou correspondem, como explica nas notas do final, a um promédio tirado de um córpus determinado. Não é verdade absoluta, certamente, pois com um outro córpus as percentagens poderiam ser diferentes… Mas nem sei se tão diferentes como para serem relevantes.

          • Venâncio

            Se contares bem, verás que não são assim tão poucas as palavras que diferem.

            Além disso (e é coisa a que se dá pouca atenção, até por pessoas conceituadas, como o Carlos Garrido), há aí vários exemplos de descoincidências semânticas, de “falsos amigos”, entre o galego e o português, tal como há bastantes entre português e brasileiro, e como há centenas entre português e espanhol… e não esqueçamos que as crianças galegas são bilingues, pelo que nos seus cérebros (e no contexto em apreço) se formam três conjuntos lexicais altamente coincidentes e perigosamente descoincidentes: o galego, o espanhol, o português.

            Uma imensa pedagogia e o mínimo possível de primarismo, eis o que aqui se exige.

          • Ernesto V. Souza

            O problema é mais bem de falsos amigos conceituais e humorísticos… que são bem piores que os léxicos…

          • madeiradeuz

            Polo geral, “falso amigo” utiliza-se em frases de uma língua em relação com outra, como o inglês “library” (biblioteca) e o galego “livraria”. É pertinente o seu uso entre variedades internas de uma mesma língua? Eu acho que não. O ‘galego’, expurgado de castelhanismos, não tem falsos amigos em relação ao ‘português’. Se houver algo será, em todo caso, variedades internas.

            Há outros fatores que introduzem distorção na intercompreensão, como a polissemia. Por exemplo, onde eu sou, o verbo “tornar” é vigiar (http://estraviz.org/tornar, verbo transitivo, aceções 2, 3 e 4), com o qual uma frase como “Gerardo tornou o o cão” pode ser totalmente incompreensível para boa parte dos galegos e galegas.

            Como o anteiror, há muitos exemplos mais. Isto, como sempre, devolve-nos à eterna pergunta de “o que é galego” e “o que é português”. E não é uma pergunta simples de responder, nem para alguém de 9 anos, nem de 19, nem 29… nem 99.

            Acontece só na própria Galiza ou entre a Galiza e Portugal? Não. No próprio castelhano também se produz isto, como o exemplo prototípico do verbo “coger” (colher, pegar), que em boa parte da América Latina é sinónimo de “joder” (foder).

          • Venâncio

            Gerardo: quando os amigos são falsos, tanto faz se o são fora de casa ou portas adentro…

            Creio que uma afirmação como «O ‘galego’, expurgado de castelhanismos, não tem falsos amigos em relação ao ‘português’» é da ordem da mitologia. Nunca é de mais lembrar as 300 páginas do «Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro» de Mauro Villar…

            Sim, o número de descoincidências semânticas parciais ou totais (estes, os verdadeiros “falsos amigos”) entre brasileiro e português é enorme. Eu sei: um reintegracionista tende a ignorar, ou a relativizar, esta circunstância, porque ela o desorienta. Paciência! Mais vale sermos realistas… e informados.

            Deixo-te aqui alguns exemplos, com o significado português. Se houver coincidência parcial, agradeço que me informes. Importa, sim, o valor primeiro e predominante, e não local, dialectal, dos termos.

            ARROLAR: alistar, pôr no rol
            BICO: ponta aguçada
            DESFEITA: insulto, afronta
            FEITO: façanha
            FITO: objectivo, intenção
            FRAGA: rochedo
            LABREGO: indivíduo grosseiro
            PATACA: moeda antiga
            REGUEIFA: tipo de pão
            RETRANCA: desconfiança

            Deve haver bastantes mais, não fiz nenhum estudo aprofundado da matéria. Mas estes podem chegar, por agora.

        • ranhadoiro

          caro Fernando: esqueça os portugueses… o que se tenta não é segurar o sermos lidos pelos portugueses… que andando por esse caminho encetado segundo proposta de Gamalho acaba-se conseguindo; mas mudar o paradigma no jeito de se inserir na sua língua dos galegos escolinos.
          A proposta é destinada a gentes a norte do Minho, não a sul, e como jeito de encetarem um produtivo caminho. Mas não pida a pouco de semear a árvore que já tenha frutos e que eles podam ser apanhados por lusófonos de qualquer lugar. Calma meu amigo, muita calma, que sem calma imos perder o pouco de língua que nos fica sob os pés.

          • Venâncio

            Eu calma tenho, Ranhadoiro, mesmo muita. Caso contrário, já teria desistido de vadiar por aqui. 😉

          • ranhadoiro

            entre nós Fernando, onde ia achar uma tão simpática e acolhedora companhia…. mas que com os esquisitos galegoas.
            Confesse o certo, connosco está-se bem até quando nos zangamos… que é um jeito de ter muito interesse em alguém e nas suas ideias e propostas.

        • ranhadoiro

          os textos mais transparentes para o gallegos… são sem dúvida os escritos em castelhano

          • ranhadoiro

            pois Castela e a sua escola nacional fez maravilhas, e se a isso somamos o mundo comunicacional em que os GALLEGOS estão inseridos…

          • Venâncio

            Sim, Ranhadoiro, essa é a verdadeira tragédia. Nós estamos aqui a falar sobre o sexo dos anjos.

    • Paulo Gamalho

      Antes de mais nada, obrigado pelos comentários. Não pude responder antes porque estou com muito trabalho. O texto é uma brincadeira. Costumo desabafar e largar um bocadinho de retranca nos artigos de opinião, pois não podo/devo fazê-lo nos trabalhos científicos. Ora bem, dito isto, vou tentar esboçar o ‘conceito’ por trâs do artigo, conceito que já foi esclarecido por outras companheiras e companheiros ao longo do fio da discussão.

      O contexto destas fictícias aulas de Português é o seguinte: vamos supor que se redige um Decreto que desenvolve a Lei Paz-Andrade no que se permite, sendo mais otimistas que realistas, dar umas poucas horas de Português nas aulas de Língua Galega. Vamos supor, sendo mais realistas que otimistas, que permitem ministrar um módulo de 3 horas no ciclo de Primârio (de 6 a 12 anos). E vamos supor, sendo de novo realistas, que esse módulo vai ser ministrado polo próprio mestre de Língua Galega, e não por um nativo angolano nem por um professor de Português. Neste contexto de absoluta precarieadade, qual seria o método mais eficiente que permita maximizar a aprendizagem a partir de só três horas de ensino e de ínfimos recursos didáticos? A minha proposta é buscar o método mais rápido e eficiente: aprender umas poucas regras de transcrição ortográfica. Se as aprendem em três horas, vão ficar sabendo muito mais da ortografia portuguesa do que sabem muitas galegas. Há mesmos jornalistas galegos que pronunciam “coelo” quando lêem “coelho”.

      Trata-se, portanto, de maximizar as migalhas que nos vão dar quando se desenvolva a Lei (se algum dia se desenvolver). Temos de ter em conta também que não vão aceitar que haja módulos sérios de Língua Portuguesa ministrados por professores de Português em Primârio, porque isso faria descer o número de horas em Galego, que já mal chega ao 50% (sendo mais otimistas que realistas). É por isso que o módulo da minha aula-ficção é ministrado em Galego por um professor de Língua Galega. Trata-se, e remato com isto, de minimizar o risco de não termos nunca um mínimo de cheiro lusófono no Ciclo Primârio, é dizer, trata-se de obrigar os nossos caros isolacionistas a negociar propostas de mínimos (por não dizer de ínfimos).

      • Venâncio

        Caro Paulo: o seu esclarecimento é deveras oportuno, e para mim pertinente. Trata-se de agir a partir do mínimo esperável. Compreendi inteiramente. Obrigado.

      • Letizia Paula Martín

        Caros (e também os não tão caros): em minha ignorância tupiniquim fico perplexa com muitas coisas. Não me digam que a sintaxe galega é a mesma da portuguesa. A organização da frase em galego – pelo menos esse que vejo tantos galegos dos antigos falando – é inversa a da nossa. Textos em galegos, para um brasileiro, parecem cheios de coisas que para nós são figuras de linguagem. Esse modo de falar dá uma melodia para a língua e nuances de comunicação bem distintas da língua de Pessoa. E o que se pretende fazer, com essas ideias bizarras de reintegração ou de “amizade” linguística com todos os aspectos extralinguísticos que ambas as línguas carregam?? Continuo preguntando – é preguntando mesmo, não perguntando, aqui trata-se de recurso estilístico – para que a lusofonia precisa engolir o galego? Que ilusão é essa de que se agregar ao mundo luso trará algo de novo para o povo da Galícia, algo que já não tenham passado em sua história? Nada tenho a ver com tudo isso, não sou nem galega, nem portuguesa – deveria pertencer a tal Lusofonia – mas, ultimamente, ela me parece uma piada, de muito mal gosto.

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    XD que bom! É difícil que uma aula de primário possa desenvolver-se assim, esse professor com certeza leva muitos anos sem dormir bem. Mas quanto à mensagem: completamente de acordo. 3 horas pode ser suficiente para as crianças. E [email protected] @s melhores [email protected] inventam palavras que, só depois, passam ao dicionário. Feliz ano! 🙂

  • Valentim R. Fagim

    Um artigo ótimo que oxalá leiam muitos professores de galego.

  • Ernesto V. Souza

    Genial… Faz rir e pensar…. Incrivel e termos chegado tao longe com uns idiotas por politicos e uns mortos de fame como academicos… 😉

  • ranhadoiro

    gostei do texto…bom sim senhor

  • Joám Lopes Facal

    Excelente ajuda da linguística computacional ao projecto Paz Andrade. Agora só é preciso que chegue ao Conselheiro por se lhe dá algumha ideia de como promover o pluriliguísmo na Galiza, essa carência que tanto perturba o PP quando se fala do galego.

  • PMG

    Eu engadiria levar como trabalho de casa assistir um ou dois filmes portugueses (a escolha do aluno) ou escutar músicas portuguesas, bem sejan de Portugal ou Brasil por serem os mais importantes paises lusófonos, para afacer o ouvido.

  • Venâncio

    Caro Paulo Gamalho:

    Há um aspecto da questão que ainda não foi apontado, e que, espero, lhe tenha surgido, também a si, ao espirito. É aquilo que poderia chamar-se a perversão da estatística.

    Digamo-lo assim: quanto mais cresce a percentagem de fácil comutabilidade gráfica entre a escrita RAG e a do português (e você já aflorou os 80%, com auspiciosas promessas de subida…) tanto mais aumenta a impressão, cedo transformada em convicção, de que a escrita RAG oferece razoável comodidade no contacto escrito entre galegos e utentes do português.

    Isto de modo nenhum é uma novidade. O que é novidade é o conforto trazido pelos sábios da estatística.

    • Ricard Gil

      Caro professor Fernando, um exercício o seu de traduçom para português perfeito sabendo que domina ambas as línguas ( galego e português) . Mas repare bem as palavras e o errado do meu ponto de vista de pensar que esse galego literário seja assumido como galego . Explico : portada delantal e medio -dia som espanholismos ( tire as 3) dende é umha variaçom mas transparante acho eu a qualquer leitor , lentes por oculos e cristais por lentes como envorcar por debruçar , som os 3 diferencialismos que um galego corrente tampouco diria ( faga a proba com nenos ou pessoas idosas no instruidas em galego, lamentavelmente diram um termo castelhano) assim apenas ficariam raiola e vertedoiro ( aceitamos raiola como animal de companhia ) agora vertedoiro para um galego educado nas NOMIGA tem o significado de aterro sanitário e para um galego medio é mais transparente a palavra PIA , depois tanto faz fiestra como fresta e aproveitando que entrA temos que muda-lo por aproveitando que entrE ( conhecendo bem gramática portuguesa) entom apenas caixom seria um falso amigo entre galego e português como de facto existem entre a variante lusitana e brasileira . Concordo em que julgamos que passar de “galego-castrapo” para “português” leva tempo , mas “escrever” da norma galega para a “norma portuguesa” é bem simples . Por isso também para mim o prioritário é recuperar léxico , fraseologia e sintaxe , expurgando os castelanismos ( que é o que subjaz na maioria das palavras que criam interferências) e a ortografia estaria a seguir porque esta sim que pode ser aprendida em menos horas

      • Venâncio

        Caro Ricardo: há aqui, então, várias questões.

        Primeiro: é difícil encontrar um exemplo de texto (galego, neste caso) que seja ao mesmo tempo elucidativo, não seja técnico e não se preste a nenhum equívoco.

        Depois, o caso dos castelhanismos. Recordarás que, tal como o galego nos últimos séculos, também o português teve um longo período de quase três séculos (1450-1730) de diglossia, isto é, de predomínio do castelhano como língua-tecto, com introdução de milhares (sim, milhares) de palavras criadas na Meseta. Isto significa que tanto o português como o galego sofreram, mas em épocas diferentes, uma enxurrada de castelhanismos.

        Não lembro isto para vos desmotivar, mas para vincar quanto ‘galego’ será substituído por castelhano (!) numa vossa deriva portuguesa feita sem critério.

    • Joám Lopes Facal

      O professor Venâncio cede às vezes ao argumento provocativo e brincalhom. O PGL tem nele um magnífico animador.
      Eu também nom gosto demasiado das unanimidades mas nom deixo de considerar que o o facto do galego partilhar “ñ” apenas com utentes do espanhol e do euskera é um presente simbólico excessivo para quem nom o merece.
      A ética do galego, caro professor, é a da resistência cultural; as agências ideológicas do castelhano (numerosas) atribuem-no ao espírito de contradiçom e afã de singularidade; será que desde Portugal se observa como infantil brincadeira?

      • Ricard Gil

        Nom esqueça também o asturiano , o wólof , o filipino XD o “ñ” tem um império

      • Venâncio

        Caro Joám, eu só tentei mostrar aonde leva o voluntarismo que, em dose baixa ou alta, há em muitas propostas… e como a lógica do voluntarismo e a lógica da razão nem sempre coincidem. 😉

        Concordo em que, num paradigma de “resistência cultural”, como o vosso, o Ñ é intrinsecamente mau. Pobre letra, que não é, em si, senão uma abreviatura do antigo (galego, castelhano e português) NN. Nesse mesmo paradigma em que vos moveis, o NH ‒ que os portugueses foram buscar, no século XIV, ao provençal ‒ é, decerto, intrinsecamente bom… Mas, eu sei: trata-se da imagem que se quer, ou não quer, transmitir.

        Pergunta-me: como observa Portugal essa vossa resistência? Eu receio não ter as melhores notícias. Há decerto malta porreira. Mas o português-tipo projecta sobre a Espanha a sua concepção de Pátria, que não permite fissuras nem extravagâncias. Uma solidariedade incondicional com galegos, bascos e catalães não é o habitual entre nós, e a palavra “separatistas” acorre quase sempre muito pronta quando deles se fala.

        • Joám Lopes Facal

          Nom há mudança sem a sua dose de voluntarismo, por vezes talvez pouco razoável para quem nom partilhe horizontes.
          Nota antropológica: o professor deve compreender também que a irritaçom contra o sistema de gestom da língua se agudiza no caso (que nom é o meu) dos linguístas porque acumulam feridas do tempo.
          Aliás, nunca perdo de vista que Portugal irá sempre “de ganchete”, de braço dado, com Espanha para presevar o seu estatuto nacional. Dou-o por descontado, pedir pêras ao olmo nom é trabalho bem pago, mas, ganhar cumplicidades para o galego reabilitado entre a intelectualidade portuguesa, é um objectivo ao qual nom deveríamos renunciar. Afinal, Mértola foi liberta pola Ordem de Santiago em 1238. É brincadeira, Venâncio. Saudaçons.

      • ranhadoiro

        no eusquera esse dígrafo escreve-se in iruina escrito a castelhana iruña.
        é erro comum. no aragonês o dígrafo é ny
        o modelo castelhano é o do asturoleonês

      • Heitor Rodal

        Caro Joám, até o vasconço batua [unificado] expurgou o ñ : Espainia, Katalunia.
        Saúde.

    • Ernesto V. Souza

      Os miúdos galegos, o exercício esperpéntico ao jeito de Swift, as estatísticas, as auditorias, os planos, os objetivos, os informes económicos que são mentira… a ortografia da RAG que é ideologia pura e apoio aos poderes que configuraram Espanha na Transição espanhola, ideologia simples pura e dura… bobagens tudo ou farsa… como a educação que não passa ainda de adoutrinamento…

      E total que mais dá que se diga 75% ou 85%… ainda que fosse o 90% havia de ver-se de no 10%, no 3%, ou no 0’5% restante não é justo que reside a nacionalidade… XD XD XD

      Porque sinceramente retirando a ortografia o 85% ou ainda mais já é comum a Castelhano e Português… matiz cá, localismo lá, uso particular acolá…

      Existem realmente UM Castelhano ou UM Português? ou são ficções de Estado como o Italiano? o Galego é outra cousa? acaso, tentou ser outra cousa? queremos que seja outra cousa?

      Os dialetos Castelhanos e Portugueses ambos em vias de extinção, como os Galegos… sem questões políticas e sem a distância entre ambos procurada que lhes deu a unificação Nacional no processo de construção da língua e do estado não passam de co-dialetos pasmosamente próximos… entre os que os dialetos galegos, leoneses e andaluzes fazem perfeito sentido…

      Não há comodidades nem ciências cá… há nacionalismo e história das invenções nacionais portuguesa e espanhola… e há apoios explícitos ou implícitos aos status consagrados ou ainda aos establishments concorrentes em ambos os estados.

      • Venâncio

        Eu continuo a acreditar na ciência, e que ela pode enfrentar (não sei se vencer) as ficções estatais.

        Dou-te o exemplo do italiano, que tu declaras, e com razão, uma «fição de Estado». [Visto que nenhum falante de português, no mundo inteiro, deixa de pronunciar, aqui, fiKção, eu escrevo… «ficção de Estado» :)].

        Bom, até cerca de 1980 sempre se afirmou que os ‘dialectos’ italianos eram “dialectos do latim”, e toda a gente acreditava. Até que Mario Alinei e a sua equipa demonstraram que eles eram mais antigos que o latim ainda! Hoje, é uma parvoíce pública afirmar a convicção tradicional. E eu escrevo ‘dialectos’, porque, na realidade, são línguas, bastantes delas mais diferentes entre si que Português e Francês.

        São «Castelhano» e «Português» línguas diferentes? Tu sugeres que são os Estados a afirmá-lo. Um chinês (e decerto não só ele…) tem a certeza absoluta de que não são. Eu, humildemente, sustento que o são, e creio poder demonstrá-lo, como creio poder demonstrar que nunca jamais Galego e Castelhano viveram uma história comum.

        Enfim, meu caro historiador: quando todas as ideologias tiverem subjugado o mundo, haverá algures um cientista que olha, abanando a cabeça, a geral loucura.

        • Ernesto V. Souza

          Nunca conheci um cientista que não deixasse de ser um simples humano… que é a Ciência senão acúmulo de metáforas com que pretendemos explicar o mundo?

          Em falando de línguas, história e nações sou mais de falar de Humanismo que de Ciências… humanas…

          Agora, como humanos, meditizados e dentro de tradições alegóricas, de metáforas, de tropos, de convenções fazem os cientistas ciência como os músicos musica, os pintores óleos, os gramñaticos gramáticas e os carpinteiros móveis… há períodos, fases, estilos… estabelecidos… há escolas… na ciência, na música, na gramática, na literatura e na carpintaria… por elas passa o nacionalismo, o imperialismo, o fascismo, o colonialismo… toda a ideologia na que nos educaram e na que vivemos… todas as modas do nosso tempo, todos os focos, toda a tradição transmitida… e toda a vontade de saber e de vanguarda…

          Fição eu diria… e não teve tantos paus em nenhuma escola como para que me seja importante, pertinente ou mesmo destacável… ficção… Por que eu não os teve isso é o que me interessa, não o feito de escrever ou não um c…

          • Venâncio

            Há um pequeno pormenor, Ernesto. A pronúncia (e consequente escrita) do «c» em ficção permite-nos, a nós, distingui-la de fissão. Claro, para um galego nada disto conta… 😉

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            É ao contrário: a escrita e consequente pronúncia. Não esqueça que a codificação da língua é feita por pessoas que sabem ler e escrever, desde sempre, desde o primeiro livro escrito em qualquer língua.

          • Venâncio

            Não, minha senhora. O primeiro lavrador do Lácio que, há uns 2.500 anos, precisou de falar em fictio (‘forma, imagem’) pronunciou-o com o som «K». O senhor não sabia escrever, nunca soube, mas era assim que falava. E durante 25 séculos até hoje foi assim que se pronunciou em toda a România… menos na área do espanhol, onde o som «K» é aqui praticamente inaudível, e por isso parece a um espanhol que a escrita «ficción», «fiction», «ficção» etc. é arbitrária e imposta pelos poderes… Problemas espanhóis, em suma.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Precisamente, o lavrador o Lácio não escreveu fictio nenhuma. Não sabia fazê-lo. Não foi o lavrador do Lácio, nem o da Crunha, quem mandou escrever “ficção”, foram outros, mais académicos, sim. É por isso que deve relembrar com quem “fala”, mais devíamos dizer com quem “se escreve”, porque tem diante pessoas que se expressam muito bem apesar de terem aprendido muito mal estas questões académicas do abecedário e as normas ortográficas e tal. Lembre, o nosso é a fouce.

          • Venâncio

            Não percebo. Como queria a senhora que os primeiros romanos que quiseram escrever o que pronunciavam fictio, fictor, fictum, fictilia, fictura, ficte, ficticium (tudo da mesma família, dentre dezenas doutras semelhantes), como queria que eles escrevessem? Eliminando o «c»? Para fazerem a vontade, uns 25 séculos depois, a uns milhões de espanhóis?

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Não percebe? A ver como lho explico. Tem-me que seguir por uns instantes, acho que não terá dificuldades para fazer isso… O primeiro é saber se você concorda em que se pode dizer e mesmo pronunciar a palavra “ficção” sem saber escrevê-la. Refiro-me a que uma pessoa, muitas pessoas, mesmo todas as pessoas deste mundo poderiam, dadas as circunstâncias adequadas para esse fim, passar toda a sua vida sabendo dizer e também o significado da palavra “ficção” sem saber escrevê-la. Concorda?

          • Venâncio

            Não li. Eu fiz-lhe uma pergunta muito concreta. Responda primeiro, depois lerei.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Meu caro, eu sei que você leu… Você sabe que leu e eu sei que leu. Seja bonzinho e aceite o trato.

          • Venâncio

            Não li. Se a senhora não acredita na minha palavra, fique já por aqui. Também não se perde nada. Até agora, não soube ater-se aos factos da língua, e só se entregou a uma retórica de café.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            XD, como o senhor quiser. Mas lembre: é ao contrário. Pronunciamos como escrevemos. É mais, temos consciência da pronúncia graças ao código que aprendemos. Antes de saber escrever, como as crianças, qualquer pronúncia nos vale com que seja minimamente inteligível, e de bebés, nem isso…

          • Venâncio

            Bom, e que me diz à retórica contrária, a do nosso malfafado Malaca, que percorreu Portugal assegurando que o AO90 era “da natureza das coisas” pois “a pronúncia precede a escrita”?

            Pergunto-me: porque é que os académicos hão-de andar sempre a encher-nos de lérias? (com desculpas para alguns que escapam à maldição 😉 ).

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Lembre, relembre, caro Fernando: As pessoas falam antes de escrever (eu queria que você me dissesse se concorda com isso, mas enfim, dou-me por vencida…). E lembre também que não são as analfabetas as que definem o código escrito das línguas. Mas as analfabetas sabemos falar. Portanto, a pronúncia precede a escrita, mas as normas da escrita não estão feitas por pessoas que só sabem falar. As normas estão feitas por umas poucas pessoas (1 entre mil? entre dez mil? entre 1 milhão? mais?) com uma base académica fortíssima, que domina e conforma a ideia que essas pessoas, elite, têm do que uma língua é ou deve ser. É por isso que decidem dar-se à tarefa da codificação. São lavradoras da palavra, poderíamos dizer, romanticamente… 😉

          • Venâncio

            Bom, e tudo isso (suponho, já que não respondeu à minha muito concreta pergunta) para dizer que os brasileiros, mailos angolanos, mailos moçambicanos, mailos portugueses, enfim todos quantos pronunciam os cês e os pês de dezenas de palavras, e por isso todos os escrevem, que eles deveriam… olhe, eu francamente ainda não percebi (não percebi!, repito) o que quer a senhora que eles façam.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Eles tampouco escrevem porque pronunciam, caro. Eles também pronunciam porque aprendem a escrever. Tome o exemplo duma nativa bitonga ou chope.

          • Venâncio

            Puro paleio de café da esquina. A senhora bóia numa névoa atemporal, a-histórica, cheia de palavreado sonoroso, e sem contacto com a realidade dos idiomas. De resto, sempre a conheci assim. Mas supus que o trato com os sábios a convencesse da conveniência de se instruir um pouco. É verdade: estou a chamar-lhe inócua, e primária, em questões do idioma, papagueando leituras em diagonal. Nem todos podemos ser desembaraçados em todos os domínios. A senhora há-de ter a sua praia. Mas não é esta.

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Não é preciso insultar, meu caro. Tenha boa noite.

          • Venâncio

            Eu tomei-a a sério, minha senhora. Fiz-lhe perguntas que engatavam directamente em afirmações suas. Não tive direito a nenhuma resposta directa. Não sei quem aqui insultou quem. Ou quem andou a galhofar com quem.

          • Venâncio

            Acrescento: o fatídico Acordo Ortográfico 1990 do português foi ‘vendido’ pelo académico Malaca Casteleiro exactamente com o argumento de que “a pronúncia precede a escrita”… Os académicos tendem a ser oportunistas. Quer digam uma coisa, ou o seu contrário.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando… Acho que corrigi esse ficção nem um segundo depois de ter clicado em publicar…

            Agora é indubitável que os mais dos galegos com sesseio pronunciam desse jeito… é uma fisson* diz a gente… confundindo fição* e fissão … por igual que todos pronunciamos pato e impato e artefato… ainda que os “cultos” queiram pronunciar pacto e facto…

            Eu de estar na minha mão suprimia em todos os casos…ninguém ia confundir um fato de um fato nem uma fição de uma fissão…

            Esses grupos com C são alheios ao galego oral… ou se eliminam afetando a apertura vocálica se reforçam com U… pauto, artefauto… mas suponho que é fenómeno geral, mais ou menos espalhado e que dá lugar a outros fenômenos populares ou variantes…

          • Venâncio

            Eu sei, Ernesto. Só anotei aquilo porque reparo que tu escreves regularmente «pato» por ‘pacto’, «oção» por opção, e agora «fição» por ‘ficção’. Trata-se de três casos em que, precisamente, todos os falantes de português pronunciam com nitidez a consoante ‘culta’.

            Dizes que és levado pela pronúncia galega. Eu duvido. Tu fazes isso também em espanhol, tenho quase a certeza. Em toda a Espanha, actualmente, a primeira consoante dos grupos ‘cultos’ tende a desaparecer.

            [Acho que o Gamalho não leva a mal que as conversas derivem… É da própria dinâmica deste ambiente internético.]

          • Ernesto V. Souza

            Sim eu faço também em castelhano… mas ao meu redor não percebo que façam desse jeito na Espanha… eles fazem ?

          • Venâncio

            O meu ouvido apurado confessa-me que sim… que é geral em Espanha o ensurdecimento da primeira consoante dos grupos cultos, até à desaparição na pronúncia relaxada.

          • Ernesto V. Souza

            Bom nós começamos antes… portanto mais um galeguismo no castelhano… XD

          • Venâncio

            A tentativa é boa… Mas não. É o forte vocalismo do espanhol, ele mesmo, que faz diminuir os grupos consonânticos. O galego-português, pelo contrário, dum vocalismo mais brando e matizado, deixa frequentemente intactos (intaKtos…) esses grupos.

            Prova disso é a fonologia brasileira, que vai mais longe, ao ponto de introduzir uma vogal «i» no seio do grupo. Deste modo, no Brasil, e para usar os mesmos exemplos, «pacto» soar páquito, «opção» soa opição, e «ficção» soa fiquição

            O vocalismo espanhol não é de base latina (não possui, como o galego-português, as 7 vogais orais). Supõe-se que deriva, antes, do sistema vocálico do basco.

            Moral da história: a simplificação dos grupos consonânticos («pato», «oción», «fición») é, na Península, um fenómeno essencialmente castelhano.

            Outra questão é saber se as 7 vogais do galego se podem manter no futuro. Na fala dos neofalantes e na dos paleofalantes mais novos, elas já se reduzem às 5 do espanhol, e poucos são os galegos “intelectuais” que conservam as 7. Um deles, sei, é o Isaac Estraviz.

            Mas pergunto-me: quantos dos que isto lêem distinguem, por exemplo, entre «sede» e «séde» (lugar), ou entre «fora» e «fóra»? Ou isso já é uma batalha perdida?

          • Venâncio

            Eu já sei qual é a reacção aqui habitual: “há coisas mais importantes do que as sete vogais”. Sem dúvida. Mas acontece que, seja qual for o tema linguístico, a reacção é sempre essa: “há coisas mais importantes…”

            Sim: para alguns de vós, em nome da resistência ao inimigo, há sempre coisas mais importantes que a língua. Nunca aqui é possível manter um debate sobre uma questão essencialmente linguística. Surge sempre a retórica, a ideologia, o rematar para canto…

            A língua não vos interessa verdadeiramente? Vós dizeis sempre que sim, que interessa muito. Mas isso nunca equivale a um compromisso linguístico. Um verdadeiro, explícito compromisso linguístico. Uma defesa empenhada dum material linguístico concreto.

            Eu sei: no vosso círculo não abundam os linguistas. Na realidade, o único linguista do reintegracionismo galego (não estou a falar de lexicógrafos, de sociolinguistas, de pedagogos…) é o Xosé Ramón Freixeiro Mato. E esse não pertence ao vosso clube.

            Se existe coisa que, autenticamente, demonstre a tragédia em que o galego se afunda é esse facto de Freixeiro Mato ser rejeitado tanto pela RAG como pelo Reintegracionismo.

          • Ernesto V. Souza

            Homem… e entre nós… eu, sinto-lho dizer porque penso que tem simpatia com ele, mas já vai sendo tempo… a Freixeiro tenho-o como um militante nacionalista de partido… desses que na Universidade e na cultura representam o caciquismo, o nepotismo, o setarismo… desses que escolhem “os nossos” por cima da valia, do trabalho e da ciência… a obra é a sua… mas é a sua carreira… onde está a escola, o tecido institucional?

            Agora, pessoalmente eu de poder dava-lhe a ele e a outros toda outra oportunidade para colaborar… mas para mim que quem tem as ferramentas, o pequeno poder, a capacidade de convocar, de criar espaços é ele… não eu… e os que por cá nos andamos…

            O mesmo com a RAG… nós não os abandonamos… foram eles os que nos abandonaram a nós… 😉

          • Venâncio

            Talvez ele próprio, Freixeiro, não saiba distinguir o militante partidário do homem de ciência. Sim, também um Ferrín não saberá distinguir o militante do escritor… mas tu consegues, e concordarás em que ele é um orgulho para a Galiza e para o galego. Portanto, distingue tu.

            E, depois, Freixeiro dispõe de bem menos capacidade de “criar espaços” do que pareces supor… Até porque a malta não sabe, nem quer, fazer aquela distinção.

          • Ernesto V. Souza

            Seguramente, Fernando, eu sei que é do melhor que há, e mesmo é boa gente e trabalhadora… simplesmente a coincidência de circunstâncias, de fatores, sociais, políticos e pessoais… maus entendidos…

            Há ainda que dar algum tempo para esse pessoal entender muita cousa… mas já chegará o dia de fazer cousas em conjunto.

            Saúde

          • Ernesto V. Souza

            Interessante, sei que para você, para muita gente é relevante, importante e até preocupante…

            Ainda há uma maioria que distingue na pronúncia… o mesmo em castelhano que no galego… Agora, os neofalantes urbanos da minha geração temos muito atenuado… e penso que a tendência é – sem remédios – a perca…

            Curiosamente tenho reparado, nestas festas, com certo estupor que já temos entrado numa nova fase em que já parte da Sociedade, não é apenas refratária ao galego é que se preocupa mesmo em pronunciar e transmitir uma pronúncia à castelhana. Cousa que há 20 anos teria feito rir.

            Mas, dito isto… a mim as 7 vogais, a pronuncia, a mesma língua é algo que me preocupou sempre bem pouco… acho completamente secundário e não vejo dramas nestas mudanças… e francamente não vejo que o galego possa ter um espaço independente entre o português e o castelhano, poderia ter, de ter ficado desde início num espaço galego português comum.

            Ficando como ficou na parte da Espanha, sem tradição culta, sem cultura plena, sem ferramentas e mecanismos corretores padronizadores… só pode aspirar a dialeto original cujo desgaste só se determina pela sua própria força e presença, pela transmissão pessoal, local, geração a geração.

            O cenário do conto do Gamalho é a precariedade em que nos encontramos para tratar de desenvolver um conjunto de ferramentas que podiam ser uma esperança… a Lei Paz Andrade… o cenário é dantesco, ridículo, absurdo, precário… a ignorância, a obcecação dos chamados patriotas só é comparável à mesquinharia e perversidade destrutora do espanholismo…

            E entre os uns e outros… sem rumo e com rumo cipaio ao aniquilamento… A Galiza está a ser destruída… paisagem património, arquitetura, memória, recursos, sociedade, território, pensamento, cultura, vontade, população… é um processo imparável desde início do século XIX e derivado (e necessário) da construção nacional da Espanha.

            A Galiza não pode ser… e foi já há muito condenada a mito, a folclore, a província simpática, arcaica, supersticiosa, e de dialeto e pensamento arcaico…

            Eu nestes momentos duvido que os galegos decidam por via revolucionária independizar-se da Espanha (ou deles próprios) e portanto não vejo mais via, nem cenário que esperar por um possível colapso da Espanha…

            O colapso é o cenário mais possível. Quando acontecer haverá que ver que resta do galego… e como se encaixa.

            Mas sem esse colapso, não vai reagir a gente da Galiza…

            E não digo mais, sei que abusei do tempo do tema e do espaço… Mas é um prazer falar Fernando, nestes foros, sempre… longe desse fanatismo, desse desnorteamento geral, dessa brutalidade caciquil…

            Saúde

          • Venâncio

            Compreendo, caro Ernesto. A destruição da Galiza avança inexorável. Por isso, se ao menos se salvasse a língua, haveria sempre uma razão para acreditar num futuro galego.

          • Ernesto V. Souza

            Caro Fernando, isso é o que pensa muita gente, mas eu cada vez mais concluo que é um pensamento próprio da era das nações…

            Para mim a chave da Galiza não é a língua… é a Terra, a geografia, o território… a Galiza é desde idade remotíssimas um santuário, um refúgio, uma reserva natural… a língua, a cultura, a vida emanou dela e não ela da língua…
            Por isso essa desconexão talvez com uma modernidade… que não soubemos ou não nos deixaram acompanhar.

            Trataremos é claro de conservar, atualizar e dar futuro à língua e ao resto das cousas…

          • Venâncio

            Sim. Cem vezes sim. E a verdade é que existem galegos empenhados, tolerantes e inteligentes, pertencentes a clubes diversos, que seriam capazes duma acção coordenada, longe das várias ortodoxias e das suas chantagens. Mas a desconfiança mútua mina-vos constantemente os horizontes. E as ortodoxias estão sempre atentas, e atacam cerce qualquer deriva rumo ao entendimento. Não sei de solução para este vosso problema.

          • Ernesto V. Souza

            eu sei… mas falham as circunstâncias…

      • Joám Lopes Facal

        O facto de o galego ser unha língua confirmada pola história é umha evidência que seria bom aceitar. A ver se vai resultar que é preciso contar cumha experiência biográfica infantil prévia para pode suster afirmaçom tam atrevida.
        Sei que o galego existe, e presumo que também o português e o castelhano.

        • Ernesto V. Souza

          Muito bem, João, mas isso é diretamente fé… não é ciência é como muita cousa que passa por ela crença … 😉

  • Letizia Paula Martín

    Não sei se rio ou choro, choro ou rio. Como muitos portugueses reintegracionistas costumam dizer que sou apenas mais uma brasileira ignorante, resolvi jogar os diplomas concedidos pela USP fora e também tudo o que aprendi em meu pais, quer seja no convívio cotidiano com imigrantes, quer no rural com os que preservam marcas mais antigas da língua que aqui se fala, quer nas aulas de linguística história ou na análise de textos de alunos de várias regiões do país ou em livros de todos canto … pouco importa. Tudo me parece muito bizarro. Para mim, o caminho que deveria ser feito, se os portugueses – por motivos políticos, pois não me parece que tenham tanto amor aos galegos que vivem em Espanha, querem propor aos galegos – e tantos galegos com eles concordam – o reintegracionismo, deveria então o português luso se render e reconhecer TUDO o que há de Galego na língua que falam. Um menino de 11 anos, depois de ler muitas besteiras escritas por alguns portugueses que nada entendem de linguística disse-me: ” Prof em tempos passados Isabel seduziu Fernando e usaram uma régua para dividir territórios como o povo do Porto. Dividiram a Américam a Àfrica e a Galícia” O Reino da Galícia é anterior ao Estado Português, a Língua que os das caravelas falavam era o Galego. O preconceito linguístico encerrou o galego no campo, também no Brasil. Ainda há pegadas nas falas e na escrita em quase qualquer escola paulista. “Tamén” e não “Também”, mais e não “Mas”, polo, moito, moi, pronomes grudados em verbos e ordens indiretas na organização sintática, entre muitas outras coisas. Muitas dessas marcas não estão nos textos do português arcaico estudado pelos linguistas, porque o português arcaíco era a língua considerada adequada, do povo do PORTO, o Galego, a do povo do campo, das bandas do Minho. Na Argentina, dona Emilia Ferreiro considerou as hipóteses de escrita em galego como um passo para escrever em castellano, PARVA, matou o galego daquele país e os brasileiros compraram as hipóteses e enfiaram goela abaixo das crianças brasileiras. Que interessante seria, se os portugueses reintegracionistas passassem a chamar o PORTUGUÊS de Galego e ensinassem suas crianças a falar em GALEGO, hum? que tal cantarem em Galego e lerem a Rosália em Galego?? Por acaso, no Portugal Salazar, houve menos desrespeito ao Galego da gente que ainda o falava do lado de lá da fronteira? Vou-me galegos e portugueses, sou apenas uma brasileira ignorante, deixou estas VERBAS escritas em um brasileiro comum e cheio de erros que se pretende um filho do Galego e não do Português… e o Português, para mim, é apenas um irmão mais velho e carrancudo, que quer roubar no pai – ou seria da mãe- o trono. ABUR

    • Venâncio

      Cara Letizia:

      Levar os portugueses a reconhecerem «tudo o que há de Galego na língua que falam»: eis um magnífico programa. Modestamente, venho-o eu mesmo preparando e oferecendo aos poucos ao mundo… Veremos até onde consigo ir.

      De momento, ofereço-lhe este depoimento do seu compatriota Marcos Bagno, conhecido professor da universidade de São Paulo. Resposta e pergunta numa entrevista a «Beira do Rio», jornal da universidade do Pará. O destaque é meu.

      Beira do Rio – Em conferência em Belém, o senhor apresentou resultado de pesquisa em que conclui que o português não deriva do latim, mas do galego. Mas, na mesma conferência, mostrou que o galego é uma derivação do latim vulgar. Então, não é lógico concluir que, em última instância, o português deriva do latim vulgar?

      Marcos Bagno – A discussão está no nome que damos às línguas. Se o português vem do galego e o galego do latim, é claro que temos uma continuidade histórica, só os nomes mudaram. Porém os nomes das línguas não são inocentes. Quando os estudos históricos fazem o vínculo direto “português – latim”, eles passam por cima do galego, da história e da geografia. Foi todo um processo ideológico que tentou apagar as origens galegas da língua portuguesa, para que o português fosse considerado uma língua tão nobre e importante quanto a latina.

      Temos todos, portanto, um bom trabalho pela frente.

      Fernando (português em Amsterdam)

      • Letizia Paula Martín

        Obrigada, Venâncio. Um arremate: o preconceito linguístico discutido por Marcos Bagno e tantos outros em meu país é um dos legados deixados pelos nossos colonizadores. Não tenho hoje condições para fazer um projeto de pesquisa adequado, pois mudei – por minha irritação com tais questões – meu foco de estudo e trabalho, mas, com certeza, ainda há MUITO no território brasileiro, no falar da gente do interior e do campo, de um antigo galego. Para mim, guardadas as diferenças e proporções, o reintegracionismo, nada mais é do que a reprodução do que nossa escola faz com essa gente do campo. Matar a´língua de raiz para incluir toda essa gente em uma outra organização social, desprestigiando sua cultura e história. De minha parte, por onde andar, levarei o galego para jovens brasileiros, como nossa língua ancestral que pode ser respeitada, conhecida, amada e – talvez – lida e falada como podemos falar qualquer outra que queiramos.

        • Venâncio

          Se bem entendi, Letizia, você julga ver um paralelo entre o o papel do Reintegracionismo galego e a acção da escola brasileira. Um e outra estariam apostados em afastar o respectivo povo das suas raízes e daquilo que lhe é próprio.

          Quanto ao Reintregracionismo galego você está enganada. Ele visa, justamente, devolver ao povo galego o seu idioma, o Galego, revitalizado, fortalecido pelo aproveitamento – quanto necessário, e quanto desejável – daquilo que o Português, por ter vivivo em melhores circunstâncias, pôde conservar do pecúlio comum. Nem menos do que isso, nem mais do que isso.

          O Reintegracionismo galego não quer substituir o Galego pelo Português. Não considera o Galego como “falas” duma língua que seria o Português. O Reintegracionismo galego orgulha-se, e com mil razões, do Galego como a língua da Galiza.

          Espero que você tenha, agora, uma melhor noção do papel e da acção desta nobre gente.

          Um abraço.

          • Letizia Paula Martín

            Não, Venâncio, não pretendo avaliar o reintegracionismo galego. Observo apenas atitudes deste movimento no lado Português, com comentários do tipo: “agora, só falta firmar um acordo ortográfico”, “o galego e o português são a mesma língua” e outras que nem me atrevo a reproduzir, pois como diziam meus ancestrais: a palavra tem poder e uma ideia ou palavra ruim não deve ser reproduzida. Cresci em uma cidade em que pelo menos 70% da população era de origem galega. Mas, naquela época, mesmo que existisse uma fronteira entre Portugal e Espanha, qualquer um da região do Minho era galego e vinham para cá e falavam galego. Com o salazarismo isso mudou. Agora há galegos de um lado e minhotos do outro. Os que vieram para cá de Viana do Castelo, por exemplo, quando vão visitar sua terra natal, muitos não podem falar galego, pois lhes pedem que falem em português. E, mesmo que dentro do contexto Europeu isto não seja percebido, a “lusofonia” assume para muitos portugueses uma retomada camuflada de glórias do período colonial. O amor galego pela Galícia, pela cultura galega e em especial pela língua é de outra natureza. É contagiante. E toda gente, de qualquer canto, deve amar assim sua língua e cultura. O orgulho de alguns portugueses – alguns – e a ignorância de outros que os seguem de um modo parvo, isto me assusta. De qualquer modo, os galegos seguirão escrevendo sua própria história, fazendo suas escolhas de acordo com o que avaliarem como mais acertado. O estrago deixado no Brasil em outra época quando aqui – não na Galicia – o português se impôs (aos moldes do castellano) sobre o galego e as línguas indígenas, este não tem mais retorno, a não ser, talvez, o reconhecimento de dialetos de modo a não sufocar a língua materna de tantos. Unha Aperta

          • Venâncio

            Tem razão, Letizia. Não é a “Lusofonia” que vai mexer um dedo para vitalizar e promover o Galego. E aqueles galegos que acreditam que sim, esses poderão fazer ao Galego um mal irreparável. Felizmente são poucos e, ainda mais felizmente, pouco inteligentes. Valha-nos isso. Um abraço.

          • Ricard Gil

            Mas entom a senhora esta a ter umha olhada pouco reflexiva com o que está a acontecer na Galiza . É claro que o respeito para o galego e a variaçom dialetal vive nos corações de muitos de nós , mas o dilema perante o qual reage um reintegracionista ou mesmo alguns dos isolacionistas é se estamos ou nom a ser assimilados pelo castelhano . Exemplifico: à hora de escolher umha variedade padrom , o de ortografar as variantes do galego , a norma isolacionista escolhe dígrafos ( ñ face nh ; ll face a lh ; e nh face a mh para a representaçom da velar nasal) normas de acentuaçom ( historia e nom história ciéncia e nom ciência) que ligam as variantes galegas ao castelhano. O problema cá já nom é mais este , senom que mesmo o nosso sotaque os nossos fenômenos como o sesseio e as 7 vogais som preteridos , banidos , da pronúncia culta da TVG e RG polo “ceceio” e as 5 vogais que mais umha vez o castelhano impos , e ainda mais , há profesores e pessoas licenciadas em galego que defendem a galeguicidade de palavras como conexo face a coelho , dim ( pretérito do verbo dar) por dei , esperar um rato por esperar um bocadinho /chisco….Quer dizer cousas que até as Nomiga por enquanto dim que estam erradas , pois eis temos o pavor dum galego que é a conversom da língua num bable!! . O temor de sermos assimilados polo português só se daria numha Galiza monolíngue com o galego como língua natural e que umha vez dentro da lusofinia adaptase o seu face o Lisboeta por dizer um exemplo como os minhotos , mas a realidade é que o português é para nós umha língua optima , um modelo que salvaguardou e referência para construir a língua”padrom” porque é do que falamos. Por isso o trabalho indespensável das pessoas deste Portal sejam mais reintegracionistas ou mais lusófilos , por isso o bom de professores como Venâncio , Freixeiro , Fagim ,Garrido , gente como Vitor , Isabel , Ernesto,……. Oxalá chegasse um dia em que tiveramos de defender particularidades galegas face a portuguesas brasileiras ou angolanas ( eu polo contrário como som um trapalheiro amante das línguas tento incorporar termos como jujuba por chiclete ou caça niqueis por slot machines) MAS O QUE SE TRATA agora é de defendermos a incorporaçom de palavras castelhanas-espanholas ou luso-afro-brasileiras , (guanteira face a porta-luvas , gíria face a xerga , rédeas face a rendas , catatua face a cacatua…) neste momento histórico ou somos galego.portugueses ou seremos como o asturiano galego-castelhano Da para a gente perceber?

  • Venâncio

    [respondo aqui ao comentário de Madeiradeuz, há cerca de uma hora]

    Gerardo: quando os amigos são falsos, tanto faz se o são fora de casa ou portas adentro…

    Creio que uma afirmação como «O ‘galego’, expurgado de castelhanismos, não tem falsos amigos em relação ao ‘português’» é da ordem da mitologia. Nunca é de mais lembrar as 300 páginas do «Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro» de Mauro Villar…

    Sim, o número de descoincidências semânticas parciais ou totais (estes, os verdadeiros “falsos amigos”) entre brasileiro e português é enorme. Eu sei: um reintegracionista tende a ignorar, ou a relativizar, esta circunstância, porque ela o desorienta. Paciência! Mais vale sermos realistas… e informados.

    Deixo-te aqui alguns exemplos de falsos amigos entre galego e português (o significado português vai indicado). Se houver coincidência parcial, agradeço que me informes. Importa, sim, o valor primeiro e predominante, e não local, dialectal, dos termos.

    ARROLAR: alistar, pôr no rol
    BICO: ponta aguçada
    DESFEITA: insulto, afronta
    FEITO: façanha
    FITO: objectivo, intenção
    FRAGA: rochedo
    LABREGO: indivíduo grosseiro
    PATACA: moeda antiga
    REGUEIFA: tipo de pão
    RETRANCA: desconfiança

    Deve haver bastantes mais, não fiz nenhum estudo aprofundado da matéria. Mas estes podem chegar, por agora.

    P.S.
    E há outros, que dão menos nas vistas, como chamar MARINHEIRO ao que nós dizemos habitualmente ‘pescador’ (para nós um ‘marinheiro’ é, quase sempre, um funcionário da Marinha) ou usar RAPAZES incluindo os dois sexos (para nós ‘rapazes’ nunca inclui ‘raparigas’).

    • madeiradeuz

      Adorei a listagem e agradeço muito que a tenhas colocado aqui. Mas, como já indiquei antes, para mim isto são exemplos da variedade interna da língua. E não, não me desorienta o mais mínimo. Como comentei, é algo que acontece em mais línguas sem que por isso se ponha em causa a unidade, e o castelhano é uma língua avondo próxima como para o comprovarmos.

      “Se houver coincidência parcial, agradeço que me informes”.

      O meu conhecimento é limitado, mas alguma há:

      – bico: coincidência, registada por exemplo no dicionário da RAG de 1913-1928; de facto, é o sentido primigénio do termo, sendo a ponta dos lábios e o beijo derivações deste

      – fraga: no galego popular não o tenho sentido (o qual não quer dizer que não exista), mas aparecem registos deste uso (http://sli.uvigo.es/DdD/ddd_pescuda.php?pescuda=fraga&tipo_busca=lema)

      – pataca: como moeda, temos o ‘patacão’ (patacom), antiga moeda de nome comum a outras de territórios das coroas castelhana e portuguesa; ainda persiste a expressão “isso nom vale um patacom” (ou “um pataco”)

      – regueifa: ademais de um género literário/musical popular, é também um tipo de pão ou doce

      Mesmo que não houvesse coincidência nenhuma, para mim não variaria nada, porque é um exemplo da vivacidade da variedade interna. Achei que nos primeiros exemplos colocarias “jantar”, que tenho escuitado no norte de Portugal como o mesmo sentido que na Galiza 😉

      • Venâncio

        Claro, Gerardo, nada disto põe em causa a unidade da língua, embora a nossa “unidade” seja de ordem diferente da do espanhol. Somos uma língua constitutivamente pluricêntrica, e cada vez mais o seremos. Cautela para não projectar sobre o nosso idioma o esquema espanhol ou francês…

        Obrigado pelas achegas. Sim, deveria acrescentar-se «jantar» e «ceia», que correspondem ao português «almoço» e «jantar». Dizes que tens escutado o sentido galego no Norte de Portugal. Se encontrares, hoje em dia, alguém que o diga e tenha menos de 60 anos, dou-te um rebuçado. 😉 Eu conheci bem a linguagem do Minho e de Trás-os-Montes, há meio século, por intenso contacto local de anos. Hoje quase nada disso existe mais.

        Não é sobre a continuidade transfronteiriça que importa apreciar a unidade de galego e português. Essa continuidade terá desaparecido inteiramente daqui por 20 anos. O mais importante, e o mais convincente, é aquilo – e é espectacularmente muito – que a língua-padrão galega e a língua-padrão portuguesa mantêm em comum e em exclusivo.

        É no incentivar dessa riqueza comum e exclusiva que deve orientar-se a revitalização do galego, e não na cópia descabelada dos usos-padrão portugueses.

        • madeiradeuz

          Não perguntei a idade, mas quase com toda certeza eram de 60 ou mais anos as pessoas que ouvi usar «jantar» à galega. Também tenho escuitado a forma “áugua”, que no ‘galego’ acho que só se encontra nas falas mais orientais (já na província espanhola das Astúrias, com tropónimos com Entreambasáuguas / Entre-ambas-Áuguas).

          Enfim, a unificação do português em Portugal parece que seguiu um bocado o provérbio espanhol de ‘la letra, con sangre entra’. Comentava-me anos atrás uma senhora (calculo que perto de 80), no autocarro de Vinhais a Bragança, que na escola lhe batiam de miúda quando pronunciava o «ch» à galega em palavras como Chaves, achegar, etc. E o mesmo se dizia «auga» (sic) em lugar de «água», entre outros exemplos.

          Dito isto, acho que a maior parte dos reintegracionistas galegos coincidem no que tu comentas dessa visão pluricêntrica, ou polo menos eu identifico-me com esse desejo; mas é na maneira de como atingir esse objetivo que discrepamos (polo menos parcialmente). No meio deste debate, que não é doado de solucionar, aparece um outro assunto, que é a frequênte de usos linguísticos à lisboeta (dito assim por simplificar, desculpem-em os lisboetas) em textos reintegracionistas é um fenómeno minoritário. Na minha opinião, se os há é mais por ultracorreção (ou ‘ultraprevenção’) do que por explícita vontade de imitação, como poderia acontecer num uso de «também não» (pouco frequente na Galiza) no lugar de «tampouco» (mais frequente e afim à forma castelhana, “tampoco”).

          Mas essa imitação também pode servir para enriquecer o léxico galego. Seria algo negativo? Ponho como exemplo a expressão «a irmã caçula» ou «o filho caçula», que seria equivalente ao que em castelhano chamam ‘el / la benjamín’ (filho ou irmão menor).

        • ranhadoiro

          e do lado galego o mesmo desaparecimento, só castelhano simples, e penso que nos anos para isso anda o sr certinho. Salvo que o português simples e uniforme nos invadir de Portugal… milagres sucedem quando não se aguarda, quiçá o sr. esteja a preferir o castelhano simples na Galiza

          • ranhadoiro

            Só no português há alguma hipótese de sobrevivermos

          • Venâncio

            Ranhadoiro: o «português simples e uniforme» só existe na sua mal-informada cabeça. Mas a sua última afirmação (mesmo com esse delicioso «quiçá») é uma afronta.

          • ranhadoiro

            É exigível ao senhor pensar as cousas mais, quando comenta outros comentários, pois a maioria apanha-os sob os seus preconceitos, e sua excelência leva um bom bocado e diversidade de comentários para cair um nada da burra, a que não tarda em voltar a subir.
            Eu não penso no português como uma realidade simples e uniforme… quando digo isso estou a fazer um paralelo com o castelhano de “espanha”, e o português de Portugal, esse português que o sr. comenta, que apaga a diversidade em Portugal…
            Para a sua satisfação este é o derradeiro comentário sobre qualquer cousa que possa dizer de aqui em diante, assim que fique a sua excelência tranquilo