RODÍZIO DE LÍNGUA

Português brasileiro: o galego tropical



Seja pelo número de falantes seja pela influência que o Brasil teve nas últimas décadas no mundo, o português brasileiro adquiriu um protagonismo que a tornou a variedade mais importante da língua galego-portuguesa.

Todavia, a língua falada no Brasil é ainda para muitos galegos uma grande desconhecida.

A socialização da realidade linguístico-cultural brasileira é fundamental para combater preconceitos linguísticos ainda muito presentes na nossa sociedade. Preconceitos que acreditam que a cultura e a língua da Galiza carecem de valor ecuménico e apenas têm uso doméstico e limitativo. Porém, esse discurso logo esfarela ao mergulhar no universo luso-brasileiro, onde fica de manifesto que essa língua galega “regional” tem uma projeção internacional e uma relevância surpreendente.

É por isso que inicio uma série de artigos dedicados a falar desse galego tropical, desse português do futuro que é o português brasileiro.

Se estes textos contribuíssem para um maior conhecimento e interesse por parte do público galego da realidade brasileira, o autor destas linhas ficaria bem satisfeito.

1. Candangos, picheleiros e alfacinhas

Numa recente viagem que fiz ao Rio de Janeiro, ganhei do meu bom amigo Xoán Lagares uma Gramática brasileña para hablantes de español.

A Gramática, escrita por Orlene Lúcia S. Carvalho e Marcos Bagno com a colaboração do próprio Lagares, é uma magnífica ferramenta didática para aprender a variedade de portugalego, por utilizar a terminologia de Bagno, escrita e falada no continente americano.

Para além de uma útil e sucinta história brasileira que precede à fiel descrição da língua do Brasil, o manual reúne nos anexos uma seleção de falsos amigos, conjugações verbais e um quadro com os gentílicos dos 26 estados e das principais cidades do país.

Chamam a atenção do leitor galego -com certeza, também do português- os adjetivos de lugar que recebem alguns destes estados e cidades. Por citar os mais complexos, quem nasceu no estado de Rio Grande do Sul é gaúcho, no Espírito Santo é capixaba e no Rio Grande do Norte é potiguar.

Quanto às cidades, os naturais da que foi a primeira capital do Brasil, Salvador da Bahia, são soteropolitanos; os de São Luís do Maranhão, são ludovicenses e os de Manaus, um dos principais polos de produção cultural em língua galego-portuguesa do mundo, manauaras.

Mais corriqueiros são os gentílicos carioca e paulistano, referidos às duas grandes metrópoles da América do Sul, Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

Contudo, devemos tomar cuidado, pois o povo dos estados do RJ e de SP que não é da capital é fluminense e paulista, respectivamente.

Tanto na Galiza quanto em Portugal, é habitual que ao lado do gentílico erudito seja usado um outro de feição popular. Assim, os habitantes da capital da Galiza são compostelanos mas também picheleiros e os da Corunha, corunheses ou cascarilheiros. Em Portugal, os lisboetas são alfacinhas e os portuenses tripeiros. Este esquema coincide no caso dos cidadãos de Brasília, quem além de brasilienses são denominados, popularmente, candangos.

Brasília, Compostela e Lisboa deviam iniciar um intercâmbio cultural, linguístico e económico que enriquecesse e fortalecesse o grande espaço da língua portuguesa e contribuísse para a sobrevivência da cultura galega, berço da lusofonia.

Candangos, picheleiros e alfacinhas deixariam assim de ser estranhas palavras aos ouvidos lusófonos para ganharem o peso e a universalidade que merecem.

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal

PUBLICIDADE

  • Venâncio

    Boa abertura, Diego. Venha a série.

  • Ernesto V. Souza

    Afinal, da Galiza, nós somos, mais que modernos, futuristas… 😉

  • Louredo

    Mas algum comentário sobre o livro e a sua qualidade, se fai favor?

    • Diego Bernal

      A gramática é muito útil. Há uma grande carência de material didático para o ensino do português do Brasil. Nesta gramática o leitor aprenderá o português falado e escrito no Brasil hoje. É um material precioso para falantes de espanhol (especialmente o falado na América Latina) que queiram aprender o verdadeiro português brasileiro. Do meu ponto de vista, recomendadíssimo.

      • Ricard Gil

        Senhor Diego Bernal eu adoro o jeito de escrever do Bagno tenho já a gramática pedagógica do português brasileiro poderia ser tam gentil de me dizer como posso adquirir o livro esse nkvo??

        • Diego Bernal

          Olá, Ricard,
          Eu também gosto muito. Porém, nunca comprei um livro dele na Europa. Mesmo em Portugal, livros brasileiros são difíceis de conseguir. Quando morava no Brasil usava muito este site http://www.estantevirtual.com.br
          Aí tens sebos (alfarrabistas) que creio que enviam encomendas internacionais.
          Quanto a recomendações, para mim Bagno escreveu o livro mais bonito sobre a língua galego-portuguesa: A língua de Eulália. É um romance sociolinguístico maravilhoso e surpreendente.

          Abraço!