José Manuel Barbosa: “Temos uma tradição política e uma nação nas nossas mãos”



Após a publicação do primeiro volume, o professor Barbosa apresenta agora o segundo livro d’A evolução histórica dos limites da Galiza. Conversamos com ele para saber mais sobre esta novidade editorial.

Professor, como foi a acolhida da primeira parte deste interessante título? Ficou satisfeito com o resultado?

limites-ii-capa-488x710 A dizer verdade, não posso acertar a responder com exatidão, porque devido à falta de contato comunitário em vivo, provocado pela situação de pandemia, que inclui uma maior introversão pública e menor contato humano direto, temos os termômetros sociais trabalhando no meio da nevoa, com as luzes ligadas e em níveis muito baixos, mas o que sim posso dizer, após botar o olho àquelas janelas que ainda nos permitem enxergar qualquer cousa, nomeadamente as redes sociais, que a acolhida do primeiro volume suscitou muito interesse, quer pelas apresentações que fizemos com a ajuda dos amigos da Através cujo protagonismo foi importantíssimo (1), quer de amigos facebookianos como o “brasilego” Christian Salles (2) ou de outras pessoas, muito generosas comigo, que, entusiasmadas pelo tema, ajudaram a publicitar entrevistas ou apresentações por meios internéticos, com uma chegada muito longínqua e com certeza mais numerosa do que aquelas apresentações em vivo de tempos passados. Algo, que segundo tenho registado na minha memória, nunca tinha experimentado anteriormente com livros como o Atlas Histórico da Galiza, o Bandeiras da Galiza ou ainda livros anteriores. Essas imensas possibilidades comunicativas que oferece a rede não me permitem dar-lhe uma medida justa, ou pelo menos tendente à exatidão a respeito do que me perguntas, porque nunca sabes a quantidade de pessoas que podem estar atrás dum vídeo publicado em youtube.
No que diz respeito da segunda parte da pergunta, dizer que a minha satisfação é evidente, mas presumo que essa evidência há de ir crescendo dia a dia, segundo o trabalho vá tomando caminho, obstaculizado inicialmente pelas restrições pandêmicas que têm limitado a distribuição. Vejo que a cousa vai fluindo, porque as redes de distribuição vão recuperando a sua operatividade em relação aos inícios e, com certeza, iremos vendo como o livro há de ir cumprindo com o seu objetivo, que é, chegar ao público e comunicar o que queremos comunicar.

O senhor afirmava na passada entrevista que esta segunda parte continha “uma interessante conclusão clarificadora de certos conceitos mal elaborados pelo galego de a pé”. Pode concretizar quais som estes conceitos?

Esses conceitos estão determinados pelo Paradigma com que se trabalhou até agora. Seguindo este, primeiro disse-se-nos que a Galiza só existia como um apêndice de Leão ou de Castela. Depois, quando alguns dos nossos historiadores ou intelectuais mais comprometidos descobriram ao público que aquele Reino de Leão —identificando para a historiografia tradicional como algo alheio e mesmo estrangeiro à atual Galiza— era o mesmo ente geopolítico do que aquela Gallaecia, Galletia, Gallitia ou Yalliqiya que nos aparece nas fontes. E finalmente, que é o que quero pôr em destaque, que aquela entidade geopolítica da que estamos a falar é a base matricial do que é a Galiza hoje. E nem sô a Galiza. Desidentificar aquela Gallaecia ou Yalliqiya da atual, não é mais do que um exercício de inércia conceptual herdado do Paradigma tradicional que negou o pão e o sal do nosso relato de país. Dizer que a Galiza Sueva ou a Galiza medieval nada têm a ver com a Galiza de hoje é realmente capcioso, quando não baseado no desconhecimento. E isso é assim porque existiu um território, uns grupos sociais dirigentes e um projeto político que aplicaram um projeto nacional, a partir dum centro irradiador, que, embora esquecido por grande parte da população, fica evidente se repararmos. Todo o que ha que fazer é (re)conhecê-lo para podermos identificar esta realidade histórico-política e esta continuidade, com justeza.

Dizer que a Galiza Sueva ou a Galiza medieval nada têm a ver com a Galiza de hoje é realmente capcioso, quando não baseado no desconhecimento. E isso é assim porque existiu um território, uns grupos sociais dirigentes e um projeto político que aplicaram um projeto nacional, a partir dum centro irradiador, que, embora esquecido por grande parte da população, fica evidente se repararmos.

Diz o Professor que aquela entidade geopolítica não era só a Galiza…. Que significa isso?  

É evidente. A Galiza atual só é uma caricatura do que foi no passado, como nos clarifica Hernando de Ojea no seu mapa do século XVII, e aquele projeto nacional vive ainda hoje em Portugal, da mesma maneira que as regiões astur-leonesas participavam do mesmo no seu dia. Só que o presentismo, os conceitos e as divisões politicas que nos ensinaram desde as escolas às que assistimos durante as nossas existências nos séculos XX e XXI, acabaram por desconcertar o entendimento do mais avisado, ousando brigar por se aquela realidade era mais leonesa, mais galega ou mais portuguesa com um forte exercício de exclusividade e um certo chauvinismo. Isso é um absurdo descomunal. Falamos do passado, não do presente, e portanto, aquele espaço político era o mesmo em Leão, Compostela, Braga e ainda para além. Só a briga política e os interesses sistêmicos da Idade Media, sediados longe do país e mesmo longe da Península, conformaram o que posteriormente somos cada uma daquelas partes, não sem pouca ajuda dos vectores direcionais dos interesses políticos e os projetos nacionais presentes.

É possível ler este segundo volume sem ter lido o primeiro?

jose-manuel-barbosaPor poder… pode-se, mas para ter uma ideia de conjunto não podes deixar de começar pelo principio do primeiro volume e continuar até o final do segundo volume. Se ficas com o primeiro livro só vamos ficar com uma visão que chega até a independência de Portugal, mas a história continua com mais episódios de muita transcendência para o nosso país. Do século XII em diante há toda uma narração que não podemos desprezar e talvez mais desconhecida que a primeira. Se lês só o segundo volume vais ficar sem a prequela do filme e portanto vamos perceber só um parte sem compreendermos as origens das circunstâncias posteriores. Não podemos compreender as motivações dos Irmandinhos se não chegamos a enxergar que ali se chegou por causas anteriores; não podemos compreender a situação marginal do seculo XVII se não é por circunstâncias sociopolíticas que têm a sua raiz na Alta Idade Media; não podemos compreender a reação dos galegos contra Napoleão se não sabemos que tínhamos instituições vivas e mecanismos de defesa armada que estavam ativos desde tempos longínquos… Não podemos compreender a luta pela autonomia sem compreendermos que temos uma tradição política e uma nação nas nossas mãos que devemos manter viva e que nasce muito atrás no tempo. Eu aconselho ler todo o trabalho, desde o início até o final, como uma continuidade ininterrupta centrada na evolução dos limites.

Se ficas com o primeiro livro só vamos ficar com uma visão que chega até a independência de Portugal, mas a história continua com mais episódios de muita transcendência para o nosso país. Do século XII em diante há toda uma narração que não podemos desprezar e talvez mais desconhecida que a primeira.

Como encorajaria alguém que estivesse hesitante sobre a leitura do livro para se decidir a lê-lo?

barbosaPrimeiro e antes de mais, o público-alvo para essa ação que me pedes, teria de ter uma certa sensibilidade para com o país. O primeiro é ter curiosidade e um certo amor pela Galiza, querer conhecer o seu passado e as suas circunstâncias. Sem estar aberto ao país, nada poderemos conseguir… Mas o mais importante para conseguir ganhar leitores é convencê-los de que a história é a que faz de nós o que hoje somos. Se somos mais prósperos ou menos, se somos mais livres nas nossas decisões individuais ou colectivas ou menos, se somos mas considerados pelos demais ou menos, se somos mais respeitados ou menos, se temos mais chegada aos centros de poder ou menos… Todo isso é por causa das derivas históricas que até aqui nos levaram. Tenho costume de dizer que o conhecimento da história em geral e da nossa história em particular dá-nos consciência na reivindicação de aquilo que merecemos, dá-nos sentido da justiça e dá-nos a força para sabermos aquele caminho de cara ao futuro e as portas que devemos e podemos abrir. Assim, por exemplo, o português que conhece a sua história sabe que pode reivindicar Olivença, com justiça, legalidade e forca…  O espanhol que não conhece a sua história, não sabe que não pode reivindicar Gibraltar desde a justiça e a legalidade, o qual faz com que perda força a sua reivindicação. Por essa regra de três e conhecendo o nosso passado, poderemos ter consciência de que somos uma entidade nacional histórica, intencionalmente erodida na sua identidade por razões espúrias,  mas temos o direito a tomarmos o leme do nosso país nas nossas mãos para decidir para onde devemos caminhar, até onde e por onde podemos chegar, como devemos e como podemos fazê-lo e que instrumentos políticos devemos usar, com quem podemos chegar, para além de termos mais conhecimento sobre as forças antagônicas que consomem as nossas energias vitais e contra as que devemos lutar. As respostas a essas perguntas dão-nos as pistas para conformarmos um projeto nacional sucedido ou pela contra deixar-nos levar pela inércia, continuando a deriva histórica que nos levou a esta situação de falência nacionalitária, que parece ainda não finalizada. Portanto, o trabalho, os dous volumes, são de utilidade, mesmo para alguns dirigentes políticos despistados que têm o nosso futuro nas suas mãos.

Conhecendo o nosso passado, poderemos ter consciência de que somos uma entidade nacional histórica, intencionalmente erodida na sua identidade por razões espúrias,  mas temos o direito a tomarmos o leme do nosso país nas nossas mãos para decidir para onde devemos caminhar, até onde e por onde podemos chegar, como devemos e como podemos fazê-lo e que instrumentos políticos devemos usar, com quem podemos chegar, para além de termos mais conhecimento sobre as forças antagônicas que consomem as nossas energias vitais e contra as que devemos lutar.

Depois de títulos tão atraentes como Bandeiras da Galiza, Atlas histórico da Galiza e este A evolução histórica dos limites da Galiza, está a trabalhar em algum outro projeto?

Partindo da base de que a minha cabecinha não para, como me dizia a minha querida avó, há momentos para a reconstrução e nesta altura, estou num desses momentos em que me devo reconstruir. Estes últimos tempos levam sido muito duros para mim e para os meus, pois levo perdido o meu pai há ainda muito pouco tempo, para além de alguns amigos queridos ou companheiros. Tenho também familiares muito próximos que precisam de mim, da minha atenção e do meu pensamento e isso é prioritário sobre todas as cousas. Nesta altura, o que toca é completar um luto que ainda não tive oportunidade de concluir, descansar, depois de quase dous anos de ajudar ao meu pai na sua partida e ao resto da minha família nos cuidados a ele. Todo tem os seus ciclos, as suas pegadas, as aprendizagens que de todo isto deriva e os seus momentos de criação, que com certeza hão de chegar. Se em qualquer momento este humilde vosso amigo, que sou eu, decide querer publicar qualquer cousa no  futuro, havereis de sabê-lo, com certeza. Agora o que toca é descanso, reconstrução, recargar as baterias esgotadas e começar os seguintes capítulos do livro da minha vida sem o meu pai, quem homenageio desde aqui. Com certeza que sem ele e, com certeza, sem a minha mãe, estes dous volumes dos que falamos, nunca teriam sido possíveis. O primeiro capítulo foi escrito por eles quando se lhes ocorreu fazer o autor, que é este humilde entrevistado.

Notas:

1. Vai aqui o meu agradecimento para todos os que ajudaram na construção destes dous volumes. Nomeadamente Valentim Fagim, Diego Bernal, Tiago Alves, Adriana Perez, Graciela Lois, Joana Palha, Miguel Duran…

2. A palavra “brasilego/a” foi um interessante invento léxico que acho, teve  lugar na casa da nossa querida Iolanda Aldrei há já uns quantos anos e no que participou a nossa querida Concha Rousia. O apelativo foi referido a uma não menos querida amiga “brasilega”, Jean Pereira, casada com um galego e implicada com a Galiza até o final, quer por razões laborais, familiares ou afetivas. Brasilego/a é, portanto a fusão das palavras “brasileiro/a” mais “galego/a” numa feliz conclusão lexical que identifica aquele brasileiro ou brasileira implicado e comprometido com a causa galega. Com certeza que com o Christian Salles, que ajudou na publicitação destes dous volumes e quem luta todos os dias ao nosso pé, este nome adquire total significado.

 

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal Rico (Lugo, 1982) é mestre em Filologia Galega pela Universidade da Corunha e pós-graduado em Ensino do Português como Língua Segunda e Estrangeira pela Universidade Nova de Lisboa.

Lecionou em diversas universidades brasileiras e portuguesas e na atualidade é profesor de galego na Escola Oficial de Línguas Jesus Maestro de Madrid.

É co-autor do Dicionário Visual Através (2019) e autor do conto A estória do Apalpador. O carvoeiro mágico do Courel (2011) e dos ensaios Português do Brasil. O galego tropical (2020) e Apelidos da Galiza, de Portugal e do Brasil (2021). Com Valentim Fagim coordenou o volume Remédios para o galego (2017) e com Xoán Lagares publicou a seleçom de artigos lingüísticos de Ricardo Carvalho Calero, Antologia de textos para pensarmos a língua. Umha proposta didática (2020).
Diego Bernal

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  • ernestovazquezsouza

    Boa entrevista, meu… e grande contributo nestes dous volumes a completar os trabalhos anteriores.

    Toma alento, descasa e força com isso tudo, que a vida por vezes, é complicada.

    Apertas

  • Artab

    Parabéns!