Entrevista às contrabandistas: Nilce Costa e Christian Salles



Nilce Costa e Christian Salles são duas pessoas brasileiras do Rio de Janeiro com uma relação muito especial com a Galiza. Ambos os dous ‘estão aos comandos’ do programa Os Contrabandistas, emitido pola Rádio Metropolitana Porto e colaboram com diferentes iniciativas para o (re)conhecimento mútuo dos países e comunidades de fala galego-portuguesa dos quatro cantos do mundo. Há pouco tivem o prazer de ser entrevistado num dos seus programas e fiquei com vontade de conversar mais com eles e de conhecer o seu ‘namoro’ polo nosso velho e -às vezes- desconhecido país.

Nilce e Christian

Nilce e Christian

 

Como foi a sua chegada à Europa? Quais os primeiros lugares que visitarom e/ou onde morarom?

Nilce: Quando cheguei em Portugal fui morar em Valença do Minho, depois residi no Porto, em Vila Nova de Gaia, passados vinte e três anos, regresso para Valença, sempre com idas e vindas entre as duas cidades. Em Valença conheci Tui e arredores, como Vigo, de passagem… Nesta fase, quase morei em Cangas, estava gravida de quatro meses e minha filha seria canguense, eu adoraria esta ideia, mas não se concretizou.  Hoje conheço estas zonas muito bem, já fazem parte quase do meu dia a dia.

Christian: Desde 2017 após boas conversas com o mestre Bernardo Penabade fui conhecendo os seus trabalhos educativos, e ao mesmo tempo fui tecendo uma rede de amizades positivas onde é possível aprender e debater diversos assuntos relacionados aos temas de meu interesse. Criamos grupos de conversas, elaboramos projetos audiovisuais informativos sobre pensadores dos reintegracionismo e pudemos recitar fragmentos de poemas unindo pessoas da Galiza, Portugal, Brasil, Guiné Bissau e Moçambique, trocamos conteúdos musicais,  quebramos o gelo entre o universo  luso-galaico, superamos às barreiras linguísticas dos nossos sotaques. Tudo isso foi criando a ideia de uma viagem.

Christian junto ao Bernardo Penabade

Christian junto ao Bernardo Penabade

Foram 11 dias andando num carro com a família pelo norte de Portugal e cruzando as quatro províncias do país da Galiza no ano de 2019, que espero algum dia relatar tudo isso em algumas folhas. Era a percepção prática e real das pessoas, dos costumes, do contato com os amigos que calorosamente receberam-me em suas casas, guiaram-me pelas ruas ou reconheceram-me por onde passei, lembranças das paisagens e patrimônios históricos, dos nomes das ruas, dos monumentos e até mesmo das toponímias que fui cruzando.

A volta na Gallaecia começou no Porto e ao longo dos dias passamos no Castro de Monte Mozinho em Penafiel onde conhecemos a amiga Nilce Costa. Em Guimarães e  Barcelos fomos guiados pelo José Miguel e sua companheira Elis. Dormimos num hotel em Braga, conhecemos a cidade e depois Bom Jesus do Monte, Citânia de Briteiros, Ponte de Lima e dormimos numa aldeia secreta em algum lugar entre  as províncias de Ponte Vedra e Ourense, onde formos acolhidos por duas noite pela família do casal David Villar e Meni, que nos guiaram no dia da Pátria Galega pelas ruas de Santiago e também na Festigal onde lá juntaram-se outras amizades. Seguimos depois Vimianço e Camarinhas, e fomos acolhidos pelo casal Suso e Alexandra, na qual passamos uma noite na costa. Continuando nossa jornada, subimos para a Crunha e fomos recebidos pelo professor Manuel Miragaia que nos guiou pela cidade, onde também foi possível encontrar outros amigos. Cumprida esta etapa deslocamo-nos para Lugo onde tivemos uma conversa com o casal Belém Fontal e Fernando num bar na cidade histórica. Dormimos num hotel e no dia seguinte era a vez de Viveiro, onde conheci pessoalmente o professor Bernardo Penabade que nos guiou pela região, incluindo Burela. Depois voltamos em direção a Ourense onde ficamos em um hotel. Lá conheci o músico José Iglesias e suas família, que nos acompanhou pela cidade histórica, e também conhecemos o amigo médico Manuel Gonzales. O final da circuito da Galiza não poderia ser melhor, uma visita na casa do lexicógrafo Issac Alonzo Estraviz, organizada previamente pelo Bernardo e José Manuel Barbosa em um lugar em Alhariz, passamos uma tarde com ele conhecendo a sua biblioteca, ouvindo suas sábias palavras e um pequeno giro em Santa Marina das Águas Santas juntamente com o professor José Luis Fernandez Carniceiro. Voltamos pela fronteira Verim-Chave onde dormimos naquela cidade portuguesa  e a conhecemos no dia seguinte. Depois fomos em direção a Aveiro para um passeio e finalizamos com duas noites num hotel no Porto e outros passeios pela cidade.

Conheciam alguma cousa da Galiza antes de cá estarem? Qual foi a súa impressão sobre a situação do país, da sua cultura e da língua galego-portuguesa no seu próprio berço?

Nilce: Quando vivia no Brasil, ainda não tinha ouvido falar na Galiza, só mesmo quando fui viver para Valença, devido à proximidade. No decorrer dos tempos, fui começando a conhecer os seus pormenores como: a sua gastronomia, suas músicas, a gaita de foles (gosto muito de ouvir este instrumento e suas danças típicas). Sou apaixonada pelas praias galegas, e é claro que tenho a minha preferência e já se trata de uma paixão antiga, costumo dizer que é o meu paraíso, as Rias Baixas me conquistou, Cangas do Morraço, é a eleita.

Nilce

Nilce

Como é apaixonante sair pelas ruas de Vigo e me perder por elas, como também um belo passeio pelo interior de Ourense, e visitar seus lugares encantadores, como Gudinha, Mesquita e Viana do Bolo, com suas comidas diversas: adoro caldo galego e a cachena é de dar água na boca!

Cada vez mais, vou-me envolvendo com as canções galegas, que são magníficas; estou sempre a ouvir MJ Pérez, a quem já tive o privilégio de entrevistar. Também me agrada muito Guadi Galego. Sempre quis viver na Galiza e ainda continuo querendo, agora com apenas uma ponte a nos separar.

Christian: Tenho orgulho de dizer que no tempo que andei por terras galegas em poucos lugares perguntaram ou responderam-me em castelhano mas nunca abandonei o meu galego do Brasil, que foi muito útil nas quatro províncias, e como foi bom que entendiam-me e respondiam-me em galego. Era mágico. No entanto, uma das coisas nestes 3 anos desde a entrevista com Bernardo Penabade foi a visão menos ufanista de uma Galiza soberana e galeguizada, para uma Galiza conservadora e espanhola.

Christian: Tenho orgulho de dizer que no tempo que andei por terras galegas em poucos lugares perguntaram ou responderam-me em castelhano mas nunca abandonei o meu galego do Brasil, que foi muito útil nas quatro províncias, e como foi bom que entendiam-me e respondiam-me em galego. Era mágico.

Por mais que me doa dizer isto, mas é o que acontece e o que percebo daqui de longe. O reintegracionismo ainda é sabotado dentro deste país, e a língua portuguesa é considerada como língua alienígena. A desinformação historiográfica e linguística fazem parte deste projecto de desconstrução. Os encontros lusogalaicos promovidos pelas grandes forças de comunicação são sempre baseados no afastamento, no que diverge, e nunca no que nos aproxima, seguindo a conhecida retórica da dialectologia de reduzir a língua galega em apenas uma região da Espanha.

Regressei da viagem com grandes recordações, algumas ideias e muitos livros, um que ganhei do professor Manuel Miragaia Doldan muito inspirador que fala em forma de poemas sobre à Galeguia e algumas prendas que trouxe comigo doadas pelo Isaac Alonso Estraviz (no ano seguinte ainda chegou um Scópio, de Ricardo Carvalho Calero, pelos correios ao qual fui presenteado pela AGAL). Além deste tesouros, foram comigo vinhos portugueses, bandeiras do antigo reino suevo e uma da Galiza com o escudo desenhado por Daniel Castelão, camisetas que fui agasalhado e um especial pendrive com mais de 2.000 músicas galegas e portuguesas.

 Como acontece o surgimento do programa Contrabandistas?

Nilce: Dei início na rádio tem pouco tempo, uns três anos, quando abracei na Rádio Metropolitana Porto, o programa Sou Brasil, somente com músicas brasileiras em suas diversas vertentes.

Foram surgindo novas ideias e algumas conversas com o Christian Salles, até que nos atrevemos lançar Os Contrabandistas, experiência que tem sido maravilhosa, apesar de enquadrar no programa o Brasil e Portugal, o foco é mesmo a Galiza. A Galiza é uma paixão dos dois lados, e porque não fazer algo que gostamos?  Sair da ideia e colocar na prática, foi assim que surgiu o nosso programa, que tem sido uma experiência única, com muitos aprendizados em todos os aspectos. Fantástico conhecer nossos convidados mais a fundo, saber deles, saber de suas recordações, das suas histórias, seus gostos… tem sido muito gratificante!

Fazer parte de um projeto assim, tem sido uma grande referência no que diz respeito conhecer Galiza, no seu todo.

Nilce: Foram surgindo novas ideias e algumas conversas com o Christian Salles, até que nos atrevemos lançar Os Contrabandistas, experiência que tem sido maravilhosa, apesar de enquadrar no programa o Brasil e Portugal, o foco é mesmo a Galiza.

Nilce (segunda pola esquerda) na Rádio Metropolitana do Porto.

Nilce (segunda pola esquerda) na Rádio Metropolitana do Porto.

Christian: Sempre defendi a máxima divulgação de conteúdos em galego nas redes que participo, entre estes os programas do Modelo BurelaGrandes Vozes do Nosso Mundo, dirigido por Marco Pereira e o Projecto Neo com os alunos e alunas do IES Perdouro junto com Bernardo Penabade, que eu já acompanhava desde 2017. Este modo descontraído de produzirem os programas foi o meu farol e  minha inspiração, porque estes programas também reproduzem vozes e sons fora da Galiza, naquilo que chamamos de língua portuguesa. É o que justamente não fazemos aqui. Não divulgamos nem Portugal, nem Galiza.

Foi em meados de 2020 que o jornalista português Felipe de Sousa, um entusiasta da comunicação do mundo lusófono, convidou-me a fazer um programa sobre as questões da Galiza. O que mais uma vez exigiu-me uma constante atualização dos acontecimentos, dos personagens, dos eventos históricos, as questões das emigrações, do passado esquecido, do próprio galeguismo. Chamava-se Raízes da Língua e acontecia após um outro programa onde editava 1 hora de músicas galegas pela Rádio Internacional Lusófona, que fica em São José dos Campos, nos Estado de São Paulo.

Esta experiência levou-me a uma questão que eu já apontava em 2018. Falar das pessoas, sobre os microespaços. Sugeri a jornalista Nilce Costa que já fazia um programa de música brasileira pela Rádio Metopolitana do Porto, e com a autorização do diretor Ângelo Monteiro formamos uma dupla no qual entrevistamos galegos e eventualmente portugueses para contarem um pouco da história dos lugares de suas origens e os seus trabalhos.

Qual é a sua experiência durante estes anos? Qual a recepção do programa e a resposta em Portugal e no Brasil?

Nilce: Entrevistar em português e ouvir as respostas na língua galega, é mais que uma realização, é ter a certeza o que o nosso projeto está dando certo. Neste momento  são mais de 50 programas, pessoas, lugares e histórias diferentes, mas o objetivo é sempre o mesmo:  fazer o galego vibrar em seus tons e ecoar mundo fora. Para além da RMP, o agradecimento vai para o Bernardo Penabade, alguém que está sempre nos apoiando e nos abraçando com o enriquecedor Modelo Burela, também ressalto o programa Sons de Nós do jornalista Henrique Sanfiz, onde temos uma participação semanal, que nos faz envolvermos em conjunto com outras participações em galego.

Nilce: Entrevistar em português e ouvir as respostas na língua galega, é mais que uma realização, é ter a certeza o que o nosso projeto está dando certo. Neste momento  são mais de 50 programas, pessoas, lugares e histórias diferentes, mas o objetivo é sempre o mesmo:  fazer o galego vibrar em seus tons e ecoar mundo fora.

Christian: O programa é bem aceito, e muitos pensam que moramos na Galiza. Para cada programa recebemos aprendizados e grandes lições de vida. O nome para o programa, Os Contrabandistas, que coincide como um passado fronteiriço, veio desta ideia, de recolher sotaques, histórias, conhecimentos e transportá-los para fora da Galiza, não como algo estrangeiro, mas como nosso e que por várias razões ficou esquecida. Mas que fique claro, que o protagonismo transfronteiriço é uma inspiração direta e aberta do Modelo Burela.

Christian: O nome para o programa, Os Contrabandistas, que coincide como um passado fronteiriço, veio desta ideia, de recolher sotaques, histórias, conhecimentos e transportá-los para fora da Galiza, não como algo estrangeiro, mas como nosso e que por várias razões ficou esquecida. Mas que fique claro, que o protagonismo transfronteiriço é uma inspiração direta e aberta do Modelo Burela.

Ainda que é um tema delicado, não queria deixar de vos perguntar sobre o vosso país. Muitas pessoas na Galiza estamos interessadas em conhecer mais sobre a situação do Brasil pois, infelizmente, os mídia do Estado espanhol dão pouca atenção ao que lá acontece. Acreditam em mudanças significativas nos próximos anos? Têm esperança em que social, económica e politicamente as cousas vão ir a melhor? Quais seriam os reptos para o futuro?

Nilce: Nasci no Rio de Janeiro, sai de lá em agosto de 1995, foi um tempo que já era difícil, mas ainda se conseguia viver. Vivo em Portugal já há 26 anos, mas desde 2008 me envolvi no mundo associativismo imigrante, e dali sempre em contato com [email protected], suas dificuldades, suas vitórias de estar em Portugal, suas lutas de viverem num Brasil tão sem perspectivas de futuro, uma luta constante e com um governo fake. O Brasil terá muito que lutar para chegar em algum lugar, ao começar por tirararem um  presidente que lá está lá e nada faz, que colocou o país no pior momento dos últimos anos, decádas … É triste ver o meu país afundar a cada dia que passa, um país do fake news, um país  da decadência e pobre deste povo, que luta por um dia melhor, e quer acreditar sempre nisto, o [email protected] tem a esperança estampada na face e  acredita que este dia ainda chegará.

Christian: O Brasil passou por dois golpes entre 2016 e 2018, O primeiro foi um golpe empresarial-político-jurídico-oligarga que cooptou a força das massas populares através de grandes grupos de comunicação que manipulavam notícias 24 horas por dia. Primeiro veio com o impedimento de uma presidenta eleita democraticamente por supostos crimes que nunca foram provados, e depois com uma trama bem articulada entre um juíz de primeira instância que orquestrava juntamente com os promotores de justiça (ou seja, os advogados de acusação) todas as estratégias para condenar o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, que era imputá-lo em diversos crimes, prendê-lo e torná-lo inelegível para as eleições de 2018, abrindo terreno para as forças conservadoras milicano-religiosas e latifundiárias do país. O país que fora a 6ª economia mundial já entrava em decadência deste que o vice-presidente Michel Temer colaborou com o golpe e vai se aprofundando com a divisão politico-ideológica, tornando-se um país pária dos interesses estadunidenses, já que desde o governo Dilma espionagens do potencial da exploração do petróleo ocorreram com vistas ao chamado pré-sal.

Bolsonaro foi o efeito colateral do descrédito da própria oposição que deu o golpe, que estava mergulhada em casos de corrupção. Ele vem com os velhos conceitos do salvador da pátria, com discursos machista, misógeno, elitista, racista, xenófobo, apoiado por uma base fundamentalista evangélica e por parte conservadora católica, por grandes empresários, latifundiários, e com o velho apoio das grandes coorporações midiáticas. Plantaram o discurso do ódio na classe média, alienaram as massas pobres, usaram os métodos das falsas notícias em contas falsas na internet, provocaram o medo, reavivaram o sentimento de guerra fria, criaram inimigos fictícios. No fim de tudo, a economia já estava estagnada antes da pandemia e que depois foi agravada. Temos no momento um Chefe de Estado e de Governo que vocífera o negacionismo da ciência, que se alicerça em discursos religiosos, que tem os filhos envolvidos em grupos criminosos (conhecidos no Rio de Janeiro como milícias), onde ele e suas família política tinham funcionários fantasmas em seus gabinetes, acumulando grande capital com a compra de inúmeros imóveis, que negou a existencia da Covid-19, atrasou a compra das vacinas e quando fez foi por esquemas de superfaturamento, que estimulou as pessoas as andarem sem máscara, ou terem uma vida normal no meio de todo o caos da doença. O resultado não seria outro, milhares de mortos, muitos deles seus seguidores, famílias destruídas e muitas crianças que ficaram órfãs.

É bom lembramos que sempre que as forças progressistas vencem na América Latina o nosso vizinho do norte sabota estas democracias, pois no fim, somos o celeiro do agronegócio e da exploração do minério e petróleo. Então, por mais que tenhamos uma mudança de governo, sempre somos vigiados pelo Tio do Norte.

Christian: É bom lembramos que sempre que as forças progressistas vencem na América Latina o nosso vizinho do norte sabota estas democracias, pois no fim, somos o celeiro do agronegócio e da exploração do minério e petróleo. Então, por mais que tenhamos uma mudança de governo, sempre somos vigiados pelo Tio do Norte.

O mais interessante é que grande parte da classe média que acumou capital no governo anterior agora vão morar em Portugal, sendo que muitos destes apoiram o governo atual. Não tenho boas perspectivas para o Brasil nos próximos anos, já que junto com a economia dilacerada, as leis trabalhistas foram fragmentas, o ensino público precarizado, os serviços púbicos são demonizados pelos setores privatizadores.

O termo ‘lusofonia’ não deixa de ser redutor e mesmo problemático, por mascarar realidades muito complexas -social, política, lingüística e culturalmente falando- e polo passado colonial português (e europeu em geral). Muitas pessoas preferem/preferimos outras denominações e outro tipo de relações mais horizontais e menos eurocéntricas. A recente incorporação do Estado espanhol no seu conjunto – e não apenas da Galiza- à CPLP e o próprio papel desta são as últimas questões espinhentas a este respeito. Qual a sua opinião sobre estes assuntos?

Nilce: Penso que o próprio nome CPLP já diz no que se refere, considero  não fazer fundamento esta incorporação, mesmo como observador. Onde existe o português em Espanha? Só mesmo na Galiza, primeiro o Estado deveria de valorizar mais a língua galega e sua comunidade,  apoiar o seu crescimento linguístico, desde as escolas até a uma conversação habitual de rua ou em casa, incutir o galego no dia a dia de seu povo. O Estado espanhol veio fazer frente à Galiza, e isso não deveria de acontecer e nem ser aceito pelos membros  da CPLP.

O Estado deveria de valorizar mais a língua galega e sua comunidade,  apoiar o seu crescimento linguístico, desde as escolas até a uma conversação habitual de rua ou em casa, incutir o galego no dia a dia de seu povo. O Estado espanhol veio fazer frente à Galiza, e isso não deveria de acontecer e nem ser aceito pelos membros  da CPLP.

Christian: Em geral, ninguém no Brasil sabe o que significa CPLP ou o que ela representa. Na minha opinião é grupo de empresários e mais nada, já que olharam para Guiné Equatorial, que é um país com zero falantes de língua portuguesa e que desde que foi aceita como membro deste clubinho nada fez para incrementar o uso do português. No máximo que poderia ser seria como observador, nunca como membro permanente. Não podemos misturar o passado colonial com a situação linguística atual.

Deixando os meios académicos e alguns círculos literários, jornalísticos ou intelectuais, ninguém sabe o sentido do termo “lusofonia” e o termo luso ficou reduzido aos eventos e clubes portugueses que foram criados no Brasil. Doa a quem doer, está é a mais pura verdade.

Há uma relação direta de como entedemos Portugal do ponto de vista histórico e literário. Portugal só é vista a partir da sua chegada na América, nunca antes, e portanto, Galiza muito menos. Reproduzimos a historiografia espanhola do Reino de Leão e o Condado Portucalense, então, não há espaço para a existência de um reino galego, muito menos de uma língua nossa que vive no Estado Espanhol. Por isso, para os mais atentos, o galego é uma referência ao galego arcaico, que por uma convenção dos nacionalismos é chamado de galego-português, e nunca como algo atual. Pessoas vão a Santiago de Compostela para praticar castelhano e muitos nem sabem que à Galiza é muito mais que isto.

Em resumo, se mal sabemos o sentido de lusofonia, como poderão saber os brasileiros dum termo histórico e linguístico ligados uma Galaecia galaicófona? Voltamos ao problema das nomenclaturas criadas pelos nacionalismos e evidentemente compramos uma briga com filólogos, escritores, professores e é claro com uma gama de académicos. Então, é melhor não mexer com tais convenções.

Quais são as vossas espetativas/projetos para os próximos anos? Em que outras iniciativas conjuntas estão a trabalhar? Que projetos gostariam de realizar para continuar a espalhar o conhecimento e o carinho mútuos?

Paulo Mirás e Christian no programa "Nom che digo nada"

Paulo Mirás e Christian no programa “Nom che digo nada”

Nilce: Neste momento, pelo menos eu pretendo dar continuidade ao programa Os Contrabandistas, para já não tenho projetos na gaveta, mas quem sabe pode aparecer.

Christian: Gostamos de fazer Os Contrabandistas, o fuso horários e as nossas rotinas acabam atrapalhando os nosso encontros, mas é algo que nos toca e fazemos com amor. Sinto falta dos intercâmbios com poesias, algo que nunca dominei, mas que foi muito eficiente no encontro das nossas falas, por isso pretendo reativar estes trabalhos reproduzindo poemas de diversos autores galegos. Também estou fazendo um trabalho como professor Paulo Mirás chamado Nom che digo nada pelo Youtube onde o objetivo é buscamos o que nos une e não o que nos separa, pois mesmo que temos palavras ou formas de falar distintas, isto não dá razão para justificar que falamos outro idioma. Recebi uma proposta para colaborar numa nova rádio em Portugal que tem como propósito os países que falam a nossa língua, e terei a responsabilidade de fazer breves apontamentos do contexto galego, enriquecendo o programa com músicas galegas.  Gostei do desafio e breve teremos “Gotas de Galego”  na Rádio Pessoas.

Haverá uma nova visita -juntas ou por separado- ao nosso país?

Nilce: Eu estou aí quase quase todos os dias, como é bom estar tão próximo!

Christian: A ideia é retornar em 2022 para uma grande volta na Gallaecia, e como a Nilce Costa agora está em Valença do Minho espero reencontrá-la para um giro na cidade e talvez uma passadinha por Tui.

Finalmente, recomendem-nos uma música, um livro, um filme e alguma atividade artística/cultural/colaborativa da Galiza, Brasil e de outros países lusófonos.

os-contrabandistasNilce: Em musica sou eclética, tenho um gosto bem variado, mas neste momento ouço muito Giulia Be, gosto dos livros de Paulo Coelho, pois sou muito espiritual e fora disto, gosto de ler romances. Um filme que me marcou, já tem muito tempo, foi o Tootsie, com Dustin Hoffman. Adoro assistir documentários. Adorava assistir Galegos pelo Mundo.

Christian: De livros no momento eu recomendaria dois que tenho acompanhado: Como as democracias morrem de Steven Levitsky e Daniel Zilblatt e A República das Milícias de Bruno Paes Manso. Mas não posso deixar de recomendar que brasileiros e portugueses tenham a chance de ler Scórpio, de Ricardo Carvalho Calero.

Para os filmes eu recomendo uma série brasileira chamada Cidade Invisível que usa criaturas folclóricas brasileiras vivendo entre nós.

Quantos as músicas recomendo grupos e pessoas novas no cenário nacional que encontraram um público fora das repetições radiofônicas, que pouco de bom tem para oferecer atualmente. Considero que musicalmente os meios reproduzem cada vez mais lixos musicais, e portanto, descobri estes talentos em outras plataformas digitais são um grande alento. Assim poderia recomendar Milton e os Lagartos, Paula Calvaciuk, Sara não tem nome, Selvagens à procura de lei, Balara, O Terno, Seu Pereira e o Coletivo 401.

Xurxo Nóvoa

Xurxo Nóvoa

Desde mui novo fai parte de performances por cafés e pubs de Vigo, a sua cidade natal. Após trabalhar no bairro árabe do Albayzín (Granada), e no de Finsbury Park (Londres), lugares que deixam funda pegada, dedica-se a escrever textos de cançons, relatos e poemas que aparecem nos discos Meu canto (2011) de Uxía; Magnético Zen (2011) de Xoán Curiel; Son Brasilego (2013), de Sérgio Tannus, ou Na língua que eu falo (2013) de Najla Shami; e em diversas antologias: Pegadas, A porta verde do sétimo andar (2011); CoraSons, Kalandraka (2013); Quem vê corações..., Edições Afrontamento (2013);Latexo Beat, Editorial Galaxia (2017); ou Antropotecas, Ianua Editora (2018).

Durante 5 anos de estância em Compostela, concília o seu labor na livraria Ciranda com o de arma-danças em Guilherme e Bastardo, projeto poético-musical transformado no livro-cd de espírito comunal, Veredevere (Axóuxere Editora, 2015). Na atualidade mora em Vigo e é professor de Lingua galega e Literatura no ensino secundário. Continua o seu labor de ativista cultural como cantor, letrista e vídeo-criador em Electroplasma, junto ao conceituado músico do Porto Alexandre Soares; assim como nos Faladoiros Vigo, associaçom acabada de nascer neste 2021, que visa promover a nossa língua mediante grupos de conversa (físicos e virtuais) em ámbitos urbanos des-galeguizados do país, nomeadamente nessa cidade.
Xurxo Nóvoa

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