Portugal tam perto e tam longe

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Por José Paz Rodrigues (*)

Resulta muito difícil entender porquê continuamos de costas viradas galegos e portugueses. O famoso desenho de Castelão do álbum Nós infelizmente ainda tem vigência hoje. Um velho tem no seu colo um neno galego e está sentado à beira do Minho. Do outro lado está Portugal e o rapaz pergunta: «E os da beira de alá som mais estrangeiros que os de Madrid?» A legenda do desenho continua com a frase «Nom se soube o que lhe respondeu o velho».

Sobre o relacionamento entre a Galiza e Portugal tem-se feito muito pouco. Existem múltiplos preconceitos por ambas as partes. Os sucessivos governos galegos nom chegaram mais alá de tímidos contactos e de frases rimbombantes, vazias de conteúdo. Existe o chamado Eixo Atlântico, no qual algo se tem feito, mas demasiado pouco e com muito pouca incidência em ambos os povos irmãos. Existe uma Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal, mais no papel que em feitos práticos e reais. No seu dia tínhamos esperança de que o governo do medíocre Tourinho avançasse no relacionamento galego-português, por ter como sócio um grupo teoricamente a favor. A frustraçom sem embargo foi enorme porque nom se fez nada.

É um verdadeiro contra-senso, como muito bem assinalava o outro dia num editorial acertadíssimo o nosso jornal La Región, que a Galiza e o Norte de Portugal, especialmente, nom tenham um relacionamento institucional profundo, periódico e continuado. Para favorecer os intercâmbios comerciais, culturais, industriais, educativos e turísticos. Parece como se Portugal, que está aí ao lado e com estradas bastante boas (nom assim com meios de transporte públicos), estivesse situado no Alasca ou na Sibéria. Eu quero animar o governo de Núnhez Feijóo para que de uma vez por todas rompa com as fronteiras artificiais, e mesmo mentais, e estabeleça os maiores laços de todo o tipo com o nosso povo irmão em língua e cultura. Que temos ao lado, tanto na raia húmida como na raia seca. Se o actual governo galego dá por fim o passo, seremos muitos os galegos a agradecer-lho. E de mim há receber os mais sinceros parabéns e apoios.

Eu nom compreendo bem como o que desde há muitos anos é normal na Extremadura (aulas de português nos centros de ensino, intercâmbios culturais, edições conjuntas de livros e revistas, etc.), na Galiza nom seja normal em pleno século XXI. Continuamos sem poder ver a televisom portuguesa, sem escuitar as suas rádios, sem poder comprar livros, jornais e revistas lusos, de forma normal, e outros recursos culturais, aqui na Nossa Terra. Só explicável se existe medo à liberdade e medo a que galegos e galegas possam reflectir que Portugal é uma grande Galiza, com cultura e idioma similar ao nosso. Pessoas com dous dedos de testa nom podem entender esta barbaridade que persiste ainda nos tempos actuais. O labor de relacionamento realizado no seu dia por Risco, Cuevilhas, Otero, Castelão, Vilar Ponte, Bouça Brei, Carvalho, Santos Júnior, Oliveira Guerra, Cabral, e nós da revista O Ensino, fica para a história cultural da Galiza.

Compreendem, por exemplo, que na Feira do Livro Lusófono de Viana do Castelo, onde com gosto cederiam vários pavilhões, nom esteja presente nenhuma instituiçom privada ou pública da Galiza? Um lugar magnífico desaproveitado, para divulgar e apresentar os nossos livros e publicações e para apoiar as nossas editoras. Eu continuo sem entender isto que nom tem explicaçom alguma.

 


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.