Partilhar

POR UMA CIÊNCIA AO SERVIÇO DA PAZ E DO DESENVOLVIMENTO

A UNESCO ao promover junto dos seus 195 Estados membros o Dia Mundial da Ciência ao serviço da Paz e do Desenvolvimento (10 de Novembro), tem reiterado nas mensagens dos seus diferentes Diretores Gerais que a sua visão da ciência é promotora do desenvolvimento económico, social e cultural das nações e dos povos na perspetiva da paz e de um desenvolvimento sustentável, apelando ao papel crucial dos cientistas, dos professores e educadores e dos jornalistas. Estes últimos poderão contribuir para a chamada de atenção para os atributos positivos e as consequências benéficas da investigação e do conhecimento científico.

No decurso dos setenta anos de existência, a UNESCO dinamizou as suas atividades relativas às ciências num contexto marcado por uma dualidade entre o conhecimento e o progresso científico e o bem-estar da humanidade. No entanto, ao longo deste período, a ação da UNESCO teve sempre por base os objetivos e funções contidas no artigo primeiro do seu Ato Constitutivo (1945), que refere o seguinte: «A Organização tem por finalidade contribuir para a manutenção da paz e da segurança, mediante o incremento, através da educação, da ciência e da cultura, da colaboração entre as nações, a fim de assegurar o respeito universal pela justiça, pela lei, pelos direitos do Homem e pelas liberdades fundamentais que a Carta das Nações Unidas reconhece a todos os povos do Mundo, sem distinção de raça, de sexo, de língua ou de religião». No acrónimo da UNESCO, o “S” de ciência (em Inglês, Science) foi introduzido já no final da Conferência que estabeleceu a Organização (Londres, Novembro de 1945), por se considerar unanimemente a importância desta no desenvolvimento das sociedades. Desde então, as ciências tomaram um lugar próprio no seio do trabalho da UNESCO de modo a se construírem novas formas de cooperação internacional para a paz e para o desenvolvimento, tal como no seu dia pronunciou na sua Mensagem de abertura Irina Bokova, Diretora Geral da UNESCO, no 5º Foro Mundial da Ciência. É de realçar, ainda, que a UNESCO é a única instituição do Sistema das Nações Unidas em que o seu nome faz menção à ciência e que desde a sua criação procurou estabelecer contactos oficiais com as sociedades científicas internacionais, de promover a cooperação científica para lá das fronteiras nacionais, das ideologias e das especificidades culturais, assim como reunir os cientistas e todos aqueles que estejam interessados nas aplicações da ciência.  Esta Organização tem feito, igualmente, a ponte entre as várias correntes científicas e dinamizado projetos científicos de grande envergadura, trabalho esse desenvolvido logo no início da sua atividade, ou seja, ainda antes de começarem a ser debatidos conceitos como Ecologia e Ambiente.

A UNESCO diferencia-se das outras instituições especializadas do Sistema das Nações Unidas, pela dimensão das suas atividades no domínio dos conhecimentos humanos, como pode ser entendido pelo seu nome: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Na atualidade, o campo das suas responsabilidades é mais vasto, pois abrange, igualmente, a Comunicação e as Ciências Sociais. Mas, hoje em dia, para além de ser conhecida pelas suas campanhas de alfabetização e pelos sítios classificados como Património Mundial, a Organização é também uma referência na área científica, graças aos programas científicos que promove e que estão ao serviço da sociedade, e por trabalhar de forma a que o progresso científico e tecnológico seja um direito da humanidade, colocando o ser humano no centro das prioridades das ciências, ou seja, que as ciências e a tecnologia estejam ao serviço do bem-estar de todos os habitantes do planeta Terra, na eliminação da pobreza e de assegurar um desenvolvimento sustentável para todos. Para a UNESCO é vital o papel dos cientistas na sociedade e a noção de sociedade do conhecimento reflete-se nas políticas e no debate promovido pela Organização, sendo que essa noção vincula o investimento em educação ao longo da vida para todos, em pesquisa, em novas tecnologias, em desenvolvimento da informação e em sociedades de aprendizagem justas. Assim para a UNESCO, o grande desafio do nosso tempo é o de criar um mundo em que todos os cidadãos vivam em paz e com dignidade num ambiente acolhedor que se empenhem em defender. Para responder a este desafio são necessários: vontade política, apoio público e ciência. Desta forma, e de acordo com o Relatório da Ciência 2010 da UNESCO, onde consta o mapa das ciências e tecnologia de hoje, demonstra-se que a causa das ciências tem de ser de novo defendida, em termos convincentes, junto da sociedade e que as ciências devem ser sujeitas ao espírito crítico de um público ainda cético face aos progressos científicos alcançados. Na verdade, divulgar e comunicar ciência poderá facilitar a compreensão da mesma, mas é necessário uma meditação sobre as suas potencialidades, fragilidades e incertezas, para deste modo podermos lidar com os avanços científicos.

Por sorte, e graças especialmente à ILE de Giner e de Cossío (onde não se realizavam exames tradicionais, por serem proibidos), tivemos no nosso país 2 prémios Nobel de Medicina: Santiago Ramón y Cajal em 1906, e Severo Ochoa em 1959. Dous cientistas de categoria mundial que mereceram a realização dos respetivos documentários, que aproveitamos para este depoimento, escrito para promover nos estabelecimentos de ensino a comemoração do «Dia Mundial da Ciência ao serviço da Paz e do Desenvolvimento», que se celebra ao redor da data de 10 de novembro em numerosos lugares da Terra.

FICHA TÉCNICA DOS 2 FILMES-DOCUMENTÁRIOS:

  • Ramón y Cajal: História de uma vontade (Série de TV).

Diretor: José Mª Forqué (Espanha, 1982, 618 min., cor, 10 episódios de 60 min. cada um aprox.).

Roteiro: Hermógenes Sáinz, segundo o livro de Santiago Loren.santiago-ramon-cajal-capa-dvd1

Música: Antón García Abril. Fotografia: Alejandro Ulloa. Produtora: TVE.

Atores: Adolfo Marsillach (S. Ramón e Cajal), Verónica Forqué (Silveira Fañanás García, esposa), Fernando Fernán-Gómez (pai de Santiago Ramón y Cajal), Encarna Paso, Fernando Valverde, Emilio Linder, Damián Velasco, Miguel Ángel Gil de Avalle e outros muitos.

Argumento: Popular série de TVE dividida em nove episódios, e um primeiro com entrevistas realizadas a descendentes do grande médico e cientista. Os restantes 9 episódios são de recriação dramática, em que um octogenário Cajal, do seu retiro da rua Alfonso XII de Madrid, vai narrando momentos da sua vida desde o seu nascimento em Petilha de Aragão, até a consecução do prémio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906, e o seu casamento com Silveira Fañanás. Os episódios, de uma hora aproximada de duração cada um, são: 1. Infância e adolescência de Cajal; 2. Cajal em Saragoça; 3. Cajal em Cuba; 4. Hemoptise e 1º concurso; 5. Casamento e concurso para cátedra; 6. Cajal em Valência; 7. Descoberta final e viagem a Berlim; 8. Homenagens de honra e condecorações, e 9. Morte de Cajal.

  • Severo Ochoa: A conquista de um Nobel (Minissérie de TV).

Diretor: Sergio Cabrera (Espanha, 2001, 195 min., cor e preto e branco, 2 episódios).

Roteiro: Sergio Cabrera e Ulises Bermejo.

Fotografia: Lorenzo Cebrián. Produtora: TVE.severo-ochoa-capa-dvd1

Atores: Imanol Arias (Severo Ochoa), Ana Duato (Carmen García Cobián, esposa), Daniel Guzmán (Severo Ochoa, de jovem), Maite Pastor (Carmen García Cobián, de jovem), Joan Gadea (Dr. Juan Negrín), Ignacio Vaquero (García Lorca), Jon Arias (Severo de criança), Patricia Montero (Carmen de criança), Carolina Marco (Sara Montiel), Antonio Taboada (Salvador Dalí), Manuel Martínez (Luis Buñuel), Jaime Linares (Grande Cobián),  Albert Forner, Juan Gea, Guillermo Montesinos, Ramón Pons, Pep Cortés,Arturo Valls e outros muitos.

Argumento: O amor de Severo Ochoa pela investigação e a medicina começou muito cedo, quando ainda era criança, igual que seu amor pela que depois seria a sua mulher, Carmen García Cobián. Desde criança, nas praias de Luarca assistimos ao périplo do cientista asturiano por distintos países do mundo: o trabalho e a vida alegre em Madrid, a proclamação da Segunda República, a Guerra Civil, o exílio do casal por causa da nefasta guerra, os seus anos na Alemanha nazi, onde Severo presenciou terríveis persecuções de companheiros judeus, e a sua chegada a Nova Iorque, onde finalmente conseguiria o Nobel de Medicina.

DUAS PERSONALIDADES, VERDADEIRO ORGULHO DA CIÊNCIA MUNDIAL:

  1. Santiago RAMÓN y CAJAL (1852-1934):

santiago-ramon-cajal-foto0Nasceu a 1 de maio de 1852 em Petilha de Aragão e faleceu aos 82 anos em Madrid a 17 de outubro de 1934. Considerado como o «Pai da neurociência moderna», foi um excelente médico e histologista, e recebeu o prémio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906. Filho de Antonia Cajal e do médico Justo Ramón Casasús, teve que viver na sua infância entre numerosas mudanças de residência por diferentes povoações aragonesas, acompanhando a seu pai. Aos 2 anos a família deixou Petilha de Aragão para mudar-se para Larrés, vila do pai, e dali para Luna (1855), Valpalmas (1856) e Ayerbe (1860). Quando finalizava os seus estudos secundários em Huesca vinha de proclamar-se a Primeira República e o desterro de Isabel II. Segundo os seus próprios relatos biográficos, amostrou desde criança uma grande vocação pelas artes plásticas, e pelo desenho em especial. Sendo estudante odiava a escola autoritária e antipedagógica, e o ter que aprender de memória, de forma mecânica. Gostava muito de realizar passeios pelo campo e a montanha. Esta afeição foi muito reforçada ao ter um contacto profundo com os membros da Instituição Livre do Ensino (ILE), que defendiam uma vida sã em contacto com a natureza.

santiago-ramon-cajal-foto-filme1Em Saragoça estudou o curso de Medicina, para onde toda a família se deslocou em 1870. Licenciou-se em 1873, depois de ter um grande sucesso nos seus estudos universitários. Realizou o serviço militar dentro da chamada «Quinta de Castelar», que era o presidente republicano. Pouco depois candidatou-se a um concurso para o Corpo da Saúde Militar, conseguindo o nº 6 entre os cem candidatos para 32 vagas. Foi destinado como tenente ao regimento de Burgos, que se encontrava aquartelado em Lleida. Em 1874 partiu para Cuba com o grau de Capitão, para luitar na famosa guerra. Mas ali foram todas verdadeiras calamidades e de todo o tipo, voltando totalmente defraudado depois das numerosas penalidades que teve que suportar (doenças, paludismo, disenteria…), a visão da deplorável vida dos nossos soldados e, especialmente, o caos administrativo militar e a incapacidade e imoralidade de certos governantes e alguns dos mandos do exército, desde o comandante do posto, até os cozinheiros e parte da oficialidade, que tinham por costume roubar para si a comida e os recursos que faltavam aos doentes e feridos. Ademais comprovou ao vivo e em direto a verdadeira realidade das ilhas antilhanas, que não era a das leituras românticas e aventureiras que lhe fascinaram no seu dia, antes de visitar estas terras. Em maio de 1875 conseguiu a licença para deixar Cuba, chegando em junho do mesmo ano a Santander convertido numa ruína humana, pelo que teve que dedicar vários meses a recuperar. As poupanças cubanas serviram, pelo menos, para poder mercar um microscópio, um micrótomo, reagente químicos e corantes para poder montar um pequeno laboratório em que ia iniciar as suas pesquisas histológicas. O seu regresso e os cuidados que lhe prodigaram a mãe e as irmãs devolveram-lhe a saúde, permitindo-lhe retomar a carreira académica, caminho da primeira docência em 1876, e do doutorado em 1877, conseguido à idade de 25 anos com a tese intitulada «Patogenia da inflamação». Em 1877, com o significativo nome de «Averróis», ingressa na maçonaria pertencente ao «Grande Oriente Lusitano», com o nº 96.

santiago-ramon-cajal-foto-filme-02Contra da vontade de seus pais, depois de superar a tuberculose, em 19 de julho de 1879, casa com a que era o seu verdadeiro amor, Silvéria Fanhanás Garcia. Durante 51 anos, de tranquila e colaboradora convivência, chegam a procriar sete filhos: Santiago, Felina (Fe), Pabla Vicenta, Jorge, Enriqueta, Pilar e Luis, dos que dous (Santiago e Enriqueta) faleceram antes que ele. Em 1882 ganhou a cátedra de Anatomia Descritiva da Faculdade de Medicina de Valência, onde pôde estudar a epidemia de cólera que teve a cidade em 1885. Em 1887 deslocou-se para Barcelona para ocupar a cátedra de Histologia criada na Faculdade de Medicina da universidade barcelonesa. 1888 foi o seu «ano cúmio», quando fez a descoberta dos mecanismos que governam a morfologia e os processos conectivos das células nervosas da matéria cinzenta do sistema nervoso cerebrospinal. A sua teoria foi aceite em 1889 no Congresso da Sociedade Anatómica Germana de Berlim. O seu esquema estrutural do sistema nervoso como um aglomerado de unidades independentes e definidas passou a conhecer-se com o nome de «doutrina do neurónio», em que destaca a lei da polarização dinâmica, modelo capaz de explicar a transmissão unidirecional do impulso nervoso. Em 1892 passou a ocupar na Universidade Central de Madrid a cátedra de Histologia e Histoquímica Normal e Anatomia Patológica. Em 1901 conseguiu que fosse criado um moderno laboratório de investigações biológicas, em que trabalhou até 1922, ano da sua reforma e momento em que passa a realizar o seu labor no Instituto Cajal, chamado assim na sua honra, onde manteria o seu labor científico esplêndido até a sua morte. Entre 1897 e 1904 publicou, em forma de fascículos, a sua magna obra Histologia do sistema nervoso do homem e dos vertebrados.

Humanista de imensa honestidade:

santiago-ramon-cajal-com-discipulosA partir do grande sucesso que tivera a sua intervenção no Congresso de Berlim, começou a ser reconhecido como grande cientista e investigador em numerosos países, conseguindo o Prémio Internacional de Moscovo (Paris, 1900), a medalha Helmholtz em 1905 e a nomeação de «doutor honoris causa» pelas universidades de Clark, Boston, a Sorbona e Cambridge, em 1899. Recebeu tantos prémios, condecorações e homenagens, em vida e a título póstumo, que é de tudo impossível num pequeno depoimento poder mencioná-los, pois a listagem é muito completa. Porém, não podemos deixar de mencionar importantes factos, pois, para além de um imenso e extraordinário cientista, foi Cajal um grande humanista, chegando a ser acertada e merecidamente considerado como cabeça da denominada «Geração de Sábios». Até em 1952, com motivo das homenagens pelo primeiro centenário do seu nascimento, fazendo abstração do facto de que Cajal fora membro declarado da maçonaria, o governo fascista de Franco concedeu-lhe a título póstumo o título de «Marquês de Ramón y Cajal».

O nosso médico e cientista foi ademais um mestre e docente magnífico. Os seus alunos, que com o seu carinho e guia se converteram em novos sábios e sucessores de sua obra, foram para ele a segunda família. Promovendo entre eles uma ideologia mista de boa pedagogia, tesão, patriotismo, abnegação, tolerância, abertura a todas as ideias, esforço, sensibilidade, contra os erros e infortúnios, a favor de desenvolver as melhores energias e luzes para conseguir a prosperidade do país. Tudo isso apoiado nos melhores valores éticos de solidariedade e honestidade.

Também Cajal foi um importante escritor, chegando a escrever livros de contos, pensamentos, confidências, narrações, lembranças da vida, a psicologia do Quixote, regras e conselhos para a investigação científica e interessantes obras científicas apoiadas nas suas pesquisas. Até chegou a ser fotógrafo, passatempo de que muito gostava, realizando importantes inventos sobre a mesma que, por desgraça, ninguém apoiou a industrialização das suas invenções, adiantadas muito a seu tempo. Em 1890 fora nomeado presidente de honra da Real Sociedade Fotográfica de Madrid, e em 1912 Cajal publicou o livro Fotografia das cores, bases científicas e regras práticas, advertindo sobre o futuro da fotografia cromática (a cores). Ademais conservam-se centos de fotografias estereoscópicas impressionadas em placas de vidro por ele realizadas.

Apesar de tudo o assinalado, quem nos dera que nos tempos atuais houvesse pessoas tão honestas como Cajal, especialmente entre políticos e governantes. Foi ele um insólito exemplo de honestidade e de patriotismo bem entendido. Sendo presidente da Junta de Ampliação de Estudos (JAE), criada no seu dia pela ILE, da qual beneficiaram no seu momento galegos como Castelão, Risco e Biqueira, entre outros, enviou para o estrangeiro o seu filho Jorge, pesquisador como ele, pagando as despesas de seu próprio bolso. Perguntado Cajal sobre porquê não o pensionou com uma bolsa, como era habitual, e mais sendo seu filho, Cajal respostou: «por isso mesmo, por ser meu filho». Nomeado diretor do Laboratório de Investigações Biológicas, o governo atribuiu-lhe um salário anual de dez mil pesetas da altura. Porém, ele solicitou uma redução para que fossem só seis mil. Depois não aceitou o cargo de ministro da Saúde e Instrução Pública, e sim aceitou a nomeação de senador vitalício, que lhe propôs Canalejas, simplesmente porque o seu exercício neste posto era gratuito, não tendo dotação económica. Tudo o contrário do que acontece agora com o Senado, uma câmara que custa infinidade de euros mantê-la e não serve mais que para ser um «cemitério de elefantes». Ademais de para pagar favores inconfessáveis.

  1. Severo OCHOA (1905-1993):

severo-ochoa-foto-e-seloNasceu a 24 de setembro de 1905 em Luarca, e faleceu aos 88 anos em Madrid a 1 de novembro de 1993. Bioquímico e biólogo molecular, desde 1956 com a dupla nacionalidade espanhola e norte-americana. Em 1959 obteve o prémio Nobel de Fisiologia e Medicina pela sua descoberta sobre o mecanismo da síntese biológica do ácido ribonucleico (ARN) e do ácido desoxirribonucleico (ADN). Ao deslocar-se para Málaga com a família em 1912, inicia ali os seus estudos. O seu interesse pela biologia deve-se em grande parte à leitura das publicações precisamente do grande neurólogo Santiago Ramón y Cajal. Em Madrid frequenta estudos de Medicina e licencia-se em 1929 pela Universidade Complutense, doutorando-se pouco depois, embora nunca chegasse a exercer como médico. Durante a sua estadia em Madrid vive na Residência de Estudantes da ILE, na qual ingressa em 1927, e ali é companheiro de grandes intelectuais e artistas como Lorca, Buñuel, Dalí, J. R. Jiménez, Alberti, Machado, etc.

Como professor ajudante de Juan Negrín na Complutense obtém várias bolsas para ampliar estudos nas universidades de Glasgow, Berlim e Londres; também em Heidelberg no Instituto Kaiser Wilhelm para a investigação médica. Durante este período trabalhou na bioquímica e a fisiologia do músculo, sob a direção do professor Otto Meyerhof, cuja influência é decisiva na sua futura carreira científica. De volta a Madrid em 1931, é nomeado professor ajudante de Fisiologia e Bioquímica da Faculdade de Medicina, cargo que ocupa até 1935. Em 1932 realiza os primeiros estudos importantes sobre enzimologia no Instituto Nacional para a investigação médica de Londres, e em 1935 é convidado pelo professor Carlos Jiménez Diaz para assumir a direção do Departamento de Fisiologia do Instituto de Investigações Médicas da Cidade Universitária de Madrid.

severo-ochoa-foto-filme01Em 1936, com a desgraçada guerra civil, exila-se e chega de novo à Alemanha, e nesse mesmo ano é designado assistente de investigação convidado no Laboratório de Meyerhof de Heidelberg, onde estuda as enzimas de certos passos da glicólise e das fermentações. Em 1937 desloca-se para Plymouth e ali investiga no Laboratório de Biologia Marinha. Desde 1938 até 1941 dedica-se ao estudo da função biológica da tiamina (vitamina B1) e de outros aspetos enzimáticos do metabolismo oxidativo, no laboratório de Rudolph Peters da Universidade de Oxford. Emigra para os EUA em 1941 e começa a trabalhar no Departamento de Farmacologia da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em Saint Louis, onde realiza interessantes estudos enzimológicos com os investigadores Carl e Gerty Cori. Em 1942 passa a trabalhar na Universidade de Nova Iorque como investigador associado na Faculdade de Medicina. É professor assistente de bioquímica em 1945, professor e diretor do Departamento de Farmacologia de dita faculdade desde 1946 até 1954, e professor de Bioquímica e chefe do Departamento de Bioquímica desde 1954 até o seu aposentamento. Os seus experimentos realizados nesta época sobre farmacologia e bioquímica, especialmente no campo das enzimas, valem-lhe a Medalha Bewberg em 1951. Investiga o metabolismo dos hidratos de carbono e dos ácidos gordos, e descobre uma nova enzima que esclarece o mecanismo de oxidação do ácido pirúvico (ciclo de Krebs); estuda também o papel do complexo vitamínico B nestes ciclos, e o processo de fixação do CO2 por parte das plantas verdes. As suas principais investigações centram-se nos fosfatos de alta energia que participam nas reações bioquímicas. Durante estes anos, a bioquímica experimenta uma revolução a nível molecular. Assim, em 1953, J. Watson e F. Crick fazem a proposta dum modelo em forma de dupla hélice que explica a estrutura molecular do ADN (ácido desoxirribonucleico) e em 1955 Ochoa descobre e isola uma enzima de uma célula bacteriana de «Escherichia coli», que ele denomina como «polinucleótido-fosforilase», e que depois é conhecida como ARN-polimerase, cuja função catalítica é a síntese do ARN (ácido ribonucleico), a molécula necessária para a síntese de proteínas. Com essa enzima, Ochoa consegue pela vez primeira a síntese do ARN no laboratório, a partir dum substrato adequado de nucleótidos (os seus componentes elementares).

Um ano mais tarde, o bioquímico norte-americano Arthur Kornberg, discípulo de Ochoa, demonstra que a síntese do ADN também requer uma outra enzima polimerase, específica para esta cadeia. Estes extraordinários achados permitem posteriormente o deciframento do código genético (que, segundo se comprova, é universal para todos os seres vivos), e a confirmada capacidade reprodutiva dos ácidos nucleicos faz que estes sejam já considerados como as moléculas da herança biológica. Por isto, o cientista Hermann Joseph Muller afirma que a vida se cria artificialmente no laboratório em 1955, em alusão ao experimento de Ochoa.

severo-ochoa-com-discipulos

Em 1971 é nomeado diretor do laboratório de biologia molecular da UAM, e em 1985 desloca-se definitivamente para Espanha, com a sua esposa Carmen García Cobián, com a qual se casara em 1931. Antes, em 1967, fora nomeado «doutor honoris causa» pela universidade de Oviedo. Na década dos 80 dirige simultaneamente dous grupos de investigação sobre biossíntese de proteínas, um no Instituto de Biologia Molecular de Madrid, e outro no Roche Institute of Molecular Biology de Nova Jersey. Embora se tenha reformado oficialmente em 1975, nunca deixou a investigação. Em 1993 apresentou em Madrid a sua biografia intitulada A emoção por descobrir, e nesse mesmo ano falece com 88 anos de idade.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos dous filmes-documentários antes resenhados.

Organizar nos estabelecimentos de ensino uma ampla amostra sobre o uso da ciência a favor da paz e o desenvolvimento, e não para a guerra, a violência e contra os direitos humanos. Com textos, fotos, aforismos, cartazes, murais e textos e poemas livres dos escolares, esta amostra terá que incluir dous apartados dedicados a Cajal e Ochoa, pessoas e cientistas que são um verdadeiro orgulho, os dous republicanos antifranquistas e ambos ganhadores do Nobel de Medicina.

Podemos organizar um Livro-fórum, com participação no mesmo de alunos e docentes. Um interessante livro que podemos escolher para esta atividade é o intitulado Ciência e Tecnologia pela Paz e Qualidade de Vida, escrito por Ariosto Holanda, e publicado no Brasil em 2009.

 

 

 

 

 

 

 

Burela, romance do escritor brasileiro Efigénio Moura, disponível em pré-venda na loja online da Através Editora

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Burela, romance do escritor brasileiro Efigénio Moura, disponível em pré-venda na loja online da Através Editora

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC