Partilhar

Pertenço a umha geraçom de ignorantes

Beatriz Bieites (*) – Na próxima semana começo as aulas de baile tradicional no meu centro social. Inscrevim-me no curso porque gostaria muito de saber dançar; eu nom tivem a sorte de poder aprender na minha casa com a minha mae ou os meus avós nem na aldeia com as velhas vizinhas (porque nascim e crescim numha cidade), e por isso tenho que ir às aulas, um dia por semana, de 20h a 21h e com umha professora que me ensine.

Tampouco sei fazer o caldo, nem a empada de carne, nem a caldeirada de congro como figérom todas as maes das nossas maes ao longo da história.

Ninguém me ensinou a identificar o canto das aves, nem os insectos, nem as plantas aromáticas, nem os cogumelos venenosos.

Nom sei quando se planta o feijom nem como se fai o queijo. Nem aquecer um forno de lenha. Nom sei coser umha camisa nem remendar umhas calças como sabiam todas as geraçons de mulheres anteriores à minha.

Nom entendo nada quando olho para as estrelas do céu nem sei como afectam os ventos às colheitas.

Nom aprendim a tocar a pandeireta na cozinha nem as músicas populares ouvindo cantar nas  festas, e nom sei fazer um piom para as crianças. Nom conheço os contos tradicionais nem os provérbios. E nom sei o que canta o meu povo aos bebés no berço, na festa do entruido ou na noite do solstício de Verao.

Nem sequer sei como se chamam na minha língua as cousas que me rodeiam.

Sou umha ignorante. Pertenço a umha geraçom de ignorantes. Pertenço à primeira geraçom da história que nom sabe cantar. A minha mae e o meu pai, como as maes e pais de todas as pessoas da minha idade, decidírom deixar de transmitir-nos todos e cada um dos segredos da nossa cultura ancestral. Nem empada, nem moinheiras nem língua galega. Milhares de anos preservando uns saberes, costumes e tradiçons que estám prestes a desaparecer perante os nossos olhos.

Já ninguém depois da morte das nossas avós vai fazer na casa empada de milho e sardinhas… Ou será que vai continuar a fazer-se?

O fenómeno da dança tradicional é mui motivador, sem dúvida: acho que ninguém pode obviar que goza de relativamente boa saúde apesar de se ter cortado, também pola primeira vez na história, a sua transmissom geracional. Eu nom conheço bailadoras de menos de 30 anos que tenham aprendido os pontos dançando na casa ou nas festas locais, e, no en tanto, cada vez há mais jovens que sabem e querem dançar. Criárom-se associaçons, escolas e agrupaçons onde ensinar e aprender, e, o mais importante, mantivo-se o contacto com as velhas geraçons possuidoras do saber.

As nossas velhas e velhos sabem o que nós já nom sabemos, e depende de nós, de quem estamos a construir esta naçom, que esse conhecimento, que essa visom do mundo nom se vaia com elas.

Os centros sociais e os diferentes colectivos que integram o nosso movimento estám a fazer um trabalho digníssimo e maravilhoso de recuperaçom -ou de aprendizagem colectiva. É graças a eles e nada mais que a eles que a figura do Apalpador nom se afogou na chuva da desmemória, que o Merdeiro ressuscitou da renegaçom colectiva e que as festas populares abandonadas voltárom às ruas. É graças a eles que eu podo aprender a cozinhar, a cantar e a fazer brinquedos de madeira, que sei o que era a tarasca e que conheço as aves que aninham nas hortas do meu bairro.

É esse abraço entre a nossa gente velha e os nossos movimentos novos, entre o saber e o querer, quem vai poder garantir que as novas galegas continuem cada ano à espera da chegada do Apalpador.

 

 


 

(*) Artigo publicado originalmente no n.º 95 do Novas da Galiza

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Lançamento de Begonha Caamanho, uma das nossas, em Lugo

Ângelo Brea apresenta Ensinamentos de Rahotep em Bertamiráns

Através Editora publica Ensinamentos de Rahotep, de Ângelo Brea, obra ganhadora do I Prémio de Criação Literária da Cátedra Carvalho Calero da USC

Lançamento de Tourists, go home? Em Ponte Vedra