Partilhar

Paulina Chiziane, uma escritora feminista moçambicana para celebrar o dia da mulher

paulina-chiziane-foto-0Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 139 da série geral que iniciei com Sócrates, a uma excelente escritora feminista moçambicana, conhecida como Paulina Chiziane, autora de formosos romances, em que as mulheres são as protagonistas fundamentais. Por isto, esta escritora é muito adequada para comemorar a jornada do 8 de março, em que se celebra o “Dia da Mulher Trabalhadora”. Com este depoimento, a ela dedicado, completo o número vinte e sete da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

Paulina Chiziane cresceu nos subúrbios da cidade de Maputo, anteriormente chamada Lourenço Marques. Nasceu a 4 de junho de 1955 em Majacaze-Gaza (Moçambique) dentro de uma família protestante onde se falavam as línguas chope e ronga. Aprendeu a língua portuguesa na escola de uma missão católica. Começou os estudos de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane sem ter concluído o curso. Participou ativamente à cena política de Moçambique como membro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), na qual militou durante a juventude. A escritora declarou, numa entrevista, ter apreendido a arte da militância na Frelimo. Deixou, todavia, de se envolver na política para se dedicar à escrita e publicação das suas obras. Entre as razões da sua escolha estava a desilusão com as diretivas políticas do partido Frelimo pós-independência, sobretudo em termos de políticas filo-ocidentais e ambivalências ideológicas internas do partido, quer pelo que diz respeito às políticas de mono e poligamia, quer pelas posições de economia política marxista-leninista, ou ainda pelo que via como suas hipocrisias em relação à liberdade económica da mulher.
Começa por publicar alguns dos seus contos na imprensa moçambicana, como a Página Literária e a revista Tempo, histórias que falam da vida em tempos difíceis, mas da esperança, do amor, da mulher, e de África. É a primeira mulher que publicou um romance em Moçambique. Iniciou a sua atividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa. As suas escritas vêm gerando discussões polémicas sobre assuntos sociais, tal como a prática de poligamia no país. Com o seu primeiro livro, Balada de Amor ao Vento (1990), a autora discute a poligamia no sul de Moçambique durante o período colonial. Esta obra transcreve a oralidade africana para o papel, numa mensagem feminista e de esperança. Devido à sua participação ativa nas políticas da Frelimo, a sua narrativa reflete o mal-estar social de um país devastado pela guerra de libertação e os conflitos civis que aconteceram após a independência.

É a primeira mulher que publicou um romance em Moçambique. Iniciou a sua atividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa. As suas escritas vêm gerando discussões polémicas sobre assuntos sociais, tal como a prática de poligamia no país.

Paulina não gosta do termo romancista e diz sobre si: “Sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte”. O seu maior sucesso surge com Niketche: Uma História de Poligamia, onde relata a vida de Rami, que após descobrir que o marido tem mais quatro mulheres resolve procurá-las. Paulina faz um apelo às mulheres para se unirem e se tornarem independentes. A obra ganhou o Prémio José Craveirinha de Literatura, em 2003. Em 2014, Chiziane foi agraciada pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique, forma de reconhecimento do mérito e obra da autora e dedicou o prémio às moçambicanas: “Quero encorajar o meu povo, as mulheres da minha terra: por muito difícil que as condições sejam, caminhem descalços e vençam”.

Paulina vive e trabalha na Zambézia. Em 2016, anunciou que decidiu abandonar a escrita porque está cansada das luitas travadas ao longo da sua carreira.

A SUA OBRA LITERÁRIA

Romance
Balada de Amor ao Vento, 1.ª edição, 1990. Lisboa: Caminho, 2003.
Ventos do Apocalipse, Maputo: edição da autora, 1993. Lisboa: Caminho, 1999.
O Sétimo Juramento, Lisboa: Caminho, 2000.
Niketche: Uma História de Poligamia, Lisboa: Caminho, 2002. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Maputo: Ndjira, 2009, 6ª edição.
As Andorinhas, 2009, 1ª Edição, Indico Editores.
O Alegre Canto da Perdiz, Lisboa: Caminho, 2008.
Na mão de Deus, 2013
Por Quem Vibram os Tambores do Além, 2013, com Rasta Pita
Ngoma Yethu: O curandeiro e o Novo Testamento, 2015.
O Canto dos Escravizados, 2017.

Ensaio
Eu, mulher… por uma nova visão do mundo (Testemunho, em 1992 e publicado em 1994).

Um Estudo sobre ela
PEREIRA, Ianá de Souza: Vozes Femininas de Moçambique. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Letras da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), São Paulo, 2012. Trata-se de uma análise comparativa dos romances Ventos do apocalipse (1999) e Niketche: uma história de poligamia (2004), da moçambicana Paulina Chiziane, na qual se discute as representações e o papel social da mulher em romances que se pautam na intensa força das relações sociais que informam a maneira de agir de homens e de mulheres em Moçambique.

DOCUMENTÁRIOS

 0. Diálogo com Paulina Chiziane.
Duração: 23 minutos. Ano 2019.

 1. Paulina Chiziane.
Duração: 54 minutos. Ano 2012.

O 3a1 entrevista a escritora de Moçambique, Paulina Chiziane. Participam da entrevista os jornalistas Lucas Rodrigues, da TV Brasil, e Mara Régia, da Rádio Nacional. O programa é apresentado pelo jornalista Luiz Carlos Azedo.

 2. Paulina Chiziane: Oralidade e Ancestralidade.
Duração: 29 minutos. Ano 2019.

Neste “Café Filosófico”, a escritora moçambicana Paulina Chiziane nos fala sobre a oralidade e a ancestralidade presente em sua literatura premiada internacionalmente e também sobre as trajetórias de sua escrita.

3. Paulina Chiziane: “O mundo da mulher ficou muito escondido…”
Duração: 4 minutos. Ano 2018.

Ela foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Em suas obras, Paulina Chiziane promove reflexões sobre aspetos culturais enraizados. Assim, ela abre caminhos, amplia horizontes sobre a liberdade.

4. Resenha da obra Niketche de Paulina Chiziane.
Duração: 13 minutos. Ano 2015.

5. Niketche de Paulina Chiziane (o meu novo livro preferido).
Duração: 9 minutos. Ano 2017.

6. Sobre contar histórias. Entrevista a paulina Chiziane.
Duração: 24 minutos. Ano 2016.

7. Entrevista a Paulina Chiziane.
Duração:14 minutos. Ano 2016.

A primeira romancista de Moçambique, Paulina Chiziane, fala a “Brasil de Fato” (BdeF) sobre seus livros, a condição das mulheres em seu país e o diálogo com o Brasil “Quem segura a sociedade africana são as mulheres”, disse.

8. Entrevista a Paulina Chiziane.
Duração: 22 minutos. Ano 2017.

Tadeu Rodrigues entrevistou a incrível Paulina Chiziane no Viva Poços TV (Flipoços), transmitido pela TV Plan.

9. Paulina Chiziane A Páginas Tantas.
Duração: 34 minutos. Ano 2013.

ENTREVISTA A PAULINA CHIZIANE

Manuela Sousa Guerreiro fez no ano 1999 uma entrevista a Paulina Chiziane, que tenho por bem reproduzir:
“Wusheni estava atrás da porta empunhando a catana com força de mulher. No momento certo deu o golpe certo. Na agonia do adeus, Manuna vira a ponta do punhal rasgando verticalmente o ventre de quem o fere. Wusheni e Manuna, dois irmãos que partilharam do mesmo ventre, do mesmo leite, do mesmo amor e do mesmo ódio tombam na mesma batalha”. De horrores como este se fez a guerra em Moçambique e deles nasceu Ventos do Apocalipse, o segundo romance da escritora Paulina Chiziane, que a Caminho editou em maio de 1999, em Portugal.

Balada de Amor ao Vento é o seu primeiro livro. Fala de quê?
É uma história de amor. Do conflito vivido por uma mulher moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, entre os valores impostos e os seus próprios anseios.

A Inocência Mata descreveu-o como um livro femininista. Concorda?
Quando pronuncio a palavra femininista, faço-o entre aspas, porque não quero associar-me às loucuras do mundo. É um livro feminino porque nele exponho a mulher e o seu mundo, embora não seja uma obra onde desafie o estatuto da própria mulher. Isso ajuda a refletir e a reconhecer afinal quem é a “mulher” com que nós vivemos. É a minha forma de contribuir para a compreensão dessa realidade e, quem sabe, ajudar a definir novos caminhos. Também é uma paixão. Gosto de escrever sobre mulheres. Vou escrever sobre o quê, se não sobre o que sei?! Não sou capaz de ter uma visão assexuada da vida.

É a minha forma de contribuir para a compreensão dessa realidade e, quem sabe, ajudar a definir novos caminhos. Também é uma paixão. Gosto de escrever sobre mulheres. Vou escrever sobre o quê, se não sobre o que sei?! Não sou capaz de ter uma visão assexuada da vida.

paulina-chiziane-foto-1A Paulina escreve no feminino?
Sou uma mulher e sinto as coisas como mulher que sou. Como é que não hei de ver as coisas como uma mulher, como é que não hei de usar as palavras que as mulheres usam? As mulheres quando se juntam têm a sua linguagem própria, a sua visão e a sua maneira singular de expressar as coisas. Por exemplo, numa ilha no sul de Moçambique as mulheres quando se cruzam com outras mulheres, saúdam-se de forma quase ritual e ficam ali uns bons quinze minutos a fazê-lo. O homem, normalmente pescador, quando encontra um amigo diz “bom dia” e o outro responde “Yhaaa”. E acabou. Cada um vai para o seu lado. As palavras e as expressões dum e doutro mundo (masculino e feminino) são efetivamente diferentes.

Este livro retrata experiências muito pessoais?
Pessoais na medida em que muitas destas mulheres vivem ao meu lado. Quando olho para a minha mãe, para a minha avó e um bocadinho para mim mesma, enfim quando olho para toda a comunidade que me rodeia sei que é de nós todas que falo, sei que é sobre nós todas que escrevo e a nós todas que vou retratando aqui e ali.

Todas as mulheres do livro que tentaram demonstrar a sua insatisfação perante a vida que levavam acabaram por ser punidas. Passa-se o mesmo na vida real?
Toda a mulher que luita por uma mudança é sempre punida e esse é, efetivamente, o mundo real que descrevo.

Qual foi a reação das mulheres moçambicanas a este livro?
No início houve, apenas, uma certa curiosidade. Depois foram lendo, foram-se identificando e agora a reação é muito boa. Para grande parte delas sou a pessoa que diz o que sentem, mas não têm coragem de dizer. Isso para mim é muito importante.

A sociedade moçambicana reprime as mulheres?
Digamos que sim, mas não podemos olhar para o país como um todo nesta matéria. Temos as regiões do sul e do centro, que são regiões patriarcais por excelência. O norte já tem caraterísticas diferentes. É uma região matriarcal, onde as mulheres têm outras liberdades. Acho que Gaza, província de onde sou oriunda, é a região mais machista de Moçambique. Uma mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de o fazer de joelhos. Quando o marido a chama, ela não pode responder de pé. Tem que largar tudo o que está a fazer, chegar diante do marido e dizer “estou aqui”. Há pouco tempo um jornalista denunciou um professor de Gaza. Nas aulas quando fazia uma pergunta os rapazes respondiam de pé, mas obrigava as meninas a responderem de joelhos. Quando as alunas iam ao quadro, tinham que caminhar de joelhos e só quando lá chegavam é que se punham de pé. O professor foi criticado e prometeu mudar. Mas para a comunidade ele estava a agir corretamente.

Uma mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de o fazer de joelhos. Quando o marido a chama, ela não pode responder de pé. Tem que largar tudo o que está a fazer, chegar diante do marido e dizer “estou aqui”.

Livro de amor e guerra, O segundo livro fala sobretudo da guerra…
Sim, apesar do amor também aparecer.

As personagens femininas continuam a ser as mais importantes?
Sim. As personagens mais importantes do livro são personagens femininas. Há uma personagem de amor, a Whusheni, que morre na guerra. Há a Minosse, a última mulher do régulo, que consegue fazer uma revolução na sua vida e tem alguns momentos de felicidade. Num dos três contos que abrem o livro aparece a Massupai, uma mulher que foi capaz de matar os filhos e trair toda a sua aldeia. Quis mostrar que as mulheres não são só vítimas. Nesta guerra vi casos concretos. A Renamo tinha um truque muito bom. Quem fazia o trabalho de reconhecimento da aldeia e das zonas que eram atacadas eram as mulheres. A mulher aparecia na aldeia, conversava, ia buscar água e observava, porque sabia de táticas de guerra. Era depois ela quem dava o sinal às tropas que estavam escondidas. Os estereótipos colados à imagem da mulher funcionaram muito bem nesta guerra, na qual participaram de uma forma muito cruel. E ninguém deu por isso. Quando eu digo que as mulheres são invisíveis, são-no em todos os aspetos. Neste livro, descrevo essa parte horrível da guerra, mas não descrevi tudo. Há coisas que jamais terei coragem para escrever.

Trabalhou para a Cruz Vermelha durante a guerra. Foi nessa altura que observou todos esses horrores?
Estava a trabalhar na emergência. Trabalhei muito no campo. Assisti à guerra do princípio ao fim e testemunhei os mais terríveis horrores.

Entretanto, já escreveu um novo livro. De que trata?
É um livro sobre as incompatibilidades entre as crenças. É uma longa história de feitiçaria. Temos dois mundos: o atual, feito de realidades novas e evolutivas, e o que nos é imposto, que vem do passado, da nossa tradição, da nossa cultura, das nossas crenças e mitos. Uma dualidade caraterística de África e dos africanos em particular. Como é que gerimos a dualidade e a coexistência de mundos tão díspares? A que crença recorrer quando nos surge uma desgraça? Esse é o grande dilema. Os padres que me ensinaram diziam que recordar os meus antepassados era ser pagão, mas recordar um santo António e uma santa Teresinha era ser-se cristão. É este mundo duplo em que vivemos que eu procurei descrever neste terceiro livro.

Como é que se vai chamar?
O sétimo juramento. Porque o sete é um número mágico. Deverá sair em Portugal em março do ano 2000, na editorial Caminho de Lisboa.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Paulina Chiziane, uma excelente escritora de Moçambique. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, em que participem escolares e docentes. Podemos escolher para ler alguma das obras escritas por Paulina Chiziane. As mais interessantes são Niketche: Uma História de Poligamia (2002) ou Eu, mulher… por uma nova visão do mundo (1994).

 

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume

Lançamento do livro Begonha Caamanho, na Corunha

Henrique Marques Samyn visita Compostela para falar sobre literatura negra brasileira

Os artigos dos topónimos no novo Nomenclátor

Juan Luis Fernández apresenta o livro Futebol Gaélico em Celanova

Colóquio sobre Tourists, go home? na Semana do Livro de Compostela (SELIC)

Lançamento do livro, Tourists, go home? em Pontedeume