José Paz Rodrigues – Embora a China e, especialmente, a Índia sejam países emergentes, hoje com um importante crescimento económico, no campo educativo têm por diante um longo caminho por percorrer. Para cumprir adequadamente com a Declaração Internacional dos Direitos das Crianças.
Na Índia acabam de aprovar uma lei pola que todos os nenos e nenas em idade escolar do imenso subcontinente indiano vão ser escolarizados. Será necessário para isso formar milhares de professores e levantar infinidade de escolas polos quatro cantos dos estados indianos e de norte a sul. Na China, nas zonas rurais, com uma elevada população, são muitas as crianças que não têm um posto escolar. Mas, o que é mais grave, são infinidade de rapazes os que, por necessidade de trabalho, deixam a escola ou emigram às cidades.
Neste formoso filme, enquadrado numa filmografia chinesa de grande sucesso em Ocidente nos últimos tempos, pode observar-se como muitas das estratégias didáticas que põe em prática uma rapariga, a ocasional professora protagonista, são produto da sua intuição educativa, da sua inteligência natural e da sua funda vontade por conseguir o que quer. Uma área que ensina, tão clássica e tão difícil de ensinar como é a matemática, ela o faz fácil ao utilizar, sem o saber, a técnica didática de Freinet que é denominada “cálculo vivo ou vivente”.
Este excelente filme amostra como, nas culturas asiáticas (e também nas africanas) as crianças desfrutam do pouco que têm. Em contraposição a ocidente, onde nos queixamos sem razão, e os rapazes não desfrutam dos múltiplos brinquedos e recursos didáticos que possuem. O final do filme, neste senso, é certamente poético, quando os rapazes de todas as idades daquela escola rural chinesa, em tempos de Mao, escrevem no quadro da aula palavras formosas com gizes de cores que lhes acabam de oferecer.
Ficha Técnica do Filme:
Título Original: Yi ge dou bu neng shao (Nenhum a menos).
Diretor: Zhang Yimou (China, 1998, a cores, 106 minutos).
Atores: Wei Minzhi (a rapariga professora), Zhang Huike (o rapaz escolar), Tian Zhenda (o presidente da Câmara), Gao Enman (o professor Gao) e rapazes chineses em idade escolar.
Argumento: O professor Gao terá de ficar alguns dias fora da escola, para ajudar a mãe doente. Sem professor substituto, o presidente da Câmara escolhe Wei, uma rapaza de 13 anos, para assumir o posto. Gao avisa Wei: nenhum aluno deve deixar a escola durante a sua ausência. Wei terá de aprender a lidar com os alunos e com essa nova situação imposta a ela. Zhang Huike, um rapaz de 10 anos, é inteligente mas muito indisciplinado. Ele está sempre desafiando a autoridade de Wei e testando a sua paciência, quando ela tenta colocar ordem no local. Certa manhã, Zhang não aparece na escola. E Wei descobre que ele foi para a cidade procurar emprego, para ajudar a família endividada. Com as palavras do professor Gao na cabeça e apenas uma vaga ideia de onde o rapaz possa estar, Wei parte para a cidade, disposta a encontrá-lo e trazê-lo de volta para casa. Prémio Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1999.
Análise do Filme:
Companheirismo, solidariedade e perseverança são valores no filme, que demonstra preocupação com as crianças da China. Uma história sem fronteiras políticas ou territoriais, pola universalidade do tema. A sequência em que Wei Minzhi inicia as suas atividades como professora é interessante de analisar. Perdida, no primeiro dia de aula, sem saber como lidar com as crianças, Wei permite que elas brinquem. O presidente da Câmara chega ao local e vê a professora sentada à porta da escola e as crianças dispersas, correndo e brincando. Ele grita com Wei e a repreende pola desordem. O símbolo do sino está presente nesta cena, pois o presidente da Câmara toca-o para agrupar as crianças à porta da escola. Wei, uma rapariga de treze anos, amostra-se incapacitada para assumir o posto de professora.
Assim, inicialmente é estabelecido um preconceito. O professor Gao não acredita que ela seja capaz e os alunos também duvidam, como reafirmar uma identidade se ela não é reconhecida polos outros ao redor? O filme apresentou uma saída interessante para o dilema a partir de um ponto de interseção entre Wei e os alunos e alunas. Desta forma, passa a existir uma aproximação que favorece o entendimento, a empatia e o crescimento pessoal. A jovem professora deseja levar adiante a missão de evitar que os alunos abandonem a escola, então, quando o rapaz mais rebelde da turma é enviado pola mãe para trabalhar na cidade grande, Wei percebe que precisa fazer alguma cousa para o trazer de volta, e para isso, conta com a ajuda das crianças.
É interessante observar que Wei acredita na possibilidade de encontrar o rapaz e inicia o trajeto de chegar até a desconhecida cidade. De repente, a rapariga percebe que está sozinha, numa cidade que apresenta as discrepâncias da modernidade, um local de prosperidade e extrema carência, onde a fome e a solidão são as suas companheiras. Somente uma rapariga poderia ousar trilhar um caminho, um objetivo, sem pensar nas dificuldades do percurso. Para Wei a trajetória é encontrar o rapaz na cidade grande e trazê-lo de volta. O medo existe, mas a persistência é maior e a coragem da jovem professora é notável.
Aspetos a observar:
– A criatividade didática de Wei, professora novel, produto da sua sensibilidade, intuição e inteligência.
– O valor que as crianças orientais, ao contrário que as ocidentais, lhe dão às suas cousas e recursos. Que vem a demonstrar que é muito mais importante o ser que o ter.
Wei Minzhi (a rapariga professora)
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



