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Os mestres são a verdadeira alma da escola, no filme “A república dos mestres”

José Paz Rodrigues – No mês de abril temos que sempre lembrar os mestres e mestras formados durante o frutífero período republicano em Espanha. O dia 14 é o Dia da República, data em que se comemoram os oitenta e um anos da proclamação da Segunda República.

Que, entre outras muitas cousas positivas, foi modelar na promoção da educação, no apoio aos mestres, na sua formação inicial e permanente, na criação de numerosas escolas, na dotação de recursos didáticos às mesmas, na criação de bibliotecas e fomento da leitura, na posta em funcionamento das missões pedagógicas, como uma escola paralela e ambulante que levava a cultura às povoações mais afastadas e, especialmente, na promulgação por lei dum fantástico plano de formação inicial dos mestres, ainda hoje não superado, apesar do tempo transcorrido. Plano que, conhecido como Plano Profissional do 31, foi deliciosa fonte de que manaram os mestres e mestras mais extraordinários que tivemos no nosso país.

Não há muito faleceram em Ourense vários mestres republicanos modelares, Luis Taboada, José Sueiro, António Vázquez e Consuelo Carid. Este meu artigo de hoje quere ser uma homenagem a estes nossos mestres, a todos aqueles que, com verdadeira vocação pedagógica, desenvolveram um labor encomiável. Também aos imoralmente assassinados, fuzilados e represaliados, aos extraordinários mestres da ATEO de Ourense e a Isabel Suárez, tia da minha esposa Ana, mestra republicana modelar que, pese aos seus muitos anos, se conserva muito bem e felizmente vive e mora em Ourense. Porque, em palavras de Giner e Cossío, pedagogos que ilustraram a etapa educativa republicana no nosso país, os mestres e mestras são “a verdadeira alma da escola”. Ideia que eu compartilho plenamente e, por isso, o artigo de hoje dedico-o a estes mestres e o próximo aos educadores das Missões Pedagógicas republicanas.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: La república de los maestros (A república dos mestres). Documentário.

Diretor: Arturo Villacorta (Espanha, 2004, 45 min., a cores e a preto e branco)

Roteiro: Victoria Martínez. Produtora: TVE.

Argumento: Viagem pola memória histórica da reforma pedagógica da Segunda República através das lembranças dos protagonistas naquela altura: os escolares e os mestres. O documentário faz um percurso polas medidas educativas adotadas, a catástrofe da guerra civil e a repressão seguida contra muitos mestres republicanos.

 

 

Por quê a maioria dos Mestres da República foram modelares? :

A minha larga experiência no tempo de professor de Didática, permite-me poder dar opiniões fundamentadas sobre os temas educativos. Por isso posso afirmar, sem receio de me equivocar, que a principal razão pola que quase todos os mestres e mestras formados durante o rico período republicano foram um verdadeiro modelo de mestres, com vocação, autenticidade, amor à profissão e amor aos alunos, dignidade e valores humanos e éticos, foi devida essencialmente ao Plano Profissional de estudos da sua formação inicial como docentes. Que durava quatro anos, com um ingresso muito exigente, em que se avaliava a formação científica e humanística.

O currículo consistia em matérias totalmente profissionais, psicologia, pedagogia, didática, didáticas especiais, matérias artísticas e idiomas. O quarto ano era totalmente dedicado a um estágio pago numa escola. Entregue no final a correspondente memória, os candidatos a mestres passavam diretamente ao quadro oficial de docentes, recebendo o salário inicial dum mestre. Este modelar plano de estudos, ainda não superado hoje, provocava nos futuros docentes uma grande motivação para se preparar bem em técnicas didático-pedagógicas. Pois todos sabiam que no final do curso iam ter uma escola e um grupo de alunos que ensinar. Os estudantes para mestres, com grande entusiasmo, por estar tão motivados, liam muita literatura pedagógica e queriam conhecer os métodos e experiências dos pedagogos mais destacados, tanto passados, como os do momento.

Por isso conheciam, polas suas leituras, a obra dos grandes educadores da história da educação, os da Escola Nova, como Decroly, Montessori, Cousinet ou Freinet ou as experiências educativas que estavam a funcionar naquela altura, tanto em Espanha como nos países europeus. Paralelamente, o governo da República mimava os seus mestres, tratando-os com dignidade, como nunca foram tratados nem antes nem depois no nosso país. Ao considerá-los muito importantes no seu ofício, para a melhoria da sociedade, para a elevação cultural do povo, e para a extensão da educação a todas as camadas sociais.

Já em 29 de setembro de 1931, no famoso decreto sobre o funcionamento das Escolas Normais, entre outras cousas, diz-se : “O primeiro fator da instrução primária é o mestre. Toda a reforma se frustaria sem um mestre que a encarnasse no seu espírito. Era urgente criar escolas, mas era mais urgente criar mestres. (…) O mestre tem de ser o artífice desta nova escola. A República não pretende só levantar as paredes de uma escola; aspira a dar à escola uma alma. Com esta reforma, que é à vez social, cultural e económica, a República tem a convicção de formar, independentizar, sustentar e fortalecer a alma do mestre, com o fim de que seja a “alma” da escola”.

Assim não deve admirar-nos que os mestres formados com este modelar programa fossem magníficos, não apenas como pessoas, como também como pedagogos. Em que os traços fundamentais da sua atuação foram: respeito sagrado pola pessoa do aluno e da sua autonomia e utilização do método científico de investigação. Para conseguir alunos reflexivos que soubessem pensar por si mesmos, usando da razão e juízo crítico.

Também uso do método intuitivo e por descoberta, organização de excursões e passeios escolares para conhecer a envolvente, realização de atividades artísticas e lúdicas variadas, fomento da leitura, usando a biblioteca de aula e fomento das aprendizagens apreciativas, para os alunos adquirirem valores humanos: pacifistas, solidários, de respeito e tolerância e de amor pola natureza e a ecologia. Um exemplo de mestre republicano com este estilo educativo é o que se apresenta no filme “A língua das borboletas”, que comentámos nesta mesma secção há poucos dias.

 

 

 

Temas para Refletir:

– Ver o filme e organizar um debate-papo sobre o mesmo.

– Procurar na Internet informação sobre os mestres da República e sobre a sua formação inicial e permanente ou em exercício.

– Debater porquê, sendo um plano formativo tão valioso, não se voltou a pôr em prática em Espanha outro similar desde o ano 1931.

– Pesquisar sobre a ATEO de Ourense e a sua revista A Escola do Trabalho.

 

 

(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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