José Paz Rodrigues (*) – Desde há muitos anos, coincidindo com a data de 23 de abril, vem-se celebrando o Dia do Livro no nosso país. Na Catalunha é também a festa do seu padroeiro S. Jorge, que se celebra em grande, e nas Ramblas se compras um livro oferecem-che com ele uma rosa. Desde o mês de maio até o de setembro celebram-se por toda a Galiza e em Portugal numerosas feiras do livro, com atividades especiais, artísticas e lúdicas, para crianças.
Ademais é muito importante criar amor pola leitura e polos livros entre os mais jovens. O que se pode e deve fazer durante as férias do verão, em que agora estamos. Quero, por isto, hoje dedicar o meu artigo da série a este importante tema dos livros, que, ao meu entender, são uns dos melhores amigos que temos. Hoje em crise por vários motivos, relacionados com as novas tecnologias e os novos formatos. Pola televisão, que, com muitos programas nefastos e antieducativos, veio a favorecer a cada vez menor leitura por parte das pessoas, dos rapazes e dos jovens, atuando como uma intrusa nos lares e noutros contextos.
Por isso o grande ator cómico Groucho Marx, ao respeito, dizia: “Eu acho a televisão muito educativa. Cada vez que alguém a liga, vou-me ao meu quarto ler um livro”. O tema do livro, na sua comemoração anual, vai ligado obrigatoriamente ao também muito importante tema da leitura e de que rapazes e jovens adquiram o prazer de ler. Que amem os livros e a sua leitura. Por meio da qual vão adquirir muitos conhecimentos e muitas atitudes positivas, assim como valores humanos, tão necessários nesta sociedade atual em Ocidente.
O tema também nos leva a falar das bibliotecas. Das escolares, das bibliotecas de aula, das bibliotecas públicas e da dinamização das mesmas. Do modelo das bibliotecas ambulantes da República e de que, com grande acerto, na comunidade catalã, os estabelecimentos de ensino público têm dotado um posto de bibliotecário/a. Para gerir, dinamizar e fomentar a leitura entre os estudantes, organizando bem o empréstimo de livros. Incidindo muito na leitura como passatempo, que, do ponto de vista educativo é a mais interessante. E o tempo das férias do verão é uma época idónea para desenvolver atividades leitoras com as crianças, passando o seu tempo de lazer de forma agradável, lúdica e criativa. Acho que esta vez, para o meu comentário, escolhi acertadamente um filme modelar, realizado em 1966 por François Truffaut.
Ficha Técnica do Filme :
Título original: Farenheit 451
Diretor: François Truffaut (França-Reino Unido, 1966, 112 min., a cores)
Roteiro: Baseado na obra homónima de Ray Bradbury.
Música: Bernard Herrmann. Fotografia: Nicolas Roeg.
Intérpretes: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring, Jeremy Spenser e Alex Scott.
Argumento: Num futuro hipotético, mais além do ano 1990, os livros e toda forma de escrita são proibidas por um regime totalitário, sob o argumento de que fazem as pessoas infelizes e improdutivas. Se alguém é encontrado lendo é preso e “reeducado”. Se uma casa tem muitos livros e um vizinho denuncia, os “bombeiros” são chamados para incendiá-la. Montang é um desses bombeiros. Chamado para atuar numa casa “condenada”, ele começa a furtar livros para ler. O seu comportamento começa a mudar, até que a sua mulher, Linda, desconfia e o denuncia. Enquanto isto acontece, ele mantém amizade com Clarisse, uma mulher que conhece no metro. Ela incentiva-o e, quando começa a ser perseguido (e morto, segundo a versão televisiva oficial), ela leva-o à terra dos homens-livro, uma comunidade formada por pessoas que memorizavam seus livros e também eram perseguidas. Essas pessoas decoravam os livros, para publicá-los quando não fossem mais proibidos, e os destruíam.
Ler para conhecer, aprender, pensar, refletir, amar e passar o tempo de forma agradável:
Farenheit 451 é a temperatura a que arde o papel dos livros. O protagonista do filme é um bombeiro disciplinado encarregado de queimar os livros proibidos pelo governo fascista dum país imaginário. Conhece uma mestra revolucionária que se atreve a ler. De repente, encontra-se transformado num fugitivo, obrigado a escolher não só entre duas mulheres, também entre a sua segurança pessoal e a sua liberdade intelectual.
Embora seja este um filme baseado num dos melhores livros de ficção científica, infelizmente houve e há países que proibiram, e mesmo queimaram os livros: Hitler na Alemanha nazi, na Grécia com a ditadura dos coronéis, no Chile com o fascista Pinochet e aqui em Espanha a partir do golpe fascista de Franco. Este formoso filme pode servir para compreender a importância e a sabedoria que existe nos livros. A sua mensagem está plenamente vigente neste momento, pois antecipou a chegada dos homens-cinema e dos “ipad”.
Truffaut anima-nos a não criar uma sociedade alienada na procura da felicidade a qualquer preço, de uma sociedade que não se faça perguntas, que não sofra e que não pense. Existe neste filme uma denúncia profunda do totalitarismo analfabetizador, sem dúvida hoje mais necessária do que nunca. Com um final muito lírico, no qual o anseio humano por ser livre funde-se com a ideia mesma de “livro”. E os amantes da liberdade e dos livros aprendem de memória os grandes livros da literatura universal, para que, embora os queimem, possam sobreviver noutros momentos não totalitários e fascistas.
Um homem é O Quixote, outro Otelo, outro Robinson Crusoe, outro A República de Platão e, ademais de outros muitos seres humanos-livros, uma mulher é O Monte dos Vendavais. No seu momento, em entrevista, o autor da história em que se baseia o filme, Bradbury, comentou duas cousas muito importantes: que escreveu o livro para mostrar o seu grande amor pelos livros e as bibliotecas e que com esta história pretendeu refletir sobre como a televisão destrói o interesse na leitura. E, portanto, como não havendo leitura o pensamento crítico é suprimido.
Temas para Refletir e Atuar:
Procurar informação sobre o filme na Internet e, depois de visioná-lo, organizar um foro sobre ele.
Levar nos nossos estabelecimentos de ensino um plano criativo de fomento da leitura entre os escolares, depois de elaborar um projeto de atividades dinamizadoras artísticas e lúdicas. Entre elas os “Conta-contos”
Fazer o mesmo no tempo das férias do verão em ludotecas fixas e circulantes, com crianças de todas as idades.
Iniciar as bibliotecas de aula nas nossas escolas, e substituir o sistema atual dos manuais escolares, muito aberrante do ponto de vista didático.
Pôr em prática as ideias de Gianni Rodari nos seus livros de contos e na Gramática da fantasia.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



