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Os espanhóis sob o olhar dos brasileiros

Alexandre Anhel Cuquejo – No atual Brasil há conhecimento dos espanhóis por várias vias: a mídia brasileira, o contato crescente com espanhóis, quer seja por terem andado pela Europa os brasileiros, e de forma cada dia mais importante pelo acréscimo da presença de espanhóis de toda a parte a trabalharem no Brasil, em todo o tipo de atividades, com certo destaque para as de qualificação elevada e as empresariais.

A mídia brasileira, como comentava no outro diai, apresenta o estado espanhol e os espanhóis tal e como faz na Galiza o La Voz de Galicia com os portugueses, quer dizer, de um modo subliminarmente depreciativo.

Se um homem hispano fizer alguma falcatrua no Brasil, a imprensa nunca dirá «um homem fez tal cousa», e sim «um espanhol fez tal cousa», redigido de tal modo a ficar claro que é o próprio dos espanhóis andarem a fazer falcatruas.

Para os brasileiros, a Galiza é o norte de Portugalii. E o se ser galego ou galega é uma cousa também muito esquisita, como noutra anedota explicarei. Tem duas aceções muito comuns: a) As pessoas louras de olhos claros b) Os portugueses do norte de Portugal.

Popularmente a palavra Galiza não faz referência à Galiza inserida (ou sob) o estado espanhol. Existe além disso o nome popular conhecido de Galícia. Para a imensidão dos brasileiros, a Galícia é uma região espanhola tal como a Andaluzia ou Múrcia e nada lhe diz a respeito da sua língua e culturaiii.

Quanto à pluralidade nacional do estado espanhol, a crescente informação sobre bascos e catalães na mídia, e também a presença crescente de bascos e catalães naquela terra e a informação que de si achegam, faz que a sua realidade diferenciada seja percebida.

A emigração dos filhos da Galícia para o Brasil deu lugar às abundantes Casas de Espanhaiv neste país, que substituem o que nos outros países latino-americanos são os centros galegos, e neles estão essas pessoas da Galiza (sob Espanha), sempre bem envoltas na bandeira “roja y gualda”v

Porém, o crescente contato internético com galegos e galegas nas redes sociais, como o facebook e outras, e o acesso a materiais e produções de toda a parte de modo fácil, está a levar à descoberta, por muitos brasileiros – e lusófonos em geral –, dum não desprezível movimento reintegracionista na Galiza (sob a Espanha); e a perceção deste território como mais um espaço lusófono. A isso há que somar a crescente vinda para o Brasil de galegos e galegas formados, e que projetam o seu país com alguma frequência diferenciado.

Tudo isso começa a fazer luz sobre a realidade da Galiza do norte do Minho, e que camadas informadas, e não tão só, comecem a saber que a Galiza não é só o norte de Portugal, se não que abrange também a conhecida popularmente como Galícia, e que é algo mais profundo que uma simples região espanhola mais.

Poderia contar muitas anedotas de brasileiros a respeito dos espanhóis, todas elas espantosamente homogéneas, porém, polo seu interesse, vou narrar o acontecido numa conversa de café com um grupo de brasileiros e brasileiras no Parque botânico do Rio de Janeiro.

Começaram a falar Socorro e Demétrio, alunos da Universidade federal fluminense e pessoas bem mais informadas do comum, mas que produziam uma unanimidade abaladora.

Disse Socorro: o espanhol é falso, mentiroso e pessoa da qual ninguém se pode fiar. Começaram a pôr exemplos de espanhóis com nomes e apelidos que conheciam, e continuavam: o espanhol é ruim e má pessoa. Isso produzia unanimidade dos presentes que somavam mais e mais exemplos

Retrucava eu com a pluralidade nacional dos espanhóis, e eles afirmavam certo, não todos são iguais, um basco é pessoa séria, os catalães que são um povo inteligente querem arredar-se da Espanha, estão fartos de que andem a mentir-lhes. Os bascos o mesmo querem.

Luís um professor que começou dizendo: eu sou galego, pois sou louro e de olhos azuis, e sou galego também de raízes, pois a minha mãe é de Torre de Moncorvo -norte de Portugal – e conheço bem a Galiza espanhola, pois tenho uma nora de muito perto de Santiago de Compostela, ela veio fazer um mestrado e casou com um meu filho, e é a pessoa galega – da Galiza – mais adorável, sábia e reintegracionista que se pode ser.

E Luís continuava: O espanhol, o espanhol de etnia castelhana, despreza o galego, odeia o galego em tanto é tal, e há muitos galegos que reagem. Como ele diz: Se algum povo peninsular teria que ter a independência esse tinha que ser a Galiza… Todos unânimes, isso é tão óbvio que não merece a pena ser discutido, que sentido tem um povo como o galego estar submetido a Espanha? Custa trabalho acreditar que isso não seja percebido ao primeiro golpe de vista.

Demétrio apontava: É bem certo, os galegos (da Galiza sob Espanha) são pessoas honestas e trabalhadoras, mas não esqueçamos, que há um tipo de galego que é o galego covarde.

O galego covarde, em vez de enfrentar o desprezo e a mentira espanhola, adota a farda de espanhóis – melhor somar-se ao dominador que reagir frente a ele –. E levam os tiques da ruindade espanhola bem presentes, são a vergonha dos galegos e galegas.

Eu, que passei anos no Brasil, e ainda lá ando, tinha o meu coraçãozinho partido… estava a funcionar no meu inconsciente o ferrete da escola e da socialização espanhola. Sou muito mais espanhol do que acredito.

Enquanto redigia esta anedota, estava a pensar na ruindade espanhola e quanto mais refletia mais achava que tinham razão os amigos brasileiros.

Não estão os espanhóis sempre a mentir aos povos não espanhóis, não estão sempre a manipular?

Propostas como as de Wert na educação não é mentira e imposição? Não jogam sempre com o baralho marcado e quando percebem que a cousa não é o que querem a rasgar o baralho? O Supremo Tribunal espanhol faz infindas sentenças contra os direitos da gente e pola imposição espanhola. Quantas vezes na história temos o exemplo de golpes de estado, de guerras, repressões, violência contra os povos não castelhanos aos que sempre prometeram outra cousa? Há maior ruindade? O valor das palavras do governo espanhol não são sempre de fala-barato e que examinadas honestamente não valem nada?

Não é certo que há muitos galegos covardes? Todos conhecemos uma boa mada deles, e que andam com a farda espanhola mais ruim e mentireira vestidos. Ainda o outro dia Francisco Vazquez deu um bom exemplo dessa vergonha.

 

Notas:

ii Também o é para muitos portugueses do Sul de Portugal, para eles os galegos são os moradores do norte de Portugal. Os de Lisboa, tão esquisitos, reservam esse termo para os moradores do Porto.

iii Achegar-se aos lusófonos no demótico regional com a ortografia nacional castelhana, produz uma rejeição pavorosa e total. É como olharem uma cousa de tolos e além disso analfabetos.

iv Como lhe iam chamar centros galegos com esses significados no Brasil para o termo galego?

v Vermelha e amarela. Com exceções, mas já se sabe que as exceções são para confirmarem as regras.

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