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Os bons mestres entendem que cada aluno é um mundo, no filme “Kes”

José Paz Rodrigues – O grande diretor britânico Ken Loach realizou em 1969 um formoso filme, com um grande senso pedagógico. O protagonista do mesmo é um rapaz de uns doze anos, pertencente a uma família de operários mineiros, muito desestruturada, em que não se conhece o pai e a mãe não é um bom modelo de conduta.

Billy Casper, que é o nome do rapaz, interpretado de forma magistral por David Bradley, ator não profissional, tem um irmão que o maltrata e uma mãe que o trata como se não existisse. Mora na cidade mineira e escocesa de Yorkshire e é marginado por todos. Na escola os professores o desprezam e subvalorizam, fazendo o que não devem, e provocando que assim seja também desprezado e marginalizado polos colegas de turma.

Não encontra o seu lugar no mundo, não gosta de estudar, não o atrai o futebol e tampouco quer, no futuro, ser mineiro, ao que parece estar condenado. Mas, quando no campo encontra um falcão, a que batiza com o nome de “Kes”, tudo muda, pois tenta refletir no pássaro o que ele deseja, a liberdade de ir onde quiser. Para isso o cuida com mimo, dá-lhe de comer e adestra-o, sente que a sua vida tem sentido, sendo esta uma válvula de escape no mundo que o oprime, sem lhe dar saída. Mesmo furta para comprar na livraria do bairro livros, guias e monografias para a criação de falcões, que lê avidamente.

 

Ficha Técnica do Filme:

Título original: Kes.

Diretor: Ken Loach (Reino Unido, 1969, 113 min., a cores).

Música: John Cameron. Fotografia: Chris Menges.

Roteiro: K. Loach e Barry Hines (baseado no romance deste).

Intérpretes: David Bradley, Lynne Perrie, Freddie Fletcher, Colin Welland, Brian Glover e Bob Bowes.

Premiado no Festival de Karlovy Vary (1970).

Argumento: Numa ordinária vila industrial de Yorkshire, ao norte da Inglaterra, onde o inglês falado se parece mais com algum dialeto local, mora Billy, um rapaz com uma vida nada agradável, pois o seu irmão mais velho, Jud, o trata com violência e a sua mãe fracassada, com indiferença.

O seu lar é um verdadeiro pesadelo. Trabalha duramente, e na escola é tratado por todos, docentes e companheiros, como autêntica escória, ao ser submetido a toda a sorte de humilhações. Finalmente Billy consegue achar algo que dá sentido à sua vida, pois ao encontrar um falcão resolve dedicar-se à falcoaria. E isto torna-se no seu maior sonho. Ademais o seu professor de inglês compreende-o e ajuda-o e dá-lhe a oportunidade de que exponha na aula, diante dos demais alunos, a sua experiência cuidando de “Kes”, o seu falcão. O que leva a aumentar a sua autoestima e a que os demais, depois desse momento, o valorizem mais.

 

 

Análise Didático-Educativa do Filme:

Loach, o diretor do filme, amostra grande mestria na linguagem fílmica, introduzindo humor para fazer-nos mais digerível a dura história deste rapaz inadaptado, não pola sua culpa, com cenas muito brilhantes e emotivas. De toda a equipa de professores da escola, tão só existe um docente com sensibilidade psicológica e didática, um verdadeiro modelo de mestre, que muito gostaria eu que abundasse nas nossas escolas. Interpretado muito bem por Colin Welland, é o professor de língua inglesa. Quem compreende e ajuda o rapaz. Quem sabe que cada estudante é um mundo, que, em famosas palavras de Ortega e Gasset, cada pessoa é ela e as suas circunstâncias. Que na conduta dos rapazes, boa ou má, não existe geração espontânea. Sempre detrás da mesma estão causas variadas, e o contexto familiar e do lar sempre é a mais importante.

Um bom dia este mestre estupendo segue o rapaz, sem que se dê conta, e descobre com assombro o bem que adestra o seu falcão “Kes” nos campos abertos da cidade. Um dia este mestre tem o grande acerto de propor a Billy que explique a todos os colegas de turma como é a vida e como se adestra um falcão. O rapaz dá uma verdadeira lição magistral e deixa surpreendidos os companheiros. A estratégia didática da lição ocasional, tão bem utilizada por este mestre, é uma benção para todos. Os demais alunos começam a valorizar o rapaz do que antes se mofavam e desprezavam. O rapaz aumenta na sua autoestima e o mestre sente-se bem de ter atuado assim.

Quando eu pola primeira vez vi esta maravilhosa sequência, pensei de imediato no acertado daquele provérbio poético de Tagore que diz: “Só se pode ensinar bem o que se ama”. É fácil ensinar a alunos bons, nisso qualquer um pode ser mestre. O verdadeiro e autêntico mestre, o mestre digno, é aquele que sabe tratar e levar os alunos problemáticos, inadaptados e difíceis, quem os escuta com paciência, quem os compreende, quem os ajuda, quem os motiva, quem entende que cada criança é um mundo, resultado do seu ambiente, bom, mau ou regular.

Mestres assim foram João Bosco, especialmente, e também Flanagan, Américo, Tagore, Freinet, Geheeb, Manjón, os da ILE e os do Movimento de Cooperazione Educativa italiano, Lodi e Rodari. Mestres assim são os que necessitamos nas nossas aulas e nos nossos centros de ensino. Para fazer umas escolas a que todos, discípulos e docentes, vão com agrado. Embora, como é o caso do filme, não vá mudar o contexto familiar. Mas o que vai mudar, com certeza, é o indivíduo-aluno, tratado com carinho e como pessoa. Todos os alunos têm aspetos positivos e o mestre tem que ver estes e dar-lhes caminho e saída, fazendo-os aflorar.

 

 

Aspetos básicos a observar:

Analisar e comentar especialmente as três sequências mais importantes: quando o rapaz adestra o falcão nos campos abertos, quando conta na aula a sua experiência e o momento final.

Valorar a importância que didaticamente tem o uso da lição ocasional, aproveitando o meio e os interesses e motivações dos escolares.

Comentar o importante que é termos mestres com paciência, com vocação, que compreendem os alunos, que despertam neles curiosidade, que os tratam como pessoas e com carinho, que sabem ver neles os aspetos positivos que há em todas as crianças, por problemáticas que sejam.

Comentar a frase de Tagore: ”Só se pode ensinar bem aquilo que realmente se ama ou de que gostamos”.

Refletir sobre os erros metodológicos do sistema educativo britânico, ainda hoje vigentes.

Valorizar a importância que tem dar responsabilidades aos escolares, para fomentar a sua criatividade, desenvolver a sua autonomia e acrescentar a sua autoestima.

Entender que cada criança é um mundo, resultado da sua educação e do ambiente em que vive e respira.

 

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