José Paz Rodrigues (*) – Com a chegada da primavera, a estação do amor como acertadamente denominava Caro Baroja, inicia-se um muito rico ciclo de festas relacionadas com a vida e a natureza. Não é por acaso que em 21 de março, o mesmo dia que começa, se celebre desde há séculos em muitos países do mundo o dia e festa da árvore.
Nem que, já mais recentemente instaurada, no mesmo dia tenha lugar a festa da poesia. E que no dia seguinte, dia 22, se comemore a festa da água. Esse grande bem, igual que o ar, que muitas pessoas não chegam a valorizar o prezado que é para a vida de todos os seres vivos. A água, as árvores e a poesia estão intimamente unidas ao amor com maiúsculas. E a primavera é, por excelência, a estação do amor. E sem amor não existe vida. Vida e amor vão intimamente ligados. Por isso temos que aproveitar estas datas tão significativas para fomentar nas crianças e nos jovens o apreço pelas árvores, a poesia e a água. O amor pela Natureza e pela beleza das palavras enfiadas em poemas. E isto desde os âmbitos da escola familiar, desde as aulas escolares de todos os níveis do ensino e desde a escola paralela dos meios de comunicação.
As aprendizagens apreciativas, vinculadas aos sentimentos, à afetividade, ao amor, à alegria, à bondade e à beleza, são as mais valiosas de todas as aprendizagens. Porque são aquelas que permanecem ao longo de toda a vida nas pessoas. Não são efêmeras, são permanentes e, portanto, estão influindo em todas as nossas atuações vitais. Na nossa relação com a envolvente e na nossa relação com os semelhantes. Isto o tinham muito claro os grandes pedagogos que houve no mundo. Que nos deixaram os seus modelos educativos para a posteridade. Todos os pedagogos da Escola Nova europeia, nomeadamente Reddie, Geheeb, Demolins, Decroly, Ferrière, Freinet e Cousinet, organizavam com os seus estudantes nas suas escolas atividades artísticas e lúdicas ao redor da festa da árvore. Igual que faziam na ILE esses grandes pedagogos nossos como Giner e Cossío. E o grande Tagore na sua Santiniketon. Onde precisamente não se levam as árvores à aula, senão que se transferem as aulas para as celebrarem sob a sua sombra, a sua proteção e os cantos dos pássaros pousados nas suas folhas. Na minha biblioteca tenho formosas monografias sobre a festa escolar do dia da árvore em todas as escolas antes citadas. Das estratégias didáticas utilizadas e das atividades postas em prática: recitais, música e cantigas, teatro, desenho, modelagem, trabalhos manuais, jogos, textos criativos, murais coletivos, herbários, jogos dramáticos, etc. Girando tudo ao redor do tema. Que na atualidade teríamos que alargar aos temas da água e da poesia.
Muito mais importante que transmitir conhecimentos é fomentar nas pessoas atitudes positivas. De respeito pela Natureza e, portanto, por árvores e animais e pelas pessoas, que às vezes parece que esquecemos que são seres vivos. Atitudes de desfrute da beleza da Natureza, da paisagem, de flores e de frutos e da beleza da poesia. Fazendo que depois não destruam as árvores, com abates e fogo (que, por desgraça, são habituais na Nossa Terra). Não poluindo nem fontes, nem rios, nem o nosso mar. E desfrutar lendo os poemas de Machado, Rosalia, Curros, Drummod de Andrade, Ferreiro, Cecília Meireles, Tagore, Jiménez, Neruda, Pondal, Novoneira, Manuel Maria, Avilês de Taramancos e Pura e Dora Vázquez. Entre outros e outras.
Sem esquecer, como Castelão primorosamente escreveu no Sempre em Galiza, que a árvore é o dom mais nobre que Deus nos deu. Sem nos pedir nada, dá-nos a sombra, as flores e os frutos, a madeira, consome de noite o dióxido de carbono e na morte dá-nos as travessas do cadaleito. Não nos pode dar mais. Igual que a vaca e a água, na Índia as árvores também são sagradas. E nós temos três árvores extraordinárias: o carvalho, o castinheiro e a nogueira. E formosas carvalheiras e soutos como a de S. Justo e Pastor e a de Catasós, perto de Lalim.
Desta vez, para o meu comentário, escolhi um lindíssimo filme, muito premiado, uma verdadeira obra-mestra cinematográfica, sob o título de “A Árvore dos Tamancos”, realizado pelo diretor italiano Ermanno Olmi em 1978.
Ficha técnica do filme:
Título original: L´albero degli zoccoli (A Árvore dos Tamancos).
Diretor: Ermanno Olmi (França-Itália, 1978, 186 min., a cores).
Roteiro: Ermanno Olmi. Produtora: RAI e Instituto Luce.
Música: Fernando Germani (com peças de J. S. Bach). Fotografia: E. Olmi.
Atores: Luigi Ornaghi (Batistì), Francesca Moriggi (Batistina), Omar Brignoli (Minec), António Ferrari (Tuni), Teresa Brescianini (viúva Runk), Giuseppe Brignoli (Anselmo), Carlo Rota (Peppino), Pasqualina Brolis (Teresina), Massimo Fratus (Pierino), Francesca Villa (Annetta), Maria Grazia Caroli (Bettina), Battista Trevaini (o Finard) e Giuseppina Sangaletti (a mulher Finarda).
Prémios: Palma de Ouro ao melhor filme e Prémio especial do Júri Ecuménico no Festival de Cannes (1978); “Flaherty Documentary Award” no BAFTA 1980 do Reino Unido; Prémio César 1979 ao melhor filme estrangeiro; “David di Donatello 1979” na categoria de melhor filme e melhor filme em língua estrangeira da Academia Japonesa de Cinema (1980) e do NYFCC 1979 de Nova Iorque.
Argumento: A vida e as dificuldades das famílias que trabalham numa fazenda no norte da Itália, onde o dono lhe paga pela quantidade produzida. Uma dessas famílias tem um filho muito inteligente e resolve colocá-lo na escola em vez de o utilizarem no trabalho. Porém, as dificuldades são grandes, uma vez que o menino precisa caminhar várias milhas por dia para chegar à escola e a família mal tem condições de comprar roupas ou sapatos para o rapaz. O filme retrata as dificuldades vividas por cinco famílias de camponeses do norte da Itália, na Lombardia, no fim do século XIX. Quando um dos pais corta às escondidas um choupo para fazer um par de tamancos para o seu filho em idade escolar, ele é descoberto e imediatamente despedido. Todas as famílias de labregos moram num mesmo agrupamento de casas na área rural de Bérgamo. Entre as quais está a de Batisti, que tem um filho com razoáveis dotes intelectuais, e é convencido pelo Padre a colocar o filho na escola em vez de utilizá-lo na lavoura ou no trabalho da casa. Além disso, há vários agravantes como o facto de a escola ficar a 6 quilómetros de caminhada e a família do rapaz viver em situação muito precária com dificuldades até para comprar roupas para ele. Depois de transcorrido um razoável período de aulas os socos ou tamancos do rapaz (por sinal os únicos que possuía) ficaram deteriorados e impossíveis de serem utilizados. Batisti tenta dar um jeito na situação e, escondido, corta uma árvore da propriedade do senhor das terras e faz um novo solado para o soco ou tamanco do seu filho. Por este “roubo” Batisti e a sua família acabam por serem expulsos da propriedade. Este é o tema central do filme, que ademais dá nome ao mesmo.
Sem emprego por abater uma árvore do seu amo:
Concordo com o que opina o brasileiro Nede Silva em seu Blog. O filme “A Árvore dos Tamancos” é uma preciosidade. Esta fita segue os preceitos do neorrealismo e, realizado em 1979, deve ser uma das últimas obras filiadas a esta corrente. Em “A Árvore dos Tamancos” não existem atores profissionais. O filme foi feito exclusivamente com camponeses do norte da Itália. A época, ao início do século XX. Com precisão e delicadeza vai sendo-nos apresentada aos poucos a vida dos camponeses naqueles tempos difíceis. O sistema de produção era muito simples: um dono de terras e de tudo o que estivesse sobre elas, construções, animais, árvores e o grupo de labregos que faziam todo o trabalho agrícola. A repartição dos ganhos, dois terços de tudo o que fosse produzido ia para o dono das terras o resto para os camponeses. Feudalismo puro.
No filme são quatro famílias que moram no mesmo agrupamento de casas e cujo dia a dia é apresentado detalhadamente. Como convém à agricultura, o período abordado é de um ano completo, onde vamos vendo as estações sucedendo-se e as atividades agrícolas correspondentes a cada uma. Apesar de as histórias paralelas serem vigorosas, o ponto central é um rapaz que amostra alguns pendores intelectuais, e o Padre da vila convence o pai do rapaz a liberar a mão-de-obra necessária, para que ele vá estudar. E nada é simples. A escola fica a seis quilómetros de distância. E ida e volta a pé. Um ano de estrada destrói o único calçado do menino, um soco ou tamanco, e o pai, sensibilizado, procura pôr uma solução. Parece fácil mas a miséria em que vivem não torna nada fácil. A madeira é rara e um novo tamanco não está ao alcance da família. O pai produz a sua solução que dá o nome ao filme e que acaba provocando a parte mais dramática do mesmo. O filme, nas suas três horas, que não são longas, tem um conjunto de cenas brilhantes.
A igreja está sempre presente. O catolicismo é forte naquele grupo de labregos. E é necessário. É isto que segura aquela situação de exploração e dependência. As famílias unidas debulhando milho e cantando canções italianas mostram que a felicidade pode ser encontrada nas situações mais difíceis. Numa das famílias, o avô procura produzir tomates fora de época para poder obter um preço melhor. E o faz escondido de todo mundo. Instintivamente, baseado apenas na sua observação, ele encontra soluções agronómicas corretas. Os diálogos do avô com sua neta, sua cúmplice neste trabalho, explicando o que está fazendo e porque o tomate vai produzir mais cedo, são maravilhosos. A viagem de lua-de-mel de dous moços camponeses a Milão mostra muito rapidamente os conflitos que estão ocorrendo nos centros urbanos. Não existe nenhum discurso político no filme. O casal só evita os policiais e não é influenciado pelo que está ocorrendo. O filme foi apresentado pela crítica como politicamente de esquerda, com uma visão comunista. Mas isto está pouco claro. É um belo filme que mostra com realismo e com imagens belíssimas a vida dura dos camponeses e a injustiça que permeia todo o filme. De visão recomendável, este é um formoso filme que não se pode deixar de ver.
Estamos perante um filme esplêndido, cheio de simpatia pela humanidade, como só o cinema italiano poderia produzir. É um delicadíssimo trabalho de ourivesaria. A sensação que se tem é de que o diretor e roteirista Ermanno Olmi trabalhou muito, com todo o cuidado do mundo, para atingir uma perfeição que dá a aparência de simplicidade, de que foi tudo quase espontâneo. O filme parece quase um documentário. E ele dá a impressão de que poderia perfeitamente ter sido feito no auge do neorrealismo, após a Segunda Guerra, quando, com o país empobrecido, quase destruído, um bando de jovens diretores, roteiristas e técnicos soube usar a própria falta de recursos para fazer filmes que retratavam a vida das pessoas do povo, nas ruas, em cenários reais, sem estúdio, sem muita iluminação artificial, sem muita maquilhagem, em geral usando atores não profissionais.
O movimento iria influenciar quase tudo o que se fez depois no cinema, a nouvelle vague francesa, o novo cinema inglês do início dos anos 60, o cinema novo brasileiro, o cinema independente americano e, meio século depois, nos anos 90, o novo cinema iraniano. Ermanno Olmi fez um filme quase neorrealista, a única diferença é que é a cores. Como nos filmes a preto e branco do pós-guerra, aqui os atores não são profissionais. São gente do campo ou de pequenos vilarejos, gente que trabalha na terra, ou com as mãos, como se fossem autênticos descendentes dos descendentes das personagens mostradas no filme. “Alguns dos grandes eventos das vidas das personagens”, diz o livro Off-Hollywood Movies, com muita propriedade, “são a vaca da viúva ficando doente, um fazendeiro compreendendo que o cocô das galinhas é melhor do que esterco de gado para os seus tomates, e um pai cortando um choupo para fazer tamancos para que o filho possa ir à escola. O que os une é seu trabalho duro, os valores familiares e Deus.”
Apresentado no Festival de Cannes de 1978, esta maravilha levou a Palma de Ouro e o Prémio Ecuménico do Júri. Além desses, ganhou ainda 12 prémios, vários deles importantes, como o César francês e o David di Donatello italiano. Ganhou até – sensacional – o Bafta de documentário!
Temas para refletir e realizar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada por Ermanno Olmi, os planos, os movimentos de câmara, os “travellings”, o uso do tempo e do espaço e outros recursos fílmicos que aparecem nesta interessante obra cinematográfica, uma obra-mestra da cinematografia italiana, na qual ademais, de forma magistral, destaca a primorosa fotografia e o lindo trabalho de atuação de atores não profissionais, dirigidos primorosamente pelo roteirista Olmi. Também sobre as interpretações dos diferentes protagonistas, femininos e masculinos, as cenas mais conseguidas e o uso dos recursos fílmicos em cada momento.
Consultando a oportuna bibliografia e a internet, por grupos de estudantes e a ajuda dos seus professores, elaborar monografias seguindo a técnica didática de Freinet da “Biblioteca do Trabalho”. Escolher para as mesmas dentre os temas seguintes: a festa da árvore na escola de Odenwald de Paul Geheeb, na ILE de Giner e Cossío e na Santiniketon de Tagore; as árvores de Galiza; as carvalheiras; os soutos; o castinheiro; o carvalho; a nogueira; as árvores fruteiras; a gravidade dos incêndios florestais no verão e as suas causas e consequências; os parques naturais e o abate indiscriminado de árvores. Os trabalhos elaborados poderão ser editados e/ou policopiados e, posteriormente, expostos nos diversos estabelecimentos de ensino.
Elaborar um plano de atividades para celebrar na escola o “Dia da Árvore”, ao redor do dia 21 de março. O mesmo deverá contemplar atividades artísticas, literárias e lúdicas e uma plantação de uma árvore no jardim da escola ou no campo próximo. Entre as atividades estariam as seguintes: textos e desenhos livres ao redor das árvores, elaboração de postais, autocolantes, cartazes e murais, redação de relatos, poemas e contos sobre o tema, cantigas populares (aprendizagem e canto), importância das árvores para a vida das pessoas, organização de jogos tradicionais em que a árvore é um elemento fundamental no jogo, cuidado de árvores e plantas, recitais poéticos, certames literários e artísticos, filatelia alusiva, fotografias, exposições de livros e revistas. No plano deve ter grande importância a participação dos estudantes e o desenvolvimento da sua criatividade artística (música, canto, pintura, poesia, teatro, etc.). Relacionamento da festa da árvore com as outras festas populares do Natal e dos Maios.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



