José Paz Rodrigues (*) – “Desde que me reformei vou todos os anos à minha terra para ver a festa dos Maios, pela que sempre tive grande agarimo. Chego a Ourense no dia 28 ou 29 de abril, no dia 30 vou dormir a Ponte Vedra, para no dia 1º ver os maios ali, em Marim e mais em Redondela”. No ano 1969 escrevia isto o ourensano José Ramom e Fernández-Ojea (Bem-Cho-Shei). No dia 3 de maio, durante muitos anos, este galego de alma e coração, nunca faltava à convocatória dos maios ourensanos.
Jamais lhe pagaremos o legado que nos deixou, a sua excelente biblioteca e infinidade de fotos e coplas desta formosa festa de amor à vida, à natureza e ao amor. Festa que permanece, apesar de viver na época dos videojogos e telemóveis de última geração. Isto só se explica por ser a festa mais antiga, nascida já nos momentos finais do Paleolítico, e, em concreto, no “magdaleniano”. Tendo grande esplendor nas culturas médio-orientais e nas greco-latinas. Em Roma, por exemplo, durava todo o mês de maio, período em que se organizavam todas as festividades de honra a deuses e deusas relacionadas com a natureza, o mundo vegetal, animal e humano. A segunda razão é que é a festa do amor, e sem amor não há vida. A cidade de Ourense (“Auriensis”), que como todos sabem tem origem romana, foi um lugar onde a festa teve sempre maior enraizamento. Por isso tampouco deve admirar que sejam de Ourense os maiores investigadores desta festa. E acima de todos eles Bem-Cho-Shei. Com quem concordo plenamente. Especialmente quando assinala que esta era a festa na honra das deusas do amor. Vénus em Roma, Afrodite na Grécia, Astarte no Egipto, Istar em Assíria e Milita na antiga Babilónia, que vem a coincidir quase com o território atual do Iraque. Bem-Cho-Shei dizia ademais, e também em isso concordo, que a palavra “Maia” quer dizer em sânscrito “ilusão”. E esse é o verdadeiro significado dos maios que se celebram na primavera em muitos lugares do planeta. “É a festa da ilusão e da alegria, da primavera e da juventude, da tradição renovadora, da esperança e do relembro, das flores e das crianças, da prosa e da poesia e, especialmente, da vida e do amor, tão profundamente ligados”, continuava a dizer o nosso galego exemplar.
Houve uma época em que, com grande acerto, a Câmara Municipal de Ourense cuidava a organização do ciclo anual das festas populares, fomentando a participação entre os escolares dos estabelecimentos de ensino da cidade. Para o qual enviava às escolas investigadores sobre as mesmas, que pronunciavam palestras sobre elas. Eu ia entusiasmado falar-lhes da que mais gosto, a dos maios. Que temos que recuperar na cidade, voltando-a para o três de maio, como sempre foi. Todos os rapazes ficavam surpreendidos quando lhe comentava que a festa do Natal não era a mais antiga, como equivocadamente pensavam, mas a dos maios, surgida aos finais do Paleolítico. O ciclo básico das festas tem como celebrações fundamentais, e em muitos casos com um ciclo próprio das mesmas, os Magustos, o Natal, o Entrudo, os Maios, o Corpo de Deus, as Fogueiras ou Cacharelas do S. João e depois no verão as festas de cada localidade. Por estarmos imersos na cultura cristã, em muitas das nossas festas, como é natural, há um senso profundo relacionado com o cristianismo e as suas figuras. Cada uma destas festas tão formosas e tão importantes, deveriam incluir-se no currículo do ensino infantil, primário e secundário. Desenhando unidades didáticas globalizadas e interdisciplinares, por meio das quais se podem trabalhar todas as áreas e disciplinas do ensino: língua, matemática, história, ciências, geografia, ecologia, teatro, jogos, música, plástica, educação física, idiomas e educação artística. O meu livro A festa dos maios na escola, roteiro didático editado pela ASPGP em 1998, apresenta, por exemplo, um plano de atividades a desenvolver nas aulas e em todas as matérias sobre essa formosa festa que é a dos Maios. Festa do amor e da vida, festa ecológica por antonomásia. Festa popular com grande interesse pedagógico, pelo que é muito importante a realização de atividades culturais, didáticas e educativas, de maneira coordenada, nos nossos estabelecimentos de ensino, arredor dela. Que, para que sobreviva, tem que promover-se entre os mais novos. As crianças e jovens são o nosso futuro e o da nossa cultura própria. Para apoiar o que venho de comentar, escolhi o formoso documentário realizado na comarca do Berço, e, em concreto, na localidade de Vila Franca, onde ainda, por sorte, se celebram e se conservam os maios humanos, que são os mais antigos e mais autênticos.
Ficha técnica do filme:
Título: A festa do maio de Vila Franca (Documentário).
DVD editado pela Escola de Gaitas de Vila Franca do Berço (2008, colorido).
Subsídios: Junta da Galiza (Conselharia da Cultura e Secretaria Geral de Política Linguística) e Consejo Comarcal del Bierzo.
Conteúdos: Os maios moços de Vila Franca do Berço. Alalá dos maios de Vila Franca do Berço. Entrevista a José Bardasco “Chinda”. Ronda primaveral lúdico-festiva. O maio no XXV aniversário da Escola de Gaitas.
Documentos extras: Este maio, senhora é… (galeria de fotos). Viches o maio? (fotos de autor). Cartazes e outros. Créditos e agradecimentos.
Festa dos Maios em Vila Franca
Uma unidade didática globalizada sobre a Festa dos Maios:
A festa popular dos Maios, do mesmo modo que qualquer outra das festas populares do ciclo anual, pode e deve ser utilizada nas aulas dos diferentes níveis, para organizar arredor do seu tema central atividades didático-educativas, nas diferentes áreas do ensino. Seguindo o método de ensino globalizado, iniciado no seu dia por Decroly com os seus Centros de interesse, que chegaram a ser famosos. Resenho a seguir, de maneira esquemática, os aspetos e partes que deveriam ter-se em conta numa unidade didática globalizada sobre os Maios. Para depois levá-los à prática nas aulas educativas.
– Metas a atingir:
Valorizar a cultura própria como fundamento da personalidade individual e da coletiva do nosso povo.
Compreender a necessidade de promover e restaurar o folclore em qualquer manifestação.
Reforçar os vínculos culturais da comunidade e aprofundar na procura das nossas raízes históricas.
Reconhecer o património cultural nas celebrações que se organizam ainda em certas aldeias e localidades.
Relacionar a cultura própria com outras da Península e outros continentes.
Procurar elementos comuns entre as diferentes festas folclóricas do mundo.
Analisar a história, geografia, ecologia e significado da festa dos Maios.
Construir maios de diferentes tipos: humanos, artísticos ou figurativos e enxebres.
Redigir coplas de maios e cantá-las.
– Atividades Didáticas por áreas:
– Língua, idiomas e literatura:
Recolha de documentação oral sobre a festa: coplas, refrães, ditos, contos.
Recopilação de materiais: bibliografia, discos, artigos, imprensa e revistas.
Elaboração em grupos de uma monografia sobre os maios, com todo o material recolhido.
Exposição oral sobre os maios, com debate-papo.
Invenção de coplas de maios e de poesias referidas aos mesmos.
Correspondência com alunos de outros estabelecimentos docentes, explicando como se organiza a festa por comarcas.
Elaboração de um vocabulário em diferentes idiomas e de um cancioneiro próprio dos maios.
Análise dos conteúdos de coplas dos maios de outros anos e edições, e também de textos literários sobre a festa, antigos e modernos. Por exemplo “O Maio” de Curros Enríquez.
Fazer redações, textos livres, lendas e contos sobre a festa. Idem leituras de textos e artigos, escritos pelos investigadores da festa.
– Matemática:
Cálculo do cumprimento dos materiais empregados nos maios e na construção dos mesmos.
Cálculo sobre o orçamento de receitas e despesas para organizar a festa no estabelecimento educativo.
Análise, estudo e realização de problemas geométricos sobre a área e o volume do cone e da pirâmide, que são as formas típicas dos maios enxebres tradicionais.
Fazer conjuntos com os elementos típicos que se usam nos maios: bugalhos, castanhas, ovos, flores, laranjas, musgo, erva.
– Áreas Artísticas (plástica, música, teatro):
Recolha de todos os elementos naturais que se empregam na festa dos maios e decorá-los (fiuncho, musgo, bugalhos, laranjas, gestas, urzes, flores silvestres…).
Construção de diferentes tipos de maios: figurativos ou artísticos, enxebres e humanos.
Confeição de cartazes e autocolantes anunciando os maios.
Fazer fotografias e diapositivos dos diferentes maios na festa popular celebrada na localidade.
Realizar e gravar em vídeo a festa da localidade, os diferentes tipos de maios, a gente olhando os maios, os rapazes vendendo e cantando as coplas, o júri, etc.
Fazer uma exposição de fotografias sobre a festa dos maios de Ourense, Ponte Vedra, Verim, Laça, Redondela, Vila Garcia, Cela Nova, o Barco, Poio, Marim e localidades do norte de Portugal.
Recitação e dramatização dos cantares e coplas.
Cantar as coplas que se elaborem na aula e na escola.
Saída à rua com o maio para o concurso municipal.
Audição de canções alusivas aos maios e das gravações feitas (por ex. “O Maio” de Curro, por Emílio Batalhám, e as Cantigas do Maio de José Afonso).
Análise dos diversos sons e músicas dos cantares do maio, segundo as zonas.
Canto das coplas realizadas pelas próprias crianças.
Participação em jogos populares peculiares da época: os bugalhos, o pião, a bilharda, a macaca, etc.
– Estudo do meio (área social e natural):
Estabelecimento de relações entre o ritual dos maios e o seu significado com a classe de sociedade que celebra estas festas (sedentárias, agrárias, rural, com raízes pagãs, elementos supersticiosos e folclóricos profundos).
Análise das festas similares das culturas antigas orientais e greco-latinas e das da Idade Média.
Estudo comparativo com as outras festas populares do ciclo anual, segundo a origem e significado de cada uma delas.
Análise da incorporação dos diferentes elementos de construção dos maios através da história.
Relacionar a festa dos maios com a ecologia e o respeito pelo meio circundante e pelo ambiente.
Análise biológico dos diferentes elementos naturais que se utilizam na festa.
Estudo da etnografia galaico-portuguesa sobre a festa dos maios, tendo em conta as pesquisas de Bouça Brei, Risco, Taboada Chivite, Ben-Cho-Shei, Clódio González Pérez, J. A. Tarrio, José Paz, Veiga de Oliveira, António Lourenço Fontes e José Leite de Vasconcelos. Com todo o material recolhido elaborar uma monografia sobre os maios.
Estudo da mudança que experimenta a natureza na primavera, assim como os labores agrários próprios da época.
Elaboração de um trabalho sobre a origem e a história dos maios ao longo do tempo, e a sua vinculação às deusas do amor das diferentes culturas antigas.
Desenho de um mapa sobre a geografia da festa, destacando os lugares da Galiza, do Berço e Portugal onde se celebra esta festa popular.
– Ética e educação cívica:
Analisar a importância que tem o respeito pela natureza, a ecologia e o nosso meio natural e social.
Idem o trabalho em grupo e comunitário, gerador de amizade entre as pessoas, pois os maios sempre é uma festa participativa do grupo. Elaborar um maio é um labor de equipa e da comunidade.
Relacionar a festa com as diferentes culturas do mundo, com as suas religiões, a começar pela primitiva da pré-história.
Elaborar um pequeno trabalho sobre a cristianização da festa: a cruz e os cruzeiros galaico-portugueses.
Festa dos Maios em Ourense
Fazer para aprender: como construir um maio:
Construir um maio é um labor de equipa de uns seis ou oito membros. Por isso é ideal juntar-se um grupo de companheiros de estudos de uma escola ou associação cultural ou vicinal para elaborar um maio e as suas coplas, para apresentá-lo ao concurso municipal. Também é ideal que cada turma de um estabelecimento de ensino, mesmo de educação infantil, construa o seu próprio maio e componha as suas próprias coplas.
Para construir um maio enxebre ou tradicional (de forma cónica em Ponte Vedra e piramidal em Ourense) é necessário primeiro conseguir quatro paus, a poder ser de salgueiro, bem secos, com os que se constrói o esqueleto ou armação. Os paus colocam-se fazendo uma forma cónica ou piramidal, juntando-os no cimo e abrindo-os na base, onde a pouco mais de uma quarta do chão leva dous paus mais curtos atravessados, e outros dous mais compridos que vão servir para levar o maio numa espécie de angarela ou andas. Não se devem utilizar pregos, pois deve atar-se o maio com vimes ou outros elementos naturais. O entabuado pode fazer-se com canas ou com barrotes de madeira, sobre o que se vai cosendo o fiuncho (em Ponte Vedra) ou o musgo e as giestas e urzes (em Ourense). Para que o cosido fique melhor costuma-se colocar sobre o entabuado tela de saco.
Quando o maio está coberto é necessário adorná-lo com flores, bugalhos enfiados num cordel, castanhas, calas, flores de carqueijas e de urzes, laranjas, ovos vazios, colocando no cume uma coroa. As laranjas têm que ir enfiadas num cordel, igual que os bugalhos dos carvalhos, colares de margaridas brancas e amarelas, réstias de ovos que serão esvaziadas fazendo-lhes um pequeno furo em cada extremo e soprando por um deles, calas e uma bandeira galega no cume (em Ponte Vedra). Costuma-se também adornar o maio com rosas, cartuchos, camélias, varinhas de S. José, mas nunca com cravos.
O maio já está preparado para ser transportado pelas ruas com o fim de ser exposto diante do povo.
Mais não existe o maio sem as suas coplas. Coplas que devem ser compostas cuidando o melhor possível a métrica e tratando diversos temas locais, satíricos, políticos e humorísticos. Coplas a que é necessário pôr música. Umas orientações de poetas e músicos locais nunca estão de mais.
Sobre os maios humanos convém dizer que no adorno das pessoas participantes (crianças e moços), devem utilizar-se elementos totalmente naturais e coroas de flores e bugalhos totalmente silvestres, ademais de ramos de urzes, giestas e fiuncho.
Festa dos Maios em Ponte Vedra
A Voz do Poeta: “O Maio”, por Manuel Curros Henriques (1851-1908):
Aqui vem o maio
de flores coberto…
puseram-se à porta
cantando-me os nenos:
e os “puchos” furados
pra mim estendendo,
pediram-me crocas
dos meus castanheiros.
Passai, rapazinhos,
calados e quedos,
que o que é pelo de hoje
que dar-vos não tenho.
Eu sou-vos o pobre
do povo galego:
para mim não há maio,
para mim sempre é inverno…
Quando eu me atopare
de donos liberto
e o pão não me quitem
trabucos e préstimos,
e como os do abade
floresçam meus eidos,
chegado haverá então
o maio que eu quero.
Queredes castanhas
dos meus castanheiros?…
Cantade-me um maio
sem bruxas nem demos;
um maio sem segas,
usuras nem pleitos…
sem quintas nem portas,
nem foros nem cregos.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.




