José Paz Rodrigues (*) – Tradicionalmente vinham-se organizando nos estabelecimentos de ensino, e em especial nas escolas infantis e primárias, nos dias prévios às férias do Natal, festivais artísticos, lúdicos e culturais ao redor das festas do Natal. Tradição que infelizmente se foi perdendo bastante. É muito provável que a razão esteja em que em ocidente estas festas foram deixando o seu verdadeiro senso, para serem excessivamente comerciais e de grande supermercado, com um consumo exagerado a todos os níveis.
Na minha infância todas as crianças e rapazes desfrutávamos muito durante estas festas, com a Noite Boa, a celebração do nascimento do Neno Jesus, a noite velha, os Santos Inocentes, o primeiro de ano, a Noite de Reis com os brinquedos depositados nos sapatos à porta das nossas casas por nossos pais, mas que nós pensávamos que foram os Reis Magos Melchior, Gaspar e Baltazar que, vindos nos seus camelos do Oriente, os tinham depositado pela noite enquanto nós dormíamos sonhando com grande expetativa. Mesmo lembro de ir cantar os reis com vilancicos galegos pelas aldeias próximas à minha, de porta em porta, nos lugares de Arneiros, Barreiros, o Reino, Carvalheda, Outeiro, Torcela, Sobrado, Cales, Grovas, Além, Bidoeiros, o Castro, a Devesa, Maranhis, as Fontes… Todas as pessoas sempre nos davam alguma cousa, depois de cantarmos os vilancicos, uma moeda ou uma maçaroca. A Festa do Natal, com todo o seu ciclo, fomentador do amor entre as pessoas, da solidariedade e ajuda para os mais necessitados, do amor pelas crianças, da fraternidade familiar e humana, foi sempre na cultura galega e portuguesa uma tradição com valores muito profundos, de bondade, verdade e beleza.
Desde 2001 levo vivendo em direto na Santiniketon de Tagore onze festas do Natal. Agora que na Galiza e no Estado Espanhol esta festa perdeu infelizmente muito do seu sentido, e mais parece um supermercado ou uns grandes armazéns. Que já começam a publicitar-se em novembro. Aqui, na “Morada da Paz” é emocionante participar na sua especial festa do Natal. Tagore admirava Jesus, e já desde os primeiros anos do século vinte, a pouco de criar a sua escola nova, de 23 a 26 de dezembro, os dias estão dedicados integralmente a homenagear o Cristianismo, o evangelho e o nascimento de Cristo. No formoso mondir ou templo deste maravilhoso complexo educativo, o dia 25 é um dia especial. Pela tarde tem lugar um ato de mais de três horas, em que além de discursos sobre o pensamento cristão, a paz, a irmandade entre todos, o respeito e os ideais de fraternidade, amor e não-violência, que predicam os textos dos evangelistas na Bíblia, o grupo músico-vocal da Faculdade tagoreana de Música, Teatro e Dança, chamada Songuit-Bhavon, interpreta um bom número de cantos alusivos a esta festa. É surpreendente escutar infinidade de vilancicos ou panjolinhas em inglês e em Bangla. Entre eles Noite de Paz e “Merry Christmas”.
Emociono-me também quando cantam em latim “Adeste fideles”. Quanto gostaria de poder influir para que algum ano este grupo ensaiasse e depois cantasse um vilancico em galego-português! De momento acompanho para mim o canto em galego de Noite de Paz, que já há bem anos nos ensinou na Escola Normal de Ourense o professor Gerardo Salgado Valdés, nas suas estupendas aulas de música. Os discursos são em Bangla e algumas orações são pronunciadas em sânscrito. Quando Tagore não estava de viagem, presidia este ato e pronunciava ele em Bangla os discursos dedicados a Jesus. Existe um formoso livro sob o título de Cristo, que recolhe os discursos pronunciados por ele no dia de Natal no mondir de Santiniketon. Este livro foi traduzido do Bangla pelo grande tagoreano Marino Rigón para o seu idioma italiano. Depois fora traduzido ao nosso idioma internacional e publicado no Brasil, com edição também em castelhano. Aqui, na “Morada da Paz” é emocionante participar na sua especial festa do Natal. O seu cenário é o mondir antes citado situado no coração de Santiniketon.
Este templo ilumina-se para os atos com luzes de cores e com velas todo ao redor, destacando os seus vidros de múltiplas e variadas cores, que no seu momento o governo belga ofereceu a Tagore. O ato, em que participam milhares de pessoas, entre as que há sempre freiras com o seu hábito azul e branco da Madre Teresa, termina com um percurso até o coração da Morada da Paz, onde no seu dia Debendronath e Robindronath, pai e filho, se sentavam durante tempo para meditar. Este lugar denomina-se “Chatim-Tola”, porque está debaixo de uma árvore mais que centenária que leva este nome. Todos imos cantando até este lugar sagrado cantigas de Tagore e, em concreto, a que se intitula “Aguner Poroshmoni”. Ao final emociono-me, porque me lembro de meus pais João e Rosa, já desaparecidos fisicamente, mas não espiritualmente. Durante estas datas está aberta uma imensa feira dedicada ao artesanato de Bengala e estados próximos, com músicas, danças e jogos tradicionais. Denominada “Poux-Mela”, é visitada por milhares e milhares de pessoas, vindas de toda a Bengala e mesmo do Bangladesh, e especialmente da grande cidade de Kolkata. Eis uma formosa forma a minha de celebrar a festa do Natal, longe, mas lembrando-me sempre da minha Galiza.
Para o meu comentário escolhi desta vez o famoso filme realizado para a televisão por Franco Zeffirelli em 1977. Pela sua duração teve que ser projetado em vários episódios. Como é natural, no presente caso, os que nos interessam são os primeiros referidos ao nascimento e primeiros anos da infância de Jesus de Nazaré. No Brasil, em 1980, por Ricardo Bandeira, foi realizado para o público infantil, sob o título de O Menino Arco-Íris, outro filme que conta a história do Menino Jesus. Este é representado por seis meninos de raças diferentes.
Ficha técnica do filme:
Título original: Jesus of Nazareth e Gesù di Nazareth (Jesus de Nazaré).
Diretor: Franco Zeffirelli (Reino Unido-Itália, 1977, 371 min., a cores).
Roteiro: Suso Cecchi d´Amico, Anthony Burgess e Franco Zeffirelli.
Música: Maurice Jarre. Fotografia: Armando Nannuzzi e David Watkin.
Atores: Robert Powell (Jesus), Olívia Hussey (Maria), Yorgo Voyagis (José), Lorenzo Monet (Jesus, de onze anos), Marina Berti (Isabel), Regina Bianchi (Ana), Maria Carta (Marta), Anne Bancroft (Maria Madalena), Isabel Mestres (Salomé), Ernest Borgnine (Centurião), Claudia Cardinale (Mulher Adúltera), Valentina Cortese (Herodias), James Farentino (Simão Pedro), James Earl Jones (Baltazar), Stacy Keach (Barrabás), Tony Lo Bianco (Quintílios), James Mason (José de Arimateia), Ian McShane (Judas Iscariote), Laurence Olivier (Nicodemos), Donald Pleasence (Melchior), Fernando Rey (Gaspar), Tony Vogel (André, o apóstolo), Christopher Plummer (Herodes Antipas), Anthony Quinn (Caifás), Michael York (João Batista), Oliver Tobias (Joel), John Duttine (João, o apóstolo), Rod Steiger (Pôncio Pilatos), Peter Ustinov (Herodes, o rei) e outros muitos.
Argumento: O realizador italiano Franco Zeffirelli apresenta a sua premiada versão da vida de Jesus, aclamada pela crítica pela sua grandiosidade e pela sua correção histórica e religiosa. Este poderoso épico conta com a interpretação de estrelas como Robert Powell e a participação de Anne Bancroft, Claudia Cardinale e James Farentino entre outros. O comovente retrato da vida e a morte de Jesus de Nazaré é aqui apresentado desde o seu nascimento, passando pelas suas peregrinações ainda enquanto criança e o seu batismo por João Batista. Relatando inúmeros milagres durante o seu percurso, o filme culmina com a crucificação e ressurreição, num dos mais fiéis e impressionantes relatos da vida de Jesus de Nazaré. O roteiro do filme é do tipo “Diatessaron”, ou harmonia dos Evangelhos, misturando os relatos dos quatro evangelhos do Novo Testamento. Procurou-se uma focagem bastante naturalista, restando importância aos efeitos especiais quando os milagres se representam, apresentando Jesus como mais ou menos completamente humano.
Os diferentes episódios do filme vão aparecendo de forma cronológica: os esponsais e logo a seguir a boda de Maria e José, a Anunciação, a Visitação, a circuncisão de João o Batista, o Nascimento de Jesus, a sua circuncisão, o censo de Quirino, a viagem e fugida ao Egito, o massacre dos inocentes, o encontro no Templo, o Batismo de Jesus, a mulher surpreendida no adultério, Jesus ajudando Pedro a pescar o peixe, a parábola do filho pródigo, um diálogo não bíblico entre Jesus e Barrabás, o jantar de Mateus, o sermão da montanha, a reunião com José de Arimateia, a cura do cego na piscina, a ressurreição de Lázaro, a alimentação dos cinco mil, a entrada em Jerusalém, Jesus com os cambistas, a Última Ceia, a traição de Judas, Pedro negando três vezes a Jesus e logo arrependendo-se, a sentença de Jesus por Pilatos e, a seguir, todos os episódios da Paixão e falecimento de Jesus.
Jesus aparece representado com o vestido próprio da Judeia daquela altura e não de branco. Todos os credos cristãos aceitaram este filme como autêntico e respeitoso com a história bíblica.
Os ensinamentos de Jesus:
Jesus passou a sua existência ensinando. Aproveitava todos os momentos para dar um ensinamento às pessoas que o rodeavam, ensinamento hoje tão válido como no tempo em que foi ministrado. Jesus gostava sempre de estar no meio de crianças. Algumas pessoas tentaram impedir que as crianças o abordassem. Jesus percebendo o facto, permitiu que elas se aproximassem, dizendo: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus” (Marcos 10:13,14 Mateus 19:13,15 ).
Jesus quis ensinar com essas palavras, entre outras cousas, que as crianças podem aproximar-se dele porque tem muitos ensinamentos a transmitir a elas. Entre as lições que Jesus tem para as crianças e para todos nós, destacamos o seguinte: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes mandamentos dependem toda a lei e os profetas”. (Mateus. 22:37 a 40 ). Com essa extraordinária lição, Jesus ressaltou a necessidade de amarmos a Deus com todo coração e ao próximo como amamos a nós próprios.
Fica entendido que devemos sempre fazer o bem ao nosso próximo pois que todos desejamos para nós mesmos o bem. Se gostamos que nos tratem com bondade, do mesmo modo devemos tratar os nossos semelhantes. Só se demostra a alguém tratando bem esse alguém. Portanto, poderíamos resumir todos os belos ensinamentos de Jesus no amor a Deus e ao próximo. De acordo com esses ensinamentos, todas as crianças devem tratar-se com carinho, com respeito, com amor. As crianças que conhecem os ensinamentos de Jesus jamais brigam, jamais negam um favor a outras crianças para as quais só têm palavras de brandura e de amizade. O amor do qual Jesus falou faz todas as criaturas irmãs e verdadeiramente amigas.
Plano de atividades educativas ao redor da festa popular do Natal:
Para recuperar esta festa popular do Natal, tão vinculada à nossa cultura galaico-portuguesa, estaria muito bem organizar em todos os estabelecimentos de ensino um plano de atividades educativas, lúdico-artísticas, durante a semana prévia às férias do Natal. Um possível projeto poderia ser o seguinte:
1.- Realizar um obradoiro ou oficina pedagógica de Natais Populares. Poderiam empregar-se diversos materiais, como barro, cartão, telas, madeira, etc. Os trabalhos seriam expostos, uma vez terminados.
2.- Montar o presépio tradicional na entrada de cada estabelecimento de ensino, utilizando diversos materiais para os bonecos que representassem o Menino Jesus, José, Maria, a vaca, o portal, os pastores, os Reis Magos, etc.
3.- Seria muito lindo que o presépio tradicional fosse humano, representando as figuras e personagens do portal, distintos estudantes da escola. Uns fariam de Jesus, José e Maria, outros de pastores e outros de Reis. Mesmo outros cantariam perante o presépio diferentes vilancicos ou panjolinhas.
4.- Organizar um Certame de poemas, contos, lendas e desenhos ao redor da festa do Natal, com participação aberta para toda a comunidade educativa.
5.- Aprendizagem de vilancicos por parte dos estudantes, com acompanhamento instrumental, para ser depois interpretados na sala de atos do estabelecimento de ensino, em grupos e também de forma individual.
6.- Organizar uma audição musical, com música clássica relacionada com esta festa. Por exemplo, peças de Bach, Haendel, Mozart, Vivaldi, etc. Também de diferentes vilancicos.
7.- Sessões de cinema-fórum, com projeções de documentários, desenhos animados e os episódios do filme que comentamos, relacionados com o nascimento de Jesus e os primeiros anos de sua infância. Com um debate-papo posterior sobre o que se tinha visto nos mesmos.
8.- Realização de um grande mural para colocar na escola sobre o Natal. O mencionado mural contaria com o contributo de todos os estudantes, uns com textos, outros com frases, desenhos, fotos, etc.
9.- Realização de diversas dramatizações e jogos dramáticos, tomando como base os elementos próprios do Natal. Mesmo se poderia fazer teatro lido, recitais poéticos e leituras públicas.
10.- Elaboração por grupos de alunos de um trabalho monográfico, com textos, redações, poemas e ilustrações, sobre a festa popular do Natal, incidindo especialmente no seu senso e temática dentro do ciclo anual das festas populares da Galiza e também de Portugal. Poderiam consultar-se os livros que sobre esta festa existem de Risco, Bouça-Brei, Taboada Chivite e dos portugueses Leite de Vasconcelos, Pires de Lima e Veiga de Oliveira. Também se poderia fazer uso da Internet. Os trabalhos elaborados seriam depois expostos na escola. Para a sua elaboração poderia seguir-se o modelo das monografias da Biblioteca do Trabalho de Celestin Freinet. Mesmo estes trabalhos de pesquisa e redação poderiam publicar-se em forma de jornal ou revista.
11.- Ali onde se pudesse levar a cabo, seria bonito que por grupos, os estudantes fossem de porta em porta cantar os reis. Isto requereria que os rapazes aprendessem a cantar uma meia dúzia de vilancicos ou panjolinhas. Tal atividade seria muito mais fácil poder realizá-la em áreas rurais, em aldeias e pequenas vilas.
12.- Nas localidades onde se pudesse fazer, seria muito lindo organizar roteiros para visitar os presépios populares expostos em diferentes lugares e templos. Diante dos mesmos se cantariam diversos vilancicos. Um exemplo temo-lo na cidade de Ourense, onde existe um certame anual de presépio populares e mesmo, por sorte, temos o formosíssimo Presépio do artista Baltar na parte velha da cidade, dentro de uma antiga e pequena capela. Esta obra é de visita obrigada pelo seu valor artístico e popular.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



