Por Adela Figueroa Panisse
Comecei a dar aulas no ano 71. Desde o ano 74 as minhas aulas foram leccionadas em idioma galego. Eu punha classes de Biologia, Geologia e também o relativo as Ciências Ambientais e da Saúde.
Durante os 38 anos da minha profissão nunca tive qualquer problema com os/as estudantes por causa do idioma.
O espírito que me inspirava para leccionar em galego está baseado em que a educação não consiste, apenas, em sabermos muitas “coisas”, mas em sabermos utilizar os nossos conhecimentos nos diferentes ambientes em que nos encontremos. Em adquirir segurança em nós mesmas/os para sabermos defender as nossas ideias e a nossa escala de valores. Em que ninguém deve permitir ser desrespeitado por ser homem ou mulher, preto ou branco, galego ou espanhol, índio ou europeu, etc. Porque a educação tem muitíssimo a ver com a formação da personalidade dos educandos.
Na Galiza temos, de velho, a experiência (triste) de constatar a ausência, nas nossas aulas, de qualquer referente ao nosso entorno. Isto visto no mais amplo conceito. Quer se refira a historia quer filosofia ou Ciências, o elemento referenciado do mundo em que vivemos esteve sempre ausente do mundo académico.
Para conhecermo-nos como povo tivemos que fazer esforços extra, pois nada referente a nos aparecia nos textos com que se construía a nossa sabedoria académica. Nada nosso de história, nem Ciências da Natureza. Quantos/as galegas/os sabem, pelas aulas, o que é uma bouça, uma chousa, uma branha, ou gândara, uma fervença, um seixo, e as suas implicações ecológicas? Quantas/os aprenderam no colégio algo acerca das características dos materiais geológicos que formam o soalho da nossa terra? Quantas conhecem a algum cientista galega/o.
A educação na Galiza consistiu, de preferência, em desestruturar a nossa vinculação com nós próprios, desvalorizando aquelas das nossas características que valessem para reconhecermo-nos como povo diferenciado. Nos livros de texto de muitas gerações nada acontecia cá. Tudo vinha de fora. Incluso a língua. A nossa não valia, estava desvalorizada. Era uma educação dirigida a criar e cultivar o auto ódio.
Muitos mestres e professoras/es em geral, pretendemos mudar esta ordem. Tentamos que os nossos estudantes adquirissem, não só num bom conhecimento das Ciências ou Letras, mas também um bom conceito de si próprios. E não só: também uma boa opinião e respeito das suas mães e pais e do povo ao que pertencem.
Esse povo, no caso galego, criou uma língua para exprimir as suas mágoas e alegrias, para nomear os fenómenos naturais da sua contorna, para diferenciar cada recanto, aldeia ou pedras do nosso país. Somos o povo dos mil e mil de topónimos. Cada pedaço desta Terra tem nome, o que lhe deram os seus habitantes ao falarem na nossa formosa língua.
Estando Franco vivo eu pude dar as minhas aulas em galego, agora parece que, por uma pretendida e falseada liberdade, isso é posto em causa.
Nos primeiros anos da Democracia assistimos a uma renovação em matéria de ensino. Recomendações de diferentes estamentos autorizados aconselhavam cultivar e fomentar as línguas próprias de cada país apoiando as diferencias culturais e combatendo a uniformização que é apoiada pelos potentes meios de comunicação. A uniformização é importante para os fortes lobbys económicos que visam eliminar a independência de critérios e o espírito crítico.
Desde A União Europeia já foram feitas fortes críticas a administração galega pelo abandono a que tinha submetida a língua, junto com indicações para favorecer a sua recuperação.
Como disse mais acima, não foi por capricho nem frivolidade que tantos ensinantes arriscássemos sermos sancionadas/os em tempos da Ditadura, e investíssemos muito do nosso tempo em elaborarmos documentação, léxico, e metodologias diferenciadas “ajeitadas a nossa realidade”. A nossa tarefa estava implícita no próprio conceito de educação como processo integrado, conducente a formar cidadãos respeitosos com o seu entorno e curiosos a respeito da cultura. Cidadãos para uma sociedade democrática. O que eu vejo nestes inquéritos que se dizem prévios a uma tomada de decisão acerca da língua em que se devem leccionar as aulas é uma burla ao próprio conceito de democracia e ao de educação. Sob um pretendido direito de eleição agacha-se o intuito de acabar com a nossa língua como o elemento diferenciador. A língua galega está em risco. É obriga da administração apoia-la e não ataca-la. Pôr todo o que esteja na sua mão para promocioná-la e compensar assim a tendência para a uniformidade e a perda cultural que domina o mundo actual e que representa o abandono do nosso próprio idioma.
(*) Adela Figueroa Panisse é Catedrática de Biologia e Geologia
