José Paz Rodrigues – Desde há já bastantes anos em 10 de junho comemora-se o dia das Comunidades Lusófonas no mundo. Com tal motivo, desta vez escolhi um filme lusófono para a minha série de “As Aulas no Cinema”. Tinha vários da cinematografia do Brasil, que comentarei noutro momento. Hoje penso que acerto ao escolher o mais conhecido em Portugal, que quase todas as pessoas do nosso país irmão conhecem, por o terem visionado alguma vez.
Trata-se do clássico “Aniki Bobó”, realizado em 1942 por esse genial diretor que é Manuel de Oliveira. Que vai cumprir 104 anos no próximo onze de dezembro, e que ainda hoje continua a dirigir filmes, apesar da sua avançada idade. Com este seu lindo filme o diretor lusitano adiantou-se vários anos ao movimento cinematográfico italiano denominado neorrealismo. Por causa do contexto político em que foi rodado e estreado, teve no seu momento uma discreta acolhida e os críticos da época, agás algum que outro, criticaram severamente este formoso filme. No qual aparece a vida da infância na maravilhosa cidade do Porto. As suas brincadeiras e jogos, a vida diária na escola, as rivalidades, o despertar ao amor e a aprendizagem de condutas positivas de tipo moral, no contexto histórico da segunda grande guerra e em Portugal, com a ditadura de Salazar.
O filme é excelente do ponto de vista fílmico e serve muito bem para deitar um olhar nostálgico à escola da nossa infância. Uma escola em que estava vigente o sistema antigo quase egípcio da “letra com sangue entra”, da vara e da repressão, dos castigos corporais. E entre eles o de colocar montões de livros nas mãos dos estudantes, colocados à força de joelhos. Ou, para o seu escárnio e servir de mofa aos companheiros, colocando sobre a cabeça umas grandes orelhas de burro, produto das “asneiras didáticas” dos mestres daquele momento. Em que os rapazes aprendiam mais nos tempos livres e atividades espontâneas do que nas aulas escolares.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Aniki Bobó
Diretor: Manuel de Oliveira (Portugal, 1942, 72 minutos, a preto e branco).
Roteiro: Adaptação por Oliveira do livro Meninos milionários, de João Rodrigues de Freitas.
Produtor: António Lopes Ribeiro.
Intérpretes: Nascimento Fernandes (Lojista), Fernando Matos (Teresinha), Horácio Silva (Carlitos), António Santos (Eduardinho), António Morais (Pistarim), Feliciano David (Pompeu) e Manuel de Sousa (Filósofo).
Argumento: A história é simples, real, ambientada na zona ribeirinha do Porto e Gaia. Dous rapazes, o Carlos e o Eduardo, gostam da mesma menina, a Teresinha. Um é audacioso e atrevido, o outro tímido e sossegado. A rivalidade vai-se acentuando e, um dia, para agradar à sua (namorada), Carlos rouba uma boneca. Teresinha sente-se inclinada para ele até que um dia, numa inocente brincadeira, Eduardo escorrega por um talude e cai ao lado dum comboio que passa.
Todos pensam que Carlos o empurrou e todos passam a afastar-se dele, enquanto Eduardo sofre numa cama do hospital. Carlos pensa fugir num barco ancorado no cais de Massarelos, mas tudo se esclarece por intervenção do dono da “loja das tentações”, que vira o acidente e que, no final tira todas as suspeitas da cima de Carlos. E os rapazes poderão de novo jogar aos polícias e ladrões, ao jogo de Aniki Bobó. Que diz aquilo de “Anikibebé. Anikibobó. Passarinho. Tótó. Berimbau. Cavaquinho. Salomão. Sacristão. Tu és polícia. Tu és ladrão”. O que não podem fazer no interior da aula, onde um mestre tradicional, sentado na sua cadeira, impõe a sua autoridade exigindo silêncio e, no seu caso, castigando o aluno atrevido no canto contra a parede.
A Escola de Ontem e a Escola de Hoje:
Os tempos têm mudado muito. Na antiga escola o mestre era autoritário e utilizava estratégias didáticas muito rígidas e inamovíveis. Os castigos, mesmo corporais, eram de uso comum: a vara, as palmatoadas, o puxão de orelhas, as bofetadas, o pôr de joelhos ou o obrigar a colocar na cabeça as orelhas de burro feitas com papel de jornal, castigo este não físico, mas moral e psicológico, mais funesto que aquele.
Diante de tal panorama “pedagógico”, os rapazes tinham que ser astutos procurando alternativas de luta contra este tratamento “educativo”. Por isso as pequenas e simpáticas travessuras eram feitas sem que o mestre o notasse. Mas sempre havia algum rapaz que carregava com as represálias do docente.
Na escola tradicional os rapazes estavam muito à vontade quando eram os recreios, nos seus jogos e nas suas brincadeiras, nos seus passeios, no seu relacionamento com a natureza e os seres humanos, tal como olhamos no filme de Oliveira. E com isto não quero eu criticar duramente a aquela escola que foi também a minha e a lembro com nostalgia, porque ademais nasci na da minha aldeia. Com todos os seus falhos psicopedagógicos tinha o seu encanto e os seus valores, e ademais provocava maior solidariedade e alegria fora das aulas.
A escola de hoje está a responder também a um mundo – o atual – que perdeu quase todos os valores humanos, em que a maioria de mães e pais não exercem o seu papel educativo, e a terceira escola dos meios de comunicação social, no lugar de educar divertindo, deseducam aborrecendo. A escola de hoje teria que copiar os modelos das escolas novas de Geheeb, Tagore, Freinet, Cousinet, Milani, Lodi e Montessori, por exemplo. Animo os nossos docentes atuais de todos os níveis educativos a que tentem pôr em prática nas suas aulas as estratégias didáticas dos grandes pedagogos citados.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.


