Por Adela Figueroa Panisse
Será este um povo com vocação de suicida? Será que gostamos de estarmos no “gume da faca”? Muitas vezes faço-me essa pergunta ao sentir certos sinais que chegam aos meus sentidos.
De todas as frentes está-se a produzir um ataque ao nosso idioma. Levam a vantagem os meios de comunicação, com uma prática activa neste apagamento da língua de que “A Galega” é paradigmática. Será casualidade ou resultado da procura que a maioria dos entrevistados/as, tanto na TVG como na Rádio falem castelão? Será casualidade também a escassa presença, no ente público, das novidades editoriais galegas em favor das espanholas?
Será casualidade ou fruto da procura, que o idioma castelão vai aumentado a sua presença dia após dia na Rádio Pública Galega, que pagamos as/os galegas/os. Também em outros meios que, fraudulentamente, recebem subsídios por utilizarem o nosso idioma, cousa que fazem apenas testemunhalmente?
Os sinais de identidade de um povo constroem-se no dia-a-dia da prática pelo respeito à sua cultura, à sua história, ao seu presente e seu futuro.
Como indicativo: Respeito e apoio a uma literatura importante na sua história e transcendente no viçoso do presente. Não é só Rosalia, Pondal, Curros ou Celso Emilio Ferreiro. Também Ferrim, Fole, Suso de Toro, Manolo Ribas (cuja obra mereceu ser levada ao cinema por duas vezes), Rosa Aneiros, Marilar Aleixandre, A. Cáccamo e um longo etc., etc., são autores que poderiam competir em qualquer foro estatal ou internacional.
Do ponto de vista cultural não se pode entender como haja gente, considerada culta e habitante desta Terra, que faz mérito, ou não se envergonha de dizer que não lê galego porque lhe custa trabalho entender o escrito. Fazem parte dos que se automutilam na sua construção pessoal.
Não podemos nem deveríamos apagarmo-nos a nós próprios. Para além de defendermo-nos como país, apoiaríamos uma indústria, a Editorial, que também dá postos de trabalho e cria riqueza sustentável.
Construirmo-nos como povo diferenciado é apoiar os bens comuns que temos, e que desenharam a nossa cultura exprimida pela nossa formosa língua. Estes bens representam-se tanto pela nossa paisagem como pela indústria que se gera na Galiza.
A nossa posição no mundo é estratégica. Não é casualidade ter-se escolhido Vigo como sede da World Fishing Exibition e também Vigo como ponto fulcral para uma das mais importantes auto-estradas do mar. Mas isso pode ser apenas uma plataforma para as multinacionais vorazes de dinheiro e território se não há um país estruturado que a possa aproveitar para enriquecer o seu tecido empresarial autóctone.
Esquecer a língua como bem cultural comum coloca toda a nossa potencialidade económica, empresarial e ambiental nas mãos de interesses alheios que se beneficiam da nossa débil coesão social. Isso beneficia as multinacionais que não têm pátria, face aos pequenos empreendedores, autónomos, verdadeiro alvo da crise social e económica em que estamos imersos. Esta coesão torna-se imprescindível na hora de defendermos o bem comum, como o mar ribeirinho, as montanhas, os rios ou os vales. Bens que podem gerar riqueza e bem-estar, e geram-no, quando são bem geridos.
A responsabilidade cidadã na defesa do “comum” é sinal de maturidade social, mas também produto de termos consciência de povo com interesses comuns. Reforçar os nossos sinais identitários, que não são um invento de qualquer um grupo político, mas reais e gerados através duma história e uma língua própria, reforçar-nos-á nas lutas sociais em defesa duma sociedade mais democrática, criativa e participativa, em resumo mais solidária.
Por isso não é inocente este constante intento “esfarelador” da Galiza que vem do Governo da Xunta: Face o ensino público, apoio ao ensino privado e elitista (concessão de subsídios milionários a colégios privados com práticas educativas antidemocráticas) face a umas vias de comunicação integradoras e públicas, esquecimento do Caminho de Ferro Galego e promoção de mais estradas que incrementarão o uso do transporte privativo junto com a dependência dos combustíveis e a poluição atmosférica. Enfim, face a uma participação cidadã em assuntos de interesse geral como Planos Estratégicos de exploração dos recursos (Eólicos, Piscicultura em terra, Gestão do lixo, Mineração, etc.), dirigismo e inibição social.
Por apagar até o intentam com a Selecção Galega de Futebol, enquanto apoiam outros clubes com subsídios milionários como os 1.200.000 € concedidos a uma equipa de basquetebol (O Obradoiro), dizem que a “austeridade” impede apoio a Selecção Galega.
O desprezo pela língua e a cultura não é senão um reflexo do que um governo sente pelo povo que lhe concedeu quatro anos para gerir os seus recursos. Suspeitamos que não estão a fazerem País, mas a fazerem negócio. Qual? O seu.
