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O WOLOF, LÍNGUA MATERNA DO SENEGAL

No ano 1999, na sua 30ª Conferência, a UNESCO proclamou o dia 21 de fevereiro como o «Dia Internacional da Língua Materna». A proposta principal e formal fora feita pela delegação do Bangladesh, onde o amor dos seus habitantes pelo seu idioma chamado «Bangla» é realmente proverbial, e a sua luita de libertação pela independência do Paquistão (com final feliz) foi precisamente para defender o seu idioma materno, que os paquistaneses ocidentais queriam suprimir, impondo o seu idioma denominado «Urdu», com escrita e grafia do árabe.

Os galegos que lhe queremos à Nossa Terra e seu idioma próprio, identificamo-nos, como é natural, com aqueles lugares e territórios em que esteve ou está ameaçada a sobrevivência da sua língua materna: Bangladesh no seu momento, a princípios dos 70, os idiomas quéchua e aimará dos indígenas do Equador, Peru e Bolívia, o guarani do Paraguai, o santali dos antigos povos santales primitivos da Índia, o mandinga da Gâmbia ou o «wolof» do Senegal, língua materna dos senegaleses, falada de forma maioritária, embora não seja ainda oficial, pois o único idioma oficial do país é o francês, que cada vez se utiliza menos, agás nos documentos oficiais e governamentais. Por isto, no país africano está a haver uma reação forte e crescente do movimento linguístico nacionalista, que apoia a integração do wolof, a língua vernacular comum do país, na constituição nacional. Eis a razão pela que considerei interessante, para dar a conhecer uma realidade linguística a galegos e lusófonos, infelizmente pouco conhecida, dedicar o presente depoimento à filmografia do mais importante cineasta da África, que também foi escritor, Ousmane Sembène, cuja língua materna era precisamente o wolof, e a maioria dos seus filmes foram rodados usando esta língua.

Dada a peculiaridade da situação linguística da Galiza, torna-se fundamental organizar atividades educativo-didáticas apropriadas, ao redor do «Dia da Língua Materna», nos nossos estabelecimentos de ensino, para que os escolares se sensibilizem sobre o fundamental que é o uso da língua própria em todos os âmbitos e, também, para fomentar o necessário respeito para todas as outras línguas, pois também são os idiomas maternos de outras comunidades de pessoas dos diferentes continentes do mundo.

A LÍNGUA WOLOF:

    O idioma wolof, também chamado «uolofe», «uólofe», «jalofo» ou língua «jalofa», fala-se na África Ocidental e principalmente no Senegal, mas também em Gâmbia, Guiné-Bissau, Mali, Mauritânia ou Maurícia, e mesmo na República Dominicana, nas suas aldeias de Jarabacoa, onde moram os herdeiros dos senegaleses escravos levados ao porto de Santo Domingo para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar. Com o tempo formaram comunidades «wolof», conseguindo manter viva a sua língua, a sua herança e a sua cultura.

No Senegal uns 32 milhões de pessoas (40 % da população) têm o «wolof» como língua mãe, mesmo sendo o francês a língua oficial do país. Para outro 40 % da população o «wolof» é um idioma adquirido, sendo a sua segunda língua. O «wolof» domina toda a região entre Dacar e Saint Louis, mais ainda a Oeste e Sudoeste de Kaolack. Existe ademais o dialeto «Dacar-Wolof», uma mistura urbana de «wolof» com o francês, o inglês e o árabe, que se fala na capital Dacar. O «wolof», no entanto, é usado em todas as capitais regionais do Senegal, e, nos locais onde convivem dous ou mais grupos étnicos, a língua veicular é o wolof.

Na Gâmbia, embora seja o «mandinga» de Banjul o idioma prevalente no país, umas 200 mil pessoas (15 % da população) usam o «wolof» como primeira língua. E na capital, Serrekunda, é utilizado por 50 % da sua população. Na Mauritânia ou Maurícia, umas 185 mil pessoas (7 % da população) têm o «wolof» como primeira língua. Finalmente, na República Dominicana mais de três mil pessoas mantêm viva esta língua procedente do Senegal. Pelo interesse que tem para nós lusófonos, é importante comentar que no Senegal a língua portuguesa foi introduzida no ensino secundário em 1961, em Dacar, pelo primeiro presidente do país, após a independência, Léopold Sédar Senghor, e que está atualmente disponível em mais regiões senegalesas, e também é ensinado no ensino superior. A nossa língua internacional, o português, é especialmente prevalente em Casamança, por estar relacionada com a identidade cultural local, precisamente na região onde nasceu Ousmane Sembène. No ano 2008, o Senegal, devido às suas ligações históricas com a colonização portuguesa na Casamança, foi admitido como Observador Associado da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP). No país senegalês, o ensino da língua portuguesa é notório, em comparação com outros países, e, por isto, tem um estatuto privilegiado. Ela é estudada desde cedo, no ensino médio, secundário e superior. Os números falam por si: no ano letivo 2009-10 existiam em torno a 23 mil alunos de língua portuguesa nos ensinos médio e secundário do Senegal em estabelecimentos de 12 das 14 regiões do país, e este número vem num crescimento constante durante as últimas décadas. No ano letivo seguinte esse número teve um acréscimo de alunos superior a mil. O interesse pelo português é devido à vizinhança com a Guiné-Bissau, a presença significativa de imigrantes guineenses e cabo-verdianos, que falam um crioulo com base lexical portuguesa ou o próprio português e, em termos históricos, a presença portuguesa nessa área. A região de Casamança fez parte do Império português até o ano de 1886, quando foi cedida ao Império colonial francês. Lamine Konté, excelente cantor, compositor e intérprete de harpa senegalesa chamada «kora», tem muitas canções, ademais de em wolof, em língua portuguesa.

FICHA TÉCNICA DOS 10 FILMES DE OUSMANE SEMBÈNE:

 

  1. Borom Sarret (curta-metragem). (Senegal, 1962, 22 min., preto e branco).sembene-borom-sarret-cartaz0

Roteiro: Ousmane Sembène. Fotografia: Christian Lacoste.

Produtoras: Les Films Dominev e Les Actualités Françaises.

Atores: Ly Abdoulaye, Melle N´Diaye e Albourah.

Argumento: Borom Sarret, condutor de carromatos, trabalha duro para alimentar a sua família. Ao término de uma jornada ganhada com muito suor, um cliente pede-lhe que o leve aos bairros «ricos», proibido aos carromatos. Param-no, põem-lhe uma multa e confiscam-lhe o carromato, a sua única ferramenta de trabalho… Um quadro da vida quotidiana nos bairros das favelas de Dacar.

  1. A preta de… (La noire de…). (Senegal, 1966, 65 min., preto e branco). Prémio Jean Vigo de 1966.sembene-a-preta-de-capa-dvd

Roteiro: Ousmane Sembène. Fotografia: Christian Lacoste. Música: Ar popular senegalês.

Produtoras: Filmi Domirev e Les Actualités Françaises.

Atores: Mbissine Thérèse Diop, Anne-Marie Jelinek, Robert Fontaine, Momar Nar Sene,Ibrahima Boy, Bernard Delbard, Nicole Donati e Raymond Lemeri.

Argumento: Em Dacar, Diouana, analfabeta, é contratada por um casal de brancos burgueses. Está encarregada de ocupar-se das crianças, uma responsabilidade que a faz ter em conta pelos seus semelhantes. Para agradecer-lhe esta situação acomodada, Diouana oferece uma máscara tradicional ao seu chefe. Por pedimento de seus patrões, Diouana aceita com alegria acompanhá-los a Antibes pelas férias. Na França, as cousas mudam. Diouana vê-se obrigada a realizar todas as tarefas domésticas, reduzida assim à servidão sem nenhum dia de descanso.

  1. A Ordem de pagamento (Mandabi). (Senegal, 1968, 90 min., cor).sembene-a-ordem-de-pagamento-mandabi-cartaz0

Roteiro: Ousmane Sembène, segundo seu próprio romance escrito em 1966.

Fotografia: Paul Soulignac. Produtoras: Filmi Domirev e Comptoir Français du Film Production (CFFP)

Atores: Makhouredia Gueye, Ynousse N’Diaye, Isseu Niang, Serigne N’Diayes, Serigne Sow, Mustapha Ture, Farba Sarr e Moudoun Faye.

Argumento: Em Dacar, capital do Senegal, o muçulmano Ibrahima Dieng vive tranquilamente com suas duas esposas e seus sete filhos. Dieng recebe uma correspondência do sobrinho Abdou, que mora e trabalha na França, trata-se de uma ordem de pagamento. Ao saber da novidade, os vizinhos do afortunado buscam, cada um a seu modo, tirar proveito da situação. A obra mostra, de modo humorístico, mas não menos dramático, a configuração da nova sociedade senegalesa pós-independente, denunciando a burocracia estatal capaz, ainda que de forma efêmera, esmagar o indivíduo.

  1. Emitaï (Senegal, 1971, 103 min., cor). Produtora: Filmi Domirev. sembene-emitai-cartaz

Roteiro: Ousmane Sembène. Fotografia: Michel Remaudeau.

Atores: Robert Fontaine, Michel Remaudeau e Pierre Blanchard.

Argumento: Ambientada no ano 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, num povo da Casamança, os homens jovens do povoado são reclutados pelo exército francês. A armada colonial quer requisitar a colheita de arroz para os soldados.

Os velhos consultam aos deuses, e oferecem sacrifícios de animais, e não sabem o que devem fazer. O homem branco vai interpretar a indecisão como uma tática de dilação, como um ato de resistência aos seus desejos, enquanto os homens da tribo não se explicam porque é que os deuses não atendem as suas preces. As mulheres da Casamança ficam encarregadas de resistirem às investidas da armada francesa.

  1. Xala (Senegal, 1975, 123 min., cor). Fotografia: Georges Caristan. sembene-xala-cartaz0

Roteiro: Ousmane Sembène, segundo o seu próprio romance do mesmo título escrito em 1973.

Atores: Douta Seck, Makhouredia Gueye, Seun Samb, Tierno Leye e Younous Seye.

Argumento: El Hadji Abdou Kader Beye, homem de negócios senegalês, já de idade avançada, toma para si uma terceira esposa, a bela  Ngone, o que lhe confere «status» social e económico perante os seus iguais. Grande festa é organizada para selar o pacto matrimonial de El Hadji, comparecendo as altas classes sociais senegalesas, além das duas esposas. Na noite de núpcias, contrai o «xala», a perda da potência sexual por tempo provisório, impedindo-lhe de consumar o tão esperado ato. Humilhado, o pobre diabo, que a princípio é um entusiasta dos preceitos ocidentais, cada vez mais é obrigado a se voltar para os valores tradicionais.

  1. Ceddo (Senegal, 1977, 120 min., cor). Produtoras: Filmi Domirev e O. Sembène.sembene-ceddo-cartaz

Roteiro: Ousmane Sembène. Fotografia: Georges Caristan. Música: Manu Dibango.

Atores:

Argumento: Em alguma parte da África do Oeste, em tempo histórico não muito preciso (século XVII-XVIII…), o Islã e o Cristianismo buscam penetrar numa comunidade local. O líder religioso islâmico, o marabuto, não medirá esforços para levar adiante o seu projeto colonialista – a conversão da família real, dos grandes dignitários; a usurpação do trono e as conversões forçadas. Cabe aos «ceddos», um povo com tradições animistas, a resistência, mediante seus valores, com a ajuda da princesa Dior Yacine, a legítima herdeira do trono. Ambos resistem à religião estrangeira e fazem uso de suas cosmogonias para serem ouvidos, negociando sua liberdade. A penetração de religiões estrangeiras é possível graças à cumplicidade das elites africanas, que termina por corromper os sistemas tradicionais de crenças da região, e se nos apresenta como uma simples luita pelo poder.

  1. Campo de Thiaroye (Senegal, 1987, 157 min., cor).sembene-campo-de-thiaroye-cartaz0

Roteiro: Ousmane Sembène e Thierno Faty Sow (que também colabora na direção).

Produtoras: Enaproc, Films Domireew, Films Kajoor, Satpec e Société Nouvelle Pathé Cinéma.

Atores: Sidiki Bakaba, Hamed Camara, Philippe Chamelat, Ismaila Cissé, Moussa Cissoko,Eloi Coly, Innocence Coly e Camara Med Dansogho.

Argumento: No Senegal, em 1944, o batalhão de “tiralleurs” (soldados do exército colonial) chega ao campo de Thiaroye para serem desmobilizados, ao retornarem da Europa após ajudarem a armada francesa na guerra contra os alemães. Os grandes feitos das expedições militares dão lugar à desilusão diante das promessas não realizadas pela França. O não pagamento das indenizações, as humilhações e o racismo da hierarquia militar são alguns dos motivos que desencadeiam a rebelião dos «tiralleurs», diante de uma punição certa de quem, por falta de escolha, decidiu negociar com um diabo travestido de uma igualdade ilusória, uma liberdade utópica e uma fraternidade inexistente.

  1. Guelwaar (Senegal, 1992, 115 min., cor). Roteiro: Ousmane Sembène.

sembene-guelwaar-cartazFotografia: Dominique Gentil. Música: Baaba Mall.

Produtoras: Channel IV, Doomireew, France 3 Cinéma, Galatée Films, New Yorker Films e Westdeutscher Rundfunk (WDR).

Atores: Abou Camara, Marie Augustine Diatta, Mame Ndoumbé Diop, Moustapha Diop,Ndiawar Diop, Lamine Mane, Babacar Mbaye e Belle Mbaye.

Argumento: Baseada em factos reais, narra a história do enfrentamento que se produz entre povoadores de confissão cristã e muçulmana ao redor do corpo de Henri Thioune, conhecido por «Guelwaar», ativista político e líder da comunidade cristã assassinado por desconhecidos e soterrado por error no cemitério muçulmano de uma aldeia vizinha à sua.

  1. Faat Kiné (Senegal, 2000, 120 min., cor). Produtora: Filmi Domirev.

Roteiro: Ousmane Sembène. Fotografia: Dominique Gentil. Música: Yandé Codon Sène.sembene-faat-kine-cartaz1

Atores: Venus Seye, Mame Ndoumbé, Ndiagne Dia, Mariama Balde, Awa Sene Sarr e Tabata Ndiaye.

Argumento: Faat Kiné, bela mulher de 40 anos (idade que de modo simbólico coincide com a da independência do Senegal) vive como mãe solteira com os seus dous filhos. Num mundo de forte dependência da mulher, Faat Kiné, que dirige uma pequena estação de gasolina, conseguiu uma posição de autonomia que lhe permitiu dar educação aos seus filhos e agora deve enfrentar os desejos da filha de ir a uma universidade estrangeira, cousa esta que supera as possibilidades do orçamento familiar. Por outra parte, ambos os filhos empenham-se em encontrar um noivo para a mãe, de religião muçulmana, e o melhor candidato parece-lhes um amigo e cliente dela, viúvo, de confissão católica.

  1. Proteção (Moolaadé). (Senegal, 2004, 119 min., cor). Roteiro: Ousmane Sembène.

Fotografia: Dominique Gentil. Música: Boncana Maïga. sembene-protecao-moolaade-cartaz

Produtoras: Ciné-Sud Promotion, Centre Cinématographique Marocain, Cinétéléfilms, Direction de la Cinematographie Nationale, Filmi Domirev e Les Films Terre Africaine.

Atores: Maimouna Helene Diarra, Fatoumata Coulibaly, Salimata Traore, Dominique T. Zeida, Mah Compaore e Naky Savane.

Argumento: Collé Ardo vive num povo africano. Há sete anos que não permitiu que a sua filha fosse submetida à ablação, uma prática que lhe parece uma barbárie. Hoje quatro crianças fogem para escapar do ritual de purificação e pedem a Collé que as proteja. A partir desse momento, enfrentam-se dous valores: o respeito ao direito de asilo, chamado «moolaadé» e a tradição da ablação, conhecida como «salindé».

Nota: Este filme já foi comentado num depoimento da série «As Aulas no Cinema» em 22-05-2013.

Pode ler-se entrando na ligação: https://www.pgl.gal/opiniom/as-aulas-no-cinema/5606-fomentar-desde-a-escola-a-solidariedade-com-os-povos-da-africa-i-atraves-do-filme-qmoolaadeq

 

SEMBÈNE, PAI DO CINEMA AFRICANO:

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 Ousmane Sembène nasceu em Ziguenchor-Casamança em 1 de janeiro de 1923, e faleceu em Dacar em 9 de junho de 2007, aos 84 anos de idade. Aos 7 anos começou a ir à escola coránica e à francesa, aprendendo árabe e francês, embora a sua língua materna fosse o wolof. Foi ator, diretor, produtor, escritor, roteirista, sindicalista e ativista político na França e no Senegal, embora desempenhasse também outros trabalhos, especialmente de estivador no porto de Marselha. Frequentou a escola até aos 14 anos, passando depois a ocupar várias profissões: pescador como seu pai, mecânico, pedreiro, militar, tendo participado nas campanhas de Itália e França, contra o fascismo e o nazismo. Autodidata persistente, em todas as suas atividades enriqueceu o seu conhecimento da vida e dos seres humanos, Quando regressou a África, entregou-se de forma entusiasta a uma dupla atividade criativa: a de escritor e a de cineasta. Sendo considerado como um dos maiores autores do subsaara africano e frequentemente denominado «Pai do Cinema Africano». É considerado também como uma das figuras fundamentais do espertar cultural da África pós-colonial. Antes já, em 1942, entrou no exército francês, e depois militou contra a guerra na Indochina francesa e pela independência da Argélia. De 1956 a 2000 escreveu mais de doze romances muito interessantes, e de 1963 a 2003 dirigiu 15 filmes, alguns baseados em romances seus. No seu primeiro romance, O estivador preto, relatou a sua experiência como estivador em Marselha. Começou a pensar no cinema em 1960, ano da independência do Sudão francês (mais tarde conhecido como Mali) e do Senegal, quando viajou por distintas áreas da África: Mali, Guiné, República do Congo, etc. Em 1961 assistiu à escola de cinema de Moscovo, nos famosos estudos Gorki, realizando a sua primeira curta-metragem em 1962. Em 1969 fundou a Federação Panafricana de Cineastas (FEPACI) para a defesa dos direitos deste coletivo e promover o cinema africano.

Nos seus filmes, falados a maioria em idioma wolof, Sembène denunciou o nepotismo e a corrupção na França e no seu país, e foi censurado no Senegal pelas suas críticas à burguesia e aristocracia local e o papel desintegrador da sociedade tradicional que jogaram o catolicismo e o Islão. Tampouco aceitaram na França a sua homenagem aos tiradores senegaleses na 2ª Guerra Mundial e a sua denúncia ao racismo da metrópole. Em 2000, com o filme Faat Kiné, iniciou um tríptico sobre o heroísmo quotidiano da mulher africana, sendo o filme Moolaadé (2005) a sua segunda entrega. A terceira, «A confraria dos ratos», não a chegou a concluir, pois faleceu antes de poder rodá-la.

O seu cinema é um instrumento muito valioso para se trabalhar um conjunto de temáticas em sala de aula (relações de dominação, género, colonialismo, escravidão em África, arte africana, oralidade, tradição-mudança e outros temas africanos). Por meio dele, pode propor-se uma abordagem da sociedade e da história e geografia africanas realizada pelas mãos das artes e por um pensador africano comprometido com reflexão aprofundada de questões muito bem contextualizadas e, ao mesmo tempo, de alcance e interesse amplos.

É enormemente significativo o manifestado sobre o seu cinema no seu dia por Ousmane Sembène: «O meu público é África; Ocidente e o resto são mercados. Ademais, quero manter a minha estética o mais próxima possível à narrativa oral tradicional dos nossos países, pelo que não uso nunca métodos tirados de Hollywood ou do cinema europeu. A minha meta, e espero consegui-lo, é criar uma linguagem fílmica propriamente africana». Toda uma declaração esta de nobres intenções por parte deste grande realizador cinematográfico, que bebeu muito do grande cinema russo, quando se preparou nos moscovitas estudos Gorki.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

    Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos 10 filmes de Ousmane Sembène antes resenhados.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada àqueles idiomas maternos que se encontram, por diversas circunstâncias sociais e políticas, seriamente ameaçados na sua sobrevivência em diferentes lugares do mundo (de alguns dos quais se falou ao início do presente depoimento), dedicando um amplo espaço ao galego ou português da Galiza. A mesma deve incluir mapas, frases, textos, poemas, desenhos, aforismos, murais, cartazes e fotos. Pode enriquecer-se com colaborações criativas dos estudantes.

Podemos organizar um debate-papo ou tertúlia, em que se analisem as alternativas que existem para a promoção e uso da nossa língua materna. Ao mesmo devemos convidar representantes da Academia Galega de Língua Portuguesa (AGLP), da AGAL, da ASPGP, e mesmo da RAG e do Conselho da Cultura Galega. Também pessoas que conheçam muito bem as propostas aprovadas com a Lei Paz Andrade no Parlamento da Galiza.

 

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