José Paz Rodrigues (*) – Considero que nas datas em que estamos entre finais de outubro e novembro, em que já é tradicional desde há muito tempo dedicar alguma atividade e espaço ao ofício de mestres, o filme “O Profe”, que tem como protagonista o ator Mário Moreno “Cantinflas”, é muito idóneo para que todos possamos refletir sobre o importante que para a nossa sociedade é o labor dos bons mestres.
Infelizmente na atualidade pouco considerados socialmente e mesmo subvalorizados. Porque, das instâncias a que corresponde, ainda não se tem levado para a frente uma magna campanha de apoio aos docentes, para os prestigiar e incentivar e para transmitir a todos os cidadãos que o seu labor é fundamental. Só assim poderíamos logo conseguir que os docentes se sentissem motivados e à vontade no desempenho do seu trabalho pedagógico-didático e no dia-a-dia.
Se os docentes estão satisfeitos com o que fazem, e a sociedade reconhece o seu labor, isso vai redundar na melhoria da qualidade do ensino a todos os níveis. Mas, antes também temos que melhorar muito os modelos de formação inicial e permanente ou em exercício dos docentes. E mudar já de forma urgente os que agora temos.
O mestre rural protagonista do filme que hoje comento, com humor e de forma muito cómica (compartilho o que alguns dizem que o humor é algo muito sério), não só se limita a transmitir conhecimentos, com estratégias didáticas muito curiosas, também se preocupa polas melhorias sociais do povo, porque pais e mães se relacionem positivamente com os seus filhos e por desenvolver valores éticos na aldeia em que ensina, mesmo enfrentando-se ao cacique local. O protagonista, mais que ensinante é educador do povo no amplo sentido do termo. Como muitos dos nossos mestres em anteriores etapas polos quatro cantos da geografia rural galega. Embora seja este um filme cómico, tem uma grande profundidade pedagógica e é muito fácil que seja seguido por qualquer pessoa.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: El Profe (O Profe/O Catedrático)
Diretor: Miguel M. Delgado (México, 1971, 117 min., A cores).
Intérpretes: Mário Moreno (mestre Sócrates Garcia), Marga López (Hortênsia), Arturo de Córdova (governador), Víctor Alcocer (Don Margarito, cacique e latifundiário), David Bravo (Fermím), Eduardo McGregor (Lucas Campuzano), Luciano Hdez de la Vega (Padre Gonzalo), Eduardo L. Rojas (Espiridión Cascajo), Angelines Fernández (Mãe de Martim), Ramóm Valdés (Pai de Martim) e outros rapazes.
Argumento: Sócrates, um abnegado professor e mestre que consagrou a sua vida ao ensino, sacrifica a comodidade duma cidade grande para ir viver ao povoado mexicano de El Romeral, onde são necessários os seus serviços. Ali deverá lutar contra o poderoso cacique local, interessado em fomentar a ignorância em seus habitantes. Sócrates conta com o apoio do padre do povoado e de Hortênsia, uma jovem senhora viúva que aceita alugar um espaço na sua casa para a hospedagem do novo mestre. A jovem viúva e todas as crianças logo começam a admirar seu professor e terão que lutar contra o poder do cacique e seus aliados.
Análise do Filme:
Não por acaso o nome do mestre é Sócrates, um professor de ensino primário, para lembrar o grande pedagogo da antiga Grécia. Tem um método para ensinar que é uma mistura de comédia e o estilo típico dum mestre estrito da época. Um dia um aluno da sua primeira escola citadina colou-lhe um boneco de papel nas costas. Nesse momento chega o diretor da escola e lhe comenta que o vai mandar como mestre para uma escola rural situada na povoação de El Romeral. Que originalmente fica em Tequisquiapan-Querétaro.
O diretor toma esta decisão porque é o único mestre solteiro da escola. E aceita. O diretor observa o boneco de papel nas costas do mestre e diz-lhe que não tem o respeito dos seus alunos. Sócrates responde-lhe que assim brincam ele e os seus rapazes e quando o diretor se vai, coloca o boneco nas costas dele. Quando chega à estação do comboio na povoação de San Bertolo ninguém o recebe por ordens do cacique da aldeia em que vai ser docente. No caminho encontra-se com um arrieiro que se dirige à aldeia no seu carro e leva o novo mestre.
Quando chega à povoação, a gente acolhe-o com alegria. Ali está o cura da paróquia, o alcaide e o cacique, de nome Don Margarito. O padre apresenta-o às forças vivas, mas logo percebe que vai ter problemas com o latifundiário. Também aparece Hortênsia, que lhe pede que dirija umas palavras aos vizinhos. Quando estava a falar cai o chão do estrado. Mais tarde leva-o para a sua casa onde lhe facilita hospedagem. E ele pergunta-lhe por onde fica o local da escola. Comprova que está em péssimas condições. No dia seguinte inicia as suas aulas. Uma mãe oferece-lhe uma dúzia de ovos. Mais tarde chega um pai com um filho seu que se nega a ir à escola porque a sua mãe tem pouca autoridade sobre ele.
Dá começo à aula e não se dá conta de que um aluno colocou os ovos em cima da cadeira e o mestre senta-se sobre os ovos. Muito zangado pergunta que rapaz foi e ninguém responde. Para descobrir o culpado brinca com as crianças para ver quem tem o fósforo mais comprido. Antes comentou que quem o tivesse mais comprido, seria o culpado, mas não sabiam que não havia fósforo comprido, mas era culpado quem cortasse um troço do mesmo. Quando pede para cada um mostrar o seu fósforo para comprovar, encontra que o Felipe, o mais travesso da turma, cortou um troço ao seu e Sócrates castiga-o pondo-o a escrever 50 vezes “Pola minha culpa o mestre ficou sem ovos”.
Depois desta passagem começa a padecer várias dificuldades ocasionadas polo cacique, encobertas polo alcaide muito dependente do mesmo, até que afinal a visita do governador do Estado à povoação é a salvação para Sócrates e para a própria aldeia. No ato dão-se a conhecer uns documentos originais, em que estão envolvidos o cacique e o alcaide, por sujas manobras para ficarem indevidamente com terras e propriedades dos labregos. Uma das cenas mais maravilhosa é aquela em que o mestre, depois de que fosse incendiada polos esbirros do cacique o local da escola, decide montar a sua escola ao ar livre, que nos recorda as de Tagore em Santiniketon, improvisando o mobiliário, e dizendo aos seus alunos esta bela frase, de grande profundidade pedagógica: “Para que exista escola precisa-se principalmente do mestre e dos seus alunos”.
Temas para refletir:
Comentar o importante que é, depois de ver o filme, que o mestre ponha amor e dedicação no seu labor docente. Refletir como este mestre desenvolve estratégias didáticas singelas e criativas, cativando a atenção dos rapazes, que participam com ideias e realizam perguntas. Ver como dá importância à música e o sucesso que com ela tem. Igualmente comprovar como o filme transmite uma mensagem ética e deontológica excelsa, sobre como deve desenvolver-se o nobre ofício de formadores de seres humanos, tão importante como a própria vida, por ser quase um serviço divino. E como também há que contar com os progenitores, para os quais teria de haver escolas formativas.

