José Paz Rodrigues (*) – Nunca entendi porque durante décadas, e ainda hoje, no nosso sistema educativo, continuam a ser subvalorizadas as áreas artísticas. Aquelas que mais têm que ver com as aprendizagens mais importantes que existem, chamadas apreciativas. As que estão em íntima relação com a afetividade e os sentimentos, o apreço e o amor polas cousas, a natureza e a beleza.
No nosso ensino cometem-se continuamente infinidade de erros. Entre eles, desconsiderar e marginalizar as áreas artísticas e lúdicas, como autênticas “cadeirinhas”. Infelizmente, tal menospreço poderia perdurar, polo que quero fazer uma chamada de atenção às instituições públicas relacionadas com o ensino e, especialmente, às equipas diretivas dos nossos estabelecimentos educativos, desde infantil até secundário, para que coloquem no seu justo lugar as áreas artísticas e lúdicas. A música e as cantigas, o teatro e os títeres, os jogos cooperativos e tradicionais, as expressões plásticas e icónica ou por meio da imagem, a fotografia, as manualidades, o cuidado de plantas e animais, os roteiros, o jornal escolar, a filatelia e os desportos.
É certo que, quando o nosso país entrou na Europa, teve que incorporar ao sistema educativo a educação física e, sobretudo, a música. Os países europeus não entendiam como nós não lhe dávamos importância à música e ao canto, à aprendizagem instrumental e às audições musicais, assim como a que as nossas crianças e jovens aprendessem cantigas do nosso riquíssimo folclore popular, um dos mais ricos do mundo. Por isso criaram-se as vagas de docentes especialistas. Porém, os cidadãos ainda não refletiram no grande valor pedagógico e propedêutico da música na escola. O outro dia li algo muito acertado, dito por um especialista, que é muito valioso, já na vida intrauterina, estimular com música o futuro bebé, e que esta não seja estridente. Muito melhor Bach, Mozart ou Vivaldi, que rock ou música de “latas contra latas”.
Aos dirigentes da nossa política educativa e aos diretivos escolares e docentes de todo o tipo convém lembrar-lhes essencialmente duas cousas: a primeira, que já nas culturas antigas orientais e greco-latinas a música ocupava no currículo escolar um lugar muito destacado. Na Índia, no Japão e na China, cultura em que antigamente a música era a matéria mais importante, junto com a poesia e a cerimónia. Na Grécia as leis ditavam-se cantando e os rapazes tinham que aprender a tocar a lira, como Ulisses. A segunda, que um dos aspetos polos que os grandes pedagogos que houve na história, como todos os das escolas novas, Don Bosco, Tagore e os Padres Flanagan e Américo, ficaram para a posteridade como modelos educativo-didáticos, foram os que valorizaram na sua justa medida as áreas artísticas e lúdicas.
No filme que toca hoje, de forma genial, mostra-se o grande valor que tem a música, para motivar, estimular, fomentar a criatividade, socializar, desenvolver habilidades sociais, despertar vocações e afeições positivas e ajudar a integrar alunos com numerosos e variados problemas de inadaptação social. O labor que desenvolve o mestre protagonista deste filme é fantástico, lindo e invejável. E, didaticamente modelar. Na fita aparece a música em primeiro termo e os jogos próprios da educação física. Também as estratégias didáticas reacionárias do condutismo americano dos castigos. Tomando como base o nefasto princípio de ação-reação.
Ficha Técnica do Filme:
Título: Les Choristes (Os Coristas/ A voz do coração / Los chicos del coro).
Diretor: Ch. Barratier (França-Suiça, 2004, a cores, 95 minutos).
Atores: Gérard Jugnot (Mathieu, o mestre), François Berléand (Rachin, o diretor), e vários rapazes.
Argumento: Um internato para meninos órfãos e “socialmente desajustados” é dirigido com mãos de ferro polo inflexível Sr. Rachin, a quem os rapazes temem, mas não respeitam. Quando o professor Clément Mathieu chega para dar aulas, encontra crianças e adolescentes hostis e difíceis de disciplinar, acostumados a combater os métodos repressivos do internato. Com a sua formação musical, entretanto, Mathieu desenvolve um jeito criativo e eficiente de cativar os rapazes. Contra a vontade do diretor Rachin, Mathieu forma um coral, revolucionando os métodos de ensino locais da época. O professor recupera a sua veia musical e volta a compor, revela um grande talento que viria a se tornar um importante mestre, e muda para sempre a vida dos estudantes. Mas, infelizmente, nada disso acontece sem que professor e alunos tenham que enfrentar sérios obstáculos, e pagar um alto preço pola sua ousadia…
Análise do Filme:
Talvez a principal contribuição do filme “Os Coristas”, do diretor Christophe Barratier, seja o facto de ele nos conduzir a um conceito simples e pouco explorado: as aparências enganam, e as pessoas podem ser mais do que costumamos julgar. O filme não focaliza uma perspetiva pedagógica, nem um método, mas o valor do ser humano. Produzido em 2004 e proposto para dous Óscares, este filme conta a história de Clément Mathieu, um compositor sem reconhecimento, mas que tem grande sensibilidade para enxergar a potencialidade das outras pessoas. Devido a essa capacidade, assim que chega ao lúgubre orfanato para o qual fora contratado como vigiante e professor, Mathieu, de imediato, percebe o prejuízo feito polos pré-julgamentos, e a identificar os talentos por trás das crianças, rotuladas sempre como “casos perdidos”.
O professor tem dificuldade para ganhar a confiança dos meninos, mas, quando estes percebem o seu carinho e dedicação, reagem com igual cumplicidade. Mesmo lidando com a oposição do diretor da instituição – Rachin –, o professor consegue formar um coral que, aos poucos, se aperfeiçoa e, por fim, torna-se conhecido por toda a França. Outros professores, que a princípio seguiam somente os métodos antiquados da instituição, acabam mostrando-se favoráveis às mudanças, que aos poucos transformam o grupo.
Devido à oposição aos métodos truculentos do diretor e da lógica da ação-reação (punição e violência, num círculo vicioso), Mathieu é despedido, porém, a essa altura, já teria mudado os corações e mentes daqueles meninos, que nunca mais se esqueceriam do homem que introduziu esperança e autoestima nas suas vidas, repletas de privação e marginalidade. Um dos meninos – Pepinot, de cerca de 5 anos – vai embora junto com Mathieu. Muitos anos depois, já idoso, Pepinot encontra-se com Morhange (que fora o principal “virtuoso” do grupo, e que então era já um famoso mestre), para rememorarem todos aqueles momentos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



