José Paz Rodrigues (*) – A antinomia ou dicotomia entre a educação formal ou sistemática e a informal ou assistemática sempre existiu dentro do mundo das ciências da educação. O equilíbrio entre ambas deveria ser a comum norma e um objetivo para todos os sistemas educativos.
Com a nova reforma educativa às portas, proposta polo atual governo e por um dos piores ministros da educação na história do país, voltaremos à desarmonia entre ambos os tipos de educação, dando muito peso à formal, e não em todos os tipos da aprendizagem, e esquecendo quase por completo a informal, que é a que tem mais a ver com a formação da pessoa.
Infelizmente hoje em dia ainda não temos um pacto educativo de toda a sociedade para evitar as funestas mudanças do sistema educativo cada vez que se muda de governo. Levamos já tantas leis educativas (uma por cada governo de turno), que já ninguém sabe em qual estamos, e os docentes estão perdidos com tantas mudanças. Que, se fossem para melhorar o sistema, bem-vindas sejam, e se se contasse com os docentes para elaborá-las ainda seria melhor. Que afinal de contas são os que as têm que levar à prática.
Nas culturas antigas, nomeadamente nas orientais e nas da Grécia e Roma, a escola só era para as crianças e jovens das classes acomodadas, para nenos e não para as nenas. Dalguma maneira, a escola pública nasce na Idade Média com a aparição da burguesia. É quando nos burgos ou cidades se criam as chamadas escolas municipais, verdadeiro berço da escola pública atual. Nesta altura começa o que podemos chamar educação formal, tendo como base fundamental do currículo a leitura, a escrita e o cálculo, o que se denominava o «Trivium». O «Quatrivium» era depois para os estudos seguintes de tipo superior a partir da secundária. Seria o nosso Bacharelato de hoje.
Dentro desta educação formal foram-se introduzindo muito lentamente outros estudos e outras disciplinas. As científicas, por exemplo, com muitas reservas em alguns lugares, a partir do século XVIII, chamado do iluminismo ou das luzes. As artísticas, tão importantes para conseguir nos alunos aprendizagens apreciativas, relacionadas com a afetividade e os sentimentos e a criatividade, foram incorporadas muito mais tarde, já no século XX, e no nosso país, com o caso da música, há muito poucos anos. Com a nova lei que se está a apresentar, quase sem debate, e se vai impor, o retrocesso vai ser brutal. Porque, em vez de fazer uma profunda reforma do currículo, urgente desde há bastantes anos, se voltará a funestas etapas anteriores à democracia.
Falar nesta altura de educação informal é uma verdadeira utopia. Os poucos programas que já havia nos últimos tempos de dinamização cultural da infância, das crianças e dos jovens, estão sendo cortados drasticamente: atividades circum-escolares nos estabelecimentos de ensino, ludotecas e atividades lúdicas em tempo de lazer, teatro infantil e escolar, música e canto para crianças e jovens, desportos escolares, obradoiros artísticos, ludotecas itinerantes, escolas de mães e pais, encontros de jogos tradicionais, atividades variadas para integrar estudantes de imigrantes, etc. Compartilho plenamente o que no seu dia dizia o nosso grande pedagogo Manuel Bartolomé Cossío, que a melhor e mais importante educação que existia era a que ele denominava «difusa». Com esta sua palavra identificava a educação informal, que pôs em prática com grandes esperanças em 1931, com a entrada da República, sob a denominação de «Missões Pedagógicas». Maravilhosa forma de levar aos povos e aldeias a cultura, nomeadamente a música, o teatro, os fantoches, o canto popular, os corais, o cinema, as conferências, os jogos populares, os conta-contos, as exposições artísticas, as leituras públicas e criativas, as bibliotecas ambulantes para fomentar a leitura, a dança popular… E, o que é mais importante, com estratégias lúdicas, divertidas e nada aborrecidas, de forma que crianças, jovens e adultos aprendiam sem se darem conta, com esta linda educação «difusa», encontrando-se sempre a vontade em cada atividade em que participavam como atores e/ou espectadores, felizes como peixes na água.
Cossio demonstrou que aprendemos mais fora da escola que dentro da escola, e que estas aprendizagens são mais perenes e profundas e mais decisivas na vida das pessoas. Já muito mais perto de nós no tempo, tenho que falar da formosa alternativa educativa concebida há poucos anos pelo grande pedagogo italiano, e meu amigo, junto com os seus colaboradores, Francesco Tonucci, que denominou «Cidade Educadora ou das Crianças». São já várias as cidades europeias integradas neste lindo programa, com o qual se procura que nas cidades existam espaços e tempos educativos para as crianças e jovens: atividades artísticas e lúdicas, semanas culturais e desportivas, estabelecimentos de ensino abertos no tempo de lazer, ludotecas, obradoiros, museus com atividades motivadoras, associações infanto-juvenis, com programas adequados e que as instituições públicas e privadas apoiem as atividades e iniciativas. Outra maneira de entender nos tempos atuais a educação informal ou «difusa» que propunha Cossío.
No filme que analiso hoje aparecem os dous tipos de educação: a formal ou escolar e depois universitária, e a informal, a da vida, que no caso do filme não é precisamente exemplar. Porque na vida também se adquirem as aprendizagens negativas, e não só as positivas. Temos um exemplo nos programas funestos que rapazes e jovens veem na televisão. Há um momento no filme muito significativo, é aquele onde a protagonista lhe diz à diretora do colégio: «Esqueceu-se-lhes ensinar-nos por quê nos ensinam!»
Ficha técnica do filme:
Título original: An Education (Educação / Uma outra Educação / Ensino de vida).
Diretora: Lone Scherfig (Reino Unido, 2009, 95 min., A cores).
Roteiro: Nick Hornby, segundo o relato autobiográfico da jornalista Lynn Barber.
Música: Paul Englishby. Fotografia: John de Borman.
Atores: Carey Mulligan (Jenny Millar), Peter Sarsgaard (David Goldman), Dominic Cooper (Danny), Rosamund Pike (Helen), Emma Thompson (Miss Walters), Olivia Williams (Miss Stubbs), Alfred Molina (Jack Millar), Cara Seymour (Marjorie Millar), Sally Hawkins (Sarah Goldman), Matthew Beard (Graham) e Ellie Kendrick (Tina).
Prémios: Três nomeações ao Óscar em 2009 (melhor filme, atriz e roteiro). Melhor atriz Globo de ouro (nominada, 2009), 8 nomeações à melhor atriz no BAFTA. Prémio do público e melhor fotografia no Sundance de 2009 e prémio ao melhor filme estrangeiro nos Independent Spirit.
Argumento: Estamos no Reino Unido a princípios dos anos sessenta. Jenny é uma moça de 16 anos que vive com a família num subúrbio de Londres. Inteligente e bela, sofre com o tédio dos seus dias de adolescente e aguarda impacientemente a chegada da vida adulta. Os seus pais alimentam o sonho de que ela vai estudar na Universidade de Oxford, mas a protagonista se vê atraída por um outro tipo de vida. Quando conhece David Goldman, um homem mais maduro e cosmopolita de trinta anos, vê um mundo novo abrir-se diante de si. Ele leva-a a concertos de música clássica e jazz, a leilões de arte, e a faz descobrir o glamour da noite, deixando-a diante de um dilema entre a educação formal e o aprendizado da vida.
Os pais gostam do amante da sua filha e mesmo aceitam o seu casamento. Durante este tempo, Jenny vai descobrindo obscuras atividades do seu amante e mais tarde que é casado. Por isso decide voltar a estudar. A diretora nega-se a permitir que repita o último ano que deixara pendente na escola. Então recorre à sua mestra favorita, que a ajuda a passar com sucesso o bacharelato. Finalmente é aceite para estudar literatura inglesa em Oxford, que era o que desejava antes de conhecer David. Na cena final aparece sobre uma bicicleta pelas ruas de Oxford com outro estudante, talvez o seu namorado. De fundo ouve-se o que Jenny vai dizendo: «Polo que fui ler livros ingleses, e fiz o possível para evitar o destino que se me augurava. Provavelmente via-me tão nova, ingénua e fascinada como qualquer outro estudante… Mas não o era. Um dos rapazes com que saí, e realmente eram rapazes, convidou-me uma vez para ir com ele a Paris. Eu disse-lhe que adoraria. Morria por ver Paris. Como se nunca lá tivesse estado!».
Um filme apresenta a «escola da vida»:
Muitas vezes o valor da educação perde-se por não concretizar. Abusa-se muito do palavreado e da terminologia técnica, sem entrar no fundo dos temas e conteúdos, com excessivos subterfúgios conceituais, excesso de estatísticos e programações rígidas e nada flexíveis. Em grande parte das ocasiões, nos sistemas educativos e nas suas leis, não se muda nada, só se muda de nomes e, por exemplo, o que antes era programação educativa agora é desenho curricular. Sem entrar no fundo do que significa, ficando no aleatório e muito menos importante. Sem dar-se conta que sim é decisivo planejar ou programar, mas que uma programação didaticamente adequada tem que cumprir os princípios de que seja real e não utópica, flexível, aberta, motivadora, inovadora e, sobretudo, adaptada ao contexto e meio social e natural e aos interesses e gostos dos escolares. Por isso, no filme há uma velada crítica ao sistema educativo britânico, um dos piores que existem no mundo. Precisamente porque não cumpre quase nenhum dos princípios que venho de assinalar nos currículos escolares oficiais.
Neste filme, a diretora dinamarquesa, uma mulher de vanguarda que pertence ao movimento «Dogma 95», avalia os âmbitos pelos que uma pessoa pode adquirir conhecimentos. O primeiro, o da escola e a família, não sempre, infelizmente, convergentes. O segundo, o que se aprende na rua, com a experiência, vivendo a vida, que para isso está, e muitas das vezes de forma espontânea. Não fica claro, e isto tem que ser refletido pelo espectador, se se aprende mais dum temário obrigatório na escola ou de uma viagem a ver uma cidade ou um museu. De uma aula de solfejo, muitas vezes enormemente aborrecida, ou assistindo a um concerto de música clássica ao vivo. De uma aula de economia ou de uma experiência de fraude fiscal, e mesmo de memorizar a biografia de um literato ou de uma leitura recreativa ou representação de uma cena teatral escrita por esse mesmo dramaturgo.
A diretora conseguiu com este um filme fino e sutil, fazendo refletir também sobre o papel da mulher fora e no lar. O amante da jovem protagonista é uma espécie de «Pigmalião» que a dobra em idade, e que termina por exercer de mentor, companheiro, amante, irmão mais velho e professor da existência. Numa frase aparentemente trivial da rapaza, citada de forma suave, pode estar a resposta a tão vaporosa personagem: Não sei porquê tantos livros e canções sobre um mito que apenas dura um momento». Normalmente as explicações só se encontram na vida mesma. A jovem Jenny tenta de várias maneiras escapar da vida tediosa, sonhando com Paris e aprendendo francês, até que conhece David, um homem mais velho que lhe apresenta os encantos da vida adulta e burguesa. É como se David representasse o futuro, a modernidade que Londres viria a conhecer anos depois, a dos Beatles e Rolling Stones, por exemplo.
Temas para realizar e debater:
- De forma cooperativa, alunos e professores de um estabelecimento de ensino básico ou secundário, elaborarem para a sua escola um plano anual de atividades circum-escolares, com base no funcionamento de vários clubes: cineclube, filatélico, excursionista, de leitura, de dança, musical, jogos tradicionais, desportivo…, e obradoiros vários: teatral, plástica, fotografia, encadernação, origâmi, literário, tear, ecológico, horto escolar, jornal escolar, reciclagem… Tendo sempre em conta os gostos, interesses e preferências dos escolares participantes e a especialidade dos docentes dispostos a coordená-los.
- Debater, fazendo propostas para elaborar depois um relatório, sobre as estratégias que teríamos que pôr em prática a fim de conseguir que mães e pais, famílias e instituições públicas e privadas, se dessem conta do importante que é a educação informal na formação de crianças e jovens. Idem para que as nossas cidades se convertessem em autênticas cidades educadoras, desenhadas para a dinamização educativa e cultural das crianças. Podendo depois serem incluídas na rede europeia de cidades educadoras, dentro do formoso projeto desenhado por Francesco Tonucci e os seus colaboradores.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



