O rio descia bravo por Ponte Naveiras

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Por Adela Figueroa Panisse

[2 Novembro 2008]

O rio descia bravo por Ponte Naveiras. A pequena vila de Lameiroa, famosa pelo seu cárcere, fica perto dali, apenas uns quilómetros lá no monte ao pé do Serra.

Lourenço saía naqueles dias de permiso da prisão O director do cárcere, do seu gabinete, estava a olhar pela janela entanto ele ultrapassava o grande portão de entrada-saída. Com a sua olhada fixa nele, lembrou uma conversa anterior com a noiva do preso: Ela insitía para pedir o terceiro grau para ele; dizia que o seu Lourenço não era assim tão culpável. Que era objecto duma maquinação por parte da família da sua ex-mulher.

«O que se passa é que não querem que saia e por isso declararam em contra dele».

A moça parecia convencida do que afirmava. Confiava muito no Lourenço e tentava contagiar o Director do cárcere dessa mesma confiança. Mas, Dom Pedro era um homem experiente. Tinha anos de serviço, e já tinha visto de tudo. Por isso, ainda que escutava com atenção, mantinha a su opinião independente. Não estava muito seguro de que aquela permissão fosse uma boa ideia.

– Vamos lá ver como se comporta durante estes dias de liberdade, depois já a gente avança com isso…

Agora, da sua atalaia, viu-o sair e parar de costas ao prédio que ocupava a cadeia. Observou-o no seu conjunto e tratou de ver além da sua figura miúda, tentando decifrar a sua linguagem corporal. O Homem sacudiu o corpo, encolheu os hombros, virou-se de vagar, botou uma olhada de relance e meteu as mãos nos bolsos. Ficou assim uns momentos e logo começou a andar.

Ia apanhar o transporte. Um ónibus comunica o povo onde está a prisão com a capital, passando por Ponte Naveiras. Caminhou para a paragem olhando para um e outro lado. A pequena vila da Lameiroa estava solitária naquele dia de inverno. Alguém entrou na serralharia que estava lá perto: um homem loiro e forte com ar decidido. Lourenço fez um pequeno aceno corporal e dirigiu-se para lá trás do homem.

O homem que entrara diante dele, estava a olhar uma machada. Calibrou-a com a mão, virou-a para um e outro lado, passou-lhe o dedo pelo gume, delicadamente, e acenou encostando ligeiramente a cabeça.

– Ouve Elígio, quanto é que custa esta machada?

– Olha, deixa lá ver…, Milucho. Está bem, não é? É muto boa. Estas são feitas lá cima em Lugo, em RioTorto, são de fundição. Pode-la levar se queres e, se não gostas devolves-ma amanhã ou quando voltes baixar do Seixido. Eligio, deu-lhe um preço. Milucho papou com a língua fazendo um aceno com a boca, sacudiu a mão esquerda e pousou a machada que agarrava com a direita ciudadosamente no seu lugar.

O homem, que acabava de sair da prisão, pegou na machada que o Milucho tinha deixado. Botou as mãos aos bolsos, tirou dali un dinheiro, contou-o, pousou-o no balcão e, dirigíndo-se a Eligio, pediu-lhe também uma faca ou um canivete.

– E que faca quer? O homem virou o corpo e acenando para uma prateleira disse:

– Aquela poderia valer. Cabo preto e folha grande. Sim, pode ser bom para o que quero.

Pagou a conta, saiu da loja de ferragens e foi para a camioneta que já estava na paragem.

Sentado na beira da janelinha olhava passar a paisagem que se ia desenvolvendo nas voltas e reviravoltas da Serra. Olhava sem ver as cores do outono que se pintavam para além do vidro. Um outono espectacular cheio de cores que iam do pardo ao vermelho, matizando-se entre os verdes dos pinhais, ou dos eucaliptos que se dão naquelas montanhas. Mas, para ele, isso não tinha valor. Os seus pensamentos superavam a possível tentação que podia levar-lhe a contemplar o mundo em que agora podia mover-se com completa liberdade ( por uns dias…). Na sua cabeça ressoavam as vozes de raiva e de frustração.

-Olha lá!! A Marisa, acusando-me de maus tratos. So uma mocada, alguma vez entre as mil e uma que merecia, que culpa posso ter eu de que não guardeasse o equilibrio! Por causa dela meteram-me no cárcere. Mereceria uma boa surra (malheira) para aprender. Quem pensa ela que sou eu?! Hei-lho fazer saber. Já tu vais ver ! Hei-lhe dar uma da que se lembre para toda a vida.Que lhe tire as ganas de me voltar faltar ao respeito. Estou certo, que se lhe dou um bom susto, não o volta fazer mais. Pois é! Que me tenha medo, que aprenda.

– E então a outra: A Milagros. Muito foi falar com o Director da cadeia. Levando-lhe papeis para justificar a minha saída. A pedir que me dessem o terceiro grau. Que quererá esse frete?! Porque, certamente, que tem alguém que a console. Iso sei-o bem eu, …se não a conhecesse! Mas agora vão ver as duas.

– Para que quereria a Mila que eu pudesse sair? Seguro que me tem preparado algo. De certo, uma surpresa desagradável.

«O Dositeu, que está no cárcere da Lameiroa por ter matado a sua mulher, contou-me que, quando ele saíra em Regime especial, encontrou-a com outro. E isso que ela também estivera a procurar informes e papeis para conseguir-lhe o regime especial. O que queria era dar-lhe porta, aproveitando que ele estava fora, dando-lhe muitas explicações:

– Que se ia poder vir pola casa quando quisera…, que poderia ver os rapazes também a vontade,… sei lá eu!

O Dositeo fez o que tinha que fazer. Quem levou porta foi a sua mulher. Foi ela a que foi embora, mas para sempre!

Putas, são todas umas putas! O que querem é se zombar de um!

Seguro que a Milagros tem-ma preparada. Doutro modo, a que vem tanto falar com a Marisa.

A essa vou-lhe dar eu! E aos seus amigos, que foram declarar a contra minha. Por causa deles prenderam-me e… «ala pra Lameiroa!»

Que se lhes perdia a eles na minha vida! A que veu aquilo de declarar que eu batia à Marisa. Sabem eles porque?! Ninguém sabe o que se passa dentro dum casal. Sabem-o eles, e só eles, os que estão no alho. A gente de fora não tem nada a dizer do que se passa numa parelha. Só buscam fofoca, bisbilhotices. Que se lhes perdia a eles na minha casa! Aí, não! Vão-o pagar! Assim mesmo!. Já tu vais ver!…..

O ônibus ia aos tombos a descer da montanha, para a Ponte Naveiras. Uma curva trás de outra, e o homem e os seus pensamentos a rebulir volta trás volta como a estrada pola que ia. A cara ia-se-lhe pondo mais vermelha. A boca ia-se-lhe contraindo e todo o seu corpo ia-se tensando. Um corpo miúdo metido numa roupa que lhe ficava algo grande. As mangas do suéter sobravam-lhe caindo-lhe por cima das mãos e este cobria-lhe as pernas até quase os joelhos. As calças ficavan-lhe mais que compridas ocultando os sapatos. Estes, de atacadores, semelhavam dum número maior do dele. Davam um aspecto de “lorchos” bailando nos pés.

Mas ele não via nada disso. Só pensava e pensava.. Em como ia fazer o seu «cometido». Planificou:

Primeiro iria ter com a Marisa e ia-lhe dizer o que pensava. Pegou na sacola em que guardava a machada, segurando-a bem. Comprovou a faca para saber onde é que estava.

Sentiu-se mais firme , sacudiu o corpo e encostou-o no assento do carro. Respirou fundo e olhou para frente.

A camionete estava a entrar na vila e começava a ralentisar a velocidade. Deu mais uma volta e, finalmente, parou.

O Lourenço desceu. Segurando bem a saca em que levava a machada e mais a faca dirigiu-se, directamente, à casa da Marisa. Ao chegar lá, premeu no timbre da porta e ficou à espera de alguma resposta. Nada, ninguém atendia. Achegou-se ao portão e empurrou-o entrando no quintal. Subiu polas escadas até à porta da casa, no primeiro andar. Bateu con força e gritou:

Marisa!, vem cá !, sou eu , quero falar contigo!

Nada, nem um ruído. Desesperado começou a bater na porta, primeiro com o punho e depois tirou a machada da saca e deu na porta, descarregando nela a sua raiva e a sua frustação. A sua fúria ia em aumento. Nao conseguira descarregar a força em ninguém. Não conseguira falar e insultar livrando todo o que levava dentro. Por isso, quando desceu as escadas da casa e cruzou o portão, ia cheio de furia. Neste estado, encaminhou-se para a casa da Milagros. Quando lá chegou, bateu na porta a chamar por ela.

Ela abriu logo, pois a mulher estava à sua espera. Deu-lhe as bem-vindas, separou-se da porta facilitando-lhe a entrada e tentou achegar-se a ele para lhe dar um beijo. A mulher estava totalmente confiada, não estava em guarda para o que se lhe veio acima.

Lourenço entrou pola casa adentro e, ao ver o gesto manso da mulher, sentiu que a sua raiva acendia-se mais do que estava. Um pensamento, como um raio veio-lhe à cabeça:

«Como dissimula, esta puta. Faz-me boas caras agora que estou diante. Con quem teria estado enquanto eu estava lá, presso». Olhou para ela , afastando-a um pouco. Pousou a saca no chão. Calmamente tirou dela a machada e, dando um grito que parecia o dum animal, golpeou-a na testa . O sangue começou a brotar da ferida enquanto Milagros caía ao chão. A cara dela mostrava uma surpresa infinita que ficou fossilizada no rosto em que a boca torceu e os olhos abriram-se dum jeito macabro. Parecia que emitia radiação. Por enquanto, o sangue continuava a sair do meio da fronte. Lourenço pegou agora na faca e com um movimento rápido e forte fincou-lha no meio do peito, donde saiu um jacto de sangue, com tal força que chegou até o tecto. O sangue salpicou Lourenço na cara e nas mãos. Quis limpar-se e, ainda , rebuçou-se mais.

Neste estado de semi-inconsciência não percebia bem a realidade que o envolvia, e passava as mãos ensanguentadas uma e outra vez pola cara e polo corpo, até que um cheiro, mistura de azedo e doce, enjoativo, atingiu-lhe os sentidos e deu por si no meio da sala da casa da Milagros.

Horrorizado, olhou à sua volta e agora viu todo o seu crime na terrível realidade. A cena era macabra: A Milagros a deitar fora todo o sangue que tinha no corpo, que ia formando uma pequena poça no chão. Ele rebuçado do sangue da Milagros, e todo o ambiente cheio daquele cheiro que se colava à roupa e a pele.

Ó meu Deus! Que foi o que eu fiz!!

Se aqueles maus amigos não me tivessem metido no cárcere eu não teria chegado a isto.

Se a Marisa não me tivesse acusado dos maus tratos eu teria ficado livre. Eles são quem têm a culpa. É por causa deles que eu fiz isto todo. Vou-nos procurar, têm que pagar o mal que me fizeram……

Com estes pensamentos a atormentarem a sua cabeça virou várias vezes sobre de sim, atrapalhado, batendo com os pés no chão até bater com a porta de entrada que abriu. 

O Lourenço saiu da casa da Milagros e dirigiu-se pola rua fora com passo decidido e aspecto feroz.

Não andou muito. Foi apanhado pola polícia. Ainda pus ressistência e conseguiu ferir um guarda na luita que com ele manteve.

Agora a Milagros está morta, Marisa salvou por pouco e o Lourenço está presso. Pendente de juízo.

Lourenço bem se podia ter chamado Maximino ou outro nome qualquer. Esta história bem pôde acontecer em Ponte Naveiras ou noutra vila qualquer. A moça podia ser Milagros, Rosário, Hermínia ou, …. sei lá!

O casso é que histórias destas repetem-se demasiadas veces na nossa volta.

Com gente a quem conhecemos ou também de quem nada sabemos, mas, por enquanto:

Ficamos a saber… que estes feitos existem e que não atingem, apenas, gente alheia. Qualquer um ou uma poderiam estar implicados num acontecimento tal. É a sociedade, no seu conjunto, que está em causa.