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O representante da Escola Progressiva no filme-documentário “John Dewey”

José Paz Rodrigues (*) – Seguindo com a série dedicada aos grandes educadores que houve no mundo, hoje toca falar de John Dewey (1859-1952), sem dúvida, o mais importante pedagogo norte-americano da história, que teve uma grande influência no pensamento educativo mundial e foi o máximo representante americano do movimento pedagógico da Escola Nova. Até o meu admirado Tagore, que leu as mais importantes obras educativas de Dewey, recebeu dele não poucas influências.

Também influiu muito nos educadores da escola nova brasileira, nomeadamente em Anísio Teixeira, que traduziu para a nossa língua três importantes obras pedagógicas de Dewey: Interesse e Esforço escrita em 1913, A Criança e o Programa Escolar publicada nos EUA em 1902 e Experiência e Educação, escrita em 1938. Os três livros foram publicados no Brasil, os dous primeiros em 1980 e o terceiro em 1971. Por outros foram traduzidas as obras de Dewey: Meu Credo Pedagógico (EUA: 1897, Brasil: 1980); Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o processo educativo. Uma reexposição (EUA: 1910, Brasil: 1959); Democracia e Educação (1916, 2007); Reconstrução em Filosofia (1919, 1959); A Natureza Humana e a Conduta (Introdução à Psicologia Social) (Brasil:1956); Experiência e Natureza (1925, 1980); A Arte como Experiência (1934, 1980); Lógica, a Teoria da Investigação (1938, 1980); Liberdade e Cultura (1939, 1953); O Pensamento vivo de Jefferson (1940, 1954); e Teoria da Vida Moral (1960, 1980).

John Dewey nasceu em 1859 em Burlington, uma pequena cidade agrícola do estado norte-americano de Vermont. Na escola, teve uma educação desinteressante e desestimulante, que foi compensada pela formação que recebeu em casa. Ainda criança, via sua mãe confiar aos filhos pequenas tarefas para despertar o sentido de responsabilidade. Foi professor secundário por três anos antes de estudar na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. Estudou artes e filosofia e tornou-se professor da Universidade de Minnesota. Escreveu sobre filosofia e educação, além de arte, religião, moral, teoria do conhecimento, psicologia e política. O seu interesse pela pedagogia nasceu da observação de que a escola do seu tempo continuava, em grande parte, orientada por valores tradicionais, e não tinha incorporado as descobertas da psicologia, nem acompanhara os avanços políticos e sociais. Fiel à causa democrática, ele participou de vários movimentos sociais. Criou uma universidade-exílio para acolher estudantes perseguidos em países de regime totalitário.

Faleceu em 1952, aos 93 anos. Dewey tornou-se muito célebre pela corrente filosófica conhecida como pragmatismo, embora ele preferisse o nome de instrumentalismo, uma vez que, para essa escola de pensamento, as ideias só têm importância desde que sirvam de instrumento para a resolução de problemas reais. No campo específico da pedagogia, a teoria de Dewey inscreve-se na chamada educação progressiva. Um dos seus principais objetivos é educar a criança como um todo. O que importa é o crescimento, tanto físico como emocional e intelectual. O princípio é que os alunos aprendem melhor realizando tarefas associadas aos conteúdos ensinados. Atividades manuais e criativas ganharam destaque no currículo e as crianças passaram a ser estimuladas a experimentar e pensar por si mesmas. Nesse contexto, a democracia ganha peso, por ser a ordem política que permite o maior desenvolvimento dos indivíduos, no papel de decidir em conjunto o destino do grupo a que pertencem. Dewey defendia a democracia não só no campo institucional mas também no interior das escolas. E também a democracia e a liberdade de pensamento como instrumentos para a manutenção emocional e intelectual das crianças. Interessava-lhe muito o estímulo à cooperação, pelo que, influenciado pelo empirismo, fundou na Universidade de Chicago a sua famosa Escola-Laboratório.

As suas ideias educativas básicas estão muito bem refletidas nas suas seguintes palavras: “O professor que desperta entusiasmo em seus alunos conseguiu algo que nenhuma soma de métodos sistematizados, por mais corretos que sejam, pode obter”. “A meta da vida não é a perfeição, mas o eterno processo de aperfeiçoamento, amadurecimento e refinamento”. “Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo”. “A educação é uma constante reconstrução da experiência, de forma a dar-lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a responder aos desafios da sociedade”. Educar para Dewey, portanto, é mais do que reproduzir conhecimentos. É incentivar o desejo de desenvolvimento contínuo, preparar pessoas para transformar algo.

 

Ficha técnica do filme-documentário:

Título original: John Dewey.

Produtora: Atta Mídia e Educação (Brasil, 2006, 40 min., a cores e branco e preto, documentário).

Editora: Paulus Editora. Coleção: Grandes Educadores.

Roteiro e Apresentação: Marcus Vinícius da Cunha (Docente e pesquisador da USP Ribeirão Preto, desenvolve estudos sobre Análise Retórica, John Dewey e Escola Nova. Psicólogo pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP, Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP, Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da USP e Livre Docente pela UNESP/Faculdade de Ciências e Letras. Professor, na FCLRP/ARARAQUARA, junto ao Programa de Pós- Graduação em Educação Escolar e professor, na FFCLRP- USP, junto ao Departamento de Psicologia e Educação, desde 2002. Autor de diversos livros nas áreas de educação e psicologia, entre eles, John Dewey: uma filosofia para educadores em sala de aula e John Dewey: a utopia democrática).

Argumento: John Dewey foi um dos mais notáveis filósofos americanos da educação. A defesa de uma escola democrática e a valorização da experiência bem como do pensamento reflexivo foram suas marcas mais profundas. John Dewey foi uma dos expoentes do Pragmatismo. Para essa filosofia o pensamento e a ação formam um todo indivisível e toda formulação teórica é uma hipótese ativa a ser demonstrada em situação prática de vida. Para ele, devemos recusar verdades incontestáveis, dogmatismos e formulações inquestionáveis, e enfatizar a descoberta, o diálogo e a busca do consenso.

Conteúdos do Documentário: Biografia de Dewey. Filosofia tradicional. Negação da dualidade platônica. Pragmatismo. Pensamento reflexivo. Professor reflexivo. Educação proposta por Dewey. Educação democrática. O papel da escola. Liberdade e disciplina. A Educação e a ciência. Visão política.

 

 

O modelo educativo-didático da Escola Progressiva:

Em 1919 fundou-se em Washington a “Associação da Educação Progressiva”, termo equivalente ao europeu de Escola Nova ou educação nova. Era esta a primeira vez que se usava tal expressão para qualificar ao mais direto resultado da influência do pragmatismo na educação americana. O que ia ser um dos movimentos educativos americanos mais importantes, de grande influência internacional, baseou-se nos seguintes princípios educativos:

– Liberdade para o desenvolvimento natural.

– O interesse, motivo de todo o trabalho.

– O mestre é um guia, não um marcador de tarefas.

– Estudo científico do desenvolvimento dos alunos.

– Maior atenção a tudo o que afeta o desenvolvimento físico da criança.

– Cooperação entre a escola e o lar para satisfazer as necessidades da criança.

– A Escola Progressiva é prioritária nos movimentos escolares.

Estes princípios protestavam abertamente contra o espírito da educação americana do momento, caraterizada pelo “determinismo e o mecanicismo da pedagogia tradicional”, na qual o formalismo, a regulamentação das mentes e os métodos massivos de instrução eram o usual.

Dewey ao criar com o nome de Escola-Laboratório (Laboratory School), uma escola de práticas educativas na Universidade de Chicago, sentou as bases do movimento da Escola Progressiva, continuada depois pelo labor pedagógico de outros educadores americanos, como William Kilpatrick, docente no Teachers College da Universidade da Columbia, e de Ellwood Cubberly na de Stanford. Kilpatrick, que chegou a ter correspondência epistolar com Tagore, interessado pela escola de Santiniketon, é famoso por ser o criador do inovador Método de Projetos, com grande repercussão no movimento mundial da Escola Nova. Que em América adotou o nome de escola progressiva e que, como todos os especialistas sabemos, tanta influência teve, para elaborar a sua teoria e os seus princípios educativos, das ideias de Rousseau, Froebel e Pestalozzi.

Os princípios da Escola Progressiva, antes expostos, deram lugar a uma teoria educativa em que a criança era um organismo vivo, completo e dinâmico, dentro de uma escola que devia ser também uma sociedade viva. Por isto, deram suma importância às implicações sociais da educação, ao desenvolvimento da cooperação, à educação das emoções e sentimentos, não diferente da educação física ou intelectual, senão interdependente, e à atividade funcional sobre a passiva recetividade. Os conteúdos desta educação consistiam principalmente em experiências vitais de acordo com a máxima de que “aprendemos o que vivemos e no grau em que vivemos”. O ensino livresco clássico, ao redor de disciplinas ou compartimentos-estanque, ficava assim proscrito e substituído por um currículo que cobria todas as experiências da vida diária da criança, tanto sociais, como morais, racionais, estéticas e intelectuais. A criança, de acordo aos seus interesses individuais, escolheria e integraria essas experiências nuns modos de conduta que deviam ser individualmente satisfatórios e socialmente desejáveis. Para conseguir tudo isto, a escola não devia ser organizada em classes ou níveis separados; pelo contrário, para o desenvolvimento contínuo do aluno, o ideal devia estar na organização de uma educação não dividida em pré-escolar, primária e secundária inferior e superior, e ensino superior do primeiro nível, mas num ensino de níveis integrados. Embora, ao não poder concretizar esse ideal, tolerassem unicamente a divisão entre educação elementar, secundária e superior.

Este ensino integrado basearia nos seus métodos as atividades de grupo, em que a turma ficava socializada, ao participar cada estudante em tarefas coletivas que fomentassem a sua ativa participação, e com isto o desenvolvimento de uma personalidade também integrada. Desta maneira, a aprendizagem era entendida como uma experiência integral. Com esta metodologia social e experiencial, o mestre, entendido como vínculo entre a educação e a ordem social existente, tinha que receber uma formação mais adequada e atualizada que a que naqueles tempos se dava usualmente nas escolas normais americanas. O mestre, formado nas práticas democráticas, devia estar em contacto direto com a criança para conhecê-la melhor e poder orientá-la nos autodirigidos processos da aprendizagem. Também, o mestre não seria mais um rigoroso administrador de rígidas medidas disciplinares, dado que na educação progressiva esta era entendida positivamente, ao ter que estar baseada na liberdade através do fomento dos interesses e propósitos positivos do aluno, no lugar da permissividade dos seus caprichos. Convém assinalar que este interessante movimento pedagógico da escola progressiva iniciado por Dewey, e levado à prática por ele mesmo e por Kilpatrick, entrou em crise a finais dos anos quarenta, com as mudanças socioeconómicas operadas nos EUA, voltando a reaparecer nos anos setenta, embora com menos força, graças especialmente a Charles Silberman com o seu “Movimento da Escola Livre” (“Free School Movement”). No entanto, não existe a menor dúvida sobre a grande influência que a obra pedagógica teórica e prática de Dewey teve no sistema educativo do seu país ao longo dos anos, e noutros muitos outros países do mundo, e em numerosos educadores de todo o planeta.

 

 

A Escola-Laboratório de Chicago:

Dewey, na sua Escola-Laboratório de práticas educativas, desenvolveu e experimentou as novas noções derivadas da psicologia experimental, da teoria da aprendizagem e das ciências sociais, sentando as bases da educação progressiva. As suas ideias sobre educação de tanta importância e influência no pensamento educativo mundial, encontram-se expressadas nas suas obras: Meu credo pedagógico (1897), A escola e a sociedade (1899), A criança e o programa escolar (1902), Democracia e educação (1916) e Experiência e educação (1938).

Na sua famosa obra Democracia e educação, Dewey escreve: “A criança de três anos que descobre o que se pode fazer com blocos, ou a de seis anos que percebe o que acontece quando põe cinco cêntimos e mais cinco cêntimos juntos, é verdadeiramente um descobridor, mesmo que toda a gente no mundo já o saiba. Ocorre um genuíno incremento da experiência; não é apenas mais um item mecanicamente acrescentado, mas um enriquecimento com uma nova qualidade. O charme que a espontaneidade de crianças jovens nutrem por observadores simpáticos é devido à compreensão desta originalidade intelectual. A alegria que as próprias crianças sentem com as suas próprias experiências é a alegria da construção intelectual da criatividade, se me é permitido usar esta palavra, sem ser mal entendido”.

Na mesma obra diz algo muito interessante: “Em escolas equipadas com laboratórios, lojas e jardins, que livremente introduzem dramatizações, jogos e desporto, existem oportunidades para reproduzir situações da vida, e para adquirir e aplicar informação e ideias num progressivo impulso de experiências continuadas. As ideias não são segregadas, não formam ilhas isoladas. Animam e enriquecem o decurso normal da vida. Informação é vitalizada pela sua função; pelo lugar que ocupa na linha de ação”.

Dewey criticou duramente o dualismo, o formalismo, a abstração e a alienação da escola separada de uma sociedade submetida a mudanças sem precedentes. Tal como ele a olhou, a educação devia ser concebida como o principal meio de reforma social, como o principal agente para dar à luz uma “sociedade do saber” (“learning society”), uma comunidade moral, uma forma de vida em que as ciências e as artes estariam enlaçadas e integradas harmonicamente. Segundo ele, as culturas mantêm-se vivas através da educação. Preocupou-se muito dos aspetos individuais e sociais da educação, da importância do currículo, dos métodos de ensino, da disciplina escolar bem entendida e, especialmente, sobre o relacionamento entre uma educação libertadora e a consecução da democracia. Entre os seus conceitos destacam-se ideias como a defesa da escola pública, a legitimidade do poder político e a necessidade de autogoverno dos estudantes. Dewey foi um filósofo do social, do moral, do educativo, da ciência, da língua e das artes, e ainda há outros campos da sua obra por descobrir, explorar e elaborar.

 

 

Temas para refletir e realizar:

Depois de ver o documentário, organizar um debate-papo ou tertúlia, sobre os diferentes aspetos que sobre a figura de John Dewey aparecem no mesmo. Refletir sobre o seu pensamento educativo e comentar, dando alternativas concretas, sobre como se poderia pôr em prática hoje nas nossas escolas a didática prática e a pedagogia da Escola Progressiva. Poderia pesquisar-se também na Internet sobre as experiências realizadas na Escola-Laboratório de Chicago, e sobre o Método de Projetos de Kilpatrick.

Elaborar uma monografia, procurando informações em livros e na Internet, sobre a Educação Progressiva, incluindo na mesma as experiências práticas de escolas que funcionaram nos EUA, e noutros lugares, seguindo o modelo da escola progressiva de Dewey. Com fotos, textos, cartazes, retalhos de imprensa e materiais elaborados, poderia organizar-se nas escolas uma magna exposição sobre este modelo pedagógico, que tanta influência teve na América e noutros lugares do planeta Terra. E em muitos educadores.

Escolher, dentre as cinco obras pedagógicas básicas escritas por Dewey, e citadas pouco antes, uma, para lê-la entre todos, e depois de lida, organizar um “Livro-fórum” para comentá-la e debater sobre as palavras, ideias educativas e propostas práticas que o pedagogo americano faz na mesma.

 

 

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

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